Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Álbum solo de Lucy Alves deixa a artista sem identidade na nação nordestina

Resenha de álbum
Título: Lucy Alves
Artista: Lucy Alves
Gravadora: Universal Music
Cotação: * *

 À frente do grupo Clã Brasil, a cantora e compositora Lucy Alves desenvolvia trabalho autoral que entra em recesso por tempo indeterminado para que a artista paraibana possa promover seu primeiro disco solo, Lucy Alves, gravado e editado pela multinacional Universal Music no embalo da participação da cantora na segunda temporada do programa The Voice Brasil (TV Globo, 2013). Sem desafiar as leis já caducas do mercado fonográfico, Lucy perde sua identidade neste CD em que o produtor Alexandre Castilho faz a cantora soar como uma Elba Ramalho genérica quando dá sua (boa) voz a sucessos como De volta pro aconchego (Dominguinhos e Nando Cordel, 1985) e Ai, que saudade de ocê (Vital Farias, 1982). O problema do álbum solo de Lucy Alves nem reside no repertório pontuado por regravações de hits da nação nordestina. Mas no fato de os arranjos desses sucessos serem calcados nas orquestrações das gravações originais. Quando Lucy canta o frevo-quadrilha Festa do interior (Moraes Moreira e Abel Silva, 1981), é impossível dissociar sua gravação do registro original de Gal Costa, por exemplo. Da mesma forma, a abordagem do Frevo mulher (Zé Ramalho, 1979) é enquadrada na mesma moldura clássica das gravações das cantoras Amelinha e Elba Ramalho. A opção pelo caminho mais fácil faz com que Lucy Alves soe neste preguiçoso primeiro disco solo como uma cantora de barzinho, apta a cantar sucessos como o baião Qui nem jiló (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950) e a toada Gostoso demais (Dominguinhos e Nando Cordel, 1986) - unida no CD em medley a Isso aqui tá bom demais (Dominguinhos e Nando Cordel, 1985) - do jeito convencional que o grande público gosta. Dessa forma burocrática, todo o sentimento de Disparada (Geraldo Vandré e Theo de Barros, 1966) e Segue o seco (Carlinhos Brown, 1994) se esvai em interpretações sem alma. É pena, pois os poucos acertos do disco indicam que Lucy Alves pode vir a se tornar uma sucessora de sua conterrânea Elba Ramalho se fortalecer sua personalidade artística. A música inédita de Marisa Monte com Carlinhos Brown - Se você vai, eu vou, toada-canção de leve acento nordestino - é bonita, reiterando a habilidade de Marisa e Brown para fazer músicas simples e sedutoras. A transformação de Olhos nos olhos (Chico Buarque, 1976) em xote romântico - embora dilua a densidade da canção do compositor - até cai bem por ser raro momento do disco em que Lucy Alves se descola de gravações posteriores. Há discreta ousadia também no arranjo de Tropicana (morena Tropicana) (Alceu Valença e Vicente Barreto, 1982), reggae cantado por Lucy em dueto com o autor e intérprete original do hit, Alceu Valença, admirador da cantora desde os tempos do Clã Brasil.  Por fim, a regravação de Amor a perder de vista - bom xote romântico composto por Lucy com seu pai José Hilton Alves, o Badu, e lançado pelo Clã Brasil em 2006 - sinaliza que repertório mais autoral, se mixado com regravações inventivas, poderia delinear mais a (por ora... perdida) identidade de Lucy Alves na nação nordestina.

16 comentários:

Mauro Ferreira disse...

À frente do grupo Clã Brasil, a cantora e compositora Lucy Alves desenvolvia trabalho autoral que entra em recesso por tempo indeterminado para que a artista paraibana possa promover seu primeiro disco solo, Lucy Alves, gravado e editado pela multinacional Universal Music no embalo da participação da cantora na segunda temporada do programa The Voice Brasil (TV Globo, 2013). Sem desafiar as leis já caducas do mercado fonográfico, Lucy perde sua identidade neste CD em que o produtor Alexandre Castilho faz a cantora soar como uma Elba Ramalho genérica quando dá sua (boa) voz a sucessos como De volta pro aconchego (Dominguinhos e Nando Cordel, 1985) e Ai, que saudade de ocê (Vital Farias, 1982). O problema do álbum solo de Lucy Alves nem reside no repertório pontuado por regravações de hits da nação nordestina. Mas no fato de os arranjos desses sucessos serem calcados nas orquestrações das gravações originais. Quando Lucy canta o frevo-quadrilha Festa do interior (Moraes Moreira e Abel Silva, 1981), é impossível dissociar sua gravação do registro original de Gal Costa, por exemplo. Da mesma forma, a abordagem do Frevo mulher (Zé Ramalho, 1979) é enquadrada na mesma moldura clássica das gravações das cantoras Amelinha e Elba Ramalho. A opção pelo caminho mais fácil faz com que Lucy Alves soe neste preguiçoso primeiro disco solo como uma cantora de barzinho, apta a cantar sucessos como o baião Qui nem jiló (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950) e a toada Gostoso demais (Dominguinhos e Nando Cordel, 1986) - unida no CD em medley a Isso aqui tá bom demais (Dominguinhos e Nando Cordel, 1985) - do jeito convencional que o grande público gosta. Dessa forma burocrática, todo o sentimento de Disparada (Geraldo Vandré e Theo de Barros, 1966) e Segue o seco (Carlinhos Brown, 1994) se esvai em interpretações sem alma. É pena, pois os poucos acertos do disco indicam que Lucy Alves pode vir a se tornar uma sucessora de sua conterrânea Elba Ramalho se fortalecer sua personalidade artística. A música inédita de Marisa Monte com Carlinhos Brown - Se você vai, eu vou, toada-canção de leve acento nordestino - é bonita, reiterando a habilidade de Marisa e Brown para fazer músicas simples e sedutoras. A transformação de Olhos nos olhos (Chico Buarque, 1976) em xote romântico - embora dilua a densidade da canção do compositor - até cai bem por ser raro momento do disco em que Lucy Alves se descola de gravações posteriores. Há discreta ousadia também no arranjo de Tropicana (morena Tropicana) (Alceu Valença e Vicente Barreto, 1982), reggae cantado por Lucy em dueto com o autor e intérprete original do hit, Alceu Valença, admirador da cantora desde os tempos do Clã Brasil. Por fim, a regravação de Amor a perder de vista - bom xote romântico composto por Lucy com seu pai José Hilton Alves, o Badu, e lançado pelo Clã Brasil em 2006 - sinaliza que repertório mais autoral, se mixado com regravações inventivas, poderia delinear mais a (por ora, perdida) identidade de Lucy Alves na vasta nação nordestina.

Nina . disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marlos Chambela disse...

Respeito muito as suas opiniões e comentários, Mauro, mas acho que aqui (e em uma ou outra ocasião que já pude ver também) houve um pouco de um conceito pré-formado e falta de "sentir" melhor a proposta do trabalho em questão.

Seria mais ou menos como se alguém me pedisse pra comentar um disco do Sepultura ou do Iron Maiden e eu dissesse que é uma barulheira nada musical. Ora! Eu não curto e não absorvo bem o estilo (Heavy metal, no exemplo que dei) e acabaria não levando em conta a qualidade do trabalho deles, afinal são muito bons no que fazem mas sou eu quem não curte aquele estilo! Creio que você tenha escutado o disco da Lucy Alves muito "tecnicamente" e até já propenso a não gostar, confrontando-o com alguns conceitos já estabelecidos antes.

Quando falo de alguns "conceitos", eu poderia citar o seguinte: Em alguns comentários que já li, parece que você costuma considerar que pra algo ser bom tem que ser "ousado" ou inovador. Mas na verdade, não existe essa regra! Muitas vezes, um trabalho totalmente clichê é o que mais consegue atingir o sentimento do ouvinte!! Essas coisas são meio sem explicação, não é mesmo? Eu (muito raramente) às vezes gosto de comentar no meu blog algum disco... Não faço isso com compromisso e nem tão brilhantemente como você, mas às vezes acabo também cometendo algum "deslise" desse tipo, porque o nosso gosto pessoal acaba prevalecendo no que escrevemos. Por isso, às vezes é melhor até "filtrar" um pouquinho o estilo dos discos que vai comentar, pra não ser implacável demais com aquilo que não é do nosso gosto mas que pode, sim, ser bom pra quem curte tal estilo.

Com respeito, espero que não interprete erradamente e nem fique "p" com esse meu "toque".

Abração,
Marlos Chambela

Dona Emengarda disse...

Isso está parecendo uma Aquarela Nordestina! Esperemos que não venham sequências

Fabio disse...

Só de ouvir alguns "samples" dá pra perceber que a crítica do Mauro é 100% precisa. Ai, esses fãs que defendem seus "astros" são cansativos.

Mauro Ferreira disse...

Marlos, grato por seu comentário, muito bem-vindo, pois feito sem agressividade. Não, nem tudo que é bom é ousado. Tem muita 'ousadia' que resulta estéril (leia a crítica do tributo ao Belchior). Repare que, na resenha, eu elogio a música inédita da Marisa e do Brown, simples e de bom gosto. A questão é que Lucy Alves foi levada - assim como seus colegas do 'The Voice' - a gravar um preguiçoso disco de 'covers' que anula sua personalidade artística. O problema não reside em Lucy Alves, mas na forma como o disco foi conduzido. O termo 'barzinho' é usado para caracterizar cantores que interpretam músicas de sucessos no mesmo molde das gravações originais. Abs, MauroF

Junior Neves disse...

Não vi comentário algum feito com agressividade . Só porque a garota lá em cima lhe chamou de " crítico de barzinho " ?? Ora bolas, Critico de barzinho também pode ser entendido como aqueles pseudos analistas musicais que se prendem a determinados conceitos e não conseguem fugir dele . E aqui pra nós , o termo lhe cabe com uma luva....

Anto =] disse...

Sempre serei grato à Lucy, através dela conheci o trabalho magnífico do Geraldo Vandré e Luiz Gonzaga, desse estilo tão pouco difundido pela mídia. Esperava ouvir "Disparada" completa, não só aquele mesmo pedaço que tocou no The Voice. É uma obra de arte (Com Geraldo principalmente, mas também amo a versão da Lucy).

Enfim, eu acho que a intenção da gravadora era justamente essa, trazer esse cd num estilo mais próximo do que o grande público goste. Espero que o próximo seja formado em sua maioria por músicas de autoria da Lucy. A última música do CD mostra que ela tem talento também como compositora.

Esse comentário não foi bem uma crítica ao cd ou ao seu post. É mais um desabafo.

Eu respeito extremamente a Lucy. Conseguiu fazer um fã de Heavy Metal como eu me apaixonar pela música nordestina.

Abraços.

Eduardo Cáffaro disse...

Eu ouvi alguns trechos , e concordo totalmente com Mauro. Ela tem um material vocal bonitinho, não me impressiona em nada, mas é afinada, é instrumentista, isso é ótimo, é um diferencial. Sanfona, piano, etc ...poderia ter feito um CD maravilhoso, mas no Brasil tem muito disso , a gravadora contrata o artista e chama um cara PRA FAZER O DISCO DO ARTISTA, MOLDAR, BOTAR O ARTISTA NUMA GAVETINHA , e o resultado é como de todos os artistas que caem nessa armadilha, não passam do 2º CD ...quando gravam um segundo. Uma grande pena mesmo.

Victor Moraes, disse...

Ou pensa no disco durante o programa ou trabalha apenas um EP quando sair. Os CDs tem sido feito as pressas e ficados sem forma - entre a maioria dos participantes de programas assim.
Acho que deviam ter peito de fazer um disco de inéditas. Falta isso. Falta peitar a gravadora também, que deve forçar o jeito fácil.
Enfim, acho que se fosse um calouro do The Voice pensaria num repertório desde o primeiro dia de programa e lançaria um EP, fugia das musicas já cantadas no programa... Enfim, ter preguiça na oportunidade da vida é complicado.

ADEMAR AMANCIO disse...

É estranho alguém ainda achar que o crítico vai refletir o seu gosto pessoal, e não o dele que é o "crítico".Essa unanimidade só acontece(quase sempre) com os discos e artistas que já se estabeleceram como clássicos.

Cadu Oliveira disse...

Crítico de barzinho foi uma expressão sem sentido, grosseira e injusta. Pela crítica do Mauro, depreendi que a cantora é boa, mas o disco, mais do mesmo. Quem gostou, gostou, viva! Quem não, pena, não dá pra agradar a todos.

Aldo disse...

Acompanho o Mauro tem uns 10 anos e sempre é um prazer ler suas críticas. O crítico, antes de tudo é a pessoa sspecializada que emite uma opinião. Não somos obrigados a concordar e nem temos o direito de agir com grosseria e falta de cordialidade. Não escutei o album da Lucy ainda, mas confesso que o playlist é decepcionante! Concordo plenamente com o Mauro, ainda mais ela que já tinha um trabalho consolidado antes do "The Voice". Infelizmente a gravadora deve ter feito essa imposição quanto ao repertório, tomara que em um próximo álbum ela tenha liberdade para arriscar mais.

Nina . disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Cáffaro disse...

Cantor / cantora de barzinho / não é ofensivo mesmo ! caracteriza a pessoa que canta covers, para que o ambiente tenha música ao vivo. Quanto mais parecido com o original, mais os Donos de casas noturnas gostam. Eu sei porque já fiz muuuuito barzinho. Agora uma pessoa que se destaca num programa com a Audiência do THE VOICE, deveria aproveitar a oportunidade ( o mundo inteiro te viu ) e lançar um CD que fizesse alguma diferença ...eu ouvi o CD SIM, e digo na boa, fico com as gravações originais. Uma grande pena. Ela podia ter feito algo muito legal e não fez. Ou não deixaram ela fazer.

Severo Crattos disse...

Olá Mauro, gostei do seu comentário. Está bem crítico no sentido stricto.
Contudo, é preciso entender que este CD da Lucy pode ser considerado como sendo o primeiro pra valer de sua carreira musical (que esperamos seja longa e bem sucedida). A Lucy é portanto debutante no senário nacional e notava-se uma certa pressa de se apresentar esse trabalho inicial.
Eu não esperava mais do que foi apresentado e até que gostei. Acho que os próximos trabalhos da Lucy virão muito mais elaborados e ela se firmará não só como uma cantora nordestina, mas também uma artista da MPB. Aliás, essa inclusão da Lucy na MPB tem o dedo do Brown e é proposital. Uma artista completa como a Lucy não pode ficar restrita ao cancioneiro nordestino.

Um abraço

Severino Ferreira - do Rio de Janeiro