Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Musical embaralha as canções do velho Chico no jogo cênico da memória

Resenha de musical
Título: Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos
Direção: Charles Möeller
Direção musical e roteiro: Claudio Botelho
Elenco: Claudio Botelho, Soraya Ravenle, Malu Rodrigues, Davi Guilhermme, Estrela
           Blanco,
Felipe Tavolaro, Lilian Valeska e Renata Celidônio

Foto: Leonardo Aversa
Cotação: * * * *
Em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro (RJ), de quinta-feira a domingo

As memórias inexatas de Carlos (Claudio Botelho), dono de companhia de teatro mambembe, costuram o enredo de Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos, espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho recém-estreado no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro (RJ). É um jorro desalinhado que alude às confusões mentais d’O velho Francisco (1987) criado pela imaginação de Chico Buarque, compositor carioca que tem seus 70 anos de vida e 50 de música celebrados com o musical. Mas O velho Francisco inexiste na cena povoada por outras personagens saídas da obra do mais teatral dos grandes compositores da MPB nascida na era dos festivais dos anos 1960. Com diálogos pontuais, a cena é narrada e preenchida pelos versos das 47 músicas selecionadas para o roteiro aditivado também com breves lembranças de temas como o bolero Anos dourados (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1986), citado na introdução de Sem fantasia (Chico Buarque, 1967). É das canções compostas por Buarque para teatro, cinema e TV - em período que vai de 1965 a 1989 - que se nutre o espetáculo, dando sentido conceitual à costura das lembranças hesitantes narradas em off pelo protagonista, pois o musical embaralha as 47 canções do velho Chico no jogo cênico da reconstrução da memória.

Os 90 minutos do título são, a rigor, cerca de 120, mas o tempo flui fácil no desenrolar do enredo – e o aparte jocoso de Carlos com a plateia por conta da duração do musical é o único momento dispensável deste espetáculo por quebrar o clima e a magia do teatro. O espetáculo reitera o apuro da dupla Möeller & Botelho na criação de musicais que recusam fórmulas. Mesmo que a receita de Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos contenha ingredientes de Beatles num céu de diamantes (2008) e Milton Nascimento – Nada será como antes (2012), espetáculos calcados nos textos das canções, o tempero e o sabor são outros. A contratação de Margarida (Malu Rodrigues) pela trupe - contra a vontade da voluptosa Dora (Soraya Ravenle), a Primeira Dama da companhia – dá a partida no fio de enredo desenvolvido através das letras das canções de Chico. E o resultado é um espetáculo belo, harmonioso e – em alguns momentos – arrebatador. A alta qualidade das músicas já garante por si só a coesão do roteiro musical. Afinal, trata-se do melhor da obra do compositor brasileiro que mais inspiração mostrou ao compor para a cena – às vezes, com o auxílio luxuoso de outro gênio da MPB, o parceiro Edu Lobo, criador de melodias sublimes como a de O circo místico (1983 – tema-título do musical O grande circo místico), música que abre o espetáculo na voz límpida de Malu Rodrigues. Não é fácil cantar Chico pela teatralidade entranhada em suas músicas. Contudo, o afinado elenco quase sempre se encarrega com brilhantismo do ofício de dar voz a essas grandes músicas já eternizadas em registros antológicos. Atriz e cantora aplaudida com entusiasmo pelos espectadores de musicais cariocas, Soraya Ravenle impacta ao solar Não sonho mais (1979 – do filme República dos assassinos), Gota d’água (1975) – com uma batucada de samba ao fundo – e Vida (1980 – da peça Geni), músicas já definitivamente associadas às vozes de Elba Ramalho, Bibi Ferreira e Maria Bethânia. Grande cantora ainda restrita ao universo dos musicais, Lilian Valeska ombreia com a primeira dama Soraya quando dá sua voz encharcada de alma e soul a um arrepiante Funeral de um lavrador (Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto, 1965 – tema da peça Morte e vida Severina) e, mais tarde, à Palavra de mulher (1985 – do filme A ópera do malandro), mas rende menos no dueto lésbico feito com Renata Celidônio em Mar e lua (1980 - da peça Geni). Em contrapartida, Estrela Blanco – intérprete da mocinha Rita – se revela incapaz de expor toda a dimensão sensual e dramática de Teresinha (1977 – tema da peça Ópera do malandro) sem comprometer a cena que revela um ator/cantor promissor, Davi Guilhermme (Juca), absolutamente sedutor na abordagem histriônica do Tango do covil (1978 – outro tema da Ópera do Malandro). Estrela alcança seu melhor momento no terceiro quadro, quando encarna a nordestina estilizada de A violeira (Tom Jobim e Chico Buarque, 1983, do filme Para viver um grande amor). É quando o público faz papel de plateia da trupe.

Tiradas de seu contexto cênico original, as 47 músicas permanecem inteiras, quase sempre encadeadas de forma natural no enredo que acompanha o percurso mambembe da trupe de artistas. Ideal para caracterizar esse universo, Show bizz (Edu Lobo e Chico Buarque, 1985 – do musical O corsário do rei) imprime tom burlesco no primeiro dos seis quadros - ou oito, se contabilizados a abertura e o final inusitado com Flor da idade (1975 – da peça Gota d’água) nas vozes de todo o elenco. Mas o tom lúdico – reiterado no fraseado infantil da interpretação coletiva da Ciranda da bailarina (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983 – d’O grande circo místico) – se harmoniza em cena com as cotidianas dores de amores que nunca saem no jornal. É nesse contexto amoroso, pautado por (des)encontros afetivos, que Bom conselho (1972 – do filme Quando o Carnaval chegar) serve de veículo na voz de Soraya Ravenle para a exposição da raiva dirigida pela Primeira Dama Dora à intrusa Margarida. Já O meu amor (Chico Buarque, 1978 – da Ópera do malandro) ganha clima de tango e tom gay no dueto entre Davi Guilhermme e Felipe Tavolaro. Davi bisa a luminosidade de sua atuação no musical quando cai no Samba do grande amor (1983 – do filme Para viver um grande amor) em número dirigido à personagem de Renata Celidonio, que interpretara o bolero Sob medida (1979 – do filme República dos assassinos) minutos antes. Nessa quadrilha em que todos são tirados para cantar, o casal protagonista Carlos e Dora se desenlaça ao som do medley que une Invicta (1989 – da peça Suburbano coração) – a música (solada por Soraya) mais desconhecida do roteiro – e Suburbano coração (tema-título da peça de 1989) para no fim acertar as contas.

Enredos à parte, o espetáculo prima pelo requinte de luz (de Paulo César Medeiros), cenário (de Rogério Falcão) e figurinos (de Marcelo Pies), apresentando criativas soluções cênicas. O número em que o elenco se ilumina com lanternas no palco às escuras, enquanto canta Pedaço de mim (1978 – da Ópera do malandro) é especialmente memorável. Feitas sob a direção musical de Claudio Botelho, as orquestrações e arranjos do guitarrista e violonista Thiago Trajano se harmonizam com os arranjos vocais de Jules Vandystadt – estes especialmente inventivos em Roda viva  (tema-título da peça de 1967) porque se distanciam dos vocais da gravação emblemática feita por Chico com o grupo MPB-4 – sem macular a arquitetura melódica das canções. No máximo, uma ou outra música é apresentada com divisão mais inusitada, caso em especial de Mambembe (1972 – do filme Quando o Carnaval chegar). Enfim, Möeller & Botelho se apropriam da obra do velho Francisco Buarque de Hollanda com a devida reverência ao gênio. No jogo cênico da memória, todos os musicais de Chico Buarque dão origem a um outro musical de 120 minutos que vão ficar na lembrança do velho Francisco.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

As memórias inexatas de Carlos (Claudio Botelho), dono de companhia de teatro mambembe, costuram o enredo de Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos, espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho recém-estreado no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro (RJ). É um jorro desalinhado que alude às confusões mentais d’O velho Francisco (1987) criado pela imaginação de Chico Buarque, compositor carioca que tem seus 70 anos de vida e 50 de música celebrados com o musical. Mas O velho Francisco inexiste na cena povoada por outras personagens saídas da obra do mais teatral dos grandes compositores da MPB nascida na era dos festivais dos anos 1960. Com diálogos pontuais, a cena é narrada e preenchida pelos versos das 47 músicas selecionadas para o roteiro aditivado também com breves lembranças de temas como o bolero Anos dourados (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1986), citado na introdução de Sem fantasia (Chico Buarque, 1967). É das canções compostas por Buarque para teatro, cinema e TV - em período que vai de 1965 a 1989 - que se nutre o espetáculo, dando sentido conceitual à costura das lembranças hesitantes narradas em off pelo protagonista, pois o musical embaralha as 47 canções do velho Chico no jogo cênico da reconstrução da memória.

Os 90 minutos do título são, a rigor, cerca de 120, mas o tempo flui fácil no desenrolar do enredo – e o aparte jocoso de Carlos com a plateia por conta da duração do musical é o único momento dispensável deste espetáculo por quebrar o clima e a magia do teatro. O espetáculo reitera o apuro da dupla Möeller & Botelho na criação de musicais que recusam fórmulas. Mesmo que a receita de Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos contenha ingredientes de Beatles num céu de diamantes (2008) e Milton Nascimento – Nada será como antes (2012), espetáculos calcados nos textos das canções, o tempero e o sabor são outros. A contratação de Margarida (Malu Rodrigues) pela trupe - contra a vontade da voluptosa Dora (Soraya Ravenle), a Primeira Dama da companhia – dá a partida no fio de enredo desenvolvido através das letras das canções de Chico. E o resultado é um espetáculo belo, harmonioso e – em alguns momentos – arrebatador. A alta qualidade das músicas já garante por si só a coesão do roteiro musical. Afinal, trata-se do melhor da obra do compositor brasileiro que mais inspiração mostrou ao compor para a cena – às vezes, com o auxílio luxuoso de outro gênio da MPB, o parceiro Edu Lobo, criador de melodias sublimes como a de O circo místico (1983 – tema-título do musical O grande circo místico), música que abre o espetáculo na voz límpida de Malu Rodrigues. Não é fácil cantar Chico pela teatralidade entranhada em suas músicas. Contudo, o afinado elenco quase sempre se encarrega com brilhantismo do ofício de dar voz a essas grandes músicas já eternizadas em registros antológicos. Atriz e cantora aplaudida com entusiasmo pelos espectadores de musicais cariocas, Soraya Ravenle impacta ao solar Não sonho mais (1979 – do filme República dos assassinos), Gota d’água (1975) – com uma batucada de samba ao fundo – e Vida (1980 – da peça Geni), músicas já definitivamente associadas às vozes de Elba Ramalho, Bibi Ferreira e Maria Bethânia. Grande cantora ainda restrita ao universo dos musicais, Lilian Valeska ombreia com a primeira dama Soraya quando dá sua voz encharcada de alma e soul a um arrepiante Funeral de um lavrador (Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto, 1965 – tema da peça Morte e vida Severina) e, mais tarde, à Palavra de mulher (1985 – do filme A ópera do malandro), mas rende menos no dueto lésbico feito com Renata Celidônio em Mar e lua (1980 - da peça Geni).

Mauro Ferreira disse...

Em contrapartida, Estrela Blanco – intérprete da mocinha Rita – se revela incapaz de expor toda a dimensão sensual e dramática de Teresinha (1977 – tema da peça Ópera do malandro) sem comprometer a cena que revela um ator/cantor promissor, Davi Guilhermme (Juca), absolutamente sedutor na abordagem histriônica do Tango do covil (1978 – outro tema da Ópera do Malandro). Estrela alcança seu melhor momento no terceiro quadro, quando encarna a nordestina estilizada de A violeira (Tom Jobim e Chico Buarque, 1983, do filme Para viver um grande amor). É quando o público faz papel de plateia da trupe.

Tiradas de seu contexto cênico original, as 47 músicas permanecem inteiras, quase sempre encadeadas de forma natural no enredo que acompanha o percurso mambembe da trupe de artistas. Ideal para caracterizar esse universo, Show bizz (Edu Lobo e Chico Buarque, 1985 – do musical O corsário do rei) imprime tom burlesco no primeiro dos seis quadros - ou oito, se contabilizados a abertura e o final inusitado com Flor da idade (1975 – da peça Gota d’água) nas vozes de todo o elenco. Mas o tom lúdico – reiterado no fraseado infantil da interpretação coletiva da Ciranda da bailarina (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983 – d’O grande circo místico) – se harmoniza em cena com as cotidianas dores de amores que nunca saem no jornal. É nesse contexto amoroso, pautado por (des)encontros afetivos, que Bom conselho (1972 – do filme Quando o Carnaval chegar) serve de veículo na voz de Soraya Ravenle para a exposição da raiva dirigida pela Primeira Dama Dora à intrusa Margarida. Já O meu amor (Chico Buarque, 1978 – da Ópera do malandro) ganha clima de tango e tom gay no dueto entre Davi Guilhermme e Felipe Tavolaro. Davi bisa a luminosidade de sua atuação no musical quando cai no Samba do grande amor (1983 – do filme Para viver um grande amor) em número dirigido à personagem de Renata Celidonio, que interpretara o bolero Sob medida (1979 – do filme República dos assassinos) minutos antes. Nessa quadrilha em que todos são tirados para cantar, o casal protagonista Carlos e Dora se desenlaça ao som do medley que une Invicta (1989 – da peça Suburbano coração) – a música (solada por Soraya) mais desconhecida do roteiro – e Suburbano coração (tema-título da peça de 1989) para no fim acertar as contas.

Enredos à parte, o espetáculo prima pelo requinte de luz (de Paulo César Medeiros), cenário (de Rogério Falcão) e figurinos (de Marcelo Pies), apresentando criativas soluções cênicas. O número em que o elenco se ilumina com lanternas no palco às escuras, enquanto canta Pedaço de mim (1978 – da Ópera do malandro) é especialmente memorável. Feitas sob a direção musical de Claudio Botelho, as orquestrações e arranjos do guitarrista e violonista Thiago Trajano se harmonizam com os arranjos vocais de Jules Vandystadt – estes especialmente inventivos em Roda viva (tema-título da peça de 1967) porque se distanciam dos vocais da gravação emblemática feita por Chico com o grupo MPB-4 – sem macular a arquitetura melódica das canções. No máximo, uma ou outra música é apresentada com divisão mais inusitada, caso em especial de Mambembe (1972 – do filme Quando o Carnaval chegar). Enfim, Möeller & Botelho se apropriam da obra do velho Francisco Buarque de Hollanda com a devida reverência ao gênio. No jogo cênico da memória, todos os musicais de Chico Buarque dão origem a um outro musical de 120 minutos que vão ficar na lembrança do velho Francisco.

luis claudio de oliveira disse...

Beatles num céu de diamantes e Milton- Nada será como antes,foram dois dos melhores musicais que vi. Milton,vi várias vezes. Vou ver esse na próxima semana e,pela sempre qualidade dos espetáculos do Claudio e a crítica do Mauro, já sei que verei algo inesquecível. Chico merece.

Rhenan Rodrigo disse...

Quero muito assistir! Espero que ainda esteja em cartaz em fevereiro.

lurian disse...

Mauro você vai comentar a proibição à peça feita por Chico Buarque depois de toda a confusão criada por Claudio Botelho? Rolou clima pesado dele até com a Soraya Ravenle.

http://www.miguelarcanjoprado.com/2016/03/20/um-ator-nao-pode-ser-peitado-por-um-negro-diz-claudio-botelho-apos-discutir-com-publico-em-bh/