Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Zélia 'tatia' segura e sedutora no limiar entre o teatro e a música (de Tatit)

Resenha de espetáculo
Título: Totatiando
Artista: Zélia Duncan
Direção: Regina Braga
Direção musical: Bia Paes Leme
Local: Sesc Belenzinho (São Paulo, SP)
Cotação: * * * * *
Em cartaz no Sesc Belenzinho, de quinta-feira a domingo, até 18 de setembro de 2011

Não é show, mas tem música e músicos no palco. Não é teatro, mas tem textos falados e textos dramatizados. Não é recital, mas tem poesia. Totatiando - o espetáculo ora encenado por Zélia Duncan no Sesc Belenzinho, em São Paulo (SP), neste mês de setembro de 2011 - transita no limiar entre a música e o teatro. A palavra cantada se irmana em cena com a palavra teatralizada, tal como na obra do compositor paulista Luiz Tatit, musa inspiradora do espetáculo. Totatiando celebra os 30 anos de carreira de Zélia Duncan de forma heterodoxa. Embaralhando papéis e personagens, a cantora se transforma em atriz e em outra persona artística para tatiar segura e sedutora nessa fronteira tênue, guiada pela direção de Regina Braga. Atriz festejada por sua trajetória nos palcos, Braga debuta na direção de forma feliz. Percebe-se o dedo da estilista na costura perfeita da cena sem que a diretora estreante queira aparecer mais do que a cantriz também estreante na função dupla. Do cenário arquitetado pela diretora de arte Simone Mina às atuações dos músicos, coadjuvantes indispensáveis para sublinhar o sentido do que é dito/cantado em cena, tudo soa integrado e harmonioso em Totatiando. Ao entrelaçar 15 temas de Tatit, o roteiro tece um emaranhado de sentidos e significados talvez até ocultos para quem enquadra a obra do compositor no escaninho musical. Os versos das duas primeiras músicas, O Meio (2000) e Ah! (1981), sinalizam de cara o tom geralmente lúdico da encenação. O Meio brinca metalinguisticamente com a dificuldade de iniciar algo - no caso, o próprio espetáculo. Ah! graceja com a procura pela palavra mais exata e plena de sentido. Já Haicai (1997) e Banzo (1992) são dois temas mais explicitamente teatralizados. As letras são encenadas como narrativas em que Zélia se porta como atriz em diálogo com as personagens dos versos de Tatit. Tal narrativa é intencionalmente, mais adiante, quebrada com texto em que Zélia expõe a relação de Tatit com Itamar Assumpção (1949 - 2003), parceiro do compositor em Dodói (2005), número em que Totatiando atinge seu pico emocional. Com humor quase sarcástico, Eu Sou Eu (1997) questiona as permanentes mutações do ser humano em que Zélia dialoga com foto em que aparece no início da carreira, vivida em Brasília (DF). Há música no roteiro teatral quando Zélia canta dois temas como Sem Destino (2010). Há música também quando o tecladista Tércio Guimarães - alocado no canto esquerdo do palco ao lado do guitarrista Webster Santos - simula a batida de um coração em De Favor (2010) em sintonia com os versos que falam do músculo que bombeia sangue e (figurativamente) emoções. Contudo, há - sobretudo - refinada teatralidade em Totatiando, exemplificada - por exemplo - no gestual delicado com que Zélia evoca um clown em Esboço (2000) e nas inflexões da recitada Felicidade (1997), música que faz parte do show Pelo Sabor do Gesto em tom menos teatral. No fecho, Rodopio (1992) faz uso da metalinguagem para explicitar a felicidade da cantora transformada em atriz por estar em cena interpretando letras e músicas de Luiz Tatit neste espetáculo tão leve e tão pleno de sentidos e significados.

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Não é show, mas tem música e músicos no palco. Não é teatro, mas tem textos falados e textos dramatizados. Não é recital, mas tem poesia. TôTatiando - o espetáculo ora encenado por Zélia Duncan no Sesc Belenzinho, em São Paulo (SP), neste mês de setembro de 2011 - transita no limiar entre a música e o teatro. A palavra cantada se irmana em cena com a palavra teatralizada, tal como na obra do compositor paulista Luiz Tatit, musa inspiradora do espetáculo. TôTatiando celebra os 30 anos de carreira de Zélia Duncan de forma heterodoxa. Embaralhando papéis e personagens, a cantora se transforma em atriz e em outra persona artística para tatiar segura e sedutora nessa fronteira tênue, guiada pela direção de Regina Braga. Atriz festejada por sua trajetória nos palcos, Braga debuta na direção de forma feliz. Percebe-se o dedo da estilista na costura perfeita da cena sem que a diretora estreante queira aparecer mais do que a cantriz também estreante na função dupla. Do cenário arquitetado pela diretora de arte Simone Mina às atuações dos músicos, coadjuvantes indispensáveis para sublinhar o sentido do que é dito/cantado em cena, tudo soa integrado e harmonioso em TôTatiando. Ao entrelaçar 15 temas de Tatit, o roteiro tece um emaranhado de sentidos e significados talvez até ocultos para quem enquadra a obra do compositor no escaninho musical. Os versos das duas primeiras músicas, O Meio (2000) e Ah! (1981), sinalizam de cara o tom geralmente lúdico da encenação. O Meio brinca metalinguisticamente com a dificuldade de iniciar algo - no caso, o próprio espetáculo. Ah! graceja com a procura pela palavra mais exata e plena de sentido. Já Haicai (1997) e Banzo (1992) são dois temas mais explicitamente teatralizados. As letras são encenadas como narrativas em que Zélia se porta como atriz em diálogo com as personagens dos versos de Tatit. Tal narrativa é intencionalmente, mais adiante, quebrada com texto em que Zélia expõe a relação de Tatit com Itamar Assumpção (1949 - 2003), parceiro do compositor em Dodói (2005), número em que TôTatiando atinge seu pico emocional. Com humor quase sarcástico, Eu Sou Eu (1997) questiona as permanentes mutações do ser humano em que Zélia dialoga com foto em que aparece no início da carreira, vivida em Brasília (DF). Há música no roteiro teatral quando Zélia canta dois temas como Sem Destino (2010). Há música também quando o tecladista Tércio Guimarães - alocado no canto esquerdo do palco ao lado do guitarrista Webster Santos - simula a batida de um coração em De Favor (2010) em sintonia com os versos que falam do músculo que bombeia sangue e (figurativamente) emoções. Contudo, há - sobretudo - refinada teatralidade em TôTatiando, exemplificada - por exemplo - no gestual delicado com que Zélia evoca um clown em Esboço (2000) e nas inflexões da recitada Felicidade (1997), música que faz parte do show Pelo Sabor do Gesto em tom menos teatral. No fecho, Rodopio (1992) faz uso da metalinguagem para explicitar a felicidade da cantora transformada em atriz por estar em cena interpretando letras e músicas de Luiz Tatit neste espetáculo tão leve e tão pleno de sentidos e significados.

Luca disse...

vi o espetáculo, que pra mim é um recital. Tá tudo de bom nível mesmo, a Zélia está bem, mas não acho que seja o caso de dar cinco estrelas. O Mauro tem suas protegidas. Zélia é da turma das eleitas.

Rodrigo disse...

Zélia é uma das poucas cantoras de sua geração que se arrisca e surpreende!!! As outras deviam se inspirar nessa coragem da Zélia. Foi assim com "Eu me transformo em outras" e agora com esse projeto sobre o Tatit. Muito bacana, boa sorte para ela, porque ela merece!!!

Juliane Ribeiro disse...

Oi Mauro,

Tudo bem?

Gostei bastante de uma resenha que você fez sobre o CD e DVD da Paula Fernandes, em fevereiro, e, como sou professora, gostaria de saber se posso mostrá-la aos meus alunos, devidamente citada, como exemplo de resenha.

PS: Por que você não coloca fácil um e-mail de contato no seu blog? Estou tendo o maior trabalho para lhe solicitar a divulgação da resenha, rs...

Mauro Ferreira disse...

Juliane, o canal de contato comigo é por aqui mesmo, via comentário. Milhares de pessoas transitam por aqui diariamente e eu não teria tempo para responder e-mails além dos dezenas de emails que já entram naturalmente, mandados por pessoas que trabalham no mercado fonográfico e têm meu e-mail.

Sim, pode mostrar a resenha aos seus alunos, claro. Fico feliz que tenha gostado da resenha. Abs, MauroF

Juliane Ribeiro disse...

Olá Mauro,

Entendi, tempo é algo escasso hoje mesmo... Obrigada pela resposta rápida e pela permissão para mostrar a resenha aos meus alunos.

Pelo pouco que vi,você publica muito no blog, e sobre diversos estilos musicais. Bacana o seu trabalho, vou ver se o consulto mais.

Um abraço,

Juliane

Paulo disse...

Momento desatenção. O que assunto " Paula Fernandes"( me economize!!) está fazendo nos comentários sobre o show da Zélia Duncan?? Esse ainda não assisti mas pretendo, mas a Paula Fernandes, dispenso: desde que cantou ao lado do Rei(???!!) que virou estrela da canção brasileira com direito a fã que se infiltra para promover( ou voce não entendeu o propósito da tal " professora?")
Abraço, bom que vc tenha descoberto Sampa
Paulo

Honrado Principe dos Ares Secos disse...

Mauro, viajei de Brasilia até Sao Paulo só pra assistir este espetáculo! É um espetáculo muito delicado, muito lindo, muito cheio de detalhes, a iluminação, os gestos, cada expressao corporal, cada passo no palco, cada pausa, cada palavra cantada, entoada, os músicos que interagem com ela, enfim, é uma riqueza de detalhes. Sem sobra de dúvida um dos espetáculos mais bonitos que eu já assisti em toda minha vida. A canção "De favor" é de uma sensibilidade ímpar, tudo aquilo representado com o som da batida do coração é simplesmente arrebatador!

Eu fiquei completamente hipnotizado, saí do teatro estonteado, levou um tempo pra eu assimilar tudo o q vi ali... Quem se deixa tocar pela arte da Zélia vai perceber que ela é muito mais do que a canções "Alma" e "Catedral". Zélia como "cantriz" atua como uma missionária da música mostrando a todo Brasil a importancia de compositores como Luiz Tatit, Itamar Assumpção, etc.

Fiquei muito feliz dela comemorar os 30 anos de carreira dela em alto nivel, inovando, se arriscando e mais uma vez se transformando em outra! Vida longa à Zélia!

Honrado Principe dos Ares Secos disse...

Mauro, viajei de Brasilia até Sao Paulo só pra assistir este espetáculo! É um espetáculo muito delicado, muito lindo, muito cheio de detalhes, a iluminação, os gestos, cada expressao corporal, cada passo no palco, cada pausa, cada palavra cantada, entoada, os músicos que interagem com ela, enfim, é uma riqueza de detalhes. Sem sobra de dúvida um dos espetáculos mais bonitos que eu já assisti em toda minha vida. A canção "De favor" é de uma sensibilidade ímpar, tudo aquilo representado com o som da batida do coração é simplesmente arrebatador!

Eu fiquei completamente hipnotizado, saí do teatro estonteado, levou um tempo pra eu assimilar tudo o q vi ali... Quem se deixa tocar pela arte da Zélia vai perceber que ela é muito mais do que a canções "Alma" e "Catedral". Zélia como "cantriz" atua como uma missionária da música mostrando a todo Brasil a importancia de compositores como Luiz Tatit, Itamar Assumpção, etc.

Fiquei muito feliz dela comemorar os 30 anos de carreira dela em alto nivel, inovando, se arriscando e mais uma vez se transformando em outra! Vida longa à Zélia!