Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Cordas encorpam som de Jeneci na busca do pop perfeito em 'De graça'

Resenha de CD
Título: De graça
Artista: Marcelo Jeneci
Gravadora: Slap (Som Livre)
Cotação: * * * * *
Álbum disponível para audição no site oficial do artista

Segundo álbum de Marcelo Jeneci, De graça roça a perfeição pop em repertório que atinge o mesmo alto nível de inspiração do primeiro CD do artista paulista, Feito pra acabar, um dos melhores discos de 2010. Como já havia sinalizado a música-título De graça (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), delícia pop que remete a Caetano Veloso e à efervescência rítmica da fase áurea da música afro-baiana rotulada como axé music, a safra do disco - produzido por Kassin com Adriano Cintra de copiloto - tem cacife para seduzir grandes públicos. A tal perfeição pop - buscada por muitos, mas atingida eventualmente por poucos como Jeneci - molda canções irresistíveis como Temporal, tema composto por Jeneci com Isabel Lenza, nome recorrente na ficha técnica do álbum, parceira de seis das 13 inéditas. Solar, Temporal enxerga luz no fim da tempestade. Disco inspirado pelo fim do casamento de Jeneci, De graça ressalta o valor das coisas boas e simples da vida, até por reconhecer a fragilidade da existência humana, tema de A vida é bélica (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), faixa que exemplifica o flerte do artista com o universo do pop rock entre versos como "O nosso peso é relativo à situação / Nossa leveza é compatível à imensidão". Tal flerte roqueiro sustenta a leveza de Nada a ver (Marcelo Jeneci), outra canção de perfeito acabamento pop. Contudo, os majestosos arranjos orquestrais do disco encorpam parte do cancioneiro de Jeneci em De graça, impedindo que o CD se limite a oferecer um punhado de hits em potencial (o que já seria um feito digno de aplausos e elogios numa época em que a geração pop brasileira caminha em contínuo descompasso com as massas). Já na primeira faixa - Alento (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), cujos versos receitam a música como o bálsamo capaz de aliviar as atribulações cotidianas - as cordas orquestradas pelo maestro norte-americano Jherek Bischoff sinalizam que, além da perfeição pop, o artista também buscou outros sentidos e sons neste disco. Tais orquestrações encorpam o som da música de Jeneci, sobretudo quando entra em cena o pianista brasileiro Eumir Deodato, arranjador de cinco faixas. Com maestria, Deodato faz com que suas cordas interajam harmoniosamente com a delicadeza da canção Tudo bem, tanto faz (Marcelo Jeneci, Laura Lavieri e Arnaldo Antunes), uma das duas músicas soladas por Laura Lavieri neste disco em que a sintonia dos vocais de Lavieiri com a voz de Jeneci contribui muito para o alcance da tal perfeição pop em faixas como O melhor da vida (Marcelo Jeneci e Luiz Tatit), tema de atmosfera leve que prega o bem-viver ("O que vale nessa vida é ver como você aproveita / Desde a hora que levanta até a hora que deita"). O outro solo de Lavieri acontece em Pra gente se desprender (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), música cheia de camadas, adensada de forma sublime pelas cordas orquestradas por Deodato. Tal densidade já havia sido sinalizada na faixa anterior, Um de nós (Marcelo Jeneci), canção que expia com resignação a dor da separação, com ciência de que um novo amor virá, como explicitado em letra da citada Pra gente se desprender entre versos como "E a cada ponto final / A história vai repetir / A gente é mais que um plural / E a vida é muito mais / Que a gente espera". Deodato reitera sua maestria ao arranjar a música que encerra o disco, 9 luas (Marcelo Jeneci e Raphael Costa), como peça sinfônica que atinge o céu em atmosfera etérea. Cada vez mais desenvolto como cantor (ainda que seu canto remeta ocasionalmente ao de Caetano Veloso, como em Sorriso madeira, canção de espírito pop tropicalista feita sem parceiro), Jeneci leva sua voz para regiões mais altas em 9 luas, fecho sublime para um disco que o confirma como um dos grandes compositores brasileiros do século XXI. As influências retrôs - Jovem Guarda, Caetano Veloso e até doo-wop, evocado na arquitetura de Julieta (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza) - estão todas lá, reprocessadas antropofagicamente com linguagem contemporânea sem anular a personalidade de Jeneci como excepcional compositor. "Além de mim / Não tem ninguém / Que seja eu",  sentencia o cantor, enfatizando a individualidade humana com reforço de coro festivo, em Só eu sou eu (Marcelo Jeneci e Arthur Nestrovisk), outra delícia pop deste álbum (patrocinado pelo projeto Natura Musical) que chega às lojas em novembro - em edição do selo Slap (da gravadora Som Livre) - já se impondo como um dos grandes discos deste ano de 2013.

13 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Segundo álbum de Marcelo Jeneci, De graça roça a perfeição pop em repertório que atinge o mesmo alto nível de inspiração do primeiro CD do artista paulista, Feito pra acabar, um dos melhores discos de 2010. Como já havia sinalizado a música-título De graça (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), delícia pop que remete a Caetano Veloso e à efervescência rítmica da fase áurea da música afro-baiana rotulada como axé music, a safra do disco - produzido por Kassin com Adriano Cintra de copiloto - tem cacife para seduzir grandes públicos. A tal perfeição pop - buscada por muitos, mas atingida eventualmente por poucos como Jeneci - molda canções irresistíveis como Temporal, tema composto por Jeneci com Isabel Lenza, nome recorrente na ficha técnica do álbum, parceira de seis das 13 inéditas. Solar, Temporal enxerga luz no fim da tempestade. Disco inspirado pelo fim do casamento de Jeneci, De graça ressalta o valor das coisas boas e simples da vida, até por reconhecer a fragilidade da existência humana, tema de A vida é bélica (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), faixa que exemplifica o flerte do artista com o universo do pop rock entre versos como "O nosso peso é relativo à situação / Nossa leveza é compatível à imensidão". Tal flerte roqueiro sustenta a leveza de Nada a ver (Marcelo Jeneci), outra canção de perfeito acabamento pop. Contudo, os majestosos arranjos orquestrais do disco encorpam parte do cancioneiro de Jeneci em De graça, impedindo que o CD se limite a oferecer um punhado de hits em potencial (o que já seria um feito digno de aplausos e elogios numa época em que a geração pop brasileira caminha em contínuo descompasso com as massas). Já na primeira faixa - Alento (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), cujos versos receitam a música como o bálsamo capaz de aliviar as atribulações cotidianas - as cordas orquestradas pelo maestro norte-americano Jherek Bischoff sinalizam que, além da perfeição pop, o artista também buscou outros sentidos e sons neste disco. Tais orquestrações encorpam o som da música de Jeneci, sobretudo quando entra em cena o pianista brasileiro Eumir Deodato, arranjador de cinco faixas. Com maestria, Deodato faz com que suas cordas interajam harmoniosamente com a delicadeza da canção Tudo bem, tanto faz (Marcelo Jeneci, Laura Lavieri e Arnaldo Antunes), uma das duas músicas soladas por Laura Lavieri neste disco em que a sintonia dos vocais de Lavieiri com a voz de Jeneci contribui muito para o alcance da tal perfeição pop em faixas como O melhor da vida (Marcelo Jeneci e Luiz Tatit), tema de atmosfera leve que prega o bem-viver ("O que vale nessa vida é ver como você aproveita / Desde a hora que levanta até a hora que deita"). O outro solo de Lavieri acontece em Pra gente se desprender (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza), música cheia de camadas, adensada de forma sublime pelas cordas orquestradas por Deodato. Tal densidade já havia sido sinalizada na faixa anterior, Um de nós (Marcelo Jeneci), canção que expia com resignação a dor da separação, com ciência de que um novo amor virá, como explicitado em letra da citada Pra gente se desprender entre versos como "E a cada ponto final / A história vai repetir / A gente é mais que um plural / E a vida é muito mais / Que a gente espera".

Mauro Ferreira disse...

Deodato reitera sua maestria ao arranjar a música que encerra o disco, 9 luas (Marcelo Jeneci e Raphael Costa), como peça sinfônica que atinge o céu em atmosfera etérea. Cada vez mais desenvolto como cantor (ainda que seu canto remeta ocasionalmente ao de Caetano Veloso, como em Sorriso madeira, canção de espírito pop tropicalista feita sem parceiro), Jeneci leva sua voz para regiões mais altas em 9 luas, fecho sublime para um disco que o confirma como um dos grandes compositores brasileiros do século XXI. As influências retrôs - Jovem Guarda, Caetano Veloso e até doo-wop, evocado na arquitetura de Julieta (Marcelo Jeneci e Isabel Lenza) - estão todas lá, reprocessadas antropofagicamente com linguagem contemporânea sem anular a personalidade de Jeneci como excepcional compositor. "Além de mim / Não tem ninguém / Que seja eu", sentencia o cantor, enfatizando a individualidade humana com reforço de coro festivo, em Só eu sou eu (Marcelo Jeneci e Arthur Nestrovisk), outra delícia pop deste álbum (patrocinado pelo projeto Natura Musical) que chega às lojas em novembro - em edição do selo Slap (da gravadora Som Livre) - já se impondo como um dos grandes discos deste ano de 2013.

Fabio disse...

Até semana passada eu não gostava do Jeneci, mas quando ouvi De Graça mudei minha opinião prontamente!

O CD é excelente, arrebatador! Realmente merece as 5 estrelas e o mea culpa!

O CD é bom de cabo a rabo.

OBS: já à venda no iTunes.

noca disse...

"Descompasso com as massas"?A massa é que não foi acostumada com o bom gosto.Tanto é que duvido que o talentoso Jeneci emplaque esse trabalho para um grande público em termos de Brasil.Também acho que ele não tenha essa pretensão e nem vocação pessoal para isso.Eumir Deodato por ex. sempre vai soar classudo e elitista demais para os populistas de plantão.Esses que continuam querendo arruinar nossa musica e nossa cultura a custa de demagogias ultrapassadas que so servem a eles e não ao nosso povo pouco exigente e manipulável.

Mauro Ferreira disse...

Sim, Fábio, o CD é bom da primeira à última faixa. Noca, entendo e - até certo ponto - concordo com seu ponto de vista. Mas acho que gosto musical também se forma com a exposição de boa música. Se uma canção como "Temporal", por exemplo, entrar numa trilha de novela das nove da TV Globo e for tocada diariamente, acho que pode virar um hit nacional. As massas um dia já consumiram Sueli Costa na voz de Simone, para citar somente um exemplo. Abs, grato a todos pelos comentários, MauroF

Alfredo disse...

Um arraso de disco, merece todas as estrelas!!! Salve Jeneci.

Carla disse...

Gosto do Jeneci desde sempre rs. Mas esse disco tá ótimo, ouvi várias vezes, sem enjoar. Aliás esse novo trabalho tá menos "meloso" que o outro, gostando demais.

Rhenan Rodrigo disse...

Fico feliz que tenha estado bem humorado, Mauro! Hehehe!

Brincadeira! Apenas um gancho para dizer que talvez eu não esteja com autoestima suficientemente boa para achar o disco perfeito.

Nem de longe.

Irritação 1 - Ouvi o refrão de "Alento" e resmunguei, sem nem pensar: "Que diabos é isso?"

Sandy & Junior demais pra minha ranzinzisse. Mas juro que me sentei e continuei a escutar o disco, porque afinal é Jeneci, tem a voz da Lavieri, produção do Kassin, cordas com arranjos do Deodato... decerto me seria agradável.

Irritação 2 - Em "Feito pra acabar" a escolha de ora haver solos da Lavieri com (backing) vocais do Jeneci, ora o contrário, ou separação total das vozes, me pareceu funcionar bem melhor. Não sei se estou conseguindo ser claro, mas, a coisa das vozes sobrepostas me martela Sandy & Junior à mente o tempo inteiro! Maldita infância...

Irritação 3 - Não lido bem com essa poesia pueril que predomina nas faixas.

Poderia ter oferecido "Só eu sou eu" para a Partimpim.

Irritação 4 - A produção; os arranjos realmente roçam a perfeição. Tudo muito bem executado! O que me faz pensar se as canções sobrevivem sem essa sustentação. Ainda que estejamos falando do disco, quando penso em boas canções penso em melodias assobiáveis, acompanhadas somente de harmonias em violão... essas coisas simples da vida! :)

O que não interfere jamais na avaliação do disco, especificamente, claro.

Irritação 5 - Há anos não durmo escutando música. Dormi, ontem, durante "9 luas". Hoje, quando acordei e coloquei o disco para tocar novamente, pulei umas quatro ou cinco faixas com "aura Balão Mágico". Entre elas, a coisa do sorriso-madeira.

Talvez eu esteja com baixa produção de endorfina... O efeito contrário é achar os agudos do Jeneci (que agudos?) graváveis.

Mas sei que o disco é bom. Particularmente, "De Graça" me agrada MUITO! É viciante. "O melhor da vida" também é ótima. "A vida é bélica" já vale pelo título, muito boa também.

A capa do disco e o site são super bem feitos.

A propósito, é sempre muito sábio disponibilizar a audição pela internet. Quando não envolve nenhum iTunes da vida no meio é mais sábio ainda. Quem compra disco, compra disco. Logo, é preciso buscar todo o resto de ouvidos. Jeneci fez isso muito carinhosamente (ou, no mínimo, competentemente). Bacana!

Elba Mota disse...

E Rhenan, acho, com todo o respeito, que vc estava meio ranzinza, de onde vc tirou essa coisa de Sandy e Junior??? e olha que eu também ouvi a dupla, o cd está muito bom e bem menos meloso e auto ajuda como feito pra acabar, mas confesso que algumas faixas requer uma segunda audição, da mais uma chance que vale a pena!!!!

rafael h. disse...

achei um ótimo disco, uma surpresa premeditada.

ele é cheio de referências, e cada um tem uma maneira específica de lidar com as palavras

Vejo os grandes nomes da ficha técnica como 'importantes', porém, além de vontades (óbvio) do Marcelo, me parecem como suportes para o 'segundo disco', pra sustentar e dar crédito. Mas o resultado ficou incrível, músicas com várias camadas sem perder a ternura... do 'feito para acabar', a canção 'pense duas vezes antes de esquecer', que termina o disco, é um gatilho perfeito pra esse segundo. Bingo, Bingo, Bingo!

Rhenan Rodrigo disse...

Ouvi o disco mais algumas vezes, e continuo não conseguindo gostar da coisa sandy-&-junior-balão-mágico.

Consigo visualizar coreografias. Pânico!

André Luís disse...

Não quero esse disco de graça...

O blog disse...

De onde tiraram ecos de Sandy & Junior e Balão Magico e não sei. Mas gosto eh gosto e eu respeito. O disco esta maravilhoso.