Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Mahmundi continua na praia synth-pop dos anos 80 com single 'Eterno verão'

Após dois EPs, Efeito das cores (Independente, 2012) e Setembro (Abtjour Records, 2013), Mahmundi - nome artístico da cantora e compositora carioca Marcela Vale - lança o single Eterno verão nas plataformas digitais. Disponível também no YouTube, o single Eterno verão mostra que Mahmundi permanece na praia pop da década de 1980. Música de autoria da artista, criada em parceria com Felipe Veloso e Lux Ferreira, Eterno verão tem arquitetura que remete ao synth-pop brasileiro dos anos 1980 - década em que o pop rock nativo invadiu a praia da MPB sem aviso prévio. A gravação de Eterno verão foi produzida pela própria Mahmundi sob a direção artística de Carlos Eduardo Miranda.  O single marca a estreia da artista no (novo) selo fonográfico Skol Music.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Paulo Ricardo volta à gravadora Universal Music para lançar décimo CD solo

Depois de 15 anos, Paulo Ricardo está de volta à Universal Music, gravadora por onde editou, em 2000, o álbum intitulado Paulo Ricardo. O cantor e compositor carioca vai lançar o décimo álbum de sua discografia solo com distribuição da gravadora multinacional. O contrato que oficializa a parceria do selo do artista, PRM, com a Universal Music foi assinado na última quarta-feira, 18 de novembro. A curiosidade é que o título do primeiro álbum solo do artista desde Prisma (EMI Music, 2006) é Novo álbum. Ou seja, o novo álbum de Paulo Ricardo - visto em foto extraída da página oficial do artista no Facebook - se chama Novo  álbum.  O disco tem inéditas de autoria do artista.

Gal grava imagens do show 'Estratosférica' em SP para clipe de música-título

Não houve anúncio prévio de gravação ao vivo. Mas o fato é que Gal Costa fez um registro audiovisual do show Estratosférica na apresentação que encheu a casa Tom Brasil, em São Paulo (SP), no último sábado, 21 de novembro de 2015. Com direito a gruas na plateia e a três câmeras somente no palco, o show foi gravado na íntegra. No entanto, de acordo com o que disse em cena a cantora (em foto de Anderson Zag), o intuito da gravação foi a filmagem do clipe da música-título Estratosférica (Céu, Pupillo e Junio Barreto), repetida no bis. De todo modo, pelo aparato tecnológico armado para a filmagem, não será surpresa se o registro audiovisual também der origem, em 2016, a um DVD com a (oportuna) gravação ao vivo do luminoso show Estratosférica.

Fernanda Abreu abre parceria com o compositor Qinho no oitavo álbum solo

Fernanda Abreu abre parceria com Qinho no oitavo CD solo, Amor geral, em dose dupla. O cantor e compositor carioca assina com Abreu duas músicas, O que ficou e Por quem, no repertório inédito e autoral do disco - o primeiro da artista carioca desde o CD e DVD MTV ao vivo (Universal Music,  2006). Giovanni Bianco assina a capa, que terá uma foto da cantora feita por Gui Paganini.

Acústico gravado pelo Capital Inicial em NYC mantém grupo no mesmo lugar

Resenha de CD e DVD
Título: Capital Inicial acústico→NYC
Artista: Capital Inicial
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * 1/2


"Nunca passou pela minha cabeça que a gente pudesse chegar tão longe". Dita por Dinho Ouro Preto nos depoimentos exibidos nos extras do DVD Capital Inicial acústico→NYC, a frase é recorrente no making of da gravação do segundo projeto acústico do Capital Inicial e expõe certo provincianismo dos integrantes do grupo com o fato de ter registrado show em Nova York (EUA). Em dois sentidos, o Capital Inicial chegou mesmo longe demais. No sentido geográfico, a distância entre Brasília (DF) - cidade onde a banda surgiu em 1982, em meio à cena punk da Capital Federal, a partir da dissolução do grupo Aborto Elétrico - e Nova York é mesmo grande. No sentido temporal, é impressionante que uma banda da segunda divisão do rock brasileiro da década de 1980 tenha construído carreira tão longeva que já soma 33 anos e que segue rota desviada do passado oitentista a partir de 2000, ano em que o Capital se reinventou com gravação ao vivo da série Acústico MTV que renovou e ampliou o público e o repertório da banda. Contudo, no sentido musical, Capital Inicial acústico→NYC mantém Dinho Ouro Preto (voz), Fê Lemos (bateria), Flávio Lemos (baixo) e Yves Passarell (guitarra - integrante do grupo desde 2001) no mesmo lugar de sempre. Após quinze anos e cinco álbuns de inéditas, o quarteto recorre ao formato acústico sem lançar mão do cancioneiro dos anos 1980 para formatar o roteiro do show captado em 6 de junho deste ano de 2015 na casa Terminal 5, sob direção de Raoni Carreiro, com cenário de Zé Carratu e produção musical do veterano Liminha. A única representante dos anos 1980 no repertório - selecionado entre as músicas gravadas pelo Capital após o primeiro acústico -  é Belos e malditos (Alvin L, Renato Russo, Dinho Ouro Preto, Loro Jones e Bozzo Barretti, 1989), música do álbum Todos os lados (PolyGram, 1989) que abriu a parceria de Dinho com Alvin L, sedimentada no acústico feito com o selo e a chancela da MTV. No Capital Inicial acústico→NYC (projeto lançado pela Sony Music nos formatos de CD, DVD e em embalagem especial que agrega os dois formatos e mimos para fãs como réplica do ingresso do show de Nova York), Belos e malditos é cantada por Dinho com Seu Jorge em interpretação que dilui o significado da letra. Cantor carioca que tinha irmão fã do Capital Inicial, como conta em emocionante depoimento para o making of, Seu Jorge figura também numa das três músicas inéditas inseridas no roteiro - a balada Vai e vem (Dinho Ouro Preto, Thiago Castanho e Alvin L), exemplo da superficialidade pop que pauta a maior parte do cancioneiro do Capital Inicial - e ainda em À sua maneira (De música ligera) (Gustavo Cerati e Zeta Bosio em versão em português de Dinho Ouro Preto, 2002), tema do grupo argentino Soda Stereo que o Capital verteu para seu idioma pop. Com abertura documental intitulada Welcome to the sky, na qual se vê imagens de ruas e do metrô de NYC, o DVD Capital Inicial acústico→NYC alinha 23 músicas. Três são inéditas. Além da já mencionada Vai e vem, o grupo apresenta A mina - canção mais fraca da lavra do cantor e compositor paulista Kiko Zambianchi, presente no primeiro acústico do grupo - e Doce e amargo, parceria de Dinho com Thiago Castanho (guitarrista egresso do extinto grupo Charlie Brown Jr.) que versa sobre tédio urbano e vazios existenciais. As inéditas jamais chegam a empolgar diante do roteiro dominado por baladas que habitam um raso universo pop, próprias para público refratário a questões e músicas complexas. Mas o grande problema do acústico norte-americano é a linearidade da sonoridade pop folk formatada pelo produtor Liminha (piloto do primeiro fracassado compacto lançado pela banda em 1985 pela gravadora CBS). Tal sonoridade é calcada (demasiadamente) nos violões tocados por Yves Passarell, Thiago Castanho, Fábio Carelli e o próprio Liminha. Tal sonoridade achatou e padronizou músicas como Ressurreição (Dinho Ouro Preto, Yves Passarell e Alvin L, 2010), Respirar você (Dinho Ouro Preto, Alvin L e Yves Passarell, 2004), Eu nunca disse adeus (Dinho Ouro Preto e Alvin L, 2007) - faixa-título do álbum de inéditas lançado pelo Capital em 2007 - e Como devia estar (Kiko Zambianchi, Dinho Ouro Preto e Alvin L, 2002). Entre tantas baladas, o roteiro abre espaço para a intervenção do cantor pernambucano Lenine, que divide com Dinho as interpretações de Não olhe pra trás (Dinho Ouro Preto e Alvin L, 2004) e de Tempo perdido (Renato Russo, 1986). Ao reviver o smithiano sucesso da Legião Urbana no mesmo tom e com arranjo similar ao da gravação original da banda de Renato Russo (1960 - 1996), o Capital Inicial prova que, mesmo em Nova York (EUA), permanece no seu devido lugar, sem ir muito longe.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Dan Torres lança coletânea com músicas gravadas para novelas da TV Globo

Sob licença da Som Livre, gravadora que desde 1969 edita os discos com as trilhas sonoras da TV Globo, Dan Torres vai lançar coletânea com 14 músicas que gravou para novelas exibidas pela emissora carioca entre 2006 e este ano de 2015. A coletânea Novelas vai chegar ao mercado fonográfico em dezembro com distribuição do selo I produções, de propriedade deste cantor e compositor inglês radicado no Brasil desde 2003. Entre as 14 gravações do CD, há um fonograma inédito em disco. Parceria de Dan com Nani Palmeira, a canção Wishing you could stay foi gravada para a trilha sonora da novela Sete vidas (TV Globo, 2015), mas não entrou no disco com a seleção musical da trama das 18h, para a qual Dan também regravou Blowin' in the wind (Bob Dylan, 1963). A propósito, o repertório da coletânea Novelas é formado em sua maioria por regravações de sucessos do universo pop internacional. Mas tem três músicas de autoria do artista. Além da inédita Wishing you could stay, Dan assina Calling (tema do remake da novela Guerra dos sexos) e, em parceria com Roger Henri e Paulo Muniz, Splendor, música da trilha sonora da novela Babilônia (TV Globo, 2015). Para quem não liga o nome à voz, Dan Torres é o cantor que regravou Lucy in the sky with diamonds (John Lennon e Paul McCartney, 1967) para a abertura da novela Império (TV Globo, 2014 / 2015). Aliás, o registro da música dos Beatles abre a coletânea Novelas.

Eis a capa e as 15 músicas de 'Vinil virtual', o 15º CD solo de Daniela Mercury

♪ Com capa que expõe foto de Célia Santos em que Daniela Mercury e Malu Verçosa reproduzem imagem icônica de John Lennon (1940 - 1980) e Yoko Ono na capa da edição 335 da revista Rolling Stone, publicada nos EUA em janeiro de 1981, o álbum Vinil virtual - 15º título da discografia solo da cantora e compositora baiana - alinha no repertório inteiramente autoral 15 músicas inéditas assinadas pela artista. Dez foram compostas sem parceiros. Duas - Frogs in the sky e Senhora do terreiro (Mãe Carmem) - são assinadas por Daniela com o filho mais velho, Gabriel Póvoas. Outras duas, Três vozes e Minha mãe, minha pátria, são parcerias de Daniela com Marcelo Quintanilha. Já Antropofágicos são paulistanos tem Yacoce Simões - coprodutor do disco formatado pela própria Daniela Mercury - na coautoria. Eis, na ordem do disco que chega ao mercado fonográfico em 27 de novembro de 2015 em edição da gravadora Biscoito Fino, as 15 músicas do álbum Vinil virtual:

1. A rainha do axé (A rainha má) (Daniela Mercury)
2. Maria casaria (Daniela Mercury)
3. América do amor (Daniela Mercury)
4. Alegria e lamento (Daniela Mercury) - com Márcio Victor e Neguinho do Samba (percussão)
5. Tô samba da vida (Daniela Mercury)
6. Sem argumento (Daniela Mercury)
7. Frogs in the sky (Daniela Mercury e Gabriel Póvoas)
8. De Deus, de Alah, de Gilberto Gil (Daniela Mercury) - com Gilberto Gil
9. Extranhos terrestres (Aperto de mente) (Daniela Mercury)
10. Antropofágicos são paulistanos (Daniela Mercury e Yacoce Simões)
11. O riso de Deus (Daniela Mercury)
12. Vinil virtual (Aperto de mente 2) (Daniela Mercury)
13. Três vozes (Daniela Mercury e Marcelo Quintanilha)
14. Minha mãe, minha pátria (Daniela Mercury e Marcelo Quintanilha)
15. Senhora do terreiro (Mãe Carmem) (Daniela Mercury e Gabriel Póvoas)

Álbum com gravação ao vivo do show 'No osso', de Marina, inclui hit de Elvis

 Reprogramado para chegar ao mercado fonográfico em 4 de dezembro de 2015, em edição da gravadora Universal Music, o álbum No osso - Ao vivo, de Marina Lima, vai trazer uma surpresa para quem pensa encontrar no disco somente a gravação ao vivo de No osso, show de voz & violão apresentado pela artista desde junho de 2014. A cantora incluiu no disco um registro de Can't help falling in love (Hugo Peretti, Luigi Creatore e George David Weiss, 1961), balada propagada na voz do cantor norte-americano Elvis Presley (1935 - 1977) em gravação lançada na trilha sonora do filme Blue  Hawaii (Estados Unidos, 1961).  Can't help falling in love  é inédita na voz de Marina.

Coletânea feita para caixa de Rita inclui marchinha lançada pelas Frenéticas

♪ Marchinha composta por Rita Lee e lançada pelas Frenéticas em 1977 no primeiro álbum do grupo feminino, Fonte da juventude ganhou registro da autora, feito para o LP coletivo Carnaval 78 - Convocação geral, lançado pela gravadora Som Livre no fim daquele ano de 1977. Esta rara gravação de Fonte da juventude por Rita Lee é um dos 13 fonogramas reunidos na coletânea Pérolas, produzida para a caixa Rita Lee, que chega ao mercado fonográfico a partir da próxima sexta-feira, 27 de novembro de 2015, com reedições de 20 álbuns lançados pela cantora e compositora paulista entre 1970 e 2004. Há também três músicas do compacto duplo lançado em 1976 pela mesma Som Livre para promover a então inédita Lá vou eu (Rita Lee e Luiz Sérgio Carlini), música feita por Rita para a trilha sonora da novela O grito, exibida pela TV Globo naquele ano de 1976. Além de Lá vou eu, a compilação Pérolas inclui as duas músicas mais raras do compacto, Caçador de aventuras (Rita Lee) e Status (Rita Lee, Luiz Sérgio Carlini e Lee Marcucci). Tais fonogramas somente foram editados em CD uma única vez, em 1997, na coletânea Meus momentos volume dois (EMI Music), já fora de catálogo há mais de dez anos. Pérolas rebobina também Loco-motivas - música composta e gravada por Rita, em 1977, para a trilha da novela Locomotivas, exibida pela TV Globo naquele ano - e Ambição, composição feita e registrada pela artista para a trilha sonora nacional da novela O astro, exibida pela TV Globo entre 1977 e 1978. Outras faixas da compilação são Samba do Arnesto (Adoniran Barbosa, 1953), I like you very much (Harry Warren e Mack Gordon, 1941) - marchinha do repertório de Carmen Miranda (1909 - 1955) revivida por Rita em disco em tributo à Pequena Notável, The living legend of Carmen Miranda (1994), produzido por Nelson Motta - e Felicidade (Lupicínio Rodrigues, 1947), música gravada em 1993 pela cantora para campanha publicitária. Pérolas rebobina também a gravação original de Arrombou a festa (Rita Lee e Paulo Coelho, 1976), o revival da marchinha Sassaricando (Luis Antônio, Jota Júnior e Oldemar Magalhães, 1951) - regravada por Rita para a abertura da novela Sassaricando, exibida pela TV Globo em 1987 - e a música-tema do filme Dias melhores virão (Brasil, 1989), composta por Rita com Roberto de Carvalho e gravada pela cantora para o longa-metragem do cineasta Cacá Diegues. Projeto em pauta desde 2014, a caixa Rita Lee foi produzida por Luiz Garcia para a Universal Music. Eis os 20 álbuns encaixotados em reedições remasterizadas:

1. Build up (Polydor, 1970)
2. Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida (Polydor, 1972)
3. Atrás do porto tem uma cidade (Philips, 1974) - com Tutti Frutti
4. Fruto proibido (Som Livre, 1975) - com Tutti Frutti
5. Entradas e bandeiras (Som Livre, 1976) - com Tutti Frutti
6. Refestança (Som Livre, 1977) - com Gilberto Gil
7. Babilônia (Som Livre, 1978) - com Tutti Frutti
8. Rita Lee (Som Livre, 1979)
9. Rita Lee (Som Livre, 1980)
10. Saúde (Som Livre, 1981)
11. Rita Lee e Roberto de Carvalho (Som Livre, 1982)
12. Bom bom (Som Livre, 1983)
13. Rita e Roberto (Som Livre, 1985)
14. Flerte fatal (EMI-Odeon, 1987)
15. Zona zen (EMI-Odeon, 1988)
16. Rita Lee e Roberto de Carvalho (EMI-Odeon, 1990)
17. Santa Rita de Sampa (PolyGram, 1997)
18. Acústico MTV (Rita Lee, 1998)
19. 3001 (Universal Music, 2000)
20. MTV ao vivo (EMI Music, 2004)

domingo, 22 de novembro de 2015

Roberta Sá ajusta temperatura de 'Delírio' com o calor do palco (e do público)

Resenha de show
Título: Delírio
Artista: Roberta Sá (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 21 de novembro de 2015
Cotação: * * * *

Com a inteligência que pautou a maioria das escolhas de discografia que completou uma década neste ano de 2015, Roberta Sá conseguiu que um disco meramente bom, Delírio (MP,B Discos / Som Livre, 2015), desse origem a um ótimo show. Sexto álbum de discografia iniciada oficialmente há dez anos com a edição de Braseiro (MP,B Discos / Universal Music, 2005), Delírio priorizou a precisão técnica do canto em detrimento de uma graciosidade que fez com que Roberta caísse quase instantaneamente - com trocadilho - nas graças do público, sobretudo o carioca. Sem o frescor que dava o tom das gravações iniciais da cantora, o disco Delírio soou morno em alguns momentos. Contudo, no show que chegou à cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 21 de novembro de 2015, após estrear em Juiz de Fora (MG) em 5 de novembro, a cantora ajustou a temperatura do repertório de Delírio com a chama do palco, com a quentura do público - sintomaticamente mais caloroso quando a cantora reviveu músicas de álbuns anteriores, mas receptivo às composições do novo disco - e com roteiro coeso que aproveita nove das 11 músicas do álbum, omitindo sagazmente Última forma (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1972) e Feito Carnaval (Rodrigo Maranhão, 2015), duas músicas que contribuíram decisivamente para o tom plácido do disco (a primeira por ter sido registrada com interpretação acanhada que jamais dá o recado do samba). Com o toque magistral da banda capitaneada pelo diretor musical Rodrigo Campello (violão de sete cordas) e formada por feras como Alberto Continentino (baixo), Luis Barcelos (bandolim e cavaquinho), Marcos Suzano (percussão) e Paulino Dias (percussão), Roberta Sá teve a sabedoria de apresentar logo no bloco inicial do show os três bonitos sambas lentos do compositor baiano Cezar Mendes - Não posso esconder o que o amor me faz (Cezar Mendes e José Carlos Capinam, 2015), o buarquiano Se for pra mentir (Cezar Mendes e Arnaldo Antunes, 2011) e Um só lugar (Cezar Mendes e Tom Veloso, 2015), este cantado por Roberta sentada, num canto do palco - que também colaboraram para que o disco soasse demasiadamente sereno e que, no show, poderiam amenizar o clima da apresentação se fossem dispersados ao longo do roteiro. E o fato é que o show Delírio foi ganhando pique, calor e graciosidade a partir do quinto número, Samba de um minuto (A novidade) (Rodrigo Maranhão, 2003), cantado pelo público carioca com tanta vontade que, em determinado momento do número, Roberta deixou que a voz do povo ecoasse sozinha na casa Vivo Rio. Samba fornecido por Adriana Calcanhotto para o repertório do disco Delírio, Me erra (2015) se tornou um dos acertos do show. Simples e espirituoso como todo samba da gaúcha Calcanhotto, Me erra se mostrou especialmente engenhoso em cena quando o verso "Estou subindo o morro de Mangueira" se afinou com a melodia em escala ascendente. Já a marcha pop que batiza disco e show, Delírio (Rafael Rocha, 2015), reiterou a afinidade do canto leve de Roberta Sá com a produção autoral de compositores da cena contemporânea carioca. Música do álbum anterior da artista, Segunda pele (MP,B Discos / Universal Music, 2012), Bem a sós (Rubinho Jacobina, 2012) manteve o show em alta, a propósito. Com sonoridade moderna e por vezes seresteira, como se a banda encarnasse no século XXI um dos regionais que deram o tom da música brasileira antes do advento da Bossa Nova, o show alcançou pico de intensidade quando Roberta interpretou - em clima de fado e com xale preto (adereço-clichê usado pelas cantoras em suas incursões pelo gênero lusitano) - o antigo samba Covardia (Ataulfo Alves e Mário Lago, 1938). Mesmo sem vocação para o canto mais dramático, Roberta ofereceu interpretação convincente para o samba tornado fado - o que somente evidencia seu crescimento como cantora. O dengo sensual feito por Martinho da Vila em Amanhã é sábado - samba inédito que fez para Roberta e que canta com ela no disco Delírio - também cresceu em cena, sinalizando que as intervenções de Martinho no álbum são dispensáveis. Já Água doce (Roque Ferreira, 2015) fez a cantora seguir a correnteza do manemolente samba baiano do compositor Roque Ferreira, a cujo repertório Roberta dedicou inteiramente o irretocável álbum Quando o canto é reza - Canções de Roque Ferreira (MP,B Discos / Universal Music, 2010). Desta obra-prima da discografia da artista, o show Delírio rebobina também Menino e Festejo, músicas alocadas no bis iniciado com Mais alguém (Moreno Veloso e Quito Ribeiro, 2010), sucesso do álbum que consolidou a carreira fonográfica de Roberta, Que belo estranho dia pra se ter alegria (MP,B Discos / Universal Music, 2007). Mais alguém é da lavra dos mesmos compositores de Meu novo Ilê, única música do CD Delírio que soa mais sedutora no disco do que no show. Em cena, o arranjo - que evoca ritmos como a morna de Cabo Verde e o samba-reggae da Bahia - soou sem (toda) a clareza da gravação de estúdio. Em contrapartida, Ah, se eu vou (Lula Queiroga, 2001) trouxe de volta para a cena toda a graciosidade que pautava o canto de Roberta Sá em seus discos iniciais. É o número em que a cantora rodopia pelo palco do Vivo Rio, cheia de vida e cheia de graça. Boa surpresa do roteiro, o samba Gostoso veneno (Wilson Moreira e Nei Lopes, 1979) ainda pode ser sorvido no show com mais sensualidade. Basta Roberta beber da fonte de Alcione, cantora que lançou o samba há 36 anos, em 1979. Já apontando o fim do show, na qual a cantora mostrou maior desenvoltura cênica ao se movimentar por todos os cantos do palco ao longo da apresentação, os sambas O nego e eu (João Cavalcanti, 2012) e Boca em boca - a primeira parceria de Roberta, compositora bissexta, com Xande de Pilares, fecho do disco Delírio - encerraram com animação um show no qual a cantora reverteu - positivamente - a expectativa do público de assistir a um espetáculo de tons plácidos como o disco.

Roberta Sá sorve o 'Gostoso veneno' de Alcione no roteiro do show 'Delírio'

Enquanto Roberta Sá estava no palco da casa Vivo Rio, apresentando o show Delírio para o público carioca, Alcione comemorava 68 anos de vida com festa na quadra da escola dfe samba Mangueira. A cantora potiguar aproveitou a coincidência da data e saudou a Marrom em cena ao cantar Gostoso veneno, o samba dos compositores cariocas Wilson Moreira e Nei Lopes que batizou o álbum lançado pela cantora maranhense em 1979. Gostoso veneno foi a única surpresa do roteiro do show baseado no sexto álbum oficial de Roberta Sá. Sob a direção musical do produtor do disco, Rodrigo Campello, Delírio chegou à cena da cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 21 de novembro de 2015, após ter estreado em Juiz de Fora (MG) em 5 de novembro, em apresentação que Roberta caracterizou como pré-estreia da turnê. Além de cantar nove das 11 músicas do disco, a cantora deu voz a composições que gravou em álbuns anteriores com o toque virtuoso de banda que, além do diretor Rodrigo Campello no violão de sete cordas, incluiu o baixista Alberto Continentino, Luis Barcelos (no bandolim e no cavaquinho) e os percussionistas Marcos Suzano e Paulino Dias. Eis o roteiro seguido em 21 de novembro de 2015 por Roberta Sá - em foto de Mauro Ferreira -  na estreia carioca do show  Delírio  na casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro (RJ):

1. Não posso esconder o que o amor me faz (Cezar Mendes e José Carlos Capinam, 2015)
2. Cicatrizes (Miltinho e Paulo César Pinheiro, 1972)
3. Se for pra mentir (Cezar Mendes e Arnaldo Antunes, 2011)
4. Um só lugar (Cezar Mendes e Tom Veloso, 2015)
5. Samba de um minuto (A novidade) (Rodrigo Maranhão, 2003)
6. Me erra (Adriana Calcanhotto, 2015)
7. Delírio (Rafael Rocha, 2015)
8. Bem a sós (Rubinho Jacobina, 2012)
9. Covardia (Ataulfo Alves e Mário Lago, 1938)
10. Amanhã é sábado (Martinho da Vila, 2015)
11. Água doce (Roque Ferreira, 2010)
12. Meu novo Ilê (Quito Ribeiro e Moreno Veloso, 2015)
13. Ah, se eu vou (Lula Queiroga, 2001)
14. Gostoso veneno (Wilson Moreira e Nei Lopes, 1979)
15. Samba de amor e ódio (Pedro Luís e Carlos Rennó, 2007)
16. O nego e eu (João Cavalcanti, 2012)
17. Boca em boca (Roberta Sá e Xande de Pilares, 2015)
Bis:
18. Mais alguém (Moreno Veloso e Quito Ribeiro, 2007)
19. Menino (Roque Ferreira, 2010)
20. Festejo (Roque Ferreira, 2010)
21. Interessa? (Carvalhinho, 1951)

Próximo projeto de Ney agrega Gonçalves Dias, Carlos Gomes e Villa-Lobos

Embora tenha alinhavado disco com músicas de compositores brasileiros rotulados como malditos, como Jards Macalé e Jorge Mautner, Ney Matogrosso está com outro projeto em vista, à frente na lista de prioridades. Em 2016, o cantor - em foto de Marcelo Faustini - vai fazer espetáculo que alterna versos do poeta romântico Gonçalves Dias (1823 - 1864) e músicas dos compositores Carlos Gomes (1836 - 1896) e Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959). Ney vai dividir o palco com o ator Jesuíta Barbosa sob direção da cineasta Ana Carolina. Como tem sido praxe em seus últimos trabalhos, o cantor primeiramente vai estrear e apresentar pelo Brasil o recital - provisoriamente intitulado O cantor e o poeta - para depois arquitetar o registro fonográfico do show em estúdio e/ou ao vivo.

Tributo do 16º Grammy Latino ao 'Rey' coroa investimento de Roberto Carlos

EDITORIAL - Em 1964, Roberto Carlos ainda iniciava seu reinado na música brasileira quando investiu pela primeira vez no mercado latino formado pelos países de língua hispânica. Entre junho e setembro daquele ano de 1964, o cantor e compositor capixaba gravou via CBS o primeiro álbum em espanhol, Roberto Carlos canta a la juventud, com as mesmas músicas do LP que lançava no Brasil, É proibido fumar (CBS, 1964). Lançado efetivamente no mercado latino em 1965, Roberto Carlos canta a la juventud foi o primeiro passo do artista em mercado voltado para músicas românticas como aquelas antigas canções do Roberto. Decorridos 50 anos, Roberto Carlos foi celebrado na 16ª edição do Grammy Latino - realizada na MGM Grand Garden Arena, em Los Angeles (EUA), na noite da última quinta-feira, 19 de novembro de 20151 - como a persona del año 2015. A homenagem é justa e acontece no momento em que o Rei acaba de lançar produto, o CD e DVD Primera fila, direcionado primordialmente ao mercado de língua hispânica. Por cantar o amor, o sexo e a fé como um macho latino que sabe dosar suas emoções para ficar em sintonia com as tradicionais famílias do Brasil e dos demais países da América Latina, Roberto Carlos - visto na foto de John Parra / WireImage durante a homenagem - sempre foi um dos artistas brasileiros que mais tiveram penetração no mercado fonográfico de língua hispânica. Tanto que, ao longo da décadas de 1970 e de parte dos anos 1980, o cantor lançou religiosamente versões em espanhol de seus álbuns anuais. Roberto Carlos sempre acreditou nesse mercado. Por isso, merece o tributo que lhe foi prestado 50 anos após sua primeira investida na rentável praça latina. O Grammy Latino tradicionalmente tem minimizado a produção fonográfica brasileira nas categorias que realmente importam. Nesta 16º edição, sequer um artista ou disco brasileiro foi indicado nas categorias Álbum do ano, Gravação do ano e Música do ano. A premiação é feita para celebrar a música de língua hispânica. Até nesse sentido a homenagem a Roberto Carlos soou adequada, pois quem foi celebrado no palco da MGM Grand Garden Arena foi o cantor que, desde 1965, mirou la juventud e, depois, las personas maduras dos países de língua hispânica. O tributo coroou a visão de el Rey.

sábado, 21 de novembro de 2015

Caixa de Rita embala coletânea com gravação original de 'Arrombou a festa'

Um dos maiores sucessos de Rita Lee, a música Arrombou a festa - parceria da cantora e compositora paulistana com Paulo Coelho, lançada apenas em compacto simples em 1976 - nunca integrou os álbuns oficiais da roqueira. Embora já incluída em coletâneas da artista, como Meus momentos volume 2 (EMI Music, 1997), a gravação original de Arrombou a festa é uma das pérolas mais raras da discografia da Ovelha Negra. O fonograma figura na compilação produzida para a caixa Rita Lee, que chega ao mercado fonográfico brasileiro em edição da gravadora Universal Music, a partir de 27 de novembro de 2015, com edições remasterizadas de 20 álbuns da artista (em foto de Duda Molinos). Outras faixas da compilação são I like you very much (Harry Warren e Mack Gordon, 1941) - marchinha do repertório de Carmen Miranda (1909 - 1955) revivida por Rita em disco em tributo à Pequena Notável, The living legend of Carmen Miranda (1994), produzido por Nelson Motta - e Felicidade (Lupicínio Rodrigues, 1947), música gravada em 1993 pela cantora para comercial. A seleção da coletânea inclui também o registro da marchinha Sassaricando (Luis Antônio, Jota Júnior e Oldemar Magalhães, 1951) feito para a abertura da novela homônima exibida pela TV Globo em 1987. Há também a música-tema do filme Dias melhores virão (Brasil, 1989), composta por Rita com Roberto de Carvalho e gravada pela cantora para o longa-metragem do cineasta Cacá Diegues.  Clique aqui para saber quais os 20 álbuns reeditados na caixa  Rita Lee.

Single com a regravação de 'Totalmente demais' por Anitta já está disponível

Mal lançou seu terceiro álbum de estúdio, Bang! (Warner Music, 2015), Anitta já está com single disponível nas plataformas digitais que nada tem a ver com o disco editado em outubro de 2015. O single em questão traz a regravação de Totalmente demais (Arnaldo Brandão, Tavinho Paes e Robério Rafael, 1985) feita pela cantora e compositora carioca a pedido da TV Globo para o tema de abertura da novela Totalmente demais, recém-estreada na Globo no horário das 19h. Lançada há 30 anos em gravação feita pelo grupo Brylho para o álbum coletivo Rock in Brazil (RCA, 1985), mas mais conhecida nas gravações feitas em 1986 pelo grupo Hanoi Hanoi e por Caetano Veloso, Totalmente demais tem a intervenção do rapper mineiro Flávio Renegado na regravação de Anitta.

Maria Rita volta ao ponto inicial da turnê 'Coração a batucar' para gravar DVD

Foi na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro (RJ), que Maria Rita fez a estreia oficial do show Coração a Batucar em apresentação iniciada já aos primeiros minutos de 27 de abril de 2014. E será no palco da mesma Fundição Progresso que a cantora paulistana fará o registro audiovisual completo do show - em apresentação agendada para 5 de dezembro de 2015 - para edição de DVD programado para chegar ao mercado fonográfico no primeiro semestre de 2016 em edição da gravadora Universal Music. Maria Rita - em foto de Rodrigo Goffredo - já fez um registro parcial do show, captado sob direção de Hugo Prata em 6 de outubro de 2014, em apresentação no estúdio Na Cena, em São Paulo (SP), restrita a convidados da artista. Nove números dessa gravação ao vivo foram lançados no DVD alocado como bônus na edição especial do CD Coração a batucar (Universal Music, 2014), lançada em março deste ano de 2015. O segundo registro ao vivo do show também vai ser feito sob a direção de Hugo Prata, nome recorrente nas gravações audiovisuais de Maria Rita. A ideia é inclusive preservar o roteiro original de  Coração a batucar (clique aqui para rever o roteiro da estreia carioca do show).

Avalizado por Beth e Bethânia, Fregonesi faz 'fuzuê' autoral em CD e em DVD

Gravado por Beth Carvalho e por Maria Bethânia em recentes discos das cantoras, o cantor e compositor carioca Leandro Fregonesi registra obra autoral em Vai ter fuzuê, CD e DVD lançados pela gravadora Som Livre com o registro de músicas captadas em estúdio, sob a direção de Darcy Burger, mas em clima de show ao vivo. Nome valorizado no universo do samba, o maestro Ivan Paulo assina a produção e as regências da gravação em que Fregonesi fica sob os holofotes e dá voz a composições autorais como Cavaleiro de Jesus (de Fregonesi com Chico Donadoni), Dinheiro mole, Quando o galo cantou (parceria com Helena Pinheiro), Sinhá MariaA lira de um cantador - parceria com Rafael dos Santos cuja interpretação é dividida por Fregonesi com o cantor Reinaldo - e Samba miudinho, entre outras músicas próprias. Monarco e Tantinho da Mangueira - cantores e compositores associados às escolas de samba Portela e Mangueira, respectivamente - entram em cena em Guardiãs. Beth Carvalho, que avaliza a obra de Fregonesi em depoimento alocado nos extras do DVD, figura como cantora somente no CD, revivendo os dois sambas do artista, Chega (Leandro Fregonesi e Rafael dos Santos) e Samba mestiço (Leandro Fregonesi, Rafael dos Santos e Ciraninho), que lançou no álbum de inéditas Nosso samba tá na rua (Andança / EMI Music, 2011). Já Bethânia - que gravou samba de Fregonesi, Povos do Brasil, no álbum Meus quintais (Biscoito Fino, 2014) - aparece somente em depoimento no DVD. Gravado sob a direção artística do próprio Leandro Fregonesi, Vai ter fuzuê  tem a música-título assinada pelo compositor com João Martins.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Com álbum bem feito, '#Sarniô', Naldo chega no pistão com fôlego renovado

Resenha de CD
Título: #Sarniô
Artista: Naldo Benny
Gravadora: Naldo Music / Radar Records
Cotação: * * * 1/2

Nego do Borel que se cuide, pois Naldo Benny está chegando novamente no pistão com fôlego renovado. Sensação pop do verão de 2012, o carioca Ronaldo Jorge Silva sinalizou no fim de 2013, em CD e DVD editados pela gravadora Deck na série Multishow ao vivo, que seu repertório autoral já parecia sem força para encarar o verão de 2014. A pista era certa. Enquanto o funk pop carioca virava o ritmo do momento, a reboque do sucesso nacional de Anitta, o cantor e compositor parecia preso ao verão em que o Brasil se lambuzou com hits como Amor de chocolate (Naldo Benny, 2011) e Exagerado (Naldo Benny, 2011). Mas eis que Naldo vira o jogo com seu melhor disco, um segundo álbum de estúdio que iria se chamar Mix, mas acabou batizado com gíria da Favela da Maré que significa "fazer algo bem feito". ou "mandar bem", numa linguagem mais coloquial. E o fato é que  #Sarniô - disco gravado no estúdio caseiro de Naldo, o Champs 19 - faz jus ao seu título, inclusive por agregar nomes de peso no universo pop nacional como Erasmo Carlos e Mano Brown, o geralmente invocado vocalista do grupo paulista de rap Racionais MC's. A controvertida capa multicolorida do artista plástico Romero Brito traduz bem o conteúdo do disco, pois o funk pop de Naldo ganha cores mais vivas em #Sarniô por conta da azeitada produção capitaneada pelo próprio Naldo ao lado do DJ Batutinha. O disco é longo. São 17 músicas que totalizam cerca de uma hora. Algumas, como Seu jeito (Naldo Benny) e Tão especial (Naldo Benny e Sandro Riva), soam dispensáveis e sugerem que o artista poderia estar lançando seu primeiro grande álbum se tivesse cortado uma faixa ou outra. Mas há, sim, alguns grandes momentos em #Sarniô. O encontro de Naldo com o cantor do Racionais MC's em Benny e Brown (Naldo Benny e Mano Brown) já vale o disco por dar um beijinho no ombro dos recalcados racistas do Brasil. Fusão de funk e rap, a música aloca dois negros vindos da favela em rolê em carrão que segue a trilha das principais referências da cultura black brasileira na rota Rio-São Paulo, jogando ao vento e na cara dos racistas o orgulho negro de ouvir Tim Maia (1942 - 1998) e Jorge Ben Jor. Pai do funk-soul brasileiro, Tim tem verso ("Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir") de sua canção Azul da cor do mar (1970) citado por Naldo em Luz (Naldo Benny), cintilante funk jogado na pista do dance-pop - a mesma na qual o artista-produtor arremessa Latinha (Naldo Benny). Com produção acima da média dos discos do gênero, #Sarniô tem um hit nato em Meu bem (Naldo Benny), funk de perfeita arquitetura pop que sobressai na safra autoral do disco. Mesmo que as composições do funkeiro soem por vezes repetitivas, elas são valorizadas em #Sarniô pela produção esperta. Naldo Benny mandou muito bem ao convocar a dupla norte-americana (de Miami) The MeKanics para criar as bases luminosas que valorizam a música-título Sarniô (Naldo Benny) - faixa que ostenta o paulista MC Guimê e o carioca Mr. Catra e que se impõe como outro grande momento do disco - e Sem fim (Naldo Benny). Verdade seja dita: Naldo volta para a pista com um repertório formatado com certa diversidade rítmica. Se Eu tô voltando (Naldo Benny e Sandro Riva) é r&b de alma soul, Baile (Naldo Benny) entra no rala quente da batida do trap. E por falar em rala quente, Nu grau (Naldo Benny e MC PJ) tem alta carga erótica, aditivada pelo rap de Pablo Jorge, o MC PJ, que vem a ser filho de Naldo. Em clima igualmente familiar, mas sem erotismo, Minha Victória (Naldo Benny) é bonita balada à moda clássica composta por Naldo para sua recém-nascida filha Victória. Sucessor do álbum Na veia (Deck, 2009) na discografia de estúdio do artista em formato físico, #Sarniô desperdiça a participação de Erasmo Carlos em Primeira vez (Anselmo Ralph e Aires). O Tremendão encarna somente o interlocutor que ouve Naldo falar de seus dilemas sexuais com a namorada. Erasmo ouve muito e fala pouco. Ainda assim, a presença do cantor e compositor carioca - pioneiro roqueiro brasileiro - em #Sarniô cumpre a função de avalizar Naldo Benny numa época em que o funk pop é tão marginalizado pelas elites culturais quanto a Jovem Guarda foi há 50 anos. #Sarniô peca pelo excesso, inclusive por rebobinar músicas já lançadas pelo artista, casos de Faz sentir (Naldo Benny, Daniel de Almeida e Marcos Leandro Nascimento, 2013) - gravada com a participação da cantora norte-americana K. Rose - e de Te pego de jeito (Naldo Benny, 2014), carro-chefe do EP digital Verão (Naldo Music / Benny Entertainment, 2014) lançado pelo cantor no fim de 2014. Embora com faixas demais, #Sarniô revigora o funk pop de Naldo, honrando o título.

Tragédia em Mariana inspira parceria de Thiago Delegado com Márcio Borges

Um dos maiores talentos da atual cena musical de Minas Gerais, o violonista, compositor e produtor musical mineiro Thiago Delegado virou parceiro de seu conterrâneo Márcio Borges, um dos principais compositores do Clube da Esquina, parceiro de Milton Nascimento em vários sucessos do movimento pop mineiro que conquistou o Brasil na década de 1970. A primeira parceria de Delegado e Borges, Quem vai pagar o que não tem preço?, foi inspirada pela tragédia de Mariana (MG), cidade do interior mineiro invadida em 5 de novembro de 2015 por lama e dejetos que avançaram por seus distritos e pelo Rio Doce por conta do rompimento de duas barragens da mineradora Samarco. Ao ler em 11 de novembro de um comentário de Borges ("Quem vai pagar o que não tem preço?") sobre o desastre ecológico, Delegado se inspirou e resolveu compor uma melodia, enviada a Borges com a cara e a coragem. Dois dias após ter recebido a melodia, Borges a devolveu a Delegado já com letra. Na última terça-feira, 17 de novembro de 2015, Delegado gravou a música no estúdio Liquidificador - mantido por Marcos Frederico em Belo Horizonte (MG) - com voz e violão inspirador. Na sequência, Delegado fez o clipe da música com imagens extraídas do YouTube e da web. O vídeo pode ser visto na página oficial do artista no Facebook. Eis a letra de Quem vai pagar o que não tem preço?, a primeira parceria de Thiago Delegado e Márcio Borges:

Quem vai pagar o que não tem preço?
(Thiago Delegado e Marcio Borges)

Quem vai dizer fim da esperança
Essa herança irracional
Que outros filhos terão?
Lama letal
Lamaçal
Água da gente beber
O dragão
Arrastou na lama
Quem vai pagar tão imenso mal?
Matou o rio afinal
O que era doce acabou

Antes da lama tocar meu blue
O verde vale era azul azul blue
A plantação queria dar
O peixe só queria
Nadar
E eu também
Ser alguém feliz então
Cantar

Mas quem vai pagar o que não tem preço
Me devolver o que não tem mais?
Quem vai virar o que está ao avesso?
Quem vai salvar o meu blue?

Serjão Loroza tenta aguçar a consciência negra ao lançar single 'Agbara dudu'

O significado da expressão agbara dudu na língua iorubá é black power. Em bom português, força negra. A expressão inspirou o nome de um dos primeiros blocos afros da cidade do Rio de Janeiro (RJ). A partir de hoje, 20 de novembro de 2015, Agbara dudu também significa a música inédita que o cantor e compositor Serjão Loroza - um carioca natural de Madureira, bairro que concilia a negritude do Jongo da Serrinha, da black music dos bailes e do samba das escolas Império Serrano e Portela - está apresentando em single já disponível para download (no site oficial do artista) e para audição (por ora somente no Spotify, uma das principais plataformas digital de streaming) em edição sincronizada com o dia da consciência negra. Introduzida por batuque que conecta Loroza à ascendência africana do artista, a gravação brada as qualidades e desejos do povo negro em letra em português que embute refrão em iorubá com axé. O single afro-consciente e digital de Serjão Loroza está sendo editado através do selo carioca Lab 344, mas sob licença do selo do artista, Us Madureira.