Mauro Ferreira no G1

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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Voz maior do soul brasileiro, Tim chega aos 70 vivo na memória nacional

Sebastião Rodrigues Maia (1942 - 1998) faz parte do seleto clube dos grandes ícones da música brasileira nascidos em 1942. Só que - ao contrário de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Milton Nascimento e Paulinho da Viola - Tim Maia não viveu para festejar os 70 anos que completaria nesta sexta-feira, 28 de setembro de 2012. Em 15 de março de 1998, aos 55 anos, o Síndico saiu de cena, pagando a conta dos excessos cometidos ao longo de vida turbulenta e controvertida. Mas nunca houve controvérsias sobre o talento do cantor e compositor carioca - talento imenso como seu corpo maltratado pela adesão sem limites aos prazeres do álcool e das drogas. Grave e volumosa, a voz de baixo-barítono ainda ecoa em 2012 como a maior do universo do funk / soul nacional. Voz tão forte e singular que sustentou a fama do cantor quando ele passou a gravar discos aquém de seu talento. Sim, a bem da verdade, Tim Maia - revelado a partir de dueto gravado em 1969 com Elis Regina (1945 - 1982) na música These Are The Songs - atravessou os anos 80, e sobretudo os 90, vivendo do prestígio e do legado dos antológicos álbuns que gravou ao longo da década de 70. Os quatro primeiros - todos intitulados Tim Maia e lançados entre 1970 e 1973 - continuam imbatíveis e são a mais perfeita tradução da soul music norte-americana para o idioma da música brasileira. Ao dar voz a músicas que misturaram funk e soul com ritmos nordestinos (Coroné Antonio Bento, Festa de Santo Reis) e com samba (Réu Confesso, Gostava Tanto de Você), Tim deu identidade nacional a dois gêneros que até então gravitavam em torno do universo da música norte-americana. De todo modo, as baladas apaixonadas gravadas por Tim - Primavera, Azul da Cor do Mar, Eu Amo Você, Você - extrapolaram fronteiras ao versar sobre a língua universal do amor. Baladas que ganhariam doses maciças de açúcar a partir dos anos 80, década em que Tim aderiu ao cancioneiro mais sentimental, dialogando de forma mais rala com a natureza soul de sua obra. A discografia do cantor se tornou irregular a partir da segunda metade da década de 70. Ao se libertar dos dogmas da seita Universo em Desencanto, geradora dos cultuados discos da fase Racional, Tim Maia nunca mais foi o mesmo. Mas acertou eventualmente e, quando acertou, lançou clássicos como Tim Maia Disco Club, álbum de 1978 que o inseriu no universo da disco music a reboque dos hits Sossego (número obrigatório desde então nos shows do artista) e Acenda o Farol. Lançada no mercado independente em 1981, Do Leme ao Pontal também veio se juntar aos clássicos imortais desde cantor singular que não teve censura nem limites. Um ser essencialmente triste e solitário - traços de sua personalidade evidenciados mais pelas baladas de seu cancioneiro do que pelas declarações geralmente desbocadas e bem-humoradas. Único produto fonográfico gerado pelos 70 anos de Tim Maia, a coletânea The Existencial Soul of Tim Maia - Nobody Can Live Forever - ora lançada nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop, do cantor e compositor norte-americano David Byrne - pesca 15 pérolas do baú do Síndico, a maioria em inglês e pouco ouvida pelo público brasileiro. Mas a obra de Tim Maia não precisa de honras fonográficas para continuar viva na memória nacional. São tantos os sucessos imortalizados por sua voz única que qualquer honraria fica pequena diante da grandeza da obra e da voz do artista. Tim Maia vive!

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Sebastião Rodrigues Maia (1942 - 1998) faz parte do seleto clube dos grandes ícones da música brasileira nascidos em 1942. Só que - ao contrário de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Milton Nascimento e Paulinho da Viola - Tim Maia não viveu para festejar os 70 anos que completaria nesta sexta-feira, 28 de setembro de 2012. Em 15 de março de 1998, aos 55 anos, o Síndico saiu de cena, pagando a conta dos excessos cometidos ao longo de vida turbulenta e controvertida. Mas nunca houve controvérsias sobre o talento do cantor e compositor carioca - talento imenso como seu corpo maltratado pela adesão sem limites aos prazeres do álcool e das drogas. Grave e volumosa, a voz de baixo-barítono ainda ecoa em 2012 como a maior do universo do funk / soul nacional. Voz tão forte e singular que sustentou a fama do cantor quando ele passou a gravar discos aquém de seu talento. Sim, a bem da verdade, Tim Maia - revelado a partir de dueto gravado em 1969 com Elis Regina (1945 - 1982) na música These Are The Songs - atravessou os anos 80, e sobretudo os 90, vivendo do prestígio e do legado dos antológicos álbuns que gravou ao longo da década de 70. Os quatro primeiros - todos intitulados Tim Maia e lançados entre 1970 e 1973 - continuam imbatíveis e são a mais perfeita tradução da soul music norte-americana para o idioma da música brasileira. Ao dar voz a músicas que misturaram funk e soul com ritmos nordestinos (Coroné Antonio Bento, Festa de Santo Reis) e com samba (Réu Confesso, Gostava Tanto de Você), Tim deu identidade nacional a dois gêneros que até então gravitavam em torno do universo da música norte-americana. De todo modo, as baladas apaixonadas gravadas por Tim - Primavera, Azul da Cor do Mar, Eu Amo Você, Você - extrapolaram fronteiras ao versar sobre a língua universal do amor. Baladas que ganhariam doses maciças de açúcar a partir dos anos 80, década em que Tim aderiu ao cancioneiro mais sentimental, dialogando de forma mais rala com a natureza soul de sua obra. A discografia do cantor se tornou irregular a partir da segunda metade da década de 70. Ao se libertar dos dogmas da seita Universo em Desencanto, geradora dos cultuados discos da fase Racional, Tim Maia nunca mais foi o mesmo. Mas acertou eventualmente e, quando acertou, lançou clássicos como Tim Maia Disco Club, álbum de 1978 que o inseriu no universo da disco music a reboque dos hits Sossego (número obrigatório desde então nos shows do artista) e Acenda o Farol. Lançada no mercado independente em 1981, Do Leme ao Pontal também veio se juntar aos clássicos imortais desde cantor singular que não teve censura nem limites. Um ser essencialmente triste e solitário - traços de sua personalidade evidenciados mais pelas baladas de seu cancioneiro do que pelas declarações geralmente desbocadas e bem-humoradas. Único produto fonográfico gerado pelos 70 anos de Tim Maia, a coletânea The Existencial Soul of Tim Maia - Nobody Can Live Forever - ora lançada nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop, do cantor e compositor norte-americano David Byrne - pesca 15 pérolas do baú do Síndico, a maioria em inglês e pouco ouvida pelo público brasileiro. Mas a obra de Tim Maia não precisa de honras fonográficas para continuar viva na memória nacional. São tantos os sucessos imortalizados por sua voz única que qualquer honraria fica pequena diante da grandeza da obra e da voz do artista. Tim Maia vive!

Maria disse...

Vive mesmo Mauro! Para sempre no meu coração o cara era demais! a sua irreverência, polêmicas a voz única sou fã!

Rafael M. disse...

A morte do nosso Síndico foi uma perda precoce para o mundo da música! Pena ele não estar mais por aqui, para que pudesse estar compondo e cantando muito, que foi sempre o que ele fez de melhor. Mas para consolo, o seu bom legado para o mundo musical nunca morrerá! Definitivamente, Tim Maia não morreu!!!

Anônimo disse...

O Mauro falou tudo.
O filé de sua obra está nos anos setenta. Aliás, que década maravilhosa para a música, tanto a brasileira quanto a gringa.
Agora, esse ano de 42 aí, como diria os evangelicos, foi abençoado!
Só um reparo, o disco de 76, pós os discos Racionais, é tão bom quanto os quatro primeiros.
Depois, quando entram Sullivan e Massada na parada, o grande Tim despenca em qualidade.
Mas aí é normal:
Ninguém vive no alto pra sempre.

Maria disse...

A fase de Tim nos anos 80 é "mela cueca" com Me dê motivo, Um Dia De Domingo... ouço as vezes, mas sem dúvidas prefiro os discos dos anos 70!

Raffa disse...

Zé, concordo contigo! E ainda acrescento o de 77. Esses dois, pra mim, são os discos mais pesados e fodas do Tim Maia.

Anônimo disse...

Muito bem lembrado, Raffa!
Esse de 77 realmente ainda é um dos grandes momentos do Tim.
Disco super suingado, com uma batida mais acelerada.
Inclusive, ele saiu em uma versão remasterizado há uns 2/3 anos.
Esse de 77 tá fora da caixa do Tim que tem aí no mercado, outra gravadora e tal.

Anônimo disse...

Mestre!!!!
Merece todos os aplausos!

Uma das melhores vozes masculinas do Brasil!
Disco de 71 meu preferido!

André Queiroz disse...

Top 5 de discos:

Tim Maia(1970)
Tim Maia(1971)
Tim Maia(1976)
Disco Club(1978)
Reencontro(1979)

Top 10 de musicas(sem pensar muito):

Azul da Cor do Mar
Primavera
Padre Cicero
Sofre
I Dont Know What To Do With Miself
Rodésia
Venha Dormir em Casa
Lábios de Mel
Brother Father Mother Sister
Reu Confesso