Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Chico César grava DVD em SP com Dani e o repertório do CD 'Aos Vivos'

Chico César grava seu segundo DVD, Aos Vivos, em show no Teatro Fecap, em São Paulo (SP). Com participação de Dani Black no violão, na guitarra e nos vocais, a gravação ao vivo vai ser feita na minitemporada que acontece entre 2 e 4 de setembro de 2011. O título do DVD é o mesmo do primeiro CD do artista, Aos Vivos (Velas, 1995), porque a ideia do cantor - em foto de Washington Possato - é revisitar o formato nu e cru do álbum ao vivo gravado em 1994 na mesma São Paulo onde o paraibano se radicou em 1985. Eis o texto escrito por Chico César sobre a feitura do DVD Aos Vivos, cujas imagens vão ser captadas e exibidas pelo Canal Brasil: 

Aos Vivos é meu primeiro CD, gravado ao vivo com voz e violão, lançado 16 anos atrás pela gravadora Velas (de Ivan Lins e Vitor Martins). Agora faço o DVD desse álbum que me mostrou primeiro à cena alternativa de São Paulo e, alado, voou Brasil adentro e mundo afora. O disco foi gravado em três noites do outono de 1994 na Funarte da Alameda Nothmann, em Sampa, onde já vivia há nove anos. O lançamento foi só no ano seguinte, 1995. Para o DVD, de novo o centro de Sampa: o Teatro FECAP, na Liberdade, nos dias 2, 3 e 4 de setembro.

Dani Black é meu convidado no DVD. Ele vai participar de algumas músicas tocando violão, guitarra e fazendo vocais. Mais ou menos a mesma coisa que no disco fizeram Lenine e Lanny Gordin. Dani cresceu ouvindo o Aos Vivos e eu fui seu baby sitter e de sua irmã Patrícia inúmeras vezes quando seus pais, meus parceiros Arnaldo Black e Tetê Espíndola, saíam para ir ao cinema ou visitar amigos.

Egídio Conde, do Audiomobile, é um dos principais responsáveis pela existência do CD Aos Vivos. Nos conhecíamos do Festival de Avaré desde 1991 e, ao procurá-lo para que me cedesse seu estúdio para gravar vozes e violões em um material que estava preparando com André Abujamra na produção do que deveria ter sido meu primeiro disco, ele me aconselhou a fazer um disco ao vivo e colocou à disposição seu equipamento, sua sensibilidade e seu tempo para o projeto. "Ao vivo, no palco, não tem pra ninguém. É você onde a força de sua música aparece. É onde você é o cara", me encorajou.

Lenine veio de ônibus noturno do Rio de Janeiro, acho que pagando do próprio bolso a passagem, e ficou hospedado na sala do caótico apartamento que eu dividia com Zeca Baleiro na Heitor Penteado, em cima da Padaria Ceará, onde tínhamos umas compreensivas penduras. Alan Gordin, pai do Lanny, liberou o legendário guitarrista de tocar em sua boate Stardust nessas três noites, já que ele ganharia um pouco mais tocando comigo. As refeições fazíamos na musicasa de Tata Fernandes, Nina Blauth e Míriam Maria, em que Itamar Assumpção (meu parceiro em Dúvida Cruel, que está no disco) observava com divertida cautela o assédio de nossa fauna às suas orquídeas. Na produção, Elaine Marin e Esther Vasconcelos.

Gravei o disco com um violão takamini emprestado de Edson Natale, que mais na frente até tentaria (e fracassaríamos) me ajudar a vender bônus para prensar o disco às próprias custas. Na platéia: Ná Ozetti, Suzana Sales, Vânia Bastos, Vange Milliet, Virgínia Rosa, Gigi Trujilo, todas as Orquídeas do Brasil, Tetê Espíndola, Carlos Careqa, Passoca, Renato Braz. Quase ninguém pagou entrada, mas também depois ninguém cobrou direitos conexos pela excelente performance do coro, que surpreendeu a Ivan Lins: "Como pode um artista desconhecido em seu primeiro disco ter tanta gente cantando na platéia?" Mistérios que só a guerrilha do underground explica: insistentes apresentações em lugares pequenos repetidas vezes para quinze, dez ou até cinco pessoas…

Egídio e eu mixamos e editamos o disco com a TV ligada sem som vendo a tediosa copa de 94, nos Estados Unidos. Vez por outra mudávamos de canal para ver algo interessante na MTV. Disco pronto, tentaram nos convencer a não lançá-lo para não desperdiçar as músicas com aquelas gravações sem arranjo, despidas. Até experimentamos colocar percussão em algumas faixas, mas não dava certo, pois o tempo oscilava.

Finalmente a Velas se decidiu e, um ano depois, veio o lançamento. Um pouco antes, Mama ÁfricaÀ Primeira Vista saíram em uma coletânea por uma revista de áudio. Algumas rádios públicas e "adultas" começaram a tocar, algumas pessoas começaram a se perguntar: "É o Caetano Veloso? É o Gil? É um disco voador?" Era um disco voador, que ganhou vida própria e plana sem planos até hoje. Ele terminou por me levar ao mainstream e também a me defender do mainstream. Nas reuniões mais tensas em que diretores de gravadora tentavam me convencer de algo que eu realmente não faria de jeito algum, usei meu primeiro disco como escudo e argumentava: "Vocês nunca teriam me deixado gravar o disco através do qual me conheceram e que despertou o interesse por mim".

Ah, o DVD. Também estou torcendo para que saia uma versão do áudio em vinil, pois era nesse formato que eu fantasiava meu primeiro disco. O repertório: vou tocar todo o Aos Vivos, respeitando o espírito de certa liberdade irresponsável que há nele. É mais isso do que o compromisso de tentar fazer igualzinho ao disco. Não há como mesmo. Fiz uma noite de Aos Vivos numa recente Virada Cultural em São Paulo, no Teatro Municipal da cidade. Foi emocionante: de madrugada, na fila, a turma tocando e cantando todas as músicas, na seqüência.


Mas também tem o "Aos Outros": algumas músicas que toquei naquelas três noites e que acabaram não entrando no disco (tipo Utopia e Invocação). E outras, minhas ou não, que entraram na minha vida de lá pra cá e que eu acho que tem a ver fazer agora: Dor Elegante (de Itamar e Leminski), Paula e Bebeto (Milton Nascimento e Caetano Veloso), Ilê Aiyê (Paulinho Camafeu). Tocar eu toco, depois a gente vê se entra ou não. Deixa vir pra ver no que dá. Boa noite, São Paulo!

Chico César

10 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Chico César grava seu segundo DVD, Aos Vivos, em show no Teatro Fecap, em São Paulo (SP). Com participação de Dani Black no violão, na guitarra e nos vocais, a gravação ao vivo vai ser feita na minitemporada que acontece entre 2 e 4 de setembro de 2011. O título do DVD é o mesmo do primeiro CD do artista, Aos Vivos (Velas, 1995), porque a ideia do cantor - em foto de Washington Possato - é revisitar o formato nu e cru do álbum ao vivo gravado em 1994 na mesma São Paulo onde o paraibano se radicou em 1985. Eis o texto escrito por Chico César sobre a feitura do DVD Aos Vivos, cujas imagens vão ser captadas e exibidas pelo Canal Brasil:

Gill disse...

Este disco é maravilhoso. Um disco "seco", parece um pouco cruel. Mas de uma poesia muiti peculiar. Nordestino por excelência, tem canções como "Dança", "Templo" e "A Prosa Impurpura do Caicó", Mulher eu Sei", dentre outras. É o melhor disco de Chico. Não perco esse show por nada.

Gill disse...

Apesar que no site do Fecap e no ingresso.com, site que vende entradas para este local, não consta nenhuma informação desse show agendado.

KL disse...

biografia interessante, ao contrário da obra.

Geraldo disse...

O disco é muito bom, mas já foi lançado em 1995. Fazê-lo novamente, mesmo com a vivência do artista de hoje, significa fazer mais do mesmo. Significa desperdiçar a chance de fazer algo novo, ou mesmo o DVD de Francisco voz e frevo, que seria muito interessante. Será que precisaria fazer de novo?

Fernando Temporão disse...

Discaço!!! Eu ouvi muito...é um clássico da música popular! Salve Chico César!

Carmem Silvia disse...

Eu tambmém já estive procurando no site do teatro e não encontrei nada... Mistério!

Gill disse...

Que bobagem Geraldo, mais do mesmo é o que você disse, foi muito previsível e pouco original sua opinião.

Depois de quase duas décadas, você acha mesmo que Chico faria o mesmo? É humanamente impossível. Soa-me no mínimo leviana esse tipo de ideia. Não é possível para ninguém.

Já dizia Heráclito "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio"

Pedro Progresso disse...

Adorei o texto e o disco tb é muito bonito, mas é "seco" mesmo. Deve vir coisa boa por aí.

Ana Luiza disse...

O disco Aos Vivos é lindo de babar. Coisa de grande poeta e grande músico.