Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 29 de março de 2013

Música dilui a dramaticidade do musical 'As mulheres de Grey Gardens'

Resenha de musical
Título: As mulheres de Grey Gardens - O musical
Texto: Doug Wright
Música: Scott Frankel        Letras: Michael Korie
Versão brasileira: Jonas Calmon Klabin
Direção: Wolf Maya
Direção musical: Carlos Bauzys e Daniel Rocha
Elenco: Soraya Ravenle, Suely Franco, Carol Puntel, Guilherme Terra, Sandro Christopher,
           Pierre Baitelli, Jorge Maya, Danilo Timm, Raquel Bonfante, Sofia Viamonte, Mina
           Rubim e Thuany Parente
Cotação: * * 1/2
Musical em cartaz na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro (RJ), até 28 de abril de 2013

Em 1973, a imprensa norte-americana noticiou, em tom bem sensacionalista, as insalubres condições em que viviam Edith Bouvier Beale e sua filha, a pequena Edie Beale, na mansão de Grey Gardens, na cidade de East Hampton, em Long Island (Nova York, EUA). Outrora símbolo da ostentação e do glamour das duas mulheres, tia e prima de Jacqueline Kennedy (1929 - 1994) respectivamente, a mansão era na ocasião o retrato da decadência. No rastro desse escândalo, a relação simbiótica e doentia de mãe e filha virou tema de documentário, Grey Gardens, lançado em 1975. É nesse (ótimo) filme de Albert e David Maysles que está baseado o musical dirigido por Wolf Maya e recém-estreado no Rio de Janeiro (RJ) neste mês de março de 2013, quarenta anos após os conflitos de Edith e Edie virarem notícia nos jornais dos EUA. Com a ação centrada em dois tempos, 1941 (ano em que o ocorre o primeiro ato) e 1973 (ano do segundo ato), As mulheres de Grey Gardens - O musical provoca a estranha sensação de que a música sobra na encenação. Além de serem em si inexpressivas, as músicas de Scott Frankel e as letras de Michael Korie diluem a dramaticidade do espetáculo e impedem uma exposição mais profunda, em cena, dos amores, ódios e ressentimentos que movem a relação de mãe e filha. No primeiro ato, com liberdade ficcional, o texto de Doug Wright esboça retrato da fase de opulência de Edith (Soraya Ravenle) e Edie (Carol Puntel) sem tornar verossímil a forma com que a mãe arruina em minutos o casamento da filha com Joseph Patrick Kennedy Jr. (Pierre Baitelli, jovem ator que está subaproveitado na encenação). No segundo ato, o impacto do cenário de Bia Junqueira - que sugere um lixão, fiel tradutor visual da turbulenta e confusa relação de Edith e Edie - prepara a cama para que a ação alcance pico de dramaticidade. Mas ainda aí - com Suely Franco atraindo atenções com sua magnética e acalorada interpretação de Edith - a música resulta dispensável, impedindo o desenvolvimento e aprofundamento de história já em si fascinante. No papel de Edith jovem e de Edie na maturidade, a boa atriz e cantora Soraya Ravenle reafirma seu talento e sua vocação para musicais. No tema Canjica de miúdos, Ravenle inclusive sai de seu belo tom habitual e evoca o estilo das tradicionais cantoras negras norte-americanas. Mas nem a tarimba das duas atrizes protagonistas amenizam a sensação de que música e texto estão fora de sintonia em As mulheres de Grey Gardens, brigando pela atenção quando, a rigor, deveriam  formar um todo harmonioso. A encenação brasileira está dentro do padrão técnico exigido pelos musicais, apuro perceptível tanto na iluminação cuidadosa de Luiz Paulo Nenem como na orquestra regida pelo maestro Juliano Dutra. Contudo, algo resulta fora da ordem no musical e esse algo - vale enfatizar - é  a própria música, entrave para a exposição mais detalhada de história cuja força paira sobre todas as coisas. Por si só, a simbiose entre Edith e Edie já rende bom teatro.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Em 1973, a imprensa norte-americana noticiou, em tom bem sensacionalista, as insalubres condições em que viviam Edith Bouvier Beale e sua filha, a pequena Edie Beale, na mansão de Grey Gardens, na cidade de East Hampton, em Long Island (Nova York, EUA). Outrora símbolo da ostentação e do glamour das duas mulheres, tia e prima de Jacqueline Kennedy (1929 - 1994) respectivamente, a mansão era na ocasião o retrato da decadência. No rastro desse escândalo, a relação simbiótica e doentia de mãe e filha virou tema de documentário, Grey Gardens, lançado em 1975. É nesse (ótimo) filme de Albert e David Maysles que está baseado o musical dirigido por Wolf Maya e recém-estreado no Rio de Janeiro (RJ) neste mês de março de 2013, quarenta anos após os conflitos de Edith e Edie virarem notícia nos jornais dos EUA. Com a ação centrada em dois tempos, 1941 (ano em que o ocorre o primeiro ato) e 1973 (ano do segundo ato), As mulheres de Grey Gardens - O musical provoca a estranha sensação de que a música sobra na encenação. Além de serem em si inexpressivas, as músicas de Scott Frankel e as letras de Michael Korie diluem a dramaticidade do espetáculo e impedem uma exposição mais profunda, em cena, dos amores, ódios e ressentimentos que movem a relação de mãe e filha. No primeiro ato, com liberdade ficcional, o texto de Doug Wright esboça retrato da fase de opulência de Edith (Soraya Ravenle) e Edie (Carol Puntel) sem tornar verossímil a forma com que a mãe arruina em minutos o casamento da filha com Joseph Patrick Kennedy Jr. (Pierre Baitelli, jovem ator que está subaproveitado na encenação). No segundo ato, o impacto do cenário de Bia Junqueira - que sugere um lixão, fiel tradutor visual da turbulenta e confusa relação de Edith e Edie - prepara a cama para que a ação alcance pico de dramaticidade. Mas ainda aí - com Suely Franco atraindo atenções com sua magnética e acalorada interpretação de Edith - a música resulta dispensável, impedindo o desenvolvimento e aprofundamento de história já em si fascinante. No papel de Edith jovem e de Edie na maturidade, a boa atriz e cantora Soraya Ravenle reafirma seu talento e sua vocação para musicais. No tema Canjica de miúdos, Ravenle inclusive sai de seu belo tom habitual e evoca o estilo das tradicionais cantoras negras norte-americanas. Mas nem a tarimba das duas atrizes protagonistas amenizam a sensação de que música e texto estão fora de sintonia em As mulheres de Grey Gardens, brigando pela atenção quando, a rigor, deveriam formar um todo harmonioso. A encenação brasileira está dentro do padrão técnico exigido pelos musicais, apuro perceptível tanto na iluminação cuidadosa de Luiz Paulo Nenem como na orquestra regida pelo maestro Juliano Dutra. Contudo, algo resulta fora da ordem no musical e esse algo - vale enfatizar - é a própria música, entrave para a exposição mais detalhada de história cuja força paira sobre todas as coisas. Por si só, a simbiose entre Edith e Edie já rende bom teatro.

Luca disse...

vi esse filme no you tube, tá legendado em português inclusive, o filme é muito bom, a peça eu não vi

Fabio disse...

Eu O-D-E-I-O musicais. Parece que só tem musicais agora no Brasil, que pobreza! A culpa é do casal Claudio Botelho e Charles Moeller. Eles DETONARAM com a obra do Milton Nascimento, uma vergonha. Eu sei que aqui tem o dedo do Wolf Maya, mas resolvi criticar no geral. A história Grey Gardens é muito bonita, o filme com Jessica Lange e Drew Barrymore é excelente.