Título: Uma Flor para Nelson Cavaquinho - 100 Anos
Artista: Vários
Gravadora: Lua Music
Cotação: * * * * 1/2
É difícil acertar o tom (geralmente menor) dos sambas de Nelson Cavaquinho (1911 - 1986), embebidos em melancolia e normalmente ambientados em clima soturno, não raro até mórbido. Por isso mesmo, o tributo Uma Flor para Nelson Cavaquinho - idealizado e produzido por Thiago Marques Luiz para a Lua Music sob a direção musical de Rovilson Pascoal e André Bedurê (arranjadores da maioria das 20 faixas) - merece saudação especial. Com exceção da veterana cantora de samba Milena, que desafina o time de convidados com interpretação exteriorizada que dilui a dor impressa em Luto (Nelson Cavaquinho, Sebastião Nunes e Guilherme de Brito), todos os cantores acertam o tom neste tributo ao centenário do compositor carioca, que completaria 100 anos em 29 de outubro de 2011. Uns cantam Nelson com mais reverência. Outros impõem seu estilo com propriedade sem desfigurar a obra do artista. E o resultado final é um disco que se ouve com prazer do início ao fim. A abertura já é matadora. O violoncelo de Jonas Mancaio cria clima fúnebre que se adequa a Quando Eu me Chamar Saudade (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) e prepara a entrada de Alcione. Em instante de grande vigor vocal (já nem sempre comum...), a Marrom valoriza o samba em que Nelson pede as flores em vida através dos versos de seu parceiro Guilherme de Brito (1922 - 2006). Na sequência, Leci Brandão acerta a dose exata de melancolia contida em Palhaço (Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes) enquanto Emílio Santiago esbanja classe ao amaciar Minha Festa (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito). Dona da primeira faixa menos reverente, a pianista e cantora Tânia Maria faz abordagem jazzy que cai bem sobre Folhas Secas (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), um dos clássicos do compositor, samba imortalizado na voz de sua principal intérprete, Beth Carvalho, a quem o disco é dedicado. Beth, a propósito, defende bem um samba até então inédito em sua voz, A Mangueira me Chama (Nelson Cavaquinho, José Ribeiro e Bernardo de Almeida Soares), que adquire sentido todo especial se lembrado o recente (e já superado) impasse da cantora com a escola de samba carioca à qual tanto Beth como Nelson são associados. Em seguida, Luiz Melodia - outro que, a exemplo de Emílio Santiago, sempre esbanja classe vocal - mantém o disco em alto patamar artístico ao escalar os acordes de Degraus da Vida (Nelson Cavaquinho, César Brasil e Antônio Braga). A faixa de Melodia é ambientada em clima de choro pelo bandolim e pelo cavaquinho tocados, respectivamente, por Estevan Sincovtiz e por Rovilson Pascoal. Vem, então, a leitura mais inusitada e arriscada do disco: a de Luz Negra (Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso) por Arnaldo Antunes. O titã acentua o tom dark do samba em interpretação estilosa. Pouco usual, a pulsação do violoncelo de Jonas Moncaio dá ao arranjo eletroacústico - assinado por Arnaldo com os violonistas Chico Salém e Rovilson Pascoal - tom que soa moderno e repagina o tema. Os defensores puristas do samba tradicional podem não gostar, mas Arnaldo soube criar em cima da obra sem anular sua forte personalidade artística e sem desrespeitar o samba. Na sequência, Verônica Ferriani adensa o samba Se Você me Ouvisse (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) em outro grande momento do disco. A faixa justifica, enfim, os elogios comumente feitos à cantora. Também surpreendente, Benito Di Paula encara Rugas (Nelson Cavaquinho, Augusto Garcez e Ari Monteiro) somente com sua voz e seu piano, mostrando que sabe ir além de seu sambão joia. Já A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha) não desabrocha a contento com Ângela RoRo, mas tampouco murcha. Por ironia, Quero Alegria (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) - um dos poucos sambas de Nelson que recusam a tristeza - cai na voz doce de Teresa Cristina, cantora que carrega em seu canto a melancolia recorrente na obra do compositor. Com sua voz calorosa, Fabiana Cozza valoriza Pranto de Poeta (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) com o mesmo rigor estilístico com que Rita Ribeiro - em instante inspirado - interpreta A Vida (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito). Igualmente rigorosa, Cida Moreira transforma Ninho Desfeito (Nelson Cavaquinho e Wilson Canegal) em peça de câmara. Por afinidade temática, Ninho Desfeito foi armado no CD em medley com Beija-Flor (Nelson Cavaquinho, Noel Silva e Augusto Thomáz Junior), samba ouvido na voz de Zezé Motta. Em disco no todo harmonioso, até Diogo Nogueira acha o tom certo de Cuidado com a Outra (Nelson Cavaquinho e Augusto Thomáz Junior). Cantor de maiores recursos e ritmo, Marcos Sacramento põe molejo em Dona Carola (Nelson Cavaquinho, Nourival Bahia e Walto Feitosa). Com igual segurança, Filipe Catto - estranho no ninho do samba - sobe o morro e os tons de sua voz aguda para realçar com estilo a melancolia noturna de Duas Horas da Manhã (Nelson Cavaquinho e Ari Monteiro). Fechando o tributo, Zeca Baleiro encara Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares) em interpretação que garante a sua entrada no céu ao lado da (grande) maioria dos intérpretes deste oportuno tributo ao samba dark de Nelson Cavaquinho.


