Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 25 de setembro de 2012

'Tempest', álbum de Dylan, versa épico sobre a divina tragédia humana

Resenha de CD
Título: Tempest
Artista: Bob Dylan
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * * * *

São raríssimos os artistas que, aos 50 anos de carreira fonográfica, conseguem lançar um álbum que vai ser lembrado como um dos títulos mais inspirados de sua discografia. Bob Dylan consegue a proeza com Tempest. Mesmo sem causar o impacto das obras-primas lançadas pelo cantor e compositor norte-americano ao longo da década de 60, o 35º álbum de estúdio do bardo dispara raios de criatividade no mercado fonográfico e se impõe como um dos grandes CDs deste ano de  2012. Ao reproduzir imagem da mitologia grega, parte de fonte situada na Áustria, a capa de Tempest dá a pista do ar trágico, épico, que pontua em maior ou menor grau as dez faixas do álbum gravado pelo artista em março no estúdio Groove Masters, na Califórnia (EUA), e produzido pelo próprio Dylan sob seu pseudônimo Jack Frost. São faixas longas que geralmente ultrapassam os cinco minutos, podendo chegar aos sete. Cada vez mais roufenha, a voz do cantor parece moldada para contar as histórias narradas nas letras habitualmente alentadas. Com sua introdução jazzy de quase 50 segundos, Duquesne Whistle abre o disco em tom country que evoca priscas eras dos Estados Unidos, sinalizando que Dylan consegue revolver suas raízes caipiras sem soar velho, folclórico ou nostálgico. É nesse ambiente antigo - entre o country, o blues e o folk - que Dylan aclimata músicas como a balada Soon After Midnight, situada em universo noturno habitado por ladrões e prostitutas. Na sequência, um blues propriamente dito, Narrow Away, faz com que Tempest desabe com peso e intensidade cada vez maior na mente do ouvinte. Corações partidos e feridas sangrentas pavimentam a doída estrada do narrador. Long and  Wasted Years, outra balada imersa no particular universo musical de Dylan, preserva a densidade de Tempest ao versar sobre um amor proibido. Pay in Blood - do emblemático verso "I pay in blood / But not my own" ("Eu pago com sangue, mas não com o meu próprio sangue") - destila raiva enquanto Scarlett Town adensa ainda mais o ar, com nuvens negras que deixam Tempest com clima sombrio. Em seguida, Early Roman Kings reitera a devoção de Dylan ao blues de mestres como Bo Didley (1928 - 2008) e Muddy Waters (1913 - 1993) em faixa que revolve a lama do Mississipi com uma grandeza que eleva Tempest às alturas. É essa grandeza que faz com que um tema aparentemente menor sobre um amor fracassado, caso de Tin Angel, adquira peso sem deixar cair o nível do álbum. Que cresce ainda mais à medida em que chega ao seu emocionante fim. Tempest, a música-título, reconstroi em 14 arrebatadores minutos e em 45 versos cinematográficos o tom épico da tragédia do navio Titanic, afundado em 1912. Em ritmo que evoca o waltz (dança folk) e o universo country, a faixa faz alusões ao filme de 1997 do cineasta James Cameron. Por fim, Tempest se encerra em clima emotivo com Roll on John, sensível tributo a John Lennon (1940 - 1980), escrito com citações de célebres versos do Beatle. Enfim, mesmo sem causar revoluções na obra de Dylan e mesmo sem causar surpresas dado o alto nível de álbuns recentes do bardo, como Time of Mind (1997), Love and Theft (2001) e Modern Times (2006), Tempest - disco enraizado em algum lugar do passado - é outra (bela) prova de que Bob Dylan sabe versar como poucos como a divina tragédia humana.

4 comentários:

Mauro Ferreira disse...

São raríssimos os artistas que, aos 50 anos de carreira fonográfica, conseguem lançar um álbum que vai ser lembrado como um dos títulos mais inspirados de sua discografia. Bob Dylan consegue a proeza com Tempest. Mesmo sem causar o impacto das obras-primas lançadas pelo cantor e compositor norte-americano ao longo da década de 60, o 35º álbum de estúdio do bardo dispara raios de criatividade no mercado fonográfico e se impõe como um dos grandes CDs deste ano de 2012. Ao reproduzir imagem da mitologia grega, parte de fonte situada na Áustria, a capa de Tempest dá a pista do ar trágico, épico, que pontua em maior ou menor grau as dez faixas do álbum gravado pelo artista em março no estúdio Groove Masters, na Califórnia (EUA), e produzido pelo próprio Dylan sob seu pseudônimo Jack Frost. São faixas longas que geralmente ultrapassam os cinco minutos, podendo chegar aos sete. Cada vez mais roufenha, a voz do cantor parece moldada para contar as histórias narradas nas letras habitualmente alentadas. Com sua introdução jazzy de quase 50 segundos, Duquesne Whistle abre o disco em tom country que evoca priscas eras dos Estados Unidos, sinalizando que Dylan consegue revolver suas raízes caipiras sem soar velho, folclórico ou nostálgico. É nesse ambiente antigo - entre o country, o blues e o folk - que Dylan aclimata músicas como a balada Soon After Midnight, situada em universo noturno habitado por ladrões e prostitutas. Na sequência, um blues propriamente dito, Narrow Away, faz com que Tempest desabe com peso e intensidade cada vez maior na mente do ouvinte. Corações partidos e feridas sangrentas pavimentam a doída estrada do narrador. Long and Wasted Years, outra balada imersa no particular universo musical de Dylan, preserva a densidade de Tempest ao versar sobre um amor proibido. Pay in Blood - do emblemático verso "I pay in blood / But not my own" ("Eu pago com sangue, mas não com o meu próprio sangue") - destila raiva enquanto Scarlett Town adensa ainda mais o ar, com nuvens negras que deixam Tempest com clima sombrio. Em seguida, Early Roman Kings reitera a devoção de Dylan ao blues de mestres como Bo Didley (1928 - 2008) e Muddy Waters (1913 - 1993) em faixa que revolve a lama do Mississipi com uma grandeza que eleva Tempest às alturas. É essa grandeza que faz com que um tema aparentemente menor sobre um amor fracassado, caso de Tin Angel, adquira peso sem deixar cair o nível do álbum. Que cresce ainda mais à medida em que chega ao seu emocionante fim. Tempest, a música-título, reconstroi em 14 arrebatadores minutos e em 45 versos cinematográficos o tom épico da tragédia do navio Titanic, afundado em 1912. Em ritmo que evoca o waltz (dança folk) e o universo country, a faixa faz alusões ao filme de 1997 do cineasta James Cameron. Por fim, Tempest se encerra em clima emotivo com Roll on John, sensível tributo a John Lennon (1940 - 1980), escrito com citações de célebres versos do Beatle. Enfim, mesmo sem causar revoluções na obra de Dylan e mesmo sem causar surpresas dado o alto nível de álbuns recentes do bardo, como Time of Mind (1997), Love and Theft (2001) e Modern Times (2006), Tempest - disco enraizado em algum lugar do passado - é outra (bela) prova de que Bob Dylan sabe versar como poucos como a divina tragédia humana.

Maria disse...

Bela resenha Mauro! Dylan é mestre.

Anônimo disse...

Se é tudo isso mesmo é de se tirar o chapéu esse "final de carreira" produtivo e relevante de Dylan.
De fato, coisa bem rara em artistas com esse tempo de estrada.

Rafael M. disse...

O bardo como sempre está ótimo, e como um belo vinho, soube enveclhecer muito bem. E "Tempest" só confirma isso. Vida longa a Dylan!!!