Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Peso de 'Ave Rara' impede Silvia Maria de alçar voo alto na volta ao disco

Resenha de CD
Título: Ave Rara
Artista: Silvia Maria
Gravadora: Joia Moderna / Tratore
Cotação: * * *

Cantora paulistana pouco ou nada ouvida, Silvia Maria debutou em disco em 1973 com o LP Porte de Rainha. Sete anos depois, em 1980, lançou um álbum independente intitulado Coragem e sumiu na poeira da estrada até ser resgatada, três décadas depois, pelo produtor Thiago Marques Luiz e por Zé Pedro, o DJ que virou empresário e que viabiliza o lançamento do terceiro álbum de Silvia, Ave Rara, por sua recém-aberta gravadora Joia Moderna. De fato, trata-se de uma grande voz - como Zé Pedro alardeia em texto escrito para o encarte do disco. Silvia Maria se revela - e revela é o termo certo para uma intérprete até então conhecida basicamente por sua plateia de amigos - cantora segura, discípula do rigor estilístico de Elizeth Cardoso (1920 - 1990) e Elis Regina (1945 - 1982), para citar dois exemplos de cantoras de técnica apurada e depurada. Silvia é dessa escola. Basta ouvir sua interpretação de Sete Cordas (Raphael Rabello e Paulo César Pinheiro, 1982) para atestar a alta categoria vocal da cantora. Contudo, Ave Rara tem um peso que impede Silvia Maria de alçar voo pleno nesse seu retorno ao disco. A rigor, não há reparos a serem feitos no CD. A cantora exibe técnica perfeita, os arranjos do violonista Conrado Paulino - diretor musical do álbum - se pautam pelo refinamento e o repertório alinha músicas nada óbvias de grandes compositores da música brasileira. Ainda assim, o peso do disco faz com que Ave Rara soe arrastado - pista já dada pela caudalosa abordagem de Rio Vermelho (Milton Nascimento, Danilo Caymmi e Ronaldo Bastos, 1968) que abre o trabalho. A densa interpretação de Que Eu Canse e Descanse (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1970) reitera o tom do CD. Falta leveza, inclusive ao samba Minha Embaixada Chegou (Assis Valente, 1934) - faixa em que o baixo de Bruno Migotto exibe mais suingue do que a voz da cantora. Sim, há traços de suavidade como o violão bossa-novista que adorna Acendeu (Eduardo Gudin, 2006). E, afinal, nenhum disco precisa ser leve para ser bom. Há discos que se tornam grandiosos justamente pelo peso e densidade de seus arranjos e interpretações. O que talvez impeça Ave Rara de realmente seduzir o ouvinte seja uma certa linearidade nesse peso e a opção por um repertório carregado que não facilita a degustação do cristal potente de Silvia Maria. Grandes compositores nem sempre assinam grandes músicas. Seja como for, Ave Rara é o disco de uma excelente cantora que merece continuar em cena.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Cantora paulistana pouco ou nada ouvida, Silvia Maria debutou em disco em 1973 com o LP Porte de Rainha. Sete anos depois, em 1980, lançou um álbum independente intitulado Coragem e sumiu na poeira da estrada até ser resgatada, três décadas depois, pelo produtor Thiago Marques Luiz e por Zé Pedro, o DJ que virou empresário e que viabiliza o lançamento do terceiro álbum de Silvia, Ave Rara, por sua recém-aberta gravadora Joia Moderna. De fato, trata-se de uma grande voz - como Zé Pedro alardeia em texto escrito para o encarte do disco. Silvia se revela - e revela é o termo certo para uma intérprete até então conhecida basicamente por sua plateia de amigos - cantora segura, discípula do rigor estilístico de Elizeth Cardoso (1920 - 1990) e Elis Regina (1945 - 1982), para citar dois exemplos de cantoras de técnica apurada e depurada. Silvia é dessa escola. Basta ouvir sua interpretação de Sete Cordas (Raphael Rabello e Paulo César Pinheiro, 1982) para atestar a alta categoria vocal da cantora. Contudo, Ave Rara tem um peso que impede Silvia Maria de alçar voo pleno nesse seu retorno ao disco. A rigor, não há reparos a serem feitos no CD. A cantora exibe técnica perfeita, os arranjos do violonista Conrado Paulino - diretor musical do álbum - se pautam pelo refinamento e o repertório alinha músicas nada óbvias de grandes compositores da música brasileira. Ainda assim, o peso do disco faz com que Ave Rara soe arrastado - pista já dada pela caudalosa abordagem de Rio Vermelho (Milton Nascimento, Danilo Caymmi e Ronaldo Bastos, 1968) que abre o trabalho. A densa interpretação de Que Eu Canse e Descanse (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1970) reitera o tom do CD. Falta leveza, inclusive ao samba Minha Embaixada Chegou (Assis Valente, 1934) - faixa em que o baixo de Bruno Migotto exibe mais suingue do que a voz da cantora. Sim, há traços de suavidade como o violão bossa-novista que adorna Acendeu (Eduardo Gudin, 2006). E, afinal, nenhum disco precisa ser leve para ser bom. Há discos que se tornam grandiosos justamente pelo peso e densidade de seus arranjos e interpretações. O que talvez impeça Ave Rara de realmente seduzir o ouvinte seja uma certa linearidade nesse peso e a opção por um repertório carregado que não facilita a degustação do cristal potente de Silvia Maria. Grandes compositores nem sempre assinam grandes músicas. Seja como for, Ave Rara é o disco de uma excelente cantora que merece continuar em cena.

marvioli disse...

ô Mauro. Tá igual banca de mestrado e doutorado que desanca a tese e depois aprova com louvor

Karina Fiorentino disse...

Bom, vou começar pelo que disse sobre a cantora "ter sido pouco ou nada ouvida", e "por sua platéia de amigos". Não é verdade, a não ser pelo fato de não ter sido cotada nas paradas de sucesso. Mas aos novos músicos, Silvia Maria não é esquecida, caro Mauro. Tive a oportunidade conhecer um famigerado produtor musical da e maestro conceituado, que mencionou Silvia Maria como uma das maiores vozes da música brasileira. O problema é que isso não foi guardado justamente pela ausência da diva por longo tempo. Discípula, talvez seria outro engano, mas este eu passo, porque contralto canta como Ana Carolina, e soprano se parece com Marisa Monte, né?
Também quero acrescer que a palavra "densidade" das canções' que usou, na verdade poderia ser
substituída por "muito, mas muito elitista" (sem querer ser preconceituosa, ou prepotente) e aí eu concordaria, porque como voce mesmo disse, densidade não costuma definir como bom ou mau um trabalho artístico. O Brasil nunca este tão brega como nos útimos 10 anos, apesar de já estar dando sinais patológicos desde muito antes, mas sinceramente, não é a leveza da alegria que faz boas canções, óbvio. E a interpretação é algo pra ser apreciado por quem tem esse conhecimento sobre emoções e arte ( e olha que hoje existem faculdades para quem quer fazer "arte"). Concluindo, Ave Rara, alça vôo mais alto do que pensa o publico que se celebra. Talvez tão alto que não se possa ser alcançado, sacou?

Karina Fiorentino disse...

Ah - não sei se vai querer publicar, mas já vou logo ao ponto: som leve? Ouvir músicas de yoga... sons da natureza. Silvia Maria é brutal, o repertório idem, como ninguém tem peito pra ser hoje