Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Emicida expõe os riscos e tensões da glória e dos guetos no primeiro álbum

Resenha de CD
Título: O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui
Artista: Emicida
Gravadora: Laboratório Fantasma
Cotação: * * * * 1/2

 "...Graças aos raps / Hoje eu ligo mais quebradas do que o Google Maps / Então respeite meus cabelos crespos, ok? Ok?", rima o paulistano Emicida - o rapper da vez na cena hip hop do Brasil - em Uruntu fristaili (Emicida). A marra da rima é diluída pela saudação aos orixás feita nesta última faixa do primeiro álbum do artista com o reforço de coro estelar que dilui a identidade das vozes de convidadas como Fabiana Cozza e Tulipa Ruiz. Com contundência e o sarcasmo exposto já no título O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui, o CD expande o caminho do artista, selando a condução de Emicida das rinhas dos guetos ao sucesso midiático. Em rotação na trilha sonora da novela Sangue bom, a sombria Zoião (Emicida, Felipe Vassão e DJ Zala) é a prova de que o som de Leandro Roque de Oliveira já transcendeu as quebradas do hip hop tupiniquim. Após duas mixtapes que abriram caminhos e um (recente) registro ao vivo de show feito com Criolo, o rapper da vez em 2011, Emicida amplia seu discurso num primeiro álbum pontuado tanto pelas levadas de samba como pelo poema Milionários do sonho (Elisa Lucinda), espalhado como jogral ao longo das 14 faixas do CD. O rapper avança e celebra conquistas sem deixar de olhar para trás e de reconhecer os companheiros da jornada, como sinaliza Nóiz (Emicida e Felipe Vassão), um dos raps mais tradicionais do álbum. Ao expor riscos e tensões da glória e dos guetos, O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui de certa forma costura a trajetória de Emicida, mirando o futuro com pé no passado. Tema de pressão pop roqueira, gravado com a adesão de Pitty, Hoje cedo (Emicida e Felipe Vassão) lembra que a chapa continua quente ao redor dos trilham o caminho do bem. Contudo, a delicadeza lúdica de Sol de giz de cera (Emicida e Felipe Vassão) - faixa gravada com os vocais de Tulipa Ruiz e Estela Virgílio (filha de Emicida) - mostra que é possível enternecer sem perder a consciência da dureza da luta cotidiana. "Sou eu quem mata o leão / Quem vence o dragão, ufa /.../ E ainda volto pra casa com a mistura / Cantando / Pa-pa-pa-pa-ráa", ressalta o pai amoroso. Em outro momento-família de O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui, Emicida põe sua mãe, Dona Jacira, na roda de samba armada ao fundo de Crisântemo (Emicida, Dona Jacira e Felipe Vassão), destaque do repertório autoral com sua batida inebriante e a azeitada mistura de samba e rap. Sem pesar a mão, Cristântemo aflora a dor dos que crescem órfãos de pai nas quebradas da vida. É cada um com sua cruz no gueto, como diz um dos versos de Bang! (Emicida, Ogi, Rael e Felipe Vassão), rap mais tenso em que o artista vencedor prega a perseverança no caminho do bem. Em tom que beira o blá-blá-blá cafajeste da vertente gangsta do hip hop norte-americano, o discurso de Trepadeira (Emicida e Felipe Vassão) - samba cantado por Emicida com Wilson das Neves - destoa da ideologia do CD ao expiar a dor de corno do homem traído e ferido em seu orgulho de macho. Gueto (Emicida e Leo Justi) vai mais fundo ao cavucar o resistente preconceito social / racial para concluir no fim da letra: "Nóiz sempre vai ser gueto". Contudo, a música tirou Emicida do gueto e, por isso, o rapper celebra o suingue do ritmista em Hino vira-lata (Emicida e Beatnick & K-Salaam), samba aditivado com o molejo do Quinteto em Branco e Preto, referência do bom samba de São Paulo (SP). Ainda dentro da roda, Samba do fim do mundo (Emicida e Felipe Vassão) sentencia que é preciso estar atento e forte enquanto Alma gêmea - tema que evoca o mel de um charm dos bailes de música preta brasileira - salpica poesia para exaltar a mulher amada. Enfim, O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui prova que os cabelos crespos de Emicida merecem respeito pela rota traçada pelo rapper do gueto à justa glória.

2 comentários:

Mauro Ferreira disse...

"...Graças aos raps / Hoje eu ligo mais quebradas do que o Google Maps / Então respeite meus cabelos crespos, ok? Ok?", rima o paulistano Emicida - o rapper da vez na cena hip hop do Brasil - em Uruntu fristaili (Emicida). A marra da rima é diluída pela saudação aos orixás feita nesta última faixa do primeiro álbum do artista com o reforço de coro estelar que dilui a identidade das vozes de convidadas como Fabiana Cozza e Tulipa Ruiz. Com contundência e o sarcasmo exposto já no título O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui, o CD expande o caminho do artista, selando a condução de Emicida das rinhas dos guetos ao sucesso midiático. Em rotação na trilha sonora da novela Sangue bom, a sombria Zoião (Emicida, Felipe Vassão e DJ Zala) é a prova de que o som de Leandro Roque de Oliveira já transcendeu as quebradas do hip hop tupiniquim. Após duas mixtapes que abriram caminhos e um (recente) registro ao vivo de show feito com Criolo, o rapper da vez em 2011, Emicida amplia seu discurso num primeiro álbum pontuado tanto pelas levadas de samba como pelo poema Milionários do sonho (Elisa Lucinda), espalhado como jogral ao longo das 14 faixas do CD. O rapper avança e celebra conquistas sem deixar de olhar para trás e de reconhecer os companheiros da jornada, como sinaliza Nóiz (Emicida e Felipe Vassão), um dos raps mais tradicionais do álbum. Ao expor riscos e tensões da glória e dos guetos, O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui de certa forma costura a trajetória de Emicida, mirando o futuro com pé no passado. Tema de pressão pop roqueira, gravado com a adesão de Pitty, Hoje cedo (Emicida e Felipe Vassão) lembra que a chapa continua quente ao redor dos trilham o caminho do bem. Contudo, a delicadeza lúdica de Sol de giz de cera (Emicida e Felipe Vassão) - faixa gravada com os vocais de Tulipa Ruiz e Estela Virgílio (filha de Emicida) - mostra que é possível enternecer sem perder a consciência da dureza da luta cotidiana. "Sou eu quem mata o leão / Quem vence o dragão, ufa /.../ E ainda volto pra casa com a mistura / Cantando / Pa-pa-pa-pa-ráa", ressalta o pai amoroso. Em outro momento-família de O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui, Emicida põe sua mãe, Dona Jacira, na roda de samba armada ao fundo de Crisântemo (Emicida, Dona Jacira e Felipe Vassão), destaque do repertório autoral com sua batida inebriante e a azeitada mistura de samba e rap. Sem pesar a mão, Cristântemo aflora a dor dos que crescem órfãos de pai nas quebradas da vida. É cada um com sua cruz no gueto, como diz um dos versos de Bang! (Emicida, Ogi, Rael e Felipe Vassão), rap mais tenso em que o artista vencedor prega a perseverança no caminho do bem. Em tom que beira o blá-blá-blá cafajeste da vertente gangsta do hip hop norte-americano, o discurso de Trepadeira (Emicida e Felipe Vassão) - samba cantado por Emicida com Wilson das Neves - destoa da ideologia do CD ao expiar a dor de corno do homem traído e ferido em seu orgulho de macho. Gueto (Emicida e Leo Justi) vai mais fundo ao cavucar o resistente preconceito social / racial para concluir no fim da letra: "Nóiz sempre vai ser gueto". Contudo, a música tirou Emicida do gueto e, por isso, o rapper celebra o suingue do ritmista em Hino vira-lata (Emicida e Beatnick & K-Salaam), samba aditivado com o molejo do Quinteto em Branco e Preto, referência do bom samba de São Paulo (SP). Ainda dentro da roda, Samba do fim do mundo (Emicida e Felipe Vassão) sentencia que é preciso estar atento e forte enquanto Alma gêmea - tema que evoca o mel de um charm dos bailes de música preta brasileira - salpica poesia para exaltar a mulher amada. Enfim, O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui prova que os cabelos crespos de Emicida merecem respeito pela rota traçada pelo rapper do gueto à glória.

Anônimo disse...

Acho o Emicida chato pra caramba.
E ainda se junta com Fabiana Cozza e Tulipa!
Dinheiro chama dinheiro e chato chama chato(a).
Enquanto isso fico no aguardo do segundo(pós notoriedade) do Criolo e esperando deitado(até sentado já cansou) o tb segundo do genial Black Alien.