Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Cantora de voz e alma lírica, Salmaso realça todos os sabores de Vinicius

Resenha de show
Título: Homenagem a Vinicius de Moraes
Artista: Mônica Salmaso (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Teatro Rival (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 26 de julho de 2014
Cotação: * * * * 1/2

Mônica Salmaso fez graça no palco do Teatro Rival em 26 de julho de 2014, dizendo que o show que apresentava naquela noite era o Alma lírica - Sabor Vinicius. A cantora paulista se referia ao recital Alma lírica brasileira (2010), feito nos últimos três anos por Salmaso com o pianista Nelson Ayres e com o flautista e saxofonista Teco Cardoso. Os dois virtuosos músicos continuam em cena com a cantora nesta abordagem camerística do cancioneiro multifacetado do compositor carioca Vinicius de Moraes (1913 - 1980). Espetáculo originado do convite feito a Salmaso em 2012 para fazer em Belo Horizonte (MG) um show em tributo ao centenário de nascimento do poeta da moderna canção brasileira, Homenagem a Vinicius transitou por algumas capitais do Brasil antes de chegar ao Rio de Janeiro (RJ) em 25 e 26 de julho de 2014, confirmando o momento iluminado de Salmaso - cantora que, a propósito, debutou no mercado fonográfico em 1995 com disco em que deu sua voz precisa aos afro-sambas de Baden Powell (1937 - 2000) e Vinicius no toque do violão de Paulo Bellinati. Eles, os afro-sambas, estão ausentes do roteiro deste show, mais focado no cancioneiro criado por Vinicius com o carioca Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) e com parceiros como os também cariocas Carlos Lyra e Chico Buarque. Cantora de alma lírica, Salmaso valoriza (toda) a beleza melódica e poética desse repertório, em fina sintonia com os dois músicos. Há certa solenidade no canto de Salmaso, perceptível já no primeiro dos 18 números do show, Chora coração (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1973), mas esse rigor estilístico se afina com a maior parte das melodias da obra em questão. De todo modo, Salmaso contrabalança essa bem-vinda formalidade vocal com comentários e temas espirituosos. "Esse show é assim: tem uma gracinha e uma cacetada", conceituou a artista, com humor. E o fato é que, cantando Vinicius, Salmaso reitera a perfeição de seu canto. O padrão da cantora é alto. Tanto que interrompeu e recomeçou Sem mais adeus (Francis Hime e Vinicius de Moraes, 1973) para ajustar sua interpretação ao seu próprio rigor. Perfeito até o bis, o roteiro equilibra bem músicas mais densas com temas mais leves como A casa (Vinicius de Moraes, 1980) - habitada por Salmaso com apropriada atmosfera lúdica - e Rancho das namoradas (1962), marcha-racho gravada pela cantora fluminense Angela Maria que representa no show a pouco lembrada parceria de Vinicius com Ary Barroso (1903 - 1964). O problema do bis é o arremesso de Trem das onze (Adoniran Barbosa, 1964) no arremate do bis. O samba se presta ao encerramento de um show, mas, no caso, faz o recital se desviar do trilho central do roteiro, passando por cima do conceito. Mas o trio em si nunca sai dos trilhos Parafraseando versos do Frevo de Orfeu (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959), escolhido para fechar o show (antes do bis), poucas vezes se viu e ouviu tanta beleza. Coisa mais linda (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1961), aliás, é um desses momentos. Da mesma parceria de Carlos Lyra com Vinicius, Maria moita (1964) tem humor extraído por Salmaso. Em Insensatez (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961), o piano de Ayres parece flutuar sobre a melodia. Já em Modinha (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961) é Teco Cardoso quem sopra notas que se afinam com a voz de Salmaso de forma simbiótica. Fora da seara dos clássicos, a cantora ilumina também São Francisco (1956), joia nada franciscana da parceria de Vinicius com o compositor paranaense Paulo Soledade (1919 - 1999). A moldura sempre acústica do recital - construída com mix de piano, sopros e eventual percussão (a cargo da própria Salmaso) - realça toda a arquitetura refinada (mas aparentemente simples, pois Vinicius era poeta capaz de expor sentimentos profundos em tom quase sempre coloquial) de canções amorosas como Sabe você (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1964). Mas isso nem surpreende. A surpresa do show - menor para quem sabe que Salmaso começou sua carreira atuando em espetáculo teatral do encenador mineiro Gabriel Villela - é ouvir a cantora dizendo a parte falada da letra da nordestina Pau de arara (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1964), música também conhecida como Comedor de gilete e mais associada ao cantor e humorista paulista Ary Toledo, principal intérprete do tema. Cantora de amplos recursos vocais, Salmaso consegue mergulhar na densidade de Derradeira primavera (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) minutos após evidenciar, em tom quase etéreo, a delicadeza do seminal choro Odeon (Ernesto Nazareth, 1909), letrado por Vinicius em 1968. Pode não parecer à primeira ouvida, mas Salmaso também sabe ser uma intérprete plural na exata medida exigida pelo cancioneiro multifacetado do centenário poeta. O Vinicius de Moraes de Mônica Salmaso é muito saboroso.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Mônica Salmaso fez graça no palco do Teatro Rival em 26 de julho de 2014, dizendo que o show que apresentava naquela noite era o Alma lírica - Sabor Vinicius. A cantora paulista se referia ao recital Alma lírica brasileira (2010), feito nos últimos três anos por Salmaso com o pianista Nelson Ayres e com o flautista e saxofonista Teco Cardoso. Os dois virtuosos músicos continuam em cena com a cantora nesta abordagem camerística do cancioneiro multifacetado do compositor carioca Vinicius de Moraes (1913 - 1980). Espetáculo originado do convite feito a Salmaso em 2012 para fazer em Belo Horizonte (MG) um show em tributo ao centenário de nascimento do poeta da moderna canção brasileira, Homenagem a Vinicius transitou por algumas capitais do Brasil antes de chegar ao Rio de Janeiro (RJ) em 25 e 26 de julho de 2014, confirmando o momento iluminado de Salmaso - cantora que, a propósito, debutou no mercado fonográfico em 1995 com disco em que deu sua voz precisa aos afro-sambas de Baden Powell (1937 - 2000) e Vinicius no toque do violão de Paulo Bellinati. Eles, os afro-sambas, estão ausentes do roteiro deste show, mais focado no cancioneiro criado por Vinicius com o carioca Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) e com parceiros como os também cariocas Carlos Lyra e Chico Buarque. Cantora de alma lírica, Salmaso valoriza (toda) a beleza melódica e poética desse repertório, em fina sintonia com os dois músicos. Há certa solenidade no canto de Salmaso, perceptível já no primeiro dos 18 números do show, Chora coração (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1973), mas esse rigor estilístico se afina com a maior parte das melodias da obra em questão. De todo modo, Salmaso contrabalança essa bem-vinda formalidade vocal com comentários e temas espirituosos. "Esse show é assim: tem uma gracinha e uma cacetada", conceituou a artista, com humor. E o fato é que, cantando Vinicius, Salmaso reitera a perfeição de seu canto. O padrão da cantora é alto. Tanto que interrompeu e recomeçou Sem mais adeus (Francis Hime e Vinicius de Moraes, 1973) para ajustar sua interpretação ao seu próprio rigor. Perfeito até o bis, o roteiro equilibra bem músicas mais densas com temas mais leves como A casa (Vinicius de Moraes, 1980) - habitada por Salmaso com apropriada atmosfera lúdica - e Rancho das namoradas (1962), marcha-racho gravada pela cantora fluminense Angela Maria que representa no show a pouco lembrada parceria de Vinicius com Ary Barroso (1903 - 1964). O problema do bis é o arremesso de Trem das onze (Adoniran Barbosa, 1964) no arremate do bis. O samba se presta ao encerramento de um show, mas, no caso, faz o recital se desviar do trilho central do roteiro, passando por cima do conceito. Mas o trio em si nunca sai dos trilhos Parafraseando versos do Frevo de Orfeu (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959), escolhido para fechar o show (antes do bis), poucas vezes se viu e ouviu tanta beleza. Coisa mais linda (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1961), aliás, é um desses momentos.

Mauro Ferreira disse...

Da mesma parceria de Carlos Lyra com Vinicius, Maria moita (1964) tem humor extraído por Salmaso. Em Insensatez (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961), o piano de Ayres parece flutuar sobre a melodia. Já em Modinha (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961) é Teco Cardoso quem sopra notas que se afinam com a voz de Salmaso de forma simbiótica. Fora da seara dos clássicos, a cantora ilumina também São Francisco (1956), joia nada franciscana da parceria de Vinicius com o compositor paranaense Paulo Soledade (1919 - 1999). A moldura sempre acústica do recital - construída com mix de piano, sopros e eventual percussão (a cargo da própria Salmaso) - realça toda a arquitetura refinada (mas aparentemente simples, pois Vinicius era poeta capaz de expor sentimentos profundos em tom quase sempre coloquial) de canções amorosas como Sabe você (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1964). Mas isso nem surpreende. A surpresa do show - menor para quem sabe que Salmaso começou sua carreira atuando em espetáculo teatral do encenador mineiro Gabriel Villela - é ouvir a cantora dizendo a parte falada da letra da nordestina Pau de arara (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1964), música também conhecida como Comedor de gilete e mais associada ao cantor e humorista paulista Ary Toledo, principal intérprete do tema. Cantora de amplos recursos vocais, Salmaso consegue mergulhar na densidade de Derradeira primavera (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) minutos após evidenciar, em tom quase etéreo, a delicadeza do seminal choro Odeon (Ernesto Nazareth, 1909), letrado por Vinicius em 1968. Pode não parecer à primeira ouvida, mas Salmaso também sabe ser uma intérprete plural na exata medida exigida pelo cancioneiro multifacetado do centenário poeta. O Vinicius de Moraes de Mônica Salmaso é muito saboroso.

Clayton Moreira disse...

La Salmaso é demais! A maior!

Marcelo disse...

E ainda tem uns que dizem q Monica coloca a voz a serviço do nada... Coitados... Viva Monica e sua lucidez e bom gosto!!!

noca disse...

Pode crer Marcelo!E o pior é que cantoirinhas de pedigree nobre,ainda no cueiro,querendo se libertar de estigmas,tem preguiça dela.Fora produtores que ainda acreditam que o novo e o louvável esta nas redomas redondas das suas panelinhas de vidro moderno.Mundinho tosco hedonista destes tempos.Quem não tem a boa vontade de compreender toda a arte e a expressividade sutil de Monica,não poderia mesmo respeitar seu ponto de vista.E saber que ela esta ai para somar.E ser somada.

Johnny Cesar disse...

As pessoas não podem expressar a opinião delas porque são limitadas mas a Mônica pode falar o que pensa sobre seus colegas novos artistas? Mundo estranho esse...
ps. eu adoro a Mônica como cantora e acho uma gracinha de pessoa, sempre atenciosa MAS acho que tem muitos artistas novos com talento e valor sim.