Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Circo armado na gravação de Anitta disfarça limitações do som da artista

Resenha de show - Gravação ao vivo de CD e DVD
Título: O fantástico mundo de Anitta
Artista: Anitta (em foto de Rodrigo Amaral)
Local: HSBC Arena (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 15 de fevereiro de 2014
Cotação: * * 1/2

Anitta testou seu poder junto aos fãs na gravação ao vivo do show O fantástico mundo de Anitta. Foram duas horas e 20 minutos de espera na pista da HSBC Arena, no Rio de Janeiro (RJ), pelo início do espetáculo de arquitetura teatral, espécie de ópera-pop-funk que disfarçou, com seu aparato visual, as limitações do som da artista. Mas as vaias e os pedidos de "Começa! Começa!" foram automaticamente substituídos por declarações apaixonadas do tipo "Anitta, eu te amo!" a partir do momento em que a poderosa da vez na cena pop funk carioca apareceu no palco com o primeiro dos cinco figurinos criados pela estilista Carola Chede. Sob o comando do diretor Raoni Carneiro, o circo pop foi armado com cerca de 30 bailarinos - um, o brasileiro Carlos Márcio Moreira, foi recrutado da trupe do Cirque Du Soleil -  e cenário grandioso de Zé Carratu para traduzir visualmente enredo que resultou confuso em cena. Elementos góticos e circenses foram misturados no desenvolvimento de narrativa que em tese conduziria o roteiro do inferno ao céu. Dentro dessa lógica, a explosão carnavalizante de confetes e serpentinas - em Show das poderosas (Anitta, 2013), o hit que fechou o roteiro de 20 músicas - pode ter sinalizado a chegada ao paraíso. Enredo e repertório jamais se harmonizaram em cena, mas, a caminho dos 21 anos, a serem completados em março de 2014, Larissa de Macedo Machado estava à vontade na pele de Anitta. Afagou o ego dos fãs, fez com os bailarinos as coreografias inspiradas tanto na Street Dance como nos movimentos cênicos de divas do pop internacional como Beyoncé Knowles, apresentou músicas inéditas coerentes com seu estilo e rebobinou onze das 14 composições de seu primeiro álbum de estúdio, Anitta (Warner Music, 2013). No caso, com arranjos quase sempre similares ao do disco, já que a direção musical do espetáculo foi confiada a Umberto Tavares e a Mãozinha, produtores do CD. Eu sou assim (Anitta, Umberto Tavares e Jefferson Junior, 2013), por exemplo, reapareceu com seu toque árabe à moda do pop globalizado da cantora e compositora colombiana Shakira. A iluminação hi-tech surtiu efeitos. Assim como os adereços cênicos - como o lustre de cristal que evoca espetáculo recente do Cirque Du Soleil, Corteo - atraíram olhares e desviaram a atenção da música padronizada e plastificada de Anitta. Inéditas autorais como o eletrofunk Blá blá blá e Na batida sinalizaram que a cantora e compositora vai manter a linha de seu repertório. Em outras palavras, Anitta vai continuar personificando a menina má do pop funk carioca - a que põe os homens a seus pés. A que dá a decisão no eleitorado masculino, invertendo os papéis sexuais num baile em que a mulher se contentava em personificar a cachorra. Nesse sentido, Anitta faz a diferença no funk, ainda que seu som seja moldado para o gosto pop do público refratário ao pancadão dos bailes da pesada. Tanto que o espetáculo incluiu bloco romântico no qual foram alocadas a melodiosa balada Zen (Anitta, Umberto Tavares e Jefferson Junior, 2013), a terna canção Quem sabe - inédita de autoria da fã gaúcha Letícia Pedro dos Santos, gravada por Anitta em ação arquitetada para solidificar o elo entre a cantora e seu público - e a também inédita balada Música de amor, introduzida em cena pelos sons que saíam de uma caixinha de música de proporções gigantes em que cabia uma bailarina de carne e osso. Também feita em clima zen, a participação do rapper paulistano Projota - convidado por Anitta diante da impossibilidade de pôr em cena o rapper norte-americano Pitbull, como era a vontade inicial da cantora - ajudou a atenuar a sensação recorrente de que o funk de uma batida só cantado por Anitta soa repetitivo, inclusive na temática. Projota entrou em cena em Cobertor (2013) - inédita balada de cadência r & b - e permaneceu no palco quando Anitta, aparentemente de improviso, cantou os primeiros versos de Mulher, tema que o rapper compôs com o parceiro Mayk e que lançou em mixtape intitulado Muita luz (2013). No fim, com Anitta de shortinho e de boné, ao estilo desinibido das funkeiras, o espetáculo simulou o clima e o pancadão eletrônico de um baile funk. Foi a vez de entrarem em cena hits seminais como Meiga e abusada (Anitta, R. Araújo e Jefferson Junior, 2013). Enfim, a construção d'O Fantástico mundo de Anitta custou cerca de R$ 4 milhões - uma superprodução para os atuais padrões da indústria brasileira da música - e mobilizou dezenas de profissionais para viabilizar gravação ao vivo de CD e DVD que transcorreu ágil, sem interrupções. Somente duas músicas foram repetidas no bis - efeito de Anitta já ter feito um registro do show na véspera da gravação oficial, sem público. Estratégia que fez com que a cantora se sentisse bem segura em cena quando o circo foi armado diante de um séquito de fãs para os quais o mundo de Anitta é mesmo fantástico. 

10 comentários:

Mauro Ferreira disse...

Anitta testou seu poder junto aos fãs na gravação ao vivo do show O fantástico mundo de Anitta. Foram duas horas e 20 minutos de espera na pista da HSBC Arena, no Rio de Janeiro (RJ), pelo início do espetáculo de arquitetura teatral, espécie de ópera-pop-funk que disfarçou, com seu aparato visual, as limitações do som da artista. Mas as vaias e os pedidos de "Começa! Começa!" foram automaticamente substituídos por declarações apaixonadas do tipo "Anitta, eu te amo!" a partir do momento em que a poderosa da vez na cena pop funk carioca apareceu no palco com o primeiro dos cinco figurinos criados pela estilista Carola Chede. Sob o comando do diretor Raoni Carneiro, o circo pop foi armado com cerca de 30 bailarinos - um, o brasileiro Carlos Márcio Moreira, foi recrutado da trupe do Cirque Du Soleil - e cenário grandioso de Zé Carratu para traduzir visualmente enredo que resultou confuso em cena. Elementos góticos e circenses foram misturados no desenvolvimento de narrativa que em tese conduziria o roteiro do inferno ao céu. Dentro dessa lógica, a explosão carnavalizante de confetes e serpentinas - em Show das poderosas (Anitta, 2013), o hit que fechou o roteiro de 20 músicas - pode ter sinalizado a chegada ao paraíso. Enredo e repertório jamais se harmonizaram em cena, mas, a caminho dos 21 anos, a serem completados em março de 2014, Larissa de Macedo Machado estava à vontade na pele de Anitta. Afagou o ego dos fãs, fez com os bailarinos as coreografias inspiradas tanto na Street Dance como nos movimentos cênicos de divas do pop internacional como Beyoncé Knowles, apresentou músicas inéditas coerentes com seu estilo e rebobinou onze das 14 composições de seu primeiro álbum de estúdio, Anitta (Warner Music, 2013). No caso, com arranjos quase sempre similares ao do disco, já que a direção musical do espetáculo foi confiada a Umberto Tavares e a Mãozinha, produtores do CD. Eu sou assim (Anitta, Umberto Tavares e Jefferson Junior, 2013), por exemplo, reapareceu com seu toque árabe à moda do pop globalizado da cantora e compositora colombiana Shakira. A iluminação hi-tech surtiu efeitos. Assim como os adereços cênicos - como o lustre de cristal que evoca espetáculo recente do Cirque Du Soleil, Corteo - atraíram olhares e desviaram a atenção da música padronizada e plastificada de Anitta. Inéditas autorais como o eletrofunk Blá blá blá e Na batida sinalizaram que a cantora e compositora vai manter a linha de seu repertório. Em outras palavras, Anitta vai continuar personificando a menina má do pop funk carioca - a que põe os homens a seus pés. A que dá a decisão no eleitorado masculino, invertendo os papéis sexuais num baile em que a mulher se contentava em personificar a cachorra. Nesse sentido, Anitta faz a diferença no funk, ainda que seu som seja moldado para o gosto pop do público refratário ao pancadão dos bailes da pesada. Tanto que o espetáculo incluiu bloco romântico no qual foram alocadas a melodiosa balada Zen (Anitta, Umberto Tavares e Jefferson Junior, 2013), a terna canção Quem sabe - inédita de autoria da fã gaúcha Letícia Pedro dos Santos, gravada por Anitta em ação arquitetada para solidificar o elo entre a cantora e seu público - e a também inédita balada Música de amor, introduzida em cena pelos sons que saíam de uma caixinha de música de proporções gigantes em que cabia uma bailarina de carne e osso.

Mauro Ferreira disse...

Também feita em clima zen, a participação do rapper paulistano Projota - convidado por Anitta diante da impossibilidade de pôr em cena o rapper norte-americano Pitbull, como era a vontade inicial da cantora - ajudou a atenuar a sensação recorrente de que o funk de uma batida só cantado por Anitta soa repetitivo, inclusive na temática. Projota entrou em cena em Cobertor (2013) - inédita balada de cadência r & b - e permaneceu no palco quando Anitta, aparentemente de improviso, cantou os primeiros versos de Mulher, tema que o rapper compôs com o parceiro Mayk e que lançou em mixtape intitulado Muito mais (2013). No fim, com Anitta de shortinho e boné ao estilo desinibido das funkeiras, o espetáculo simulou o clima e o pancadão eletrônico de um baile funk. Foi a vez de entrarem em cena hits seminais como Meiga e abusada (Anitta, R. Araújo e Jefferson Junior, 2013). Enfim, a construção d'O Fantástico mundo de Anitta custou cerca de R$ 4 milhões - uma superprodução para os atuais padrões da indústria brasileira da música - e mobilizou dezenas de profissionais para viabilizar gravação ao vivo de CD e DVD que transcorreu ágil, sem interrupções. Somente duas músicas foram repetidas no bis - efeito de Anitta já ter feito um registro do show na véspera da gravação oficial, sem público. Estratégia que fez com que a cantora se sentisse bem segura em cena quando o circo foi armado diante de um séquito de fãs para os quais o mundo de Anitta é mesmo fantástico.

Bruno Cavalcanti disse...

Interessante a sua crítica Mauro. Eu não acho que a Anitta seja uma cantora de quem se possa esperar projetos além do que ela já vem apresentando. É uma cantora de mercado e isso lhe basta. Mas o que eu acho interessante é o uso destes grandes cenários em gravações e, às vezes, até em turnês. A Paula Fernandes, por exemplo, usou um mega hiper super cenário na gravação do DVD Multishow ao vivo - resenhado aqui por você, inclusive - e na passagem de seu show em São Paulo, usou um cenário gigantesco, hi-tech e o caramba a quatro. Mas música que é bom, ainda tá difícil.
Madonna e suas crias pop ainda hoje fazem isso melhor, aprenderam que a música tem tanta importância quanto o cenário. E pra que ir tão longe? Marina Lima apresentou a mega produção "Primórdios" em São Paulo, com grandes cenários e interpretações arrebatadoras, música e cenografia à altura. O mesmo se deu com Rita Lee durante todo os anos 80 e por aí segue.
Falta a essas grandes produções o mais importante: música.

Felipe dos Santos disse...

Apenas uma palavra: sono. Raiva, não, porque Anitta tem todo o direito de fazer música. Mas sono.

Felipe dos Santos Souza

Marcelo disse...

3 posts seguidos sobre Anitta???? Socooooorrooooooo!!!!!

Jansen disse...

Ótima crítica, Mauro! Particularmente, odeio Anitta e afins: acho que é um povo que faz música de gosto duvidoso e péssima qualidade! Mas, fico impressionado com seu profissionalismo ao se despir de "pré-conceitos", conseguindo manter-se antenado e em dia com tudo o que está em voga na cena musical atual! Parabéns pelo ótimo trabalho!

Denilson Santos disse...

O que me incomoda é saber que esses 4 milhões de reais foram financiados com recursos da Lei Rouanet...
Esses mecanismos de custeio de produções culturais precisam ser revistos, a meu ver...
Abração
Denilson

ADEMAR AMANCIO disse...

O que é melhor,ser criticada,ou ignorada?

MusicaSobMedida disse...

Até quando, Brasil????

MusicaSobMedida disse...

Putz!!!
Até quando, Brasil?