Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 7 de julho de 2015

'Segredo' revela que, em 1983, Cássia (já) achava caminhos para as músicas

Resenha de CD
Título: O espírito do som vol. I - Segredo  Cássia Eller em Brasília
Artista: Cássia Eller
Gravadora: Porangareté / Coqueiro Verde Records
Cotação: * * * 1/2

"Cássia era música da cabeça aos pés. (...) A música na voz de Cássia achava todos os caminhos". Esses trechos do texto escrito por Elisa de Alencar em abril deste de 2015, para o encarte do CD O espírito do som vol. I - Segredo, traduz muito do que se ouve nas dez gravações caseiras que estavam em poder de Elisa e que, 32 anos após sua realização, vem à tona em disco produzido por Rodrigo Garcia. O baú de Cássia Eller (10 de dezembro de 1962 - 29 de dezembro de 2001) já foi muito revirado. Três álbuns póstumos já foram lançados desde a precoce saída de cena dessa grande cantora de origem carioca que deu seus primeiros passos profissionais em Brasília (DF) na primeira metade dos anos 1980. A diferença do material revelado em Segredo - registros caseiros de dez músicas, a maioria das décadas de 1960 e 1970, feitos entre novembro e dezembro de 1983 no estilo voz & violão - é que ele expõe Cássia ainda em estado bruto, mas já com uma força, um algo mais. Já se percebe nesses áudios o potencial que a transformou numa das grandes cantoras de sua geração (para muitos, a cantora dos anos 1990, embora a influência de Marisa Monte seja notoriamente maior). O valor documental do álbum é alto. E, por mais que a qualidade técnica seja somente satisfatória (levando-se em conta o desgaste natural do tempo e a forma descompromissa de registro dessas dez músicas), o disco é interessante porque Cássia já procurava - e muitas vezes já achava - caminhos para interpretar músicas como Happiness is a warm gun (John Lennon e Paul McCartney, 1968), música do repertório do grupo inglês The Beatles, de quem Cássia também interpreta em Segredo a canção For no one (John Lennon & Paul McCartney, 1966) e Golden slumbers (John Lennon & Paul McCartney, 1969). Segredo já aponta os caminhos que seriam seguidos por Cássia ao longo dos anos 1990, década em que foi projetada em escala nacional e na qual iniciou sua carreira fonográfica com a voz já maturada, em estado menos bruto do que o detectado neste disco. Cássia sabia transitar pela MPB - e era capaz de pescar uma pérola como Ausência (Ednardo, 1974), música do primeiro álbum solo do cantor e compositor cearense Ednardo - mas tinha uma atitude de cantora de rock (qualidade perceptível na interpretação de Happiness is a warm gun) e uma alma doída de cantora de blues. Tudo isso se misturou e gerou uma das cantoras mais interessantes da música brasileira de todos os tempos. Até pela alma blueseira, Cássia Eller sabia transitar por caminhos marginais, pelos viés malditos da música. O grande trunfo deste disco póstumo é sua interpretação de Segredo, música do cantor e compositor carioca Luiz Melodia, lançada em 1975 na voz da cantora Wanderléa. Segredo expõe a melhor interpretação da música. Cássia consegue traduzir no canto todo o ódio interno guardado pela personagem da canção. Mesmo sem atingir todo seu potencial vocal naqueles anos de juventude (ela tinha 21 anos quando fez essas dez gravações), Cássia já era uma intérprete de verdade em 1983. Já tinha sentimento no seu registro de Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959). Já tinha personalidade na abordagem - e na simples escolha - de Airecillos (Marluí Miranda), música gravada por Ney Matogrosso em seu álbum Bandido (Continental, 1976). É fato que a interpretação de Sua estupidez (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969) soa menos impactante porque já existe o registro de tom similar feito por Gal Costa em 1971 no show Fa-Tal - Gal a todo vapor. É certo também que, em Good morning, heartache (Irene Higginbotham, Ervin Drake e Dan Fischer, 1946), Cássia não atinge toda a profundidade da dor exposta em gravações feitas por outras cantoras, sobretudo a da norte-americana Billie Holiday (1915 - 1959), a quem o standard é mais associado. De todo modo, Cássia Eller já se insinuava grande nos registros caseiros revelados em Segredo. O espírito do som - e da música! - a tomava da cabeça aos pés,  lhe indicando caminhos.

5 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ "Cássia era música da cabeça aos pés. (...) A música na voz de Cássia achava todos os caminhos". Esses trechos do texto escrito por Elisa de Alencar em abril deste de 2015, para o encarte do CD O espírito do som vol. I - Segredo, traduz muito do que se ouve nas dez gravações caseiras que estavam em poder de Elisa e que, 32 anos após sua realização, vem à tona em disco produzido por Rodrigo Garcia. O baú de Cássia Eller (10 de dezembro de 1962 - 29 de dezembro de 2001) já foi muito revirado. Três álbuns póstumos já foram lançados desde a precoce saída de cena dessa grande cantora de origem carioca que deu seus primeiros passos profissionais em Brasília (DF) na primeira metade dos anos 1980. A diferença do material revelado em Segredo - registros caseiros de dez músicas, a maioria das décadas de 1960 e 1970, feitos entre novembro e dezembro de 1983 no estilo voz & violão - é que ele expõe Cássia ainda em estado bruto, mas já com uma força, um algo mais. Já se percebe nesses áudios o potencial que a transformou numa das grandes cantoras de sua geração (para muitos, a cantora dos anos 1990, embora a influência de Marisa Monte seja notoriamente maior). O valor documental do álbum é alto. E, por mais que a qualidade técnica seja somente satisfatória (levando-se em conta o desgaste natural do tempo e a forma descompromissa de registro dessas dez músicas), o disco é interessante porque Cássia já procurava - e muitas vezes já achava - caminhos para interpretar músicas como Happiness is a warm gun (John Lennon e Paul McCartney, 1968), música do repertório do grupo inglês The Beatles, de quem Cássia também interpreta em Segredo a canção For no one (John Lennon & Paul McCartney, 1966) e Golden slumbers (John Lennon & Paul McCartney, 1969). Segredo já aponta os caminhos que seriam seguidos por Cássia ao longo dos anos 1990, década em que foi projetada em escala nacional e na qual iniciou sua carreira fonográfica com a voz já maturada, em estado menos bruto do que o detectado neste disco. Cássia sabia transitar pela MPB - e era capaz de pescar uma pérola como Ausência (Ednardo, 1974), música do primeiro álbum solo do cantor e compositor cearense Ednardo - mas tinha uma atitude de cantora de rock (qualidade perceptível na interpretação de Happiness is a warm gun) e uma alma doída de cantora de blues. Tudo isso se misturou e gerou uma das cantoras mais interessantes da música brasileira de todos os tempos. Até pela alma blueseira, Cássia Eller sabia transitar por caminhos marginais, pelos viés malditos da música. O grande trunfo deste disco póstumo é sua interpretação de Segredo, música do cantor e compositor carioca Luiz Melodia, lançada em 1975 na voz da cantora Wanderléa. Segredo expõe a melhor interpretação da música. Cássia consegue traduzir no canto todo o ódio interno guardado pela personagem da canção. Mesmo sem atingir todo seu potencial vocal naqueles anos de juventude (ela tinha 21 anos quando fez essas dez gravações), Cássia já era uma intérprete de verdade em 1983. Já tinha sentimento no seu registro de Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959). Já tinha personalidade na abordagem - e na simples escolha - de Airecillos (Marluí Miranda), música gravada por Ney Matogrosso em seu álbum Bandido (Continental, 1976). É fato que a interpretação de Sua estupidez (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969) soa menos impactante porque já existe o registro de tom similar feito por Gal Costa em 1971 no show Fa-Tal - Gal a todo vapor. É certo também que, em Good morning, heartache (Irene Higginbotham, Ervin Drake e Dan Fischer, 1946), Cássia não atinge toda a profundidade da dor exposta em gravações feitas por outras cantoras, sobretudo a da norte-americana Billie Holiday (1915 - 1959), a quem o standard é mais associado. De todo modo, Cássia Eller já se insinuava grande nos registros caseiros revelados em Segredo. O espírito do som - e da música! - a tomava da cabeça aos pés, lhe indicando caminhos.

Douglas Carvalho disse...

Essa daí foi uma da maiores. Desde a primeira vez que ouvi Cássia, me apaixonei por tudo nela!

Rafael M. disse...

Cássia Eller é esplendorosa. Esse CD merecia ganhar 5 estrelas. "Ne Me Quitte Pas" na voz dela deve estar maravilhoso!

Victor Lobo disse...

Cássia sempre INCRÍVEL!

ALANA disse...

Cássia Eller tem de ser considerada um adjetivo de nível de qualidade musical.. Tem músicas ruins, músicas boas, músicas ótimas,músicas maravilhosas, musicas inesquecíveis e músicas Cássia Eller..