Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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quinta-feira, 10 de março de 2016

Naná cria disco nos últimos instantes de vida com colaborações de Gismonti

♪ Naná Vasconcelos (1944 - 2016) criou um disco nos últimos instantes de vida, passados no leito de hospital do Recife (PE), cidade onde o percussionista de origem olindense saiu de cena na manhã de ontem, 9 de março de 2016. Naná marcava o ritmo dos temas do disco com o batuque das mãos no estrado da cama em que lutava contra o avanço de câncer no pulmão. Os músicos Egberto Gismonti - pianista que contou com Naná na formatação de álbuns antológicos como Dança das cabeças (ECM / EMI-Odeon, 1977) - e Gil Jardim colaboraram com a criação dos arranjos e com a depuração dos andamentos dos temas. Ainda não se sabe se os sons resultantes dessa criação coletiva  - capitaneada pelo amor de Naná pela música -  vão originar um álbum propriamente dito.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Sai de cena Naná Vasconcelos, percussionista que expandiu batuque nativo

♪ Juvenal de Holanda Vasconcelos (2 de agosto de 1944 - 9 de março de 2016) - conhecido no mundo da música como o genial percussionista Naná Vasconcelos - sai de cena hoje no Recife (PE), cidade vizinha e irmã da Olinda (PE) onde o músico nasceu há 71 anos e sete meses. Vítima de complicações decorrentes de câncer no pulmão, Naná expandiu o batuque nativo, fazendo com que o mundo reverenciasse o toque de uma percussão desenvolvido a partir da trama dos tambores do maracatu - referência na vida e obra do artista - com a liberdade que pauta a obra dos grandes músicos. Percutido no tempo da delicadeza, o batuque planetário de Naná Vasconcelos poderia tanto emergir das águas quanto interagir com o toque de orquestra sinfônica, como fez no disco Saudades (WEA, 1979), em que o toque do berimbau foi imerso no universo da música clássica. Redimensionado pelo músico, o berimbau foi o principal instrumento percutido por Naná, mas ele tocou - com a maestria dos deuses - todos os instrumentos de percussão. E ainda tirou sons percussivos de onde não se esperava. Cidadão musical do mundo, laureado com oito prêmios no Grammy Awards e eleito o melhor percussionista do ano entre 1984 e 1990 pela revista norte-americana Downbeat, Naná saiu do Recife (PE), mas os sons do Recife (PE) nunca saíram dele, estando presentes já no primeiro álbum do artista, Africadeus (Saravah, 1972), disco gravado na França - quando Naná morava em Paris - em que o percussionista explicitou a ideia de que a África é a matriz da música do mundo. O primeiro álbum feito e lançado no Brasil, Amazonas, saiu em 1973 pela gravadora Philips, consolidando o nome de Naná como percussionista hábil na combinação de vozes e batuques. Como músico sem fronteiras, Naná construiu discografia gregária que interagiu com nomes como Egberto Gismonti - com quem fez álbuns como Duas vozes (EMI-Odeon, 1984) - e chegou até o universo do jazz. Na virada da década de 1970 para a de 1980, Naná gravou três  álbuns com o trompetista norte-americano de jazz Don Cherry (1936 - 1995) - outro músico que derrubou fronteiras no universo da música - e com o percussionista norte-americano Collin Walcott (1945 - 1984). Batizados com o nome do trio, os álbuns Codona (ECM / WEA, 1979), Codona 2 (ECM / WEA, 1981) e Codona 3 (ECM / WEA, 1983) ratificaram a liberdade deste músico do mundo, cuja discografia lançada em vida se encerrou no ano passado com a edição de Café no bule (Selo Sesc, 2015), álbum dividido com Paulo Lepetit e Zeca Baleiro. Com o espírito sempre gregário, Naná também uniu forças com o inquieto Itamar Assumpção (1949 - 2003), com que gravou o álbum Isso vai dar repercussão (Elo Music, 2004), lançado um ano após a saída de cena de Itamar. Sempre sem limites musicais, Naná compôs trilhas sonoras de filmes - a animação nacional O menino e o mundo (Brasil, 2013), indicada ao Oscar deste ano de 2016, teve música de Naná na trilha sonora - e gravou com nomes de universos musicais tão díspares quanto o cantor e compositor brasileiro Milton Nascimento (o toque da percussão de Naná no álbum Milagre dos peixes, lançado em 1973, exemplifica a habilidade do músico ao evocar a estratosfera com batidas e vozes que pareciam mover o mundo), o bluesman norte-americano B.B. King (1925 - 2015) e o grupo norte-americano Talking Heads. Mais do que um grande músico, dos maiores do mundo, Naná Vasconcelos foi ser humano integrado com a música e a cultura do povo. Fez trabalhos socais, dirigiu festivais de percussão - como o famoso Percpan, sediado em Salvador (BA) - e procurou integrar seres humanos na sociedade a partir da música. Naná Vasconcelos foi deus na percussão...

sábado, 19 de setembro de 2015

Brilho dos músicos impede amargor da sortida safra autoral de 'Café no bule'

Resenha de CD
Título: Café no bule
Artistas: Naná Vasconcelos, Zeca Baleiro e Paulo Lepetit
Gravadora: Selo Sesc
Cotação: * * *

♪ Era para ser um disco gravado em trio com o paulistano Itamar Assumpção (1949 - 2003), o pernambucano Naná Vasconcelos e o maranhense Zeca Baleiro. Mas o Nego Dito saiu de cena e Café no bule - disco acalentado há mais de uma década - acabou sendo preparado com Paulo Lepetit, músico paulistano da turma de Itamar, no lugar do insubstituível Beleléu. Com 12 músicas inéditas em 13 faixas (a exceção é Caju, parceria de Naná com Vinicius Cantuária, lançada em 1999 em disco de Naná e ora revivida pelo trio em tom amaxixado), Café no bule exala o aroma da diversidade rítmica brasileira. A safra autoral de Baleiro, Naná e Lepetit vai do coco de roda (Mosca de padaria) a uma canção moldada para luau (A maré tá boa, feita na onda paulista, de acordo com o espirituoso Baleiro), passando por xote (Xote do Tarzan) e ijexá de toque caribenho (A dama do Chama-Maré, música arranjada com metais cujo título se refere a uma casa de reggae situada em São Luís, no Maranhão). Só que esse repertório - costurado por três vinhetas, Tem café no bule, Eu vim foi (único tema composto por Baleiro e Lepetit sem Naná) e Bonne chance - poderia ter sido servido com mais rigor na seleção. Os três artistas sobressaem em Café no bule mais como músicos do que como compositores. Naná reitera sua personalíssima maestria na arte da percussão, tirando efeitos de instrumentos inusitados. Além de dominar a arte do canto no disco, Baleiro toca instrumentos como violão, cavaco e guitarra. Já Lepetit pilota com habilidade sortido arsenal de instrumentos que inclui o u-bass, misto de baixo e ukelele. Capitaneada pelo próprio trio, a produção agrega outros músicos aos arranjos e garante boa formatação para um repertório gravado com mistura de ritmos e sotaques em fusão que extrapola inclusive as fronteiras rítmicas do Brasil, como sinalizam o tom cigano de Yellow taxi e a levada angolana do semba de roda Vou de candonga. A questão é que nem todas as músicas em si fazem jus ao histórico do trio. Os grandes destaques da variada safra autoral e inédita são Ciranda da meia-noite (a ciranda que abre o disco com toques de ijexá e um irresistível convite à dança), Batuque na panela (samba que busca reproduzir a cadência dos temas de terreiros) e Loa (o festivo maracatu de baque virado que fecha o disco em grande estilo). Enfim, Café no bule tem sabor brasileiro. É a diversidade rítmica nacional que adoça o disco, sendo que o brilho dos três artistas como músicos impede qualquer eventual amargor do repertório servido em Café no bule. Pode provar o miscigenado Café no bule!

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Naná, Baleiro e Lepetit servem 'Café no bule' com 'Caju' em CD do Selo Sesc

♪ No fim da década de 1990, o compositor e percussionista pernambucano Naná Vasconcelos firmou parceria com o cantor e compositor amazonense Vinicius Cantuária, criando músicas registradas em álbum de Naná, Contaminação (M. Officer, 1999). Uma dessas músicas, Caju, foi reprocessada por Naná para Café no bule, disco que o percussionista gravou ao longo dos últimos dois anos como o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro e com o músico e compositor paulista Paulo Lepeti. Servido a partir desta primeira semana de setembro de 2015, em edição produzida pela Elo Music e distribuída através do Selo Sesc, Café no bule alinha 13 músicas. Com exceção de Caju, lançada em disco há 16 anos, todas são inéditas. O trio assina 11 das 13 composições, sendo que Eu vim foi é a única música criada por Baleiro e Petit sem a participação de Naná. De todo modo, Naná (percussão, efeitos, voz evocais), Baleiro (violão, guitarra, cavaco, ukelele, teclados, voz e vocais) e Lepetit (baixo, u-bass, violão, guitarra, teclados, voz e vocais) uniram forças, vocais e instrumentos na gravação das 13 músicas do repertório autoral que inclui a Ciranda da meia-noite, o Xote do Tarzan e o ijexá A dama do Chama-Maré. Projeto antigo, Café no bule seria servido originalmente com o aroma da música do cantor e compositor paulista Itamar Assumpção (1949 - 2003), mas, com a saída de cena do Beleléu, Petit - que já estava por perto durante a idealização do disco por tocar na banda de Itamar - completou o trio. E o repertório foi sendo criado pelos três artistas - vistos em ilustração baseada em fotos de Mathieu Rougé - sem fórmulas prontas, como conta Baleiro em texto sobre o projeto: “Há casos em que Naná gravou primeiro a levada e eu e Lepetit desenvolvemos a letra, a melodia e a harmonia conjuntamente depois, como é o caso das faixas Ciranda da meia-noite, Batuque na panela e Xote do Tarzan. Outras nasceram de groove de baixo e violão, seguido pela letra e a levada rítmica, como em Yellow taxi e Vou de candonga. Em A dama do Chama-Maré e A maré tá boa, Naná começou a letra e nos deu para musicar, fazer a segunda parte, e depois ele pôs a percussão. Fiz a letra e mandei para o Lepetit, que harmonizou”, revela Baleiro.  Eis, na ordem do CD, as 13 músicas que compõem o sabor rítmico de Café no bule:

1. Ciranda da meia-noite (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
2. Batuque na panela (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
3. A dama do Chama-Maré (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
4. Tem café no bule (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
5. Caju (Naná Vasconcelos e Vinicius Cantuária, 1999)
6. Yellow taxi (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
7. Mosca de bolo (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
8. Eu vim foi (Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
9. A maré tá boa (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
10. Vou de candonga (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
11. Xote do Tarzan (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
12. Bonne chance (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)
13. Loa (Naná Vasconcelos, Paulo Lepetit e Zeca Baleiro)

sábado, 22 de agosto de 2015

André Morais lança 'Dilacerado', álbum que tem participações de Elza e Naná

♪ André Morais disponibiliza seu segundo álbum, Dilacerado, para download gratuito a partir de hoje, 22 de agosto de 2015. Conceituado por esse cantor, compositor e poeta paraibano como "um disco de amor e erotismo", Dilacerado expõe na capa uma foto sensual feita pelo artista também paraibano Ary Régis Lima. Sob a direção musical de Herlon Rocha e Pedro Medeiros, Morais produziu a gravação das 10 músicas que compõem o repertório de Dilacerado, sucessor de Bruta flor (Independente, 2011) na discografia deste artista multimídia (em cena também como ator, diretor, roteirista e cineasta). Elza Soares e Naná Vasconcelos participam do disco. A cantora carioca tem sua voz ouvida em Nua, tango composto por Chico César com versos de Morais. Já o percussionista pernambucano põe seu toque em Confissão (Seu Pereira e André Morais) e em Deserto (Seu Pereiro e André Morais). A música-título Dilacerado é assinada por André Morais com a compositora mato-grossense Lucina, também parceira de Alarido e Delito. Inteiramente autoral, Dilacerado oscila entre o amor romântico de Teu (Michel Costa e André Morais) e o amor erotizado de Orgia (Seu Pereira e André Morais), expondo parceria de Morais com Giana Viscardi na faixa Fé.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Barbatuques grava CD 'Ayú', em São Paulo, com adesões de Hermeto e Naná

♪ A IMAGEM DO SOM - As fotos de Beto Mendonça mostram o grupo paulistano de percussão corporal Barbatuques no estúdio 185, em São Paulo (SP), com o multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal (de chapéu na foto ao alto) e com o percussionista pernambucano Nana Vasconcelos (de xale amarelo na outra foto). Hermeto e Naná participam do álbum que o Barbatuques grava com repertório inédito sob a direção musical de Fernando Barba (fundador do grupo) e Carlos Bauzys. Ayú é o título do álbum que sucede o CD infantil Tum pá (MCD, 2012) na discografia do grupo, cuja visibilidade foi ampliada nos últimos anos por conta da contribuição do coletivo às trilhas sonoras de jogos, séries e animações como o filme Rio 2 (Estados Unidos, 2014).

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Eis a capa de '4 elementos', disco que Naná Vasconcelos lança em maio

Esta é a capa de 4 elementos, o disco autoral que o compositor e percussionista Naná Vasconcelos vai lançar em maio de 2013. Primeiro álbum do artista pernambucano desde Sinfonia & batuques (2010), 4 elementos vai apresentar dez composições criadas por Naná Vasconcelos sob  inspiração dos quatro elementos básicos da natureza (água, ar, fogo e terra).

terça-feira, 16 de abril de 2013

Naná celebra Clementina e Airto Moreira no disco autoral '4 elementos'

Água, ar, fogo e terra guiaram e inspiraram Naná Vasconcelos na pesquisa sonora feita para a criação das dez músicas que formam o repertório autoral de 4 elementos, o álbum de estúdio que o percussionista e compositor pernambucano lança em maio de 2013. Em Astronáfrica, tema em que Naná mistura cordas e percussão, a viagem é intergaláctica. Ao fazer a música, Naná imaginou astronautas africanos dançando nos anéis de Saturno. Em órbita brasileira, o artista celebra Clementina de Jesus (1901 - 1987) - a cantora fluminense com quem Naná trabalhou no Rio de Janeiro (RJ) nos anos 70 - na faixa Clementina. Já Berimbando, tema gravado com solo de berimbau, é homenagem de Naná ao colega catarinense Airto Moreira, baterista e percussionista com visibilidade mundial no circuito do jazz. O disco é independente.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

'Sinfonia & Batuques' expõe a versatilidade da percussão genial de Naná

Resenha de CD
Título: Sinfonia & Batuques
Artista: Naná Vasconcelos
Gravadora: Sem indicação
Cotação: * * * * 1/2

Naná Vasconcelos é um percussionista genial até debaixo d'água. Em seu disco Sinfonia & Batuques, recém-lançado de forma independente, o músico pernambucano combina o baticum com cordas sinfônicas e experimenta o uso de células rítmicas obtidas a partir da fricção da água. As experiências aquáticas moldam faixas como Lamentos, Menininha Mãe - em que um coral infantil de vozes femininas saúda a ialorixá baiana Maria Escolástica da Conceição Nazaré (1894 - 1986), a lendária Mãe Menininha de Gantois - e Batuque das Águas, esta unida em medley com Aquela do Milton, tema que Naná gravou originalmente em seu álbum Bush Dance (1987) e que, de fato, evoca o universo musical de Milton Nascimento. Em Lamentos, a ideia foi evocar o som das águas revolvidas por um navio negreiro que singra no mar revolto da escravidão. Fora do universo aquático, Sinfonia & Batuques transita em águas mais plácidas por samba (Mistério), peça camerística (Canção para Naniti, criação de Luz Morena, a filha pianista de Naná) e xaxado (Pó de Chinelo, urdido a partir da fricção do chinelo de Naná em piso de madeira). A faixa-título é a que sintetiza de forma mais clara a fusão da batucada com o universo sinfônico nesta viagem que parece iniciar e terminar na África. Em Santa Maria, Naná se vale de seu berimbau magistral para tocar o tema do compositor angolano Kituche. Já em Chorrindo o músico recorre somente a sua voz, usada como percussão para simular sons de choro e riso. E tudo acaba no tom percussivo do maracatu, mote da recriação de Recife Nagô, tema do compositor J. Michiles. Seja na África ou em Pernambuco, a sinfonia percussiva de Naná Vasconcelos soa nobre neste CD que expõe toda a versatilidade do músico.