Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

CD com música de Dori sobre poesia de Pinheiro brilha na terra e no mar

Resenha de CD
Título: Poesia Musicada
Artista: Dori Caymmi
Gravadora: Acari Records
Cotação: * * * *

"Estrela que me incendeia / Acende na terra / Acende na mata / Acende no mar, Candeia", entoa Dori Caymmi com seu canto denso e profundo que parece emergir do fundo do mar ou vir de dentro das matas. Os poéticos versos são de Estrela de Cinco Pontas, belíssimo tema que abre o CD Poesia Musicada, lançado pela Acari Records neste mês de setembro de 2011. A poesia é de Paulo César Pinheiro, autor das 13 letras inéditas musicadas por Dori - seu parceiro desde 1969, ano em que os compositores fizeram juntos Evangelho, música gravada por Dori em 1972 - para este álbum afinado que navega sempre em águas tradicionalistas. Conta Dori em breve texto escrito por ele para o encarte que o disco nasceu em junho de 2010, quando achou em seus guardados uma poesia de Pinheiro, Rede, musicada naquele mesmo instante. "Parece que ele gostou porque outras doze a seguiram e o resultado está aqui, Poesia Musicada, que acabou sendo a maneira perfeita para comemorar nossos 42 anos de parceria", conclui Dori no minitexto do CD, gravado em maio no Rio de Janeiro (RJ) e finalizado em junho nos Estados Unidos. A data não é redonda como a poesia de Pinheiro e a música de Dori. Mas isso pouco importa. Ambas - música e poesia - brilham no mar e na terra. Herdeiro das tradições de seu pai, um certo Dorival Caymmi (1914 - 2008), Dori enfileira canções praieiras como Marinhagem (a mais bonita da safra marítima, arranjada pelo artista com flautas de Teco Cardoso que remetem às orquestrações feitas por Dori em 1975 para a trilha sonora da novela Gabriela), Dona Iemanjá, Vereda, Canto Praieiro (outro destaque do repertório marítimo), Estrela Verde e Velho do Mar (Meu Pai), além da citada Rede. Da safra da terra, o maior trunfo de Poesia Musicada é Violeiro, toada seresteira, linda de doer. Outra toada, Projeto de Vida, é pontuada por imagens poéticas de idealizado cenário rural e pela sanfona de Toninho Ferragutti. Em paisagem mais cinzenta, Barco navega por águas mais bravias sem que Pinheiro perca o controle do leme poético. "Canoeiro, me perdoa, / Poesia é peixe não / Mas se pesca de canoa / Na maré do coração", ensina o poeta da música no refrão de Estrela Verde. Já Música no Ar tem seu clima seresteiro realçado na parte final pelos cavaquinhos de Luciana Rabello e Ana Rabello. Conceitual pela unidade estética dos versos de Pinheiro e das melodias de Dori, Poesia Musicada expõe o fino acabamento dessa parceria em que a música se harmoniza com a letra com tal precisão que parecem emergir da inspiração de um só compositor. É fato que o alto nível de inspiração melódica exibido por Dori na primeira metade do disco nem sempre se repete na segunda. Mas nem por isso Poesia Musicada deixa de ser álbum à altura do histórico da parceria já quarentona. "Porque a vida para / Para quem não cria", sentencia Dori em versos alocados pelo poeta ao fim da letra de Violeiro. Eles criam.

9 comentários:

Mauro Ferreira disse...

"Estrela que me incendeia / Acende na terra / Acende na mata / Acende no mar, Candeia", entoa Dori Caymmi com seu canto denso e profundo que parece emergir do fundo do mar ou vir de dentro das matas. Os poéticos versos são de Estrela de Cinco Pontas, belíssimo tema que abre o CD Poesia Musicada, lançado pela Acari Records neste mês de setembro de 2011. A poesia é de Paulo César Pinheiro, autor das 13 letras inéditas musicadas por Dori - seu parceiro desde 1969, ano em que os compositores fizeram juntos Evangelho, música gravada por Dori em 1970 - para este álbum afinado que navega sempre em águas tradicionalistas. Conta Dori em breve texto escrito por ele para o encarte que o disco nasceu em junho de 2010, quando achou em seus guardados uma poesia de Pinheiro, Rede, musicada naquele mesmo instante. "Parece que ele gostou porque outras doze a seguiram e o resultado está aqui, Poesia Musicada, que acabou sendo a maneira perfeita para comemorar nossos 42 anos de parceria", conclui Dori no minitexto do CD, gravado em maio no Rio de Janeiro (RJ) e finalizado em junho nos Estados Unidos. A data não é redonda como a poesia de Pinheiro e a música de Dori. Mas isso pouco importa. Ambas - música e poesia - brilham no mar e na terra. Herdeiro das tradições de seu pai, um certo Dorival Caymmi (1914 - 2008), Dori enfileira canções praieiras como Marinhagem (a mais bonita da safra marítima, arranjada pelo artista com flautas de Teco Cardoso que remetem às orquestrações feitas por Dori em 1975 para a trilha sonora da novela Gabriela), Dona Iemanjá, Vereda, Canto Praieiro (outro destaque do repertório marítimo), Estrela Verde e Velho do Mar (Meu Pai), além da citada Rede. Da safra da terra, o maior trunfo de Poesia Musicada é Violeiro, toada seresteira, linda de doer. Outra toada, Projeto de Vida, é pontuada por imagens poéticas de idealizado cenário rural e pela sanfona de Toninho Ferragutti. Em paisagem mais cinzenta, Barco navega por águas mais bravias sem que Pinheiro perca o controle do leme poético. "Canoeiro, me perdoa, / Poesia é peixe não / Mas se pesca de canoa / Na maré do coração", ensina o poeta da música no refrão de Estrela Verde. Já Música no Ar tem seu clima seresteiro realçado na parte final pelos cavaquinhos de Luciana Rabello e Ana Rabello. Conceitual pela unidade estética dos versos de Pinheiro e das melodias de Dori, Poesia Musicada expõe o fino acabamento dessa parceria em que a música se harmoniza com a letra com tal precisão que parecem emergir da inspiração de um só compositor. É fato que o alto nível de inspiração melódica exibido por Dori na primeira metade do disco nem sempre se repete na segunda. Mas nem por isso Poesia Musicada deixa de ser álbum à altura do histórico da parceria já quarentona. "Porque a vida para / Para quem não cria", sentencia Dori em versos alocados pelo poeta ao fim da letra de Violeiro. Eles criam.

Zé Henrique disse...

P.C.Pinheiro é um monstro.
A quantidade e qualidade de músicas que já fez... Nossa!
Tomara que ele lance em breve alguma coisa solo, gosto muito de sua voz cantando.
Acho que ótimo Lamento do Samba foi seu último cd.

Wilma Araújo disse...

Eu também fico impressionada com a quantidade de boas letras , escritas pelo genial P C Pinheiro.E o o Dori, ah!aqui em casa, nós adoramos ouvir Dori.Sua voz e musicalidade nos emocionam.Bom demais!

Wilma Araújo

Tombom disse...

Como é bom — revigorante — saber de um lançamento assim!

Luca disse...

Dori é um grande cantor, pelo menos pra mim, a voz dele me toca fundo. Paulo não é cantor, é compositor que canta de vez em quando. Prefiro ele na voz de outros cantores.

André Luís disse...

Mauro, por falar em Dori Caymmi e Zé Renato (postagem mais abaixo), tens notícia do novo álbum do Renato Braz, chamado "Casa de Morar"?! Ou algum outro projeto/lançamento do Braz?! Aguardadíssimo, mas sem notícias...

Renato Vieira disse...

Mauro, Evangelho o Dori registrou nao em 1970, mas em 1972, no primeiro disco solo dele.

Dori é nota 10!

KL disse...

o álbum de 1972, gravado na Odeon, na minha opinião, é uma dos melhores coisas gravadas no Brasil e um dos meus preferidos entre centenas. Obra-prima irretocável que, no entanto, permanece obscura para o grande público. Culpa de quem? Tirem suas próprias conclusões.
Só tem um 'defeito': são apenas nove faixas, que representam o auge desse grande arranjador e personalidade ímpar da nossa Música. Caso raro de filho de artista famoso que não procurou copiar o pai e, além de tudo, fez uma obra instigante e original.

Salve, Dori!

Mauro Ferreira disse...

Tem razão, Renato, Dori lançou 'Evangelho' em 1972. Grato por me alertar do erro. Confiei cegamente no texto assinado pelo Paulo César Pinheiro para apresentar do disco e, nesse texto, Pinheiro afirma que a gravação original de Evangelho é de 1970 - equivocadamente, agora eu sei. Abs, MauroF