Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Filho de Cássia, Chico trilha o caminho da mãe com banda 2 x 0 Vargem Alta

Resenha de CD
Título: 2 x 0 Vargem Alta
Artista: 2 x 0 Vargem Alta
Gravadora: Porangareté / Coqueiro Verde Records
Cotação: * * * 1/2

Todas as atenções em torno do primeiro álbum da banda fluminense 2 x 0 Vargem Alta estão concentradas no fato de o quinteto destacar na sua formação a presença do cantor, compositor e violonista carioca Francisco Ribeiro Eller, o Chicão, filho da cantora Cássia Eller (1962 - 2001). A banda, aliás, somente surgiu - em São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo (RJ) - em função do fluxo criativo das composições de Chico Chico, nome artístico adotado pelo rapaz de 22 anos nascido em agosto de 1993. As composições de Chico dominam o repertório do bom álbum da 2 x 0 Vargem Alta, idealizado e produzido pelo violonista Rodrigo Garcia para seu selo Porangareté e lançado neste mês de outubro de 2015 com distribuição da gravadora Coqueiro Verde Records. A criação das músicas justificou o disco, que, por sua vez, justificou a oficialização da banda - formada por Chico Chico (voz e violão), Artur Pedrosa (bateria), Dudu Solto (baixo), Leandro Bocão (guitarra) e Pedro Fonseca (teclados). Como já provou em show feito com a (excelente) cantora fluminense Júlia Vargas, Chico Chico jamais soa como um clone de Cássia Eller, ainda que seu timbre evoque o da mãe por herança genética. De todo modo, sem anular sua personalidade própria, é nítido que Chico segue a pegada musical de Cássia, sobretudo quando dá voz a baladas de acento blues, casos de Quanto calor (Chico Chico) - composição que também ecoa benéfica influência das canções feitas por Jards Macalé nos anos 1970 em parceria com Waly Salomão (1943 - 2003) - e de Notas de cem (Chico Chico). Não é por acaso que a 2 x 0 Vargem Alta fecha o disco de repertório essencialmente inédito e autoral com reverente cover do delta blues Hard time killing floor blues (1931) - joia do seminal baú de Skip James (1902 - 1969), bluesman norte-americano que cultivou o blues nascido às margens do mítico rio Mississipi - em que Chico remete a Cássia em seu início de carreira fonográfica, em 1990. Há no disco da 2 x 0 Vargem Alta toda uma carga jovial de quem ainda faz música de forma espontânea. Não é por acaso também que a banda abre o álbum com erro ("De novo, de novo. Foi mal...", desculpa-se Chico) deixado intencionalmente na introdução de Garota da soleira (Chico Chico), faixa de pegada roqueira. Músicas como Minha voz (Chico Chico) apresentam um compositor ainda intuitivo que parece seguir o fluxo espontâneo de sua criação sem método. Entre dois temas instrumentais, Caponav (conduzido pela levada do violão) e Billy (de toque country dado pela gaita que sobressai no arranjo), 2 x 0 Vargem Alta registra composição de autoria de Tui Lana, De manhã cedo. Promovido nas rádios e na web pela canção-declaração de amor As folhas da Praça Paris (Chico Chico), o álbum também se embrenha pela nação nordestina com o baião Amor pra dar (Chico Chico) e traz a voz já maturada de Júlia Vargas em Chia (Chico Chico) em provas de que, mesmo sem marcar um golaço, a banda 2 x 0 sai vitoriosa no seu primeiro lance no volátil mundo do disco.

terça-feira, 7 de julho de 2015

'Segredo' revela que, em 1983, Cássia (já) achava caminhos para as músicas

Resenha de CD
Título: O espírito do som vol. I - Segredo  Cássia Eller em Brasília
Artista: Cássia Eller
Gravadora: Porangareté / Coqueiro Verde Records
Cotação: * * * 1/2

"Cássia era música da cabeça aos pés. (...) A música na voz de Cássia achava todos os caminhos". Esses trechos do texto escrito por Elisa de Alencar em abril deste de 2015, para o encarte do CD O espírito do som vol. I - Segredo, traduz muito do que se ouve nas dez gravações caseiras que estavam em poder de Elisa e que, 32 anos após sua realização, vem à tona em disco produzido por Rodrigo Garcia. O baú de Cássia Eller (10 de dezembro de 1962 - 29 de dezembro de 2001) já foi muito revirado. Três álbuns póstumos já foram lançados desde a precoce saída de cena dessa grande cantora de origem carioca que deu seus primeiros passos profissionais em Brasília (DF) na primeira metade dos anos 1980. A diferença do material revelado em Segredo - registros caseiros de dez músicas, a maioria das décadas de 1960 e 1970, feitos entre novembro e dezembro de 1983 no estilo voz & violão - é que ele expõe Cássia ainda em estado bruto, mas já com uma força, um algo mais. Já se percebe nesses áudios o potencial que a transformou numa das grandes cantoras de sua geração (para muitos, a cantora dos anos 1990, embora a influência de Marisa Monte seja notoriamente maior). O valor documental do álbum é alto. E, por mais que a qualidade técnica seja somente satisfatória (levando-se em conta o desgaste natural do tempo e a forma descompromissa de registro dessas dez músicas), o disco é interessante porque Cássia já procurava - e muitas vezes já achava - caminhos para interpretar músicas como Happiness is a warm gun (John Lennon e Paul McCartney, 1968), música do repertório do grupo inglês The Beatles, de quem Cássia também interpreta em Segredo a canção For no one (John Lennon & Paul McCartney, 1966) e Golden slumbers (John Lennon & Paul McCartney, 1969). Segredo já aponta os caminhos que seriam seguidos por Cássia ao longo dos anos 1990, década em que foi projetada em escala nacional e na qual iniciou sua carreira fonográfica com a voz já maturada, em estado menos bruto do que o detectado neste disco. Cássia sabia transitar pela MPB - e era capaz de pescar uma pérola como Ausência (Ednardo, 1974), música do primeiro álbum solo do cantor e compositor cearense Ednardo - mas tinha uma atitude de cantora de rock (qualidade perceptível na interpretação de Happiness is a warm gun) e uma alma doída de cantora de blues. Tudo isso se misturou e gerou uma das cantoras mais interessantes da música brasileira de todos os tempos. Até pela alma blueseira, Cássia Eller sabia transitar por caminhos marginais, pelos viés malditos da música. O grande trunfo deste disco póstumo é sua interpretação de Segredo, música do cantor e compositor carioca Luiz Melodia, lançada em 1975 na voz da cantora Wanderléa. Segredo expõe a melhor interpretação da música. Cássia consegue traduzir no canto todo o ódio interno guardado pela personagem da canção. Mesmo sem atingir todo seu potencial vocal naqueles anos de juventude (ela tinha 21 anos quando fez essas dez gravações), Cássia já era uma intérprete de verdade em 1983. Já tinha sentimento no seu registro de Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959). Já tinha personalidade na abordagem - e na simples escolha - de Airecillos (Marluí Miranda), música gravada por Ney Matogrosso em seu álbum Bandido (Continental, 1976). É fato que a interpretação de Sua estupidez (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969) soa menos impactante porque já existe o registro de tom similar feito por Gal Costa em 1971 no show Fa-Tal - Gal a todo vapor. É certo também que, em Good morning, heartache (Irene Higginbotham, Ervin Drake e Dan Fischer, 1946), Cássia não atinge toda a profundidade da dor exposta em gravações feitas por outras cantoras, sobretudo a da norte-americana Billie Holiday (1915 - 1959), a quem o standard é mais associado. De todo modo, Cássia Eller já se insinuava grande nos registros caseiros revelados em Segredo. O espírito do som - e da música! - a tomava da cabeça aos pés,  lhe indicando caminhos.

domingo, 28 de junho de 2015

Eis a capa de 'Segredo', volume inicial de projeto de inéditas de Cássia Eller

♪ Esta é a capa de Segredo, primeiro volume de O espírito do som, projeto que intenciona trazer a público gravações inéditas de Cássia Eller (1962 - 2001) de forma progressiva. O primeiro volume alinha 10 gravações caseiras da cantora, trabalhadas a partir de registros descompromissados feitos pela cantora carioca em 1983, em Brasília (DF), e registrados em fita cassete. O cancioneiro do grupo inglês The Beatles domina o repertório. Eis, na ordem, as dez músicas de O espírito do som - Vol. 1 - Segredo - Cássia Eller em Brasília, CD distribuído pela carioca Coqueiro Verde Records:

1. Segredo (Luiz Melodia, 1975)
2. For no one (John Lennon e Paul McCartney, 1966)
3. Happiness is a warm gun (John Lennon e Paul McCartney, 1968)
4. Flor do sol (Cássia Eller e Simone Saback, 1982)
5. Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959)
6. Airecillos (Marluí Miranda, 1976)
7. Ausência (Ednardo, 1974)
8. Sua estupidez (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969)
9. Good morning, heartache (Irene Higginbotham, Ervin Drake e Dan Fischer, 1946)
10. Golden slumbers (John Lennon & Paul McCartney, 1969)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

'Segredo', o disco com gravações inéditas de Cássia, chega às lojas em julho

Previsto de início para ter sido lançado em março deste ano de 2015, com distribuição da gravadora Coqueiro Verde, o álbum com gravações inéditas da cantora carioca Cássia Eller (1962 - 2001) vai chegar efetivamente ao mercado fonográfico em julho. Intitulado Segredo, nome de música do compositor carioca Luiz Melodia lançada na voz de Wanderléa em LP de 1975 e presente no repertório desse projeto póstumo de Cássia, o disco é o primeiro volume do projeto O espírito do som, criado pelo selo Porangareté, produtor do CD. Segredo foi gerado a partir do tratamento de gravações caseiras feitas em 1983 por Cássia  (em foto de Deborah Dornellas) em fita cassete.

sábado, 9 de maio de 2015

CD com boa trilha nacional de 'Sete vidas' apresenta gravação de Roberta Sá

Música lançada por Simone no álbum Cigarra (EMI-Odeon, 1978), Medo de amar nº 2 (Sueli Costa e Tite de Lemos) ganha a voz de Roberta Sá na trilha sonora de Sete vidas, novela exibida pela TV Globo às 18h. Editada em CD pela gravadora Som Livre neste mês de maio de 2015, a trilha sonora de Sete Vidas inclui outras gravações exclusivas, casos da abordagem de Pra te lembrar (Nei Lisboa, 2003) por Luiza Possi e de Terra (Caetano Veloso, 1978) na voz de Paulinho Moska. Voltada para a MPB, a seleção musical da novela rebobina também fonogramas de Gal Costa (Errática, música de Caetano Veloso lançada pela cantora no álbum O sorriso do gato de Alice, editado em 1993), Cássia Eller (1962 - 2001) - ouvida com a gravação de All star (Nando Reis) lançada em 2002 - e Caetano Veloso, representado pela gravação de Cais (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972), feita em 1989 para tributo ao compositor e poeta fluminense Ronaldo Bastos. Há também fonogramas de Chico Buarque, Marisa Monte e Nana Caymmi.  Eis as 14 músicas do CD Sete vidas:

1. Cais (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972) - Caetano Veloso
2. Errática (Caetano Veloso, 1993) - Gal Costa
3. A sua (Marisa Monte, 2001) - Marisa Monte
4. Pra te lembrar (Nei Lisboa, 2003) - Luiza Possi
5. Medo de amar nº 2 (Sueli Costa e Tite de Lemos) - Roberta Sá
6. Epitáfio (Sergio Britto, 2001) - Titãs
7. Pais e filhos (Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá 1989) - Legião Urbana 
8. All-star (Nando Reis, 2002) - Cássia Eller
9. Eu e a brisa (Johnny Alf, 1968) - Wilson Simoninha
10. Medo de amar (Vinicius de Moraes, 1958) - Nana Caymmi
11. Lígia (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1974) - Chico Buarque
12. Terra (Caetano Veloso, 1978) - Paulinho Moska
13. Deixa o barco ir (Dani Black, 2011) - Dani Black
14. A dança (Renato Alves e Fred Sommer, 2012) - Playmobille

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Coqueiro Verde vai lançar em março disco com gravações inéditas de Cássia

A gravadora Coqueiro Verde Records anuncia a edição, em março de 2015, de disco com gravações inéditas de Cássia Eller (1962 - 2001). O CD vai revelar gravações feitas pela cantora carioca - em foto do acervo de Deborah Dornellas - em 1983, sete anos antes de alcançar projeção nacional. Intitulado Segredo - O espírito do som vol. 1, o disco se origina de fita caseira em que Cássia dá voz a músicas dos repertórios do grupo inglês The Beatles e de artistas como Luiz Melodia e Roberto Carlos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Convencional na forma, 'Cássia' arrebata ao reconstituir relicário de Eller

Resenha de documentário sobre Cássia Eller
Título: Cássia (Brasil, 2014)
Direção: Paulo Henrique Fontenelle
Roteiro: Paulo Henrique Fontenelle
Cotação: * * * * 1/2
Estreia nos cinemas do Brasil programada para 15 de janeiro de 2015


"Vocês se espantarão quando me ouvirem cantar". A frase imodesta pode até soar bem arrogante, mas toda possível pretensão se dilui quando se sabe que sua autora é Cássia Eller (1962 - 2001). Ouvida na voz da atriz Malu Mader ao fim de Cássia, documentário exibido esta semana no Festival do Rio, a frase faz todo o sentido porque arremata narrativa arrebatadora, comprovando tudo o que é visto e ouvido no filme, cuja estreia nos cinemas está programada para janeiro de 2015. Filmado sob a direção de Paulo Henrique Fontenelle, Cássia é documentário convencional na forma com que retrata a trajetória da cantora carioca. Segue a estrutura clássica do gênero ao entrelaçar imagens de arquivo - as mais raras são as que mostram a cantora em ação em Brasília (DF) - com depoimentos de pessoas que conviveram e/ou trabalharam com Cássia. Assinado pelo próprio Paulo Henrique Fontenelle, o roteiro segue inclusive ordem cronológica ao expor os principais fatos da vida e obra da artista. Mas é o que basta. Não é preciso reinventar a roda ou buscar formas menos óbvias porque a transgressão já está contida na própria trajetória de Cássia, cantora de postura rocker que derrubou rótulos ao amalgamar diversos gêneros musicais ao longo de carreira que ganhou progressiva projeção nacional ao longo dos anos 1990. Uma cantora de verdade, autêntica, que se fez ouvir não somente com seu vozeirão grave e expressivo, mas também pela postura libertária. Cássia Eller sempre foi assumida nos palcos e na vida. Tanto que os depoimentos colhidos para o filme - da companheira Maria Eugênia, de Zélia Duncan (cantora contemporânea de Cássia, colega e amiga dos tempos pré-fama vividos por ambas na Brasília da década de 1980), de Oswaldo Montenegro (responsável pela iniciação musical profissional de Cássia ao admiti-la no elenco de um de seus espetáculos) e de Nando Reis, entre outros nomes - reiteram a originalidade e a honestidade que pautaram a vida da artista cine-biografada, de temperamento arisco, mas uma fera indomada em cena. "Música, para mim, foi uma fuga da minha timidez", resumiu a própria Eller em frase-chave também ouvida em Cássia. Fugindo do didatismo, o diretor Paulo Henrique Fontenelle - que já retratara vida e obra do cantor, compositor e músico paulista Arnaldo Baptista em outro documentário arrebatador, Loki (Brasil, 2008) - salpica dados biográficos de Cássia, narrados no filme pela própria cantora. A propósito, o filme expande seu valor documental ao expor na tela fotos de Cássia na infância e na adolescência e, sobretudo, ao mostrar número do show feito pela cantora com o ator Marcelo Saback, Gigolôs, sucesso de público e crítica na Brasília de 1986. A visão de Cássia caracterizada de diva para interpretar standard da canção norte-americana vai surpreender somente quem desconhece o fato de que a cantora foi vocalista do primeiro trio elétrico de Brasília, o Massa Real. Nesse sentido, as imagens de Cássia na maternidade - no parto e no pós-parto de seu filho Francisco Eller - talvez sejam mais reveladoras da imensa sensibilidade contida naquela alma aparentemente selvagem, largada, displicente. Aliás, a fala de Chicão é o trunfo que Fontenelle guarda para o fim do filme (que emociona ao mostrar a luta de Maria Eugênia pela guarda do filho que, de fato e de direito, sempre foi seu). A alta expectativa pelo depoimento de Chicão nem se cumpre, mas isso pouco importa. Beneficiado pelo fato de a cantora ter pavimentado sua carreira na era da música audiovisual, o diretor apresenta documentário que enleva ao reconstituir com afeto o relicário de Cássia Rejane Eller.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Alice Caymmi faz milagre ao celebrar Cássia na série 'Cantoras do Brasil'

Resenha de programa de TV
Série: Cantoras do Brasil - Terceira temporada
Título: Alice Caymmi canta Cássia Eller
Idealização: Mariana Rolim, Mercedes Tristão e Simone Esmanhotto
Direção: Jacob Solitrenick
Emissora: Canal Brasil
Cotação: * * * *
Episódio com exibição programada pelo Canal Brasil para 6 de novembro de 2014


Foi pelas ondas do rádio que a voz-de-trovão de Cássia Eller (1962 - 2001) caiu como raio nos ouvidos de Alice Caymmi. Atualmente com 24 anos, a princesa carioca da dinastia Caymmi nem era adulta quando ouvia pelo dial sua conterrânea interpretar músicas como E.C.T. (Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown, 1994) e Milagreiro (Djavan, 2001). Mas Alice cresceu e apareceu em cena para valer neste ano com seu segundo álbum, Rainha dos raios (Joia Moderna, 2014). Seu agigantamento como intérprete é atestado na intensa abordagem de Milagreiro, segundo e melhor número musical do quarto episódio da terceira temporada da série Cantoras do Brasil, programada para ser exibida pelo Canal Brasil semanalmente, às quintas-feiras, a partir de 16 de outubro de 2014. Ao dar voz à composição de Djavan, gravada por Cássia em dueto com o artista alagoano para o 15º álbum lançado pelo cantor no mercado fonográfico brasileiro, Alice expõe nos seus vocalises a imensidão da dor amorosa que pauta os versos do tema. E faz milagre ao sair da sombra de Cássia, já que a interpretação de Milagreiro por Cássia Eller é tão definitiva que a música é mais associada à cantora do que ao próprio Djavan. "Milagreiro é a música do repertório de Cássia de que eu  mais gosto", sublinha a cantora no depoimento concedido à série idealizada por Mariana Rolim, Mercedes Tristão e Simone Esmanhotto. O tom flamenco da gravação original de Milagreiro é evocado pelas palmas ouvidas no início do registro feito por Alice. Ao gravar E.C.T. e Milagreiro sob a direção de Jacob Solitrenick (que preserva os tons preto-e-branco da filmagem da série), a cantora se junta aos músicos Beto Gibbs (bateria), João Leão (teclados e chocalho) Klaus Sena (baixo), Lucas Raele (Clavineta), Maurício Tagliarini (cavaquinho) e Pipo Pegoraro (violão e guitarra). A gravação de E.C.T. resulta menos impactante, mas Alice acerta o tom da "letra difícil de cantar", como ela ressalta no depoimento que separa um número musical do outro. Enfim, o quarto episódio de Cantoras do Brasil - série que retoma na terceira temporada seu conceito original, centrado no tributo de uma cantora contemporânea a uma intérprete que já saiu de cena - reafirma o talento e a personalidade forte de Alice Caymmi no momento em que a voz da cantora cai como um raio sobre mentes e ouvidos antenados, reinando nas redes.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Catto faz seu coração bater do tamanho do mainstream ao cantar Cássia Eller

Resenha de show
Título: Filipe Catto canta Cássia Eller
Artista: Filipe Catto (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Teatro do Sesc Vila Mariana (São Paulo, SP)
Data: 6 de junho de 2014
Cotação: * * * 1/2

 Na foto exposta na contracapa de seu primeiro álbum, lançado em 1990, Cássia Eller (1962 - 2001) chuta literalmente o balde. Ao longo de seus breves 11 anos de carreira fonográfica, a cantora carioca chutaria metaforicamente esse balde, mesmo quando enquadrada em moldura mais pop pelo mercado da música, a partir de seu terceiro álbum, o Cássia Eller de 1994. Tais chutes eram observados no peso dos arranjos de seus shows - sobretudo no que resultou no CD Veneno vivo (1998) - e na postura irreverente da artista em cena. Mesmo que nunca mais tenha transitado inteiramente pela margem, como em seus dois primeiros discos, Cássia soube se desviar dos vícios e caminhos mais fáceis do mercado pela atitude e pelo sentido que deu a um repertório que ensinou Filipe Catto a ser intérprete - como o cantor gaúcho confidenciou ao público que foi assistir ao seu show Filipe Catto canta Cássia Eller, apresentado com lotação esgotada de 4 a 6 a junho de 2014 no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo (SP). "O coração do intérprete não tem tamanho", filosofou o cantor após revelar a influência que o repertório de Cássia teve em sua formação musical. Cantor de voz farta e forte, Filipe Catto nunca chutou o balde. Flerta eventualmente com o universo indie, mas mira sobretudo o mainstream, com gana de sucesso e popularidade. Ao cantar Cássia, Catto faz seu coração bater do tamanho do mainstream neste show que comprova sua força cênica, sua empatia com o público já conquistado e a habilidade vocal para interpretar de forma convincente um repertório que irmana músicas de compositores tão díspares quanto Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Cazuza (1958 - 1990), Itamar Assumpção (1949 - 2003), Luís Capucho, Luiz Melodia, Nando Reis, Renato Russo, Riachão e Rita Lee. Ao contrário do que afirma na música de Péricles Cavalcanti gravada pela cantora em 1998, Filipe Catto não queria ser Cássia Eller. Filipe Catto quer ser - e já conseguiu ser - Filipe Catto, cantor vocacionado para o jogo de cena. Com um pé no kitsch e outro no indie, mas com os dois olhos focados no sucesso de massa, Catto arma o jogo e a cena - sob a direção de Ricky Scaff - já no primeiro número, Eu queria ser Cássia Eller (Péricles Cavalcanti, 1998), música que canta sentado, de costas para a plateia, com touca que ajuda a montar o figurino da personagem rocker. O arranjo também cria o clima de um rock, mantido em E.C.T. (Nando Reis, Carlinhos Brown e Marisa Monte, 1994). Os vídeos - que alcançam melhor resultado quando feitos com imagens abstratas - povoam e por vezes poluem a cena para Catto fazer cena. E ele faz, cantando Gatas extraordinárias (Caetano Veloso, 1999) com mais suingue do que ansiedade, esmaecendo Mapa do meu nada (Carlinhos Brown, 1999) e usando o corpo quando dá voz a Rubens (Mario Manga, 1986), personagem-título da música em que o compositor paulista Mario Manga retrata com ironia mordaz a paixão de dois rapazes às voltas com o tesão e com a consciência de que um amor gay (ainda) pode suscitar comentários e preconceitos. Levado na pressão pelo toque firme da bateria de Peo Fiorin, Rubens é o primeiro grande momento do show, que preserva sua aura de sedução ao cair lento - no toque etéreo da guitarra de Fabá Jimenez - Na cadência do samba (Ataulfo Alves e Paulo Gesta, 1962). Gravado por Cássia no álbum de 1994 em que abriu janela para o pop, esse samba do mineiro Ataulfo Alves (1909 - 1969) prepara o clima para o número que emenda as canções Que o Deus venha (Roberto Frejat e Cazuza sobre Clarice Lispector, 1986) e Todo amor que houver nessa vida (Roberto Frejat e Cazuza, 1982) entre acordes distorcidos da guitarra de Fabá Jimenez, músico diante do qual Catto se ajoelha para cantar a balada Por enquanto (Renato Russo, 1985). Com a voz que Deus lhe deu, Catto não chega a enlouquecer em Maluca (1995) - música de Luís Capucho, compositor capixaba criado em Niterói (RJ) que transita pelas margens - e a seduzir quando embarca em Sonhei que viajava com você (Itamar Assumpção, 1992), número ilustrado por (dispensável) vídeo com imagem do compositor paulista Itamar Assumpção (1949 - 2003). Entre um e outro número, a percussionista Lan Lan - convidada do show - entra em cena e, quando bate seu tambor em Eu sou neguinha? (Caetano Veloso, 1987), faz Catto baixar o santo ao fim desse número que reitera a sensação de que Catto comete excessos sem que tais excessos sejam pecado - no seu caso. Já Lan Lan peca pela falta - de viço na voz - quando faz dueto com Catto em Vá morar com o diabo, samba do compositor baiano Riachão que Cássia ajudou a popularizar. O brilho de Lan Lan reside no toque de seu tambor, mote de Nós (Tião Carvalho, 1988). Já Esse filme eu já vi (Luiz Melodia e Renato Piau, 1999) roda em cena com alguma psicodelia. É take marginal de roteiro que, no fim, volta a acenar explicitamente para o mainstream no set de baladas e hits que encerra o show. Antes, Smells like teen spirit (Dave Grohl, Krist Novoselic e Kurt Cobain, 1991) mostra que nem sempre a personagem do roqueiro cai bem no teatro musicado de Catto - impressão reiterada por abordagem artificial de Luz del fuego (Rita Lee, 1975), rock que Cássia Eller gravou em 1998 no Acústico MTV de Rita Lee em dueto com a cantora e compositora paulista. Canção de Nando Reis, Luz dos olhos (2001) se acende com solidez na voz resplandecente de Catto, brilhante ao encarnar o romântico sofredor na balada Toda vez que eu digo adeus, versão de Carlos Rennó - gravada por Cássia em 2000 - para uma das canções mais lindas do compositor norte-americano Cole Porter (1891 - 1964), Ev'ry time we say goodbye (1944). É quando o intérprete se casa e se afina totalmente com a canção, gerando momento memorável, com aura de encantamento novamente alcançada, no bis, com interpretação irretocável de Non, je ne regrette rien (Charles Dumont e Michel Vaucaire, 1956), sucesso de Edith Piaf (1915 - 1963), cantora francesa que, como Catto, se excedia sem pecar por esse excesso. Com marcante intervenção da guitarra de Fabá Jimenez, destaque de banda que incluiu também o baixista Fábio Sá e o pianista Lucas Vargas (eventualmente no acordeom), Relicário (Nando Reis, 2001) é outro momento interessante do show em que Catto canta Cássia sem a atitude da cantora, mas com sua própria personalidade artística, teatral, por vezes over, mas de intensidade verdadeira. Nas muitas vezes em que motiva a plateia a marcar o ritmo das músicas com palmas (gesto excessivo e, no caso, dispensável), Filipe Catto deixa a certeza do tamanho de seu coração e de sua ambição no mercado da música. Do início ao fim, com O segundo sol (Nando Reis, 1999) girando na mesma pose do primeiro número, com o cantor sentado de costas para a plateia, o balde jamais é chutado enquanto Filipe Catto reaviva o repertório de Cássia Eller com o coração na batida do mainstream.

Ao cantar Cássia, Catto dá voz a Ataulfo, Brown, Caetano, Cazuza e Rita

São Paulo (SP) - Ao dar sua voz potente ao repertório gravado entre 1990 e 2001 pela cantora carioca Cássia Eller (1962 - 2001), o cantor gaúcho Filipe Catto irmanou obras de compositores díspares no show que apresentou de 4 a 6 de junho de 2014  no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo (SP). Com touca incorporada ao figurino rocker nos primeiros números, como visto na foto de Rodrigo Goffredo, Catto abriu leque estilístico que abarcou desde o samba do compositor mineiro Ataulfo Alves (1909 - 1969) até o underground hino gay do compositor paulista Mário Manga, Rubens (1986), gravado pela homenageada no seu primeiro álbum, o marginal Cássia Eller (Polygram, 1990). Entre um e outro, Catto cantou Cássia através de Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Cazuza (1958 - 1990), Itamar Assumpção (1949 - 2003), Luís Capucho, Luiz Melodia, Nando Reis e Rita Lee, entre outros compositores gravados pela artista carioca em discografia que transitou a partir de 1994 - sem perda da personalidade artística - entre o indie e o mainstream. Eis o roteiro do teatral show Filipe Catto canta Cássia Eller:

1. Eu queria ser Cássia Eller (Péricles Cavalcanti, 1998)
2. E.C.T. (Nando Reis, Carlinhos Brown e Marisa Monte, 1994)
3. Gatas extraordinárias (Caetano Veloso, 1999)
4. Mapa do meu nada (Carlinhos Brown, 1999)
5. Rubens (Mario Manga, 1986) 
    - Música gravada por Cássia Eller em 1990
6. Na cadência do samba (Ataulfo Alves e Paulo Gesta, 1962)
    - Música gravada por Cássia Eller em 1994 
7. Que o Deus venha (Roberto Frejat e Cazuza sobre Clarice Lispector, 1986) /
     - Música gravada por Cássia Eller em 1990
     Todo amor que houver nessa vida (Roberto Frejat e Cazuza, 1982)
     - Música gravada por Cássia Eller em 1997
8. Por enquanto (Renato Russo, 1985)
    - Música gravada por Cássia Eller em 1990
9. Maluca (Luis Capucho, 1995)
    - Música gravada por Cássia Eller em 1999
10. Eu sou neguinha? (Caetano Veloso, 1987)
    - Música gravada por Cássia Eller em 1996
11. Nós (Tião Carvalho, 1988)
      - Música gravada por Cássia Eller em 1996
12. Vá morar com o diabo (Riachão) - em dueto com Lan Lan
      - Música gravada por Cássia Eller em 2001
13. Sonhei que viajava com você (Itamar Assumpção, 1992)
14. Esse filme eu já vi (Luiz Melodia e Renato Piau, 1999)
15. Smells like teen spirit (Dave Grohl, Krist Novoselic e Kurt Cobain, 1991)
      - Música gravada por Cássia Eller em 2000
16. Luz dos olhos (Nando Reis, 2001)
17. Luz del fuego (Rita Lee, 1975)
      - Música gravada por Cássia Eller em 1998 em CD / DVD de Rita Lee
18. Toda vez que eu digo adeus (Ev'ry time we say goodbye)
      (Cole Porter, 1944, em versão em português de Carlos Rennó, 2000)
19. Relicário (Nando Reis, 2001)
20. O segundo sol (Nando Reis, 1999)
Bis:
21. Non, je ne regrette rien (Charles Dumont e Michel Vaucaire, 1956)
      - Música gravada por Cássia Eller em 2001
22. Malandragem (Cazuza e Frejat, 1994)

domingo, 8 de junho de 2014

Lan Lan bate tambor e até canta no show em que Catto interpreta Cássia

São Paulo (SP) - Percussionista e compositora baiana que ganhou visibilidade ao tocar com Cássia Eller (1962 - 2001) nos anos 1990, Elaine Silva Moreira - a Lan Lan - continua associando seu nome ao da cantora carioca. Além de assinar a direção musical do espetáculo Cássia Eller - O musical, recém-estreado no Rio de Janeiro (RJ), Lan Lan fez participação no show Filipe Catto canta Cássia Eller, apresentado pelo cantor gaúcho no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo (SP), de 4 a 6 de junho de 2014. Lan Lan - vista com Catto na foto de Rodrigo Goffredo - entrou no décimo número do roteiro, tocando pandeiro em Eu sou neguinha? (Caetano Veloso, 1987). Além de bater seu tambor em Nós (Tião Carvalho, 1988), Lan Lan (até) cantou, dividindo com Catto os versos de Vá morar com o diabo, samba do compositor baiano Riachão gravado por Cássia em seu CD e DVD Acústico MTV (Universal Music, 2001). Anunciada como participação especial no material promocional do espetáculo, Lan Lan voltou à cena no fim do show - quando Catto deu voz a Relicário (Nando Reis, 2001).

terça-feira, 3 de junho de 2014

Musical reaviva força arredia de Cássia escorado na sua incrível protagonista

Resenha de musical
Título:  Cássia Eller - O musical
Texto: Patrícia Andrade
Direção: João Fonseca e Vinícius Arneiro
Direção musical: Lan Lan   Codireção musical: Fernando Nunes
Direção de produção: Gustavo Nunes
Elenco: Tacy de Campos (como Cássia Eller), Eline Porto, Emerson Espíndola,  
           Evelyn Castro, Jana Figarella, Mário Hermeto e Thainá Gallo
Foto: Léo Mello / Studio Prime
Cotação: * * * *
Em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ)
De quarta-feira a domingo, até 20 de julho de 2014

Como muitas cantoras, Tacy de Campos também queria ser Cássia Eller - como diz o título da composição de Péricles Cavalcanti que pontua o recém-estreado musical sobre essa imortal e emblemática cantora e compositora carioca que passou como furacão pela música brasileira ao longo dos anos 1990. A diferença é que, no palco do Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, essa até então desconhecida cantora e atriz curitibana parece ser Cássia Rejane Eller (10 de dezembro de 1962 - 29 de dezembro de 2001). Espetáculo de tom mais introspectivo, condizente com o temperamento arredio da personagem que perfila com precisão em duas horas, Cássia Eller - O musical se escora na incrível performance da protagonista escolhida entre mais de mil candidatas que também queriam ser Cássia Eller na vida ou, ao menos, ao longo dessas duas fluentes horas. Diferentemente de atuações igualmente memoráveis como as dos atores Emílio Dantas e Eriberto Leão, que mimetizaram Cazuza (1958 - 1990) e Jim Morrison (1943 - 1971) em musicais de proporções e estilos distintos, Tacy de Campos parece ser naturalmente Cássia Eller por ser tímida e arredia também fora de cena. E por se agigantar quando solta a voz rascante, de timbre similar ao de Cássia. Quando Tacy canta Malandragem (Frejat e Cazuza, 1994) - em número musical que sinaliza o momento em que a carreira da cantora dá salto de vendas e popularidade com a edição do álbum Cássia Eller (Polygram, 1994) - a semelhança é tamanha que parece que se ouve a gravação original lançada há 20 anos. O diretor João Fonseca - o mesmo dos bem-sucedidos musicais biográficos sobre os cantores cariocas Cazuza e Tim Maia (1942 - 1998) - mais uma vez acerta o tom ao orquestrar musical despojado, erguido em parceria com Vinícius Arneiro. Fiéis à simplicidade de Cássia, os diretores criaram espetáculo centrado nos números musicais feitos sob a direção musical da percussionista Lan Lan e do baixista Fernando Nunes. Os dois músicos tocaram com Cássia Eller e, por isso mesmo, jamais inventam moda no espetáculo, apresentando arranjos fiéis ao espírito do som da cantora, que manteve sua atitude rocker e marginal mesmo quando transitou pelo samba e pela MPB. Já o texto de Patrícia Andrade cumpre muito bem a função de reconstituir, em ágeis cenas episódicas, os principais passos da artista rumo ao estrelato. A autora comete somente um erro histórico ao sugerir no texto que Cássia decidiu cantar Smells like teen spirit (Dave Grohl, Krist Novoselic e Kurt Cobain, 1991) em sua apresentação no Rock in Rio de 2001 quando, na realidade, o hit-hino do grupo norte-americano Nirvana já fazia parte do repertório da cantora por ter sido incluído no roteiro do show da turnê Com você... meu mundo ficaria completo (1999). Descontado esse pequeno detalhe, o texto de Patrícia Andrade monta painel crível da vida e obra de Cássia sem tons didáticos ou diálogos artificiais tão comuns em produções biográficas. Está tudo lá: o embate ideológico com os pais na artificial Brasília (DF), a descoberta do amor e do sexo com a amiga Moema (Thainá Gallo) - ilustrada delicadamente com Flor do sol (Cássia Eller e Simone Saback), canção dos tempos seminais revelada somente em 2012 - e a iniciação profissional com Oswaldo Montenegro (Mário Hermeto, em composição naturalmente engraçada que não resvala na caricatura) na capital do Brasil. E está tudo lá aparentemente sem censura prévia dos herdeiros: o furor sexual de Cássia e o apego ao álcool, por exemplo, estão retratados em cena sem firulas. Mas o que sobressai e paira sobre todas as coisas é a voz de trovão de Cássia, tão bem reproduzida no palco por Tacy de Campos. Aliás, diferentemente da maioria dos musicais, que resultam mais vibrantes nos números coletivos, o espetáculo sobre Cássia Eller arrepia mais nos solos de Tacy, como Juventude transviada (Luiz Melodia, 1976) e Rubens (Mário Manga, 1986). Como atriz, Tacy dá conta dos diálogos - em que pesem um e outro tropeço no texto - porque, como dito, seu temperamento arredio reproduz naturalmente o comportamento arisco de Cássia Eller, artista de poucas e sinceras palavras. Como bem soube Maria Eugênia, a companheira fiel. Confiada ao desempenho de Eline Porto, Eugênia - ou Geninha, como Cássia chamava a mulher que também foi mãe de seu filho Francisco Eller, o Chicão - representa no texto os pontos de maior tensão dramática por ter sido o para-raio dos trovões da indomada Cássia Eller no seio de uma família atípica que tem seus momentos de harmonia expostos em cena ao som de 1º de julho (Renato Russo, 1994). Com Lan Lan, a paixão é retratada entre o toque flamenco de Soy gitano (José Monje, José Fernandez Torres e Vicente Amigo, 1989) - sucesso do cantor espanhol Camarón de la Isla (1950 - 1992) propagado por Cássia no show pesado que gerou o disco Veneno vivo (Polygram, 1998) - e a ternura de Luz dos olhos (Nando Reis, 2001). Na pele convincente de Emerson Espíndola, o cantor e compositor paulista Nando Reis tem papel destacado na parte final do musical assim como teve na fase final da vida pessoal e profissional de Cássia. A canção Relicário (Nando Reis, 2000) cumpre bem no musical o papel de ilustrar o amor terno que brotou entre os dois cantores. O dueto entre Cássia e Nando reproduz o número do Acústico MTV (Universal Music, 2001) que injetou popularidade e dinheiro na vida de Cássia Eller na mesma intensa medida em que os efeitos colaterais do sucesso oprimiram a cantora - e, embora não caia na tentação de justificar o que não tem explicação, o texto deixa bem claro o quanto a fama avassaladora vivida por Cássia ao longo de 2001 contribuiu nocivamente para abreviar sua vida ao fim daquele ano. Sucesso da cantora francesa Edith Piaf (1915 - 1963) em 1960, a canção Non, je ne regrette rien (Charles Dumont e Michel Vaucaire, 1956) - revivida por Cássia em seu Acústico MTV - simboliza no musical o inventário de uma vida louca vida encerrada precocemente. Mas que ainda pulsa nas gravações pela força estranha da intérprete, ora reavivada e reafirmada por excelente musical criado no tamanho exato de Cássia Eller e sustentado pela incrível atuação de Tacy de Campos. Tacy é Eller!!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Disco póstumo de Cássia vai enfatizar a produção autoral da compositora

Mais um disco póstumo de Cássia Eller (1962 - 2001) está em processo de produção. A ideia é enfatizar, através de gravações inéditas, a obra autoral da artista carioca. O repertório inclui parcerias de Cássia com Simone Saback, casos da inédita Retrato no papel - em gravação feita por Cássia aos 19 anos, em Brasília (DF), e à qual vai ser adicionada a voz de Milton Nascimento - e de Flor do sol (música já lançada em formato digital em dezembro de 2012, por ocasião do 50º aniversário de nascimento da cantora). Francisco Eller, o Chicão, filho de Cássia, está envolvido na produção do disco, capitaneada por Rodrigo Teixeira. CD sai este ano.

sábado, 6 de abril de 2013

CD com Biglione, musical de teatro e documentário revivem Cássia Eller

Disco, filme e peça vão fazer ressoar a voz imortal de Cássia Eller (1962 - 2001) a partir do segundo semestre deste ano de 2013. O CD é If six was nine - Victor Biglione e Cássia Eller in blues, registro de estúdio, gravado em 1992, do homônimo show que juntou a cantora carioca e o guitarrista argentino. Ciente da existência do álbum em seu arquivo, a gravadora Universal Music está em entendimento com os herdeiros da obra da artista para viabilizar a edição do disco. O filme - por ora intitulado Cássia - é um documentário já em processo de produção, sob a direção de Paulo Fontenelle, e com data ainda incerta de lançamento nos cinemas. Já a peça Cássia Eller - O musical tem lançamento previsto para agosto de 2013, no Rio de Janeiro (RJ), com direção musical da percussionista LanLan, grande amiga de Cássia.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Do lado do avesso das expectativas, Cássia se ilumina em gravação solo

Resenha de CD e DVD
Título: Do Lado do Avesso
Artista: Cássia Eller
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * * 1/2

Em março de 2001, quando Cássia Eller (1962 - 2001) subiu ao palco da casa do Rio de Janeiro (RJ) hoje denominada Citibank Hall para fazer show da série A luz do solo, a sós com três tipos de violões (de nylon, de aço e de 12 cordas), a cantora já tinha sido enquadrada na moldura pop do mercado fonográfico. Vinha de um disco mais suave em que assumiu já na capa imagem mais feminina, Com você... Meu mundo ficaria completo (1999), e tinha acabado de gravar o Acústico MTV que a consagraria naquele ano que seria o último de sua vida. Contudo, no palco, Cássia jamais se deixou enquadrar. É essa Cássia indomada que se ilumina na - até então inédita - gravação de sua apresentação no projeto A luz do solo. Editada em dezembro de 2012 em CD (com 16 músicas) e em DVD (com 12 números vistos em imagens cruas, extraídas das câmeras usadas para captar imagens para os telões da casa de shows) intitulados Do lado do avesso, a gravação do show ganhou nome adequado. Do lado do avesso é o tema do blues instrumental, de autoria da própria Cássia Eller, alocado no roteiro. Mas tal título também serve para caracterizar um show em que Cássia virou e revirou do avesso todas as expectativas depositadas nela. Ali, no palco, vê-se e ouve-se um diamante verdadeiro em estado bruto. Uma Cássia espontânea, honesta no trato com o público, uma intérprete que não faz pose - transparência perceptível, aliás, quando ela erra sucessivas vezes a letra do choro Diamante verdadeiro (Caetano Veloso) na tentativa de imitar Maria Bethânia. Acima de tudo, uma grande intérprete. Capaz de destilar com delicadeza o sentimento de perda exposto em Espaço (Vítor Ramil) - canção nunca gravada por Cássia - e de imprimir sotaque rasta em Eleanor Rigby (John Lennon e Paul McCartney) com a mesma naturalidade com que aveluda seus graves ao cantar Cherokee Louise (Joni Mitchell), com que encara um blues (I ain't got nothing but the blues, de Duke Ellington e Don George) e com que apresenta com orgulho All star, a canção então inédita que Nando Reis havia feito para ela (de Nando, compositor então predominante no repertório mais pop de Cássia, a cantora ainda entoa Relicário e Luz dos olhos). Sem fazer gênero, Cássia  insere um "aquela gostosa que não que me quer" em meio aos versos de Gatas extraordinárias (Caetano Veloso) e irmana Luiz Capucho (Maluca) e Zé Ramalho (Vila do sossego) em roteiro que jamais se atola na lama do ecletismo. Roteiro que inclui primorosa interpretação de 1º de julho (Renato Russo) e que abre espaço para a entrada do saxofonista Fábio Meneghesso em You've changed (Bill Carey e Carl Fischer), o standard norte-americano de 1941 que já foi gravado por todas as grandes cantoras de jazz e que ganha com Cássia um registro intenso, mas ao mesmo tempo íntimo e pessoal. Enfim, a edição do CD e DVD Do lado do avesso pode até ter natureza puramente mercadológica - e não é de hoje que a gravadora Universal Music vem revirando o baú de Cássia Eller, com o aval da família da artista - mas se trata do melhor produto póstumo de uma artista que deixou saudade e lacuna ainda não preenchida no vasto universo pop brasileiro.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

'Flor do Sol' e registro do show 'Luz do Solo' iluminam 50 anos de Cássia

Lançado hoje no iTunes, o single Flor do Sol ilumina os 50 anos que Cássia Rejane Eller (1962 - 2001) completaria nesta segunda-feira, 10 de dezembro de 2012. Inédita, a gravação de Flor do Sol joga luz sobre uma das poucas músicas assinadas pela cantora e (bissexta) compositora carioca. Também inédita, a canção Flor do Sol foi composta por Cássia em parceria com Simone Saback. Caseiro, o registro da música foi feito em Brasília (DF) quando a artista tinha 19 anos, ou seja, em algum momento de 1982, oito anos antes de Cássia começar a ganhar projeção nacional. A gravação foi finalizada pelo músico Francisco Eller - o Chicão, filho da cantora - com a participação de músicos e vocalistas convidados como a cantora Jussara Silveira. Além do lançamento do single digital via iTunes, a gravadora Universal Music põe nas lojas - ainda neste ano de 2012 - CD e DVD Do Lado do Avesso com o inédito registro ao vivo do show de voz & violão feito por Cássia no Rio de Janeiro (RJ), em 2001, dentro do projeto A Luz do Solo. Nesta gravação, a cantora dá voz a músicas que nunca havia registrado em disco, casos de Espaço - música de Vitor Ramil que o compositor gaúcho gravara no ano anterior em seu álbum Tambong (2000) - e de Diamante Verdadeiro, choro de Caetano Veloso lançado por Maria Bethânia no álbum Álibi (1978). Mesmo que tais lançamentos tenham intenções primordialmente comerciais, estes produtos reavivam uma das vozes mais interessantes do universo pop rock brasileiro de todos os tempos. Intérprete visceral, de natureza por vezes selvagem que contrastava com sua doçura fora de cena, Cássia teve postura indomada nos palcos. Nos discos, a gravadora conseguiu por vezes domesticar a artista para enquadrar seu canto e seu repertório - bem indie nos primeiros dois álbuns, Cássia Eller (1990) e O Marginal (1992) -  na moldura pop assimilada com mais facilidade pelo mercado comum da música. Em qualquer tom, Cássia Rejane Eller mostrou talento incomum e personalidade forte. Uma voz rascante, original, intensa, que nem sua inesperada saída de cena foi capaz de calar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Gravação inédita festeja os 50 anos de Cássia Eller em 10 de dezembro

Cássia Eller (1962 - 2001) completaria 50 anos de vida em 10 de dezembro de 2012 se não tivesse saído precocemente de cena em 29 de dezembro de 2001. Na data, o aniversário da cantora carioca vai ser festejado pela Universal Music com o lançamento no iTunes de gravação inédita de música também inédita da artista, feita em Brasília (DF) quando Cássia tinha 19 anos. Trata-se de Flor do Sol, música composta por Cássia com Simone Saback. A gravação foi finalizada em estúdio com a participação de músicos associados ao universo pop de Cássia Eller.

sábado, 2 de junho de 2012

Com saudade, Marisa saúda presença de Cássia em 'Verdade Uma Ilusão'

Curitiba (PR) - "Ter saudade é sentir a presença de alguém", conceituou Marisa Monte após cantar E.C.T. (Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown) na estreia internacional da Verdade Uma Ilusão Tour 2012 / 2013. O alguém a que a cantora se referia era Cássia Eller (1962 - 2001), intérprete original de E.C.T. em gravação de 1994. A música nunca foi gravada por Marisa. "Sinto falta de Cássia como referência", confidenciou Marisa ao público que lotou o Teatro Guaíra, em Curitiba (PR), na noite de ontem, 1º de junho de 2012, para ver a primeira apresentação do sofisticado show concebido pela própria Marisa - vista em foto de Mauro Ferreira - e dirigido por Leonardo Netto e Claudio Torres. E.C.T. foi boa surpresa do roteiro.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

'Caixa Eller' acentua a crescente falta que Cássia, morta há dez anos, faz

Resenha de caixa de CDs
Título: Caixa Eller - O Mundo Completo de Cássia Eller
Artista: Cássia Eller
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * *

Faz dez anos nesta quinta-feira, 29 de dezembro de 2011, que Cássia Rejane Eller (1962 - 2001) saiu precocemente de cena quando contabilizava apenas 39 anos de vida e 11 de carreira fonográfica. Posta este mês nas lojas pela gravadora Universal, a Caixa Eller acentua a falta que Cássia faz ao permitir a audição, sob a perspectiva do tempo, de seus oito álbuns oficiais e do póstumo 10 de Dezembro (2002) - todos devidamente analisados nos textos escritos pelo jornalista carioca Silvio Essinger para o libreto embalado na caixa. Decorridos dez anos de sua morte, a cantora continua única, insubstituível, singular em sua postura. A voz de trovão ressoava com atitude, cantasse um rock de raiz punk - como Não Sei o que Quero da Vida (Hermelino Neder e Arrigo Barnabé), destaque de seu primeiro álbum, o indomado Cássia Eller (1990) - ou uma canção romântica de Nando Reis como as incluídas no CD Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo (1999), retrato de uma Cássia mais pop, de imagem mais feminina, moldada por sua gravadora. Sim, a indústria do disco nunca aceitou realmente a artista como ela era - livre, espontânea, marginal no melhor sentido do termo. A propósito, não é à toa que o segundo (e menos ouvido) álbum da cantora se chamou O Marginal (1992). Cássia gostava de transitar à margem do convencional, por vias alternativas da música e da vida. Mas tal postura é - salvo casos excepcionais - normalmente menos vendável. E foi por isso que, para sobreviver no mercado, a Leoa fingiu que se deixava domar a partir do terceiro álbum, Cássia Eller (1994), de pegada pop radiofônica. Ali surgiram as gravações originais de Malandragem (Frejat e Cazuza) e E.C.T. (Carlinhos Brown, Marisa Monte e Nando Reis), músicas que seriam rebobinadas no Acústico MTV (2001) que amplificou o sucesso da cantora. Entre um e outro, houve um registro de show - Cássia Eller ao Vivo (1996), gravado na turnê do show Violões, captado no DVD inserido na caixa - e encomendado tributo a Cazuza (1958 - 1990), Veneno Antimonotonia (1997), que ganhou peso no palco e gerou o imponente Veneno Vivo (1998), prova de que, no palco, ninguém domava a fera. Por reunir toda a discografia da intérprete, Caixa Eller expõe os vários tons da cantora. E todos são fortes, mesmo quando brandos. O que aumenta a saudade que o Brasil sente, e vai continuar sentindo, de Cássia Eller.

domingo, 13 de novembro de 2011

'Caixa Eller' embala nove CDs e um DVD dez anos após morte de Cássia

Os dez anos da morte de Cássia Eller (1962 - 2001), a serem completados em 29 de dezembro, motivam mais lançamentos póstumos da cantora carioca. Além de coletânea Relicário - As Canções que o Nando Fez pra Cássia Cantar (que apresenta o inédito rock Baby Love, em registro demo de 1999 feito quando a música de Nando Reis concorria à vaga no repertório do CD Com Você... Meu Mundo Mundo Ficaria Completo), a gravadora Universal Music põe nas lojas, ainda neste mês de novembro de 2011, a Caixa Eller - O Mundo Completo de Cássia Eller. A caixa embala os oitos álbuns lançados por Cássia entre 1990 e 2001, o disco póstumo Dez de Dezembro - lançado em 2002, quando se completava um ano da precoce saída de cena da cantora - e o DVD Violões, editado em 2010. Eis o (rico) contéudo da Caixa Eller:

1. Cássia Eller (1990)
2. O Marginal (1992)
3. Cássia Eller (1994)
4. Cássia Eller ao Vivo (1996)
5. Veneno Antimonotonia (1997)
6. Veneno Vivo (1998)
7. Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo (1999)
8. Acústico MTV (2001)
9. Dez de Dezembro (2002)
10. Violões (2010 - DVD com gravações de 1990, 1996 e 1999)