Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

'Box' de Celly Campello encaixota ingenuidade pop e juvenil dos anos 60

Resenha de caixa de CDs
Título: Estúpido Cupido
Artista: Celly Campello
Gravadora: Discobertas
Cotação: * * * 1/2

Ícone da pré-história do pop rock brasileiro, na virada dos anos 50 e 60, a cantora paulista Celly Campello (1942 - 2003) deu voz à ingenuidade adolescente dos amores românticos tão ao gosto da sociedade hipocritamente puritana da época. É sintomático que Celly tenha saído voluntariamente de cena quando o rock virou som de gente grande. Estúpido Cupido - a valiosa caixa que o selo Discobertas está pondo nas lojas com caprichadas reedições em CDs dos seis álbuns que Celly lançou pela Odeon entre 1959 e 1968 - embala este som deliciosamente ingênuo, às vezes kitsch, que fez a festa dos brotos legais. Não é por acaso que um dos principais sucessos do primeiro álbum, Estúpido Cupido (1959), foi Túnel do Amor, versão de Fred Jorge para Have Lips Will Kiss in the Tunnel of Love, sucesso de Doris Day, símbolo da ingenuidade norte-americana da época. Estúpido Cupido, o álbum produzido por Júlio Nagib e lançado originalmente em setembro de 1959, é o melhor da caixa homônima e resiste ao tempo como um clássico. Além de Túnel do Amor, faixa lançada em julho de 1959 em disco de 78 rotações por minuto, o disco reúne sucessos como Estúpido Cupido (versão de Fred Jorge para o tema de Neil Sedaka e Howard Greenfield que estourara nas paradas dos Estados Unidos na voz de Connie Francis) e Lacinhos Cor de Rosa (versão do mesmo Fred Jorge para música gravada nos EUA por Dodie Stevens), ambos também lançados em compacto antes do LP. Para o álbum, a rigor, Celly gravou somente cinco faixas - como relata Albert Pavão no informativo texto escrito para o encarte desta reedição que adiciona ao repertório original de Estúpido Cupido duas faixas-bônus, Devotion e O Céu Mudou de Cor, lançadas por Celly em disco de 78 rotações por minuto. Ainda que tenham altíssimo valor documental, tais faixas-bônus não exalam o frescor juvenil que pauta Estúpido Cupido e o segundo álbum da caixa, Broto Certinho (1960), quase tão bom quanto o primeiro. Lançado originalmente em abril de 1960, Broto Certinho trouxe no repertório o hit Banho de Lua, versão de Fred Jorge para o tema italiano Tintarella Di Luna, lançada por Celly em compacto de março de 1960. Já uma estrela, a cantora pôs voz em dez músicas especialmente para o disco. Uma, Os Mandamentos do Amor (Fred Jorge e Mario Gennari Filho), resulta curiosa por trazer versos quase falados. Já Querida Mamãe (versão de Fred Jorge para tema da dupla Slay Jr. e Crewe) salta aos ouvidos pela letra pueril, embebida em romantismo e sonhos adolescentes. Mas nada soa mais surpreendente do que ouvir Celly cantar (bem) Broken Hearted Melody, música gravada pela cantora norte-americana de jazz Sarah Vaughan (1924 - 1990). A propósito, a intérprete solta a voz em inglês em mais duas faixas, To Know Kim Is to Love Him (bela balada de Phil Spector) e Over the Rainbow (o clássico do cinema propagado na voz de Judy Garland em 1939). Naquela altura, Celly Campello era - aos olhos do público e da diretoria da Odeon - A Bonequinha que Canta. E não é por acaso que este foi o título de seu terceiro álbum, lançado em novembro de 1960. Mais uma vez, o versionista Fred Jorge recorreu ao repertório ingênuo de Doris Day e traduziu Please Don't Eat the Daisies (Joe Lubin) para o idioma teen de Celly com o título de Mal me Quer. A fórmula e o som eram os mesmos - a rigor, mais baladas do que propriamente rocks - mas o fato é que A Bonequinha que Canta não surtiu o mesmo efeito dos dois álbuns anteriores da cantora. Tanto que das músicas em português a mais conhecida é Broto Legal, sucesso mais na voz de Sérgio Murilo (1941 - 1992) do que na de Celly. Título irregular da discografia de Celly, A Bonequinha que Canta ganha duas faixas-bônus nesta reedição, Vi Mamãe Beijar Papai Noel e Canário, esta uma versão de tema do Haiti, Yellow Bird, que Celly gravou em dueto com seu irmão Tony Campello em fonograma lançado em novembro de 1961 na coletânea Hebe Comanda o Espetáculo.  Na sequência, o álbum A Graça de Celly Campello e as Músicas de Paul Anka - lançado em abril de 1961 - enfileira versões em português de 12 músicas do cantor e compositor canadense Paul Anka. Como elucida Albert Pavão em texto escrito para o encarte da reedição, a inspiração do disco provavelmente veio de Annette Sings Anka, álbum de 1960 em que a cantora adolescente Annette Funicello deu voz a músicas de Anka, muitas feitas especialmente para o projeto e coincidentemente (?) incluídas no disco de Celly. A repercussão foi maior do que Brotinho Encantador, quinto título da caixa. Lançado em novembro de 1961, Brotinho Encantador foi o último álbum gravado por Celly na primeira fase de sua carreira. Em 1962, ao casar, a cantora decidiria abandonar a carreira para se dedicar ao marido. Apesar da grande queda na qualidade do repertório, evidenciada especialmente em Brotinho Encantador, Celly Campello ainda era a rainha da pré-história do rock brasileiro quando optou por sair de cena. Quando quis voltar, em 1968, encontrou abrigo na Odeon e gravou o álbum Celly, sexto e último titulo da caixa. Lançado em junho de 1968, Celly já soou como um disco fora de sintonia com seu tempo. Os reis do rock e da juventude já eram outros. Aliás, a Jovem Guarda já vivera sua ascenção, apogeu e queda. Já existiam Os Mutantes e a turma Tropicalista capitaneada por Caetano Veloso e Gilberto Gil. O mundo já mergulhava na era da contracultura e tapava os ouvidos para a ingenuidade então já kitsch do repertório de intérpretes como Celly Campello. E restou à destronada rainha somente a opção de sair novamente de cena para viver de seu passado de glória, embalado nesta caixa produzida com capricho pelo pesquisador musical Marcelo Fróes para seu selo Discobertas (além dos textos de Pavão, as capas e contracapas originais são reproduzidas com fidelidade). Item indispensável para colecionadores de discos, Estúpido Cupido embala o mundo cor de rosa de Celly Campello, retrato do espírito da época.

11 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Ícone da pré-história do pop rock brasileiro, na virada dos anos 50 e 60, a cantora paulista Celly Campello (1942 - 2003) deu voz à ingenuidade adolescente dos amores românticos tão ao gosto da sociedade hipocritamente puritana da época. É sintomático que Celly tenha saído voluntariamente de cena quando o rock virou som de gente grande. Estúpido Cupido - a valiosa caixa que o selo Discobertas está pondo nas lojas com caprichadas reedições em CDs dos seis álbuns que Celly lançou pela Odeon entre 1959 e 1968 - embala este som deliciosamente ingênuo, às vezes kitsch, que fez a festa dos brotos legais. Não é por acaso que um dos principais sucessos do primeiro álbum, Estúpido Cupido (1959), foi Túnel do Amor, versão de Fred Jorge para Have Lips Will Kiss in the Tunnel of Love, sucesso de Doris Day, símbolo da ingenuidade norte-americana da época. Estúpido Cupido, o álbum produzido por Júlio Nagib e lançado originalmente em setembro de 1959, é o melhor da caixa homônima e resiste ao tempo como um clássico. Além de Túnel do Amor, faixa lançada em julho de 1959 em disco de 78 rotações por minuto, o disco reúne sucessos como Estúpido Cupido (versão de Fred Jorge para o tema de Neil Sedaka e Howard Greenfield que estourara nas paradas dos Estados Unidos na voz de Connie Francis) e Lacinhos Cor de Rosa (versão do mesmo Fred Jorge para música gravada nos EUA por Dodie Stevens), ambos também lançados em compacto antes do LP. Para o álbum, a rigor, Celly gravou somente cinco faixas - como relata Albert Pavão no informativo texto escrito para o encarte desta reedição que adiciona ao repertório original de Estúpido Cupido duas faixas-bônus, Devotion e O Céu Mudou de Cor, lançadas por Celly em disco de 78 rotações por minuto. Ainda que tenham altíssimo valor documental, tais faixas-bônus não exalam o frescor juvenil que pauta Estúpido Cupido e o segundo álbum da caixa, Broto Certinho (1960), quase tão bom quanto o primeiro.

Mauro Ferreira disse...

Lançado originalmente em abril de 1960, Broto Certinho trouxe no repertório o hit Banho de Lua, versão de Fred Jorge para o tema italiano Tintarella Di Luna, lançada por Celly em compacto de março de 1960. Já uma estrela, a cantora pôs voz em dez músicas especialmente para o disco. Uma, Os Mandamentos do Amor (Fred Jorge e Mario Gennari Filho), resulta curiosa por trazer versos quase falados. Já Querida Mamãe (versão de Fred Jorge para tema da dupla Slay Jr. e Crewe) salta aos ouvidos pela letra pueril, embebida em romantismo e sonhos adolescentes. Mas nada soa mais surpreendente do que ouvir Celly cantar (bem) Broken Hearted Melody, música gravada pela cantora norte-americana de jazz Sarah Vaughan (1924 - 1990). A propósito, a intérprete solta a voz em inglês em mais duas faixas, To Know Kim Is to Love Him (bela balada de Phil Spector) e Over the Rainbow (o clássico do cinema propagado na voz de Judy Garland em 1939). Naquela altura, Celly Campello era - aos olhos do público e da diretoria da Odeon - A Bonequinha que Canta. E não é por acaso que este foi o título de seu terceiro álbum, lançado em novembro de 1960. Mais uma vez, o versionista Fred Jorge recorreu ao repertório ingênuo de Doris Day e traduziu Please Don't Eat the Daisies (Joe Lubin) para o idioma teen de Celly com o título de Mal me Quer. A fórmula e o som eram os mesmos - a rigor, mais baladas do que propriamente rocks - mas o fato é que A Bonequinha que Canta não surtiu o mesmo efeito dos dois álbuns anteriores da cantora. Tanto que das músicas em português a mais conhecida é Broto Legal, sucesso mais na voz de Sérgio Murilo (1941 - 1992) do que na de Celly. Título irregular da discografia de Celly, A Bonequinha que Canta ganha duas faixas-bônus nesta reedição, Vi Mamãe Beijar Papai Noel e Canário, esta uma versão de tema do Haiti, Yellow Bird, que Celly gravou em dueto com seu irmão Tony Campello em fonograma lançado em novembro de 1961 na coletânea Hebe Comanda o Espetáculo. Na sequência, o álbum A Graça de Celly Campello e as Músicas de Paul Anka - lançado em abril de 1960 - enfileira versões em português de 12 músicas do cantor e compositor canadense Paul Anka. Como elucida Albert Pavão em texto escrito para o encarte da reedição, a inspiração do disco provavelmente veio de Annette Sings Anka, álbum de 1960 em que a cantora adolescente Annette Funicello deu voz a músicas de Anka, muitas feitas especialmente para o projeto e coincidentemente (?) incluídas no disco de Celly. A repercussão foi maior do que Brotinho Encantador, quinto título da caixa. Lançado em novembro de 1961, Brotinho Encantador foi o último álbum gravado por Celly na primeira fase de sua carreira. Em 1962, ao casar, a cantora decidiria abandonar a carreira para se dedicar ao marido. Apesar da grande queda na qualidade do repertório, evidenciada especialmente em Brotinho Encantador, Celly Campello ainda era a rainha da pré-história do rock brasileiro quando optou por sair de cena. Quando quis voltar, em 1968, encontrou abrigo na Odeon e gravou o álbum Celly, sexto e último titulo da caixa. Lançado em junho de 1968, Celly já soou como um disco fora de sintonia com seu tempo. Os reis do rock e da juventude já eram outros. Aliás, a Jovem Guarda já vivera sua ascenção, apogeu e queda. Já existiam Os Mutantes e a turma Tropicalista capitaneada por Caetano Veloso e Gilberto Gil. O mundo já mergulhava na era da contracultura e tapava os ouvidos para a ingenuidade então já kitsch do repertório de intérpretes como Celly Campello. E restou a destronada rainha somente a opção de sair novamente de cena para viver de seu passado de glória, embalado nesta caixa produzida com capricho pelo pesquisador musical Marcelo Fróes para seu selo carioca Discobertas. Item essencial para colecionadores de discos, Estúpido Cupido embala o mundo cor de rosa de Celly Campello, retrato do espírito da época.

KL disse...

mesmo 'ultrapassado' ou 'datado', como queiram, dá de um bilhão a zero em qualquer coisa do gênero vomitada pelos 'ídolos' atuais, todos fabricados em série e retocados com Photoshop.

André Luís disse...

Mauro, todos os encartes dos CDs vêm com textos escritos para cada disco?! E a arte gráfica desta coleção, preserva capas e contracapas originais?! Gostei da resenha!

Ah! Uma pequena correção. Creio que no trecho "E restou a destronada rainha..." haja uma crase ("E restou à destronada rainha...").

André Queiroz disse...

Mais um golaço de Marcelo Fróes e seu selo Discobertas.Verdadeira página de ouro do Rock Brasileiro dos anos 1960.Para ouvir totalmente relaxado e acompanhado, de preferência de uma Crush geladinha como nos velhos tempos.

EDELWEISS1948 disse...

A MELHOR E UNICA CANTORA JOVEM DESSE PAIS DE TODOS OS TEMPOS. DEMOROU MUITO PARA SAIR ESSA CAIXA. PARABÉNS AO MARCELO FRÓES E A DISCOBERTAS.

Mauro Ferreira disse...

Oi, André Luís, grato pela observação atenta da crase (tem mesmo, mas esqueci de digitar). Sim, cada disco vem com um texto diferente, escrito pelo Albert Pavão com detalhes sobre a origem do repertório. Sim, capas e contracapas originais estão reproduzidas com fidelidade. Vale a pena investir na caixa! Abs, MauroF

KL disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luca disse...

uma coletânea da Cely já basta pra mim

André Luís disse...

Tanto o Box do Zimbo Trio quanto esse da Celly Campello estão com preço sugerido de R$120. Assim que puder ($$$$), adquirirei.

momohime disse...

Épico