Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Roteiro desfaz a magia do show em que Alaíde e Áurea celebram Elizeth

Resenha de show
Título: Elizethíssima - Uma sincera homenagem a Elizeth Cardoso
Artistas: Alaíde Costa e Áurea Martins (em foto de Mauro Ferreira)
Participações: Hermínio Bello de Carvalho e Vidal Assis
Local: Teatro Rival (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 16 de julho de 2014
Cotação: * * 1/2

Alaíde Costa e Áurea Martins são duas cantoras cariocas de alta categoria. Um show que as reunisse em cena tinha tudo para ser antológico - sobretudo se for um tributo a Elizeth Cardoso (1920 - 1990), uma das maiores cantoras do Brasil de todos os tempos. Por tudo isso, Elizethíssima - show que estreou em maio de 2014 no Rio de Janeiro (RJ), cidade aonde voltou à cena no Teatro Rival em 16 de julho, dia em que Elizeth completaria 94 anos - resulta até certo ponto decepcionante. As cantoras são ótimas, o repertório é de excelente nível, mas a magia não se faz - como já sinaliza o primeiro número do roteiro (mal) estruturado por Hermínio Bello de Carvalho e Zé Maria Rocha. Nesse número inicial, Áurea sola o medley que agrega os sambas Mundo melhor (Pixinguinha e Vinicius de Moraes, 1962) e É luxo só (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1957), cantados em empolgação. O roteiro é o ponto problemático de Elizethíssima, show feito sob tradicional direção musical do violonista Lucas Porto, autor dos arranjos. Por estar estruturado em medleys, o roteiro fragmenta e uniformiza as emoções contidas nas canções. Para impedir ainda mais a magia que não se faz, uma das poucas músicas apresentadas de forma isolada, Complexo (Wilson Batista e Magno de Oliveira, 1949), não é das composições mais inspiradas do compositor fluminense Wilson Baptista (1913 - 1938) e do repertório da divina Elizeth. Protagonizada por Áurea, a parte inicial do show deixa a sensação de que sambas como Malvadeza Durão (Zé Kétti, 1965) não se ajustam bem ao canto dessa intérprete cultuada na noite carioca por sua técnica admirável. Cantora projetada no universo da Bossa Nova, Alaíde parece mais à vontade quando entra em cena, a partir do quinto número, para interpretar seis das 12 músicas do álbum Canção do amor demais (Festa, 1958), marco na carreira de Elizeth e na trajetória dos compositores cariocas Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) e Vinicius de Moraes (1913 - 1980). É que canções como Janelas abertas e Sem você são talhadas para o canto de Alaíde, que reitera sua maestria vocal ao introduzir a capella o samba Outra vez. De todo modo, os roteiristas e a diretora Duda Maia demoram a promover a interação entre as cantoras, que somente dividem o palco para valer a partir do sétimo dos dez medleys repartidos entre as intérpretes. Ainda assim, a união é pouco feliz, já que esse sétimo medley é dedicado a reviver o encontro de Elizeth com o cantor carioca Ciro Monteiro (1913 - 1973), perpetuado no álbum A bossa eterna de Elizeth e Ciro (Copacabana, 1966). É nesse disco que Elizeth e Ciro cantam as seis músicas reunidas no medleyNega (Waldemar Gomes e Afonso Teixeira, 1966), Tem que rebolar (José Batista e Magno de Oliveira, 1954), O que é que eu dou? (Dorival Caymmi e Antônio Almeida, 1947), Eu sou manhosa (Vicente Paiva, 1966), Deixa andar (Jububa, 1966) e Já vai? (Rubens Campos e Duba, 1966) - com uma ginga e uma sintonia inexistentes no número protagonizado por Alaíde e Áurea com o cantor Vidal Assis, convidado do show. O trio cai no suingue de forma artificial, mas o erro é dos roteiristas, que deveriam ter atentado para o fato de que tal repertório pede intérpretes com manemolência escassa nas vozes de Alaíde e Áurea - como Elza Soares, para citar somente um exemplo de cantora bem mais vocacionada para dar voz e balanço a esse repertório. Com correção asséptica, Vidal sola em seguida Noturno em tempo de samba (Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, 1944) antes de Hermínio entrar em cena para interpretar o choro Doce de coco (Jacob do Bandolim, 1951) com a letra que escreveu para Elizeth cantar em 1968. Dispensável, a entrada em cena de Hermínio tira o foco das cantoras. Na sequência, Rosa de ouro (Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, 1965) é a deixa - já na voz de Áurea - para sequência de sambas gravados pela Divina no antológico álbum Elizeth sobe o morro (Copacabana, 1965). Com a volta de Alaíde para o último número, Elizethíssima apresenta - enfim... - as músicas mais marcantes da trajetória de Elizeth Cardoso. Canção de amor (Chocolate e Eleno de Paula, 1950), Nossos momentos (Luís Reis e Haroldo Barbosa, 1960), Meiga presença (Paulo Valdez e Otávio de Moraes, 1966) e Apelo (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966) são pontos altos da discografia de Elizeth e do show, cujo roteiro infeliz - também prejudicado pelos textos de tom artificial sobre a homenageada - contribui para diluir o brilho do que, sim, poderia ser um espetáculo e um tributo antológicos.

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Curta a página de Notas Musicais no Facebook para ser notificado das atualizações do blog. Abs, MauroF

Carlos Eduardo disse...

Assisti no Centro Cultural dos Correios e parece que vi outro show. Achei o roteiro bem estruturado, gostei do jogo de cena, da iluminação, das entradas e saídas das cantoras, da participação do cantor, dos arranjos. A presença de Hermínio quebra o rítmo, mas garante um caráter documental para o show. Enfim, achei um acerto em tudo, um lindo espetáculo.