Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Dose Certa colhe frutos do Fundo de Quintal no CD ''Pra Sempre Samba'

Resenha de CD
Título: Pra Sempre Samba
Artista: Dose Certa
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * 

Enquanto o pagode romântico dá sinais de desgaste no mercado comum da música, minado pela supremacia do sertanejo pop que tem ditado normas e padrões na indústria da música, um grupo de São Paulo (SP) chega para relembrar que o quintal brasileiro já deu frutos mais nobres na seara do samba. Contudo, o quinteto  - intitulado Dose Certa e formado por Alemão do Cavaco (cavaquinho e voz), Vitor da Candelária (percussão), Wilsinho do Peruche (voz e pandeiro), J. Petróleo(voz e banjo) e Vinicius Almeida (baixo e violões) - não escapa do formato ao vivo recorrente no sucateado mercado fonográfico nativo. Gravado em show no Teatro Fecap, em São Paulo (SP), o CD Pra Sempre Samba enfatiza já no título o apego às tradições do gênero, reverenciado logo na faixa que abre o disco, Samba, Eu te Agradeço (Mauro Diniz). Tema de grande beleza melódica gravado com o adesão vocal de Ivan Lins, No Compasso do Samba (Sereno e Moacyr Luz) reforça a assinatura do Dose Certa nesta espécie de carta de intenções que expressa a devoção do grupo aos cânones do samba mais nobre. Tanto que Velho João (Adilson Bispo e Zé Roberto) é (razoável) tributo à memória de João Nogueira (1941 - 2000), encerrado com citação de Batendo a Porta (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1974), exemplo do poder do saudoso criador. Já A Rosa e o Beija-Flor (Milbe, Yvison Bezerra e Gerson da Banda) exala perfume lírico no quintal do Dose Certa. Os arranjos - divididos entre Alemão do Cavaco, o maestro Ivan Paulo e Mauro Diniz - acentuam o salutar tradicionalismo do álbum produzido por Luiz Ribeiro. Além de avalizar o samba do Dose Certa, a lista de convidados do disco - a maioria egressa das rodas, pagodes e quintais do Rio de Janeiro (RJ) - ajudar a quebrar preconceitos pela origem paulista do quinteto, propagado em bar de Vila Madalena. Pedro Miranda ajuda a reacender a chama do partido alto em Fogão de Lenha (Toninho Geraes e Toninho Nascimento). Bom compositor que não emplacou como cantor, Wanderley Monteiro ajuda o grupo a dar voz à nostalgia amorosa de Perseguir a Paz, parceria sua com o bamba Luiz Carlos da Vila (1949 - 2008). Já Ana Costa alinha desavenças conjugais em dueto com J. Petróleo em Ela e Ele (J. Petróleo). Estranha no ninho do samba, Verônica Ferriani reitera a beleza de sua voz ao dar a mediana Receita de Samba (Dona Ivone Lara, André Lara e João Martins). Por mais que o repertório inédito de Pra Sempre Samba soe irregular ao longo das 16 faixas do CD, perdendo na comparação com temas já conhecidos como Cândidas Neves (Zé Renato e Nei Lopes), faixa ambientada pelo grupo em clima de terreiro, o disco resulta coerente e sem apelação. É nessa atmosfera de terreiro que o Dose Certa também aclimata O Tombo da Corrente (J. Petróleo e Nelson Papa), evocação da raiz africana do samba, feita com o reforço vocal de Leci Brandão. Mesmo fora do terreiro, o Dose Certa mostra no registro ao vivo que soube colher os melhores frutos do Fundo de Quintal.

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Enquanto o pagode romântico dá sinais de desgaste no mercado comum da música, minado pela supremacia do sertanejo pop que tem ditado normas e padrões na indústria da música, um grupo de São Paulo (SP) chega para relembrar que o quintal brasileiro já deu frutos mais nobres na seara do samba. Contudo, o quinteto - intitulado Dose Certa e formado por Alemão do Cavaco (cavaquinho e voz), Vitor da Candelária (percussão), Wilsinho do Peruche (voz e pandeiro), J. Petróleo(voz e banjo) e Vinicius Almeida (baixo e violões) - não escapa do formato ao vivo recorrente no sucateado mercado fonográfico nativo. Gravado em show no Teatro Fecap, em São Paulo (SP), o CD Pra Sempre Samba enfatiza já no título o apego às tradições do gênero, reverenciado logo na faixa que abre o disco, Samba, Eu te Agradeço (Mauro Diniz). Tema de grande beleza melódica gravado com o adesão vocal de Ivan Lins, No Compasso do Samba (Sereno e Moacyr Luz) reforça a assinatura do Dose Certa nesta espécie de carta de intenções que expressa a devoção do grupo aos cânones do samba mais nobre. Tanto que Velho João (Adilson Bispo e Zé Roberto) é (razoável) tributo à memória de João Nogueira (1941 - 2000), encerrado com citação de Batendo a Porta (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1974), exemplo do poder do saudoso criador. Já A Rosa e o Beija-Flor (Milbe, Yvison Bezerra e Gerson da Banda) exala perfume lírico no quintal do Dose Certa. Os arranjos - divididos entre Alemão do Cavaco, o maestro Ivan Paulo e Mauro Diniz - acentuam o salutar tradicionalismo do álbum produzido por Luiz Ribeiro. Além de avalizar o samba do Dose Certa, a lista de convidados do disco - a maioria egressa das rodas, pagodes e quintais do Rio de Janeiro (RJ) - ajudar a quebrar preconceitos pela origem paulista do quinteto, propagado em bar de Vila Madalena. Pedro Miranda ajuda a reacender a chama do partido alto em Fogão de Lenha (Toninho Geraes e Toninho Nascimento). Bom compositor que não emplacou como cantor, Wanderley Monteiro ajuda o grupo a dar voz à nostalgia amorosa de Perseguir a Paz, parceria sua com o bamba Luiz Carlos da Vila (1949 - 2008). Já Ana Costa alinha desavenças conjugais em dueto com J. Petróleo em Ela e Ele (J. Petróleo). Estranha no ninho do samba, Verônica Ferriani reitera a beleza de sua voz ao dar a mediana Receita de Samba (Dona Ivone Lara, André Lara e João Martins). Por mais que o repertório inédito de Pra Sempre Samba soe irregular ao longo das 16 faixas do CD, perdendo na comparação com temas já conhecidos como Cândidas Neves (Zé Renato e Nei Lopes), faixa ambientada pelo grupo em clima de terreiro, o disco resulta coerente e sem apelação. É nessa atmosfera de terreiro que o Dose Certa também aclimata O Tombo da Corrente (J. Petróleo e Nelson Papa), evocação da raiz africana do samba, feita com o reforço vocal de Leci Brandão. Mesmo fora do terreiro, o Dose Certa mostra no registro ao vivo que soube colher os melhores frutos do Fundo de Quintal.

Rafael M. disse...

Há tempos tenho esse disco do Dose Certa. É é bacana o trabalho e a contribuição que eles fazem para o samba.