Mauro Ferreira no G1

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domingo, 8 de maio de 2011

Gracioso, show 'Manuscrito' cresce quando Sandy põe própria alma em cena

Resenha de show
Título: Manuscrito
Artista: Sandy (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 7 de maio de 2011
Cotação: * * *

 Na reestreia da turnê do show solo Manuscrito, Sandy se emocionou ao cantar a balada Dias iguais com a participação virtual da parceira britânica na composição da canção, Nerina Pallot, vista e ouvida através da imagem dos espelhos que compõem o gracioso cenário de Zé Carratu. A emoção soou verdadeira. Nesse número, Sandy pôs a alma em cena. No bis, a cantora também pareceu repor essa alma em cena quando cantou ao piano Esconderijo e Tempo, duas músicas que se destacam na irregular safra de inéditas do primeiro álbum solo da artista, Manuscrito, editado em maio de 2010. Um ano após o lançamento do disco, Sandy caminha em tempo próprio. Manuscrito, o disco, esboçou alguma maturidade na obra da compositora sem romper radicalmente com a estética juvenil da última fase da dupla Sandy & Junior. O show tem seguido pelo mesmo (seguro) caminho. Até porque o público eufórico que tem lotado as apresentações do show Manuscrito - com gritos que abafam por vezes o que Sandy canta e diz em cena - é o mesmo que vibrava com as turnês faraônicas de Sandy & Junior, cujos hits Quando você passa (Turu turu) e Estranho jeito de amar são estrategicamente inseridos no roteiro que alterna covers de resultado irregular com 12 das 13 músicas do disco Manuscrito (apenas Mais um rosto não figura no repertório do show). E, se o show Manuscrito não alça voo musical mais alto em que pesem a boa arquitetura dos arranjos e a direção segura do mano Junior Lima, é pela qualidade desigual do repertório autoral de Sandy, quase todo composto com Lucas Lima. Há alguns temas bonitos, escritos com sensibilidade. Pés cansados (a balada que abre o show com o coro ensurdecedor da tribo de fãs), Dedilhada (entoada sob a imagem projetada de um relógio) e Ela / Ele (número de beleza plástica pelas imagens bucólicas projetadas nos espelhos que funcionam como telões) são músicas que sinalizaram no show e no disco uma real evolução na obra de Sandy - crescimento negado somente por quem tem os  ouvidos tapados pelo preconceito contra os artistas que transitam no mercado musical mais populista. Em contrapartida, músicas mais triviais como a funkeada Tão comum, Duras pedras e O que faltou ser jogaram o show para baixo, indicando que uma abertura do leque de parceiros e colaboradores seria salutar num futuro trabalho solo de Sandy. Da mesma forma, a escolha dos covers nem sempre resultou feliz. Beija eu - pedra fundamental na construção inicial da obra autoral de Marisa Monte, lançada há 20 anos no disco Mais (1991) - se ajustou bem à voz de Sandy, que já não soa infantilizada no show Manuscrito. Sandy também surpreendeu ao revelar insuspeito suingue quando canta Black horse and the cherry tree, tema da cantora e compositora escocesa KT Tunstall. Já as abordagens de Casa (Lulu Santos) e Put your records on (Corinne Bailey Rae) soaram tão corretas quanto burocráticas enquanto Hoje eu quero sair só (Lenine, Mu Chebabi e Caxa Aragão) já ganhou registros (muito) mais inspirados. Mas é Wonderwall - obra-prima do Oasis, banda importante na adolescência de Sandy, de acordo com texto dito pela cantora em cena - que evidenciou o principal problema dos covers: a insegurança de Sandy com as letras das músicas alheias, todas lidas em cena com o auxílio providencial de teleprompters. Contudo, nada soou pior do que a interpretação mecânica de Por enquanto, música do primeiro álbum da Legião Urbana que Sandy abordou em ambiência de pop rock - reconstruída ao fim do show, no momento em ela também cantou Quem eu sou, o segundo single do CD Manuscrito - sem levar em conta as emoções e sentimentos embutidos nos versos de Renato Russo (1960 - 1996). Ao reviver Por enquanto, Sandy não pôs a alma em cena como fez ao elevar os tons em Sem jeito, número em que se arriscou na percussão. Gracioso como o cenário de Zé Carratu, e em alguns números elegante como a luz criada por Maneco Quinderé, Manuscrito é show que cresce quando Sandy sai do piloto automático e põe alma (e emoções reais) no que canta.

12 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Na reestreia da turnê do show Manuscrito, Sandy se emocionou ao cantar a balada Dias Iguais com a participação virtual de sua parceira britânica na canção, Nerina Pallot, vista e ouvida através da imagem dos espelhos que compõem o gracioso cenário de Zé Carratu. A emoção soou verdadeira. Nesse número, Sandy põe sua alma em cena. No bis, a cantora também parece pôr sua alma em cena quando canta ao piano Esconderijo e Tempo, duas músicas que se destacam na irregular safra de inéditas do primeiro álbum solo da artista, Manuscrito, editado em maio de 2010. Um ano após o lançamento do disco, Sandy caminha no seu tempo. Manuscrito, o CD, esboçou alguma maturidade na obra da compositora sem romper radicalmente com a estética juvenil da última fase da dupla Sandy & Junior. O show segue pelo mesmo (seguro) caminho. Até porque o público eufórico que tem lotado as apresentações do show Manuscrito - com gritos que abafam por vezes o que Sandy canta e diz em cena - é o mesmo que vibrava com as turnês faraônicas de Sandy & Junior, cujos hits Quando Você Passa (Turu Turu) e Estranho Jeito de Amar são estrategicamente inseridos no roteiro que alterna covers de resultado irregular com 12 das 13 músicas do disco Manuscrito (apenas Mais um Rosto não figura no repertório do show). E, se o show Manuscrito não alça voo musical mais alto em que pesem a boa arquitetura dos arranjos e a direção segura do mano Junior Lima, é pela qualidade desigual do repertório autoral de Sandy, quase todo composto com Lucas Lima. Há alguns temas bonitos escritos com sensibilidade. Pés Cansados (a balada que abre o show com o coro ensurdecedor da tribo de fãs), Dedilhada (entoada sob a imagem projetada de um relógio) e Ela / Ele (número de beleza plástica pelas imagens bucólicas projetadas nos espelhos que funcionam como telões) são músicas que sinalizam real evolução na obra de Sandy - crescimento negado somente por quem tem os ouvidos tapados pelo preconceito contra artistas que transitam no mercado musical mais populista. Em contrapartida, músicas mais triviais como a funkeada Tão Comum, Duras Pedras e O que Faltou Ser jogam o show para baixo, indicando que uma abertura do leque de parceiros e colaboradores seria salutar num futuro trabalho solo de Sandy. Da mesma forma, a escolha dos covers nem sempre resulta feliz. Beija Eu - pedra fundamental na construção inicial da obra autoral de Marisa Monte, lançada há 20 anos no disco Mais (1991) - se ajusta bem à voz de Sandy, que já não soa infantilizada no show Manuscrito. Sandy também surpreende ao revelar insuspeito suingue quando canta Black Horse and the Cherry Tree, tema da cantora e compositora escocesa KT Tunstall. Já as abordagens de Casa (Lulu Santos) e Put your Records on (Corinne Bailey Rae) soam tão corretas quanto burocráticas enquanto Hoje Eu Quero Sair Só (Lenine, Mu Chebabi e Caxa Aragão) já ganhou registros mais inspirados. Mas é Wonderwall - obra-prima do Oasis, banda importante na adolescência de Sandy, de acordo com texto dito pela cantora em cena - que evidencia o principal problema dos covers: a insegurança de Sandy com as letras das músicas alheias, todas lidas em cena com o auxílio providencial de teleprompters. Contudo, nada é pior do que a interpretação mecânica de Por Enquanto, música do primeiro álbum da Legião Urbana que Sandy aborda em ambiência de pop rock - reconstruída ao fim do show quando ela canta Quem Eu Sou, o segundo single do CD Manuscrito - sem levar em conta as emoções e sentimentos embutidos nos versos de Renato Russo (1960 - 1996). Ao reviver Por Enquanto, Sandy não põe sua alma em cena como faz ao elevar os tons em Sem Jeito, número em que se arrisca na percussão. Gracioso como o cenário de Zé Carratu e em alguns números elegante como a luz criada por Maneco Quinderé, Manuscrito é um show que cresce quando Sandy põe sua alma e emoções reais no que canta.

Luca disse...

Sandy cantando Oasis?!! KT Tunstall? Lulu? Lenine? É piada, só pode ser...

Vitor disse...

Ja prevejo muitos comentarios de pessoas que nao viram, nao ouviram, mas vao detonar a sandy. Nunca tinha ido num show da dupla, mas fui no show da Sandy ano passado e achei muito bom, tirando o fato dos fãs serem histericos e em muitos momentos atrapalharem de fato. Dias Iguais é realmente um momento emocionante, a musica tem uma beleza e impacto que arrepia no palco com os efeitos. Ao contrario do mauro eu tb adorei o momento de Duras Pedras, apesar de achar a musica no cd chata, ficou um clima bem soturno e legal no show com imagens do trem e tal. Ela/Ele é uma das músicas mais sensiveis e tocantes que presenciei nos ultimos anos. Realmente acho que a Sandy deveria ampliar seus parceiros e tem um belo futuro na carreira solo se perceber isso. Sair mais de campinas e vir mais pro RJ

Felipe dos Santos disse...

Eu só não penso mais em ver esse show em São Paulo porque os ingressos devem estar esgotadíssimos.

Mas fico curioso para saber como é Sandy solo. Não sou fã dela, nunca fui. Mas queria saber como é que é.

Felipe dos Santos Souza

B. E. da Costa disse...

realmente sempre terá pessoas preconceituosas que falarão mal sem nem ouvir (como foi o caso de um dos comentários que li aqui, é claro que essa pessoa não foi ao show), mas fora essas pessoas que criticam todos os artistas que passaram por uma fase popular, as outras pessoas percebem realmente essa evolução. essa turnê merece ter um cd e dvd.

Anônimo disse...

Felipe, vai ser curioso assim...
Eu não iria, pois sou seguidor do Barão de Itararé. Que dizia:
"De onde menos se espera. É dali mesmo que não sai nada"

PS: Isso nada tem a ver com não se deixar surpreender. É que tem artistas que são número seis, no máximo eles se transformam em meia dúzia. :>)

Rhenan Rodrigo disse...

Sandy é uma intérprete maravilhosa!
Está passando pelo mesmo processo q a Luiza Possi. Ambas começaram a cantar muito cedo e era óbvio um estilo de música diferente.
A Luiza se saiu - e está se saindo - muito bem, os disco à partir do "escuta" são ótimos, ela canta muito e os shows sempre maravilhosos.
Esse primeiro disco solo da Sandy é bem fraquinho, acho q ele pecou pela confiança no seu trabalho como compositora, mas por outro lado achei corajosa a atitude de assumir-se e espero um amadurecimento.
Adoro ouvir a Sandy cantar!

Felipe dos Santos disse...

Zé Henrique, rapaz, não é nem o caso de curiosidade. Miley Cyrus vem para São Paulo agora, e eu não vou, porque curiosidade tem limite. E não iria num caso de show de Justin Bieber. Nem no Restart.

Eu acho que é mais o caso de ter uma esperança que beira as raias da ingenuidade. Por exemplo, pega esse pessoal que faz música meio "jovem": eu adoraria ver um artista desses, que faz música em escala industrial, surpreender e subverter a música, fazer algo mais experimental.

No fundo, no fundo, eu sei que não rola nem nunca vai rolar. Agora, "sou brasileiro e não desisto nunca" (risos).

Abraços,

Felipe dos Santos Souza

P.S.: Agora, fato é fato. Quando tinham 28 anos, por exemplo, Elis, Gal e Bethânia já tinham colocado os nomes na história da MPB. Sandy tem 28 e está apenas começando...

Jorge Reis disse...

Se ela passar pelo mesmo processo de amadurecimento de Luiza Possi, veremos duas "divas" com cem anos...
Não consigo entender, luiza canta demais, claro que não posso dizer o mesmo da Sandy, que sequer conhece MPB e diz odiar o sertanejo que lhe custeou uma vida inteira...
Será que isso é preconceito, será que serei chamado de chatofóbico ?

Anônimo disse...

Mas Felipe, a gente sabe quem pode o que, né? Tá na cara.
Sandy é café com leite.
Eu tb sou um cara crédulo, e acho bom isso, mas não sou ingênuo.

PS: Quanto a essas cantoras por vc citadas já terem uma obra de respeito aos 28 anos, é bem o retrato de uma época.
Hoje em dia as pessoas amadurecem mais tarde.
Uma mulher de 30 tem os anseios, os medos e os desejos de uma de 22 de outrora.
Como se vive mais, se amadurece mais tarde. Tá tudo certo, pra variar.

Abraço!

Diogo Santos disse...

Ouvi no You Tube uns videos dela cantando BEIJA EU. Gostei. Inclusive pelos arranjos.Como disse o Mauro, a canção se encaixa na voz dela ...

Fiquei temeroso pois ela já havia diluido a pungente SEGUE O SECO - transformando a triste canção de Brown em um pop.


Um abraço a todos

Diogo Santos

Cássia disse...

Só pelo fato de ela mudar o repertório já é um bom começo. Particularmente eu acho a sua voz imatura, mas como disse alguém aí, Elis, Bethânia, Gal, MM, etc. já eram divas na idade dela. Acho que ela demorou muito a se desfazer da dupla e ficou estigmatizada. Vamos dar uma chance à moça, até porque hoje as cantoras e até o ser humano comum são mais longevos. Ela tem muito tempo ainda pra mostrar o seu trabalho.