Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Rappa se desgasta entre a automação e a autoajuda de 'Nunca tem fim...'

Resenha de CD
Título: Nunca tem fim...
Artista: O Rappa
Gravadora: Warner Music
Cotação: * * 

"O caminho não está pronto, mas / É preciso sempre caminhar muito mais / O caminho se mostra enquanto persistente / Caminhar sempre pra frente", receita Marcelo Falcão, com a voz abafada por efeitos eletrônicos, em O horizonte é logo ali (Vê Domingos, Marcelo Falcão, Xandão, Marcelo Lobato, Lauro Farias e Tom Saboia), faixa dub que abre o nono álbum d'O Rappa, Nunca tem fim..., recém-lançado pela Warner Music. Produzido por Tom Saboia com o próprio Rappa, o sexto disco de inéditas do grupo carioca recicla a mistura de pop, rock e reggae com os vícios e virtudes da discografia da banda na fase pós-saída de Marcelo Yuka. Sim, o impacto da ruidosa saída de Yuka do grupo, em 2002, ainda é sentido nas letras. Embora cobertas por verniz politizado, algumas resvalam na autoajuda, caso dos versos positivistas de Um dia lindo (Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia), música que encerra Nunca tem fim... com citação de Praia e sol (Bebeto e Adilson Silva) - samba-rock do cantor e compositor carioca Bebeto, lançado pelo autor em 1981 no álbum Batalha maravilhosa (RCA) - e o discurso do rap de Edi Rock, integrante do grupo paulista Racionais MC's. De todo modo, as letras são somente um dos problemas do disco - e nem é o mais grave. Nunca tem fim... desperta a velha sensação de que O Rappa se escora na excelência da produção de seus CDs - pontuados por grooves azeitados e arranjos eloquentes - para disfarçar a irregularidade do repertório autoral da banda. Nem a sagaz conexão com o compositor pernambucano Lula Queiroga - parceiro dos músicos em Auto-reverse (Lula Queiroga, Vê Domingos, Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia), tema que também cai na autojuda, e no reggae Boa noite, Xangô (Lula Queiroga, Vê Domingos, Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia) - colabora para dar algum brilho adicional à safra autoral do álbum. E é assim, com mais atitude do que boa música, que o álbum transcorre entre a autoajuda e automação provocada pelo uso de fórmula já desgastada. "Não existe nada melhor do que estar livre", enfatiza Falcão ao repetir o verso de Fronteira (D.U.C.A.) (Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia), música que conta de forma rasa a história de conhecido dos músicos da banda, preso por aceitar transportar drogas. "Pra quem tem fé, a vida nunca tem fim", assegura Falcão, em novo momento de autoajuda, em verso de Anjos (Pra quem tem fé) (Marcelo Falcão e Tom Saboia), manifesto em favor da vida que roça os sete minutos. Com citações bíblicas, a música se destaca dentre as dez irregulares inéditas. Cruz de tecido (Vinicius Falcão, Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia) protesta com óbvia contundência contra a impunidade dos culpados por queda de avião no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo (SP), que provocou 199 mortes em 2007. Doutor, sim senhor! (Marcos Lobato, Marcelo Lobato, Xandão, Marcelo Falcão, Lauro Farias e Tom Saboia) se escora na interação inebriante entre guitarras e metais - exemplo de como a pegada do som do Rappa acaba valorizando uma música em si fraca. Metais também turbinam Sequência terminal (Marcos Lobato, Marcelo Lobato, Xandão, Marcelo Falcão, Lauro Farias e Tom Saboia), mais uma música que parece desgastar O Rappa por conta do (ab)uso de receita que soa menos forte na comparação com o som de álbuns como Rappa múndi (1996) e, sobretudo, a obra-prima Lado B, lado A (1999). Vida rasteja (Marcelo Lobato, Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão e Tom Saboia) corrobora a sensação de que o grupo precisa mudar o disco urgentemente, com conexões mais fortes, antes que comece a soar como clone de si mesmo. Pra quem tem fé na vida, a coragem de se renovar e mudar nunca deve ter fim.

6 comentários:

Mauro Ferreira disse...

"O caminho não está pronto, mas / É preciso sempre caminhar muito mais / O caminho se mostra enquanto persistente / Caminhar sempre pra frente", receita Marcelo Falcão, com a voz abafada por efeitos eletrônicos, em O horizonte é logo ali (Vê Domingos, Marcelo Falcão, Xandão, Marcelo Lobato, Lauro Farias e Tom Saboia), faixa dub que abre o nono álbum d'O Rappa, Nunca tem fim..., recém-lançado pela Warner Music. Produzido por Tom Saboia com o próprio Rappa, o sexto disco de inéditas do grupo carioca recicla a mistura de pop, rock e reggae com os vícios e virtudes da discografia da banda na fase pós-saída de Marcelo Yuka. Sim, o impacto da ruidosa saída de Yuka do grupo, em 2002, ainda é sentido nas letras. Embora cobertas por verniz politizado, algumas resvalam na autoajuda, caso dos versos positivistas de Um dia lindo (Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia), música que encerra Nunca tem fim... com citação de Praia e sol (Bebeto e Adilson Silva) - samba-rock do cantor e compositor carioca Bebeto, lançado pelo autor em 1981 no álbum Batalha maravilhosa (RCA) - e o discurso do rap de Edi Rock, integrante do grupo paulista Racionais MC's. De todo modo, as letras são somente um dos problemas do disco - e nem é o mais grave. Nunca tem fim... desperta a velha sensação de que O Rappa se escora na excelência da produção de seus CDs - pontuados por grooves azeitados e arranjos eloquentes - para disfarçar a irregularidade do repertório autoral da banda. Nem a sagaz conexão com o compositor pernambucano Lula Queiroga - parceiro dos músicos em Auto-reverse (Lula Queiroga, Vê Domingos, Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia), tema que também cai na autojuda, e no reggae Boa noite, Xangô (Lula Queiroga, Vê Domingos, Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia) - colabora para dar algum brilho adicional à safra autoral do álbum. E é assim, com mais atitude do que boa música, que o álbum transcorre entre a autoajuda e automação provocada pelo uso de fórmula já desgastada. "Não existe nada melhor do que estar livre", enfatiza Falcão ao repetir o verso de Fronteira (D.U.C.A.) (Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia), música que conta de forma rasa a história de conhecido dos músicos da banda, preso por aceitar transportar drogas. "Pra quem tem fé, a vida nunca tem fim", assegura Falcão, em novo momento de autoajuda, em verso de Anjos (Pra quem tem fé) (Marcelo Falcão e Tom Saboia), manifesto em favor da vida que roça os sete minutos. Com citações bíblicas, a música se destaca dentre as dez irregulares inéditas. Cruz de tecido (Vinicius Falcão, Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão, Marcelo Lobato e Tom Saboia) protesta com óbvia contundência contra a impunidade dos culpados por queda de avião no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo (SP), que provocou 199 mortes em 2007. Doutor, sim senhor! (Marcos Lobato, Marcelo Lobato, Xandão, Marcelo Falcão, Lauro Farias e Tom Saboia) se escora na interação inebriante entre guitarras e metais - exemplo de como a pegada do som do Rappa acaba valorizando uma música em si fraca. Metais também turbinam Sequência terminal (Marcos Lobato, Marcelo Lobato, Xandão, Marcelo Falcão, Lauro Farias e Tom Saboia), mais uma música que parece desgastar O Rappa por conta do (ab)uso de receita que soa menos forte na comparação com o som de álbuns como Rappa múndi (1996) e, sobretudo, a obra-prima Lado B, lado A (1999). Vida rasteja (Marcelo Lobato, Marcelo Falcão, Lauro Farias, Xandão e Tom Saboia) corrobora a sensação de que o grupo precisa mudar o disco urgentemente, com conexões mais fortes, antes que comece a soar como clone de si mesmo. Pra quem tem fé na vida, a coragem de se renovar e mudar nunca deve ter fim.

Danilo disse...

O Rappa sofre com a falta de talento pra escrever uma letra, simples assim. No Silêncio que Precede o Esporro conseguiram um resultado até que razoável. Ganharam fôlego escorado no repertório antigo no acústico, mas no 7 vezes as letras rasas já davam o tom, ai fechei a tampa com a banda. Nesse último já não tenho a menor curiosidade.

Eixão Urbano disse...

Eu achei genial! Vou comprar meu primeiro disco deles e vai ser este. Também quero o vinylsão. Bom pra (acordar)

FÁBIO JOSÉ Silva disse...

Perfeito!

Flavio Primo Dias dos Santos disse...

Bando de idiotas!!

Flavio Primo Dias dos Santos disse...

Vai pro inferno.