Mauro Ferreira no G1

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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Nogueira se entrega às imagens do repertório poético de seu segundo álbum

Resenha de CD
Título: Sem medo nem esperança
Artista: Arthur Nogueira
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * * *

Ruídos industriais atravessam e cortam Por um fio (Slackline), primeira das dez músicas do segundo álbum de Arthur Nogueira, Sem medo nem esperança. De autoria solitária desse cantor e compositor paraense já radicado em São Paulo (SP), a música transita no fio da navalha com sua poesia que clama urgências afetivas e existenciais. "A divisa 'sem esperança nem medo' é adotada por aqueles que, desprezando tanto as promessas quanto as ameaças referentes a alguma hipotética vida futura, sabem que viver o presente em toda sua plenitude constitui o mais alto e o mais profundo fim da própria vida", sentencia o poeta carioca Antonio Cícero, parceiro de Nogueira em três das dez músicas do álbum, no texto escrito para o encarte do disco, lançado no embalo da gravação por Gal Costa da música-título Sem medo nem esperança, uma das três assinadas por Cícero com Nogueira. Numa interpretação estratosférica, Gal transformou a música em rock. Arthur sustenta os versos no feminino, mas envereda por outra rítmica, mais indefinida. "Já fui até rapaz / Já fui até mulher", contemporiza o cantor de voz grave em O que você quiser (Marcelo Segreto e Arthur Nogueira), tema embasado pelo drum sampler e pelos sintetizadores pilotados por Arthur Kunz, produtor do disco gravado sob a direção artística de Marcus Preto. Kunz é metade do duo paraense Strobo. A bem resolvida equação entre sons eletrônicos e tons orgânicos valoriza o álbum, assim como a mixagem (capitaneada pelo próprio Kunz) e a masterização (feita por Sérgio Soffiatti em São Paulo) exemplares. Se o artista se joga na pista sintetizada de Truques (Arthur Nogueira e Antonio Cícero), Simbiose (Arthur Nogueira e Antonio Cícero) eleva o álbum ao seu pico de beleza no toque acústico do nylon do violão de João Paulo Deogracias e do baixo (e do arco) de Meno Del Picchia. Cícero irrompe no meio do tema, recitando Palavras aladas. No todo, Sem medo nem esperança representa o voo mais alto de Nogueira na música. O artista mostra evolução como cantor e compositor, justificando o aval de Gal, que lhe deu visibilidade além do limitado circuito indie paulistano. "Minha casa / Fiz na asa do vento / Meu lugar / Não é um só lugar / Canto o mundo em movimento", situa-se Nogueira, sem fronteiras rígidas, nos versos iniciais da etérea Guamá (Arthur Nogueira), outro pico de beleza do álbum, até pela dose certa de eletrônica. Entre a marcação seca de Vaga (Marina Wisnik e Arthur Nogueira) e as atonalidades de Eye shark (Arthur Nogueira e Letícia Novaes), música composta e cantada em inglês, Sem medo nem esperança transita por trilho moderno e poético que encobre eventuais desinspirações de repertório que inclui a bela canção Volta, parceria de Nogueira com o poeta Omar Salomão, que dá seu recado em apenas quatro versos. No fecho do CD, Fim do céu (Arthur Nogueira, Michel Seilman e Adonis) eleva o álbum a um plano onírico, sem perda do vigor poético, no toque da guitarra de Nogueira, mixada com os efeitos dos samples e dos sintetizadores de João Paulo Deogracias. Entregue às imagens poéticas do repertório deste seu alado segundo álbum, Arthur Nogueira (por vezes) encontra o céu.

3 comentários:

Mauro Ferreira disse...

♪ Ruídos industriais atravessam e cortam Por um fio (Slackline), primeira das dez músicas do segundo álbum de Arthur Nogueira, Sem medo nem esperança. De autoria solitária desse cantor e compositor paraense já radicado em São Paulo (SP), a música transita no fio da navalha com sua poesia que clama urgências afetivas e existenciais. "A divisa 'sem esperança nem medo' é adotada por aqueles que, desprezando tanto as promessas quanto as ameaças referentes a alguma hipotética vida futura, sabem que viver o presente em toda sua plenitude constitui o mais alto e o mais profundo fim da própria vida", sentencia o poeta carioca Antonio Cícero, parceiro de Nogueira em três das dez músicas do álbum, no texto escrito para o encarte do disco, lançado no embalo da gravação por Gal Costa da música-título Sem medo nem esperança, uma das três assinadas por Cícero com Nogueira. Numa interpretação estratosférica, Gal transformou a música em rock. Arthur sustenta os versos no feminino, mas envereda por outra rítmica, mais indefinida. "Já fui até rapaz / Já fui até mulher", contemporiza o cantor de voz grave em O que você quiser (Marcelo Segreto e Arthur Nogueira), tema embasado pelo drum sampler e pelos sintetizadores pilotados por Arthur Kunz, produtor do disco gravado sob a direção artística de Marcus Preto. Kunz é metade do duo paraense Strobo. A bem resolvida equação entre sons eletrônicos e tons orgânicos valoriza o álbum, assim como a mixagem (capitaneada pelo próprio Kunz) e a masterização (feita por Sérgio Soffiatti em São Paulo) exemplares. Se o artista se joga na pista sintetizada de Truques (Arthur Nogueira e Antonio Cícero), Simbiose (Arthur Nogueira e Antonio Cícero) eleva o álbum ao seu pico de beleza no toque acústico do nylon do violão de João Paulo Deogracias e do baixo (e do arco) de Meno Del Picchia. Cícero irrompe no meio do tema, recitando Palavras aladas. No todo, Sem medo nem esperança representa o voo mais alto de Nogueira na música. O artista mostra evolução como cantor e compositor, justificando o aval de Gal, que lhe deu visibilidade além do limitado circuito indie paulistano. "Minha casa / Fiz na asa do vento / Meu lugar / Não é um só lugar / Canto o mundo em movimento", situa-se Nogueira, sem fronteiras rígidas, nos versos iniciais da etérea Guamá (Arthur Nogueira), outro pico de beleza do álbum, até pela dose certa de eletrônica. Entre a marcação seca de Vaga (Marina Wisnik e Arthur Nogueira) e as atonalidades de Eye shark (Arthur Nogueira e Letícia Novaes), música composta e cantada em inglês, Sem medo nem esperança transita por trilho moderno e poético que encobre eventuais desinspirações de repertório que inclui a bela canção Volta, parceria de Nogueira com o poeta Omar Salomão, que dá seu recado em apenas quatro versos. No fecho do CD, Fim do céu (Arthur Nogueira, Michel Seilman e Adonis) eleva o álbum a um plano onírico, sem perda do vigor poético, no toque da guitarra de Nogueira, mixada com os efeitos dos samples e dos sintetizadores de João Paulo Deogracias. Entregue às imagens poéticas do repertório deste seu alado segundo álbum, Arthur Nogueira (por vezes) encontra o céu.

Rafael M. disse...

A capa é linda e só ouvi a versão dele para "Sem Medo Nem Esperança" e gostei... O restante do álbum não sei se está realmente à altura de seu talento como compositor.

Renato Gonçalves disse...

Oi, Mauro!

Gostei muito da resenha e do disco! A produção é um show à parte.

Só me tira uma dúvida? Onde está a atonalidade à qual você se refere em "Eye Shark"?

Abraços,

Renato.