Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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quinta-feira, 26 de março de 2015

Disco roqueiro de inéditas, 'Dia 16' repõe Odair José no seu devido lugar

Resenha de CD
Título: Dia 16
Artista: Odair José
Gravadora: Saravá Discos
Cotação: * * * 1/2

Antes minimizado pela crítica elitista que nos anos 1970 julgava tudo e todos pelos padrões estéticos da MPB, hoje superestimado por conta de aura cult que encobre os vícios de seu cancioneiro às vezes repetitivo, o cantor e compositor goiano Odair José alcança bom momento artístico com seu álbum de inéditas Dia 16, lançado neste mês de março de 2015 pelo selo Saravá Discos, de Zeca Baleiro. Produzido por Alexandre Fontanetti, o disco repõe Odair no seu devido lugar com 12 canções inéditas e autorais compostas com a simplicidade de sempre e gravadas com espírito roqueiro. Aos 66 anos, o ídolo das empreguetes da década de 1970 faz pulsar novamente a veia roqueira que, com maior ou menor força, bombava nos discos feitos por Odair em seus áureos tempos, sobretudo no ambicioso álbum O filho de José e Maria (RCA-Victor, 1977), concebido como ópera-rock. Não por acaso, uma música composta para este (comercialmente) fracassado disco de 1977, mas descartada na seleção final, Fera, reaparece em Dia 16 com sutil acento bluesy e com a pegada roqueira que é amplificada na música-título Dia 16. Em Fera, Odair fala de sexo ("Seu amor é tão gostoso") da forma direta com que sempre abordou temas-tabus em suas músicas. Em Dia 16, um dos assuntos em pauta é a paixão de homens velhos por mulheres jovens. Odair parte em defesa dos tiozinhos na canção cujo título, A moça e o velho, já exemplifica a habilidade do compositor de ir sempre direto ao ponto, sem fazer rodeios em suas letras escritas sem metáforas. Por mais que traga no repertório eventuais rocks como Começar do zero, faixa que ecoa influências de Erasmo Carlos e Paul McCartney na obra do artista, Dia 16 é, em essência, um disco em que o rock está mais presente em espírito jovial do que pelo toque das guitarras (também presentes, diga-se). As canções dominam o repertório de tom pop radiofônico. Conduzida pela levada do ukelele tocado pelo produtor Alexandre Fontanetti, Encontro vislumbra bonanças em verso feito em tom de autoajuda ("Depois de todo deserto, sempre tem um jardim"). Se Cores tem tonalidades solares, avisando no arremate do disco que é tempo de amor,  Me desculpe se revela a clássica balada banhada por lágrimas de trivial chororô romântico. Com mais atitude na letra, Odair afasta o sofrimento de amor na melodiosa balada Sai de mim. Já Morro do Vidigal é flash nostálgico que rememora, em clima folk, amor vivido na comunidade da cidade do Rio de Janeiro (RJ) que dá nome à balada. Há também toque de folk em Deixa rolar, composição na qual Odair receita dicas de bem-viver. Mais melancólica, Lembro é canção impregnada de nostalgia em que o artista expia a dor da saudade da mãe com lembranças dos carinhos da infância. Já Sem compromisso celebra a música influente do cantor e compositor norte-americano Roy Orbinson (1936- 1988) mais para o country do que para o rockabilly. Enfim, Dia 16 prova que ainda há inspiração no calendário de Odair José. Sem trair a ideologia do artista, o disco sinaliza que o cantor permanece em ebulição, embora já acomodado em seu devido lugar.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Musical de trama folhetinesca ralenta canções de Odair na batida do rock

Resenha de musical
Título: Eu vou tirar você deste lugar - As canções de Odair José
Texto e direção: Sérgio Maggio
Elenco: 
Watusi, Jones de Abreu, Camila Guerra, Luiz Felipe Ferreira, Gabriela Correa,
              Rodrigo Mármore, Tainá Baldez e Renato Milan
Foto: Divulgação / Alexandre Magno

Cotação: * *
Musical em cartaz de quarta-feira a domingo, até 5 de abril de 2015, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro (RJ) com ingresso a R$ 10 (inteira) e 5


Criado, produzido e estreado em Brasília (DF), sob a direção de seu idealizador Sérgio Maggio, o musical inspirado pelo cancioneiro do compositor goiano Odair José chegou ao Rio de Janeiro (RJ) neste mês de março de 2015 em temporada que se estende até 5 de abril no teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil. A novidade dessa temporada carioca é a substituição da cantora Maria Alcina por Watusi, nome artístico da cantora Maria Alice Conceição, vedete fluminense catapultada à fama nos anos 1970 por ter sido estrela do cabaré parisiense Moulin Rouge. Afastada há anos dos palcos, Watusi volta à cena como a cafetina Madame China na trama folhetinesca de Eu vou tirar você deste lugar, musical que se desvia da rota biográfica seguida pela maioria dos espetáculos do gênero. Sem o objetivo de contar a vida e obra de Odair José, Maggio pôs em cena um enredo inverossímil que gravita em torno do universo do cancioneiro popular do cantor e compositor goiano, alvo de preconceito das elites musicais dos anos 1970. A trama se situa em 1973, ano de repressão. De certa forma, Matias - personagem do ator Luiz Felipe Ferreira - personifica em cena a ideologia de Odair sem chegar a ser um alter-ego do artista. Matias é um jovem que se rebelou contra o sistema - personificado por seu pai, Odilon (Jones de Abreu) - e abraçou a música para veicular seus ideais. No caminho, Matias se depara com drogas, com censura e com a paixão por uma prostituta. Ou seja, estão em cena os arquétipos que compõem o universo das canções de Odair. Mas todas as questões abordadas pela trama são postas em cena de forma rasa. Os conflitos sócio-políticos insinuados pelo texto jamais são aprofundados. Fica a impressão de que o desenvolvimento (superficial) da trama é mero pretexto para a linear exposição das canções de Odair, compositor hábil na comunicação imediata com as classes mais marginalizadas pela sociedade através de músicas que falavam de amor, sexo, solidão e religião com a língua do povo. Desfilam pelo musical sucessos populares como Assim sou eu (Odair José e David Lima, 1972), Esta noite você vai ter que ser minha (José Pereira Jr. e Pisca), Cadê você? (Odair José, 1973), Revista proibida (Odair José, 1973), Eu, você e a praça (Odair José, 1973), Vida que não para (Odair José e Silva Santos, 1972) - exemplo de como o rock também fazia a cabeça de Odair José - e Deixe essa vergonha de lado (Odair José e Andreia Teixeira, 1973), Em elenco sem vozes imponentes, Watusi acaba sobressaindo pela interpretação mais pessoal. No todo, o musical ralenta o cancioneiro de Odair na batida do pop rock, executado em cena pelo quarteto de baixo, guitarra, violão e bateria que divide com o elenco o pequeno palco do teatro I do CCBB da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Com algumas interpretações que beiram a caricatura, o elenco pouco faz por um texto em si pouco sedutor. Além do mais, as canções nem sempre se ajustam ao enredo. É nítida, por exemplo, a artificialidade do entrecho criado ao fim somente para possibilitar a inclusão de Uma vida só (Pare de tomar a pílula) (Odair José, 1973), o maior sucesso da obra do cantor e compositor de Morrinhos (GO). Tampouco o arremate com A noite mais linda do mundo (Donizette e Marcelo, 1974) soa natural. Enfim, falta em cena o componente de verdade e naturalidade que moldou o cancioneiro de Odair José,  superior ao musical genérico que inspirou.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Show em que Odair revive álbum controvertido de 1977 sai em CD e DVD

Aos primeiros minutos de 19 de maio de 2013, o cantor e compositor goiano Odair José subiu ao palco do Theatro Municipal de São Paulo e cantou todas as nove músicas do álbum mais controvertido de sua discografia, O filho de José e Maria (RCA, 1977), concebido para ser um álbum duplo, uma ópera-rock tupiniquim, mas que acabou mutilado pela censura e pela gravadora, saindo na forma de disco simples. O registro do show - calcado no revival desse álbum conceitual que tocou em questões delicadas como religião e homossexualidade e que foi gravado com influências do rock dos anos 1970 - está sendo editado em CD e DVD da Coleção Canal Brasil. Clique aqui para (re)ler a resenha do show em que Odair deu voz a músicas como O casamento (Odair José), Fora da realidade (Odair José e David Lima), Não me venda grilos (Por direito) (Odair José) e O sonho terminou (Odair José). O CD e o DVD Filho de José e Maria ao vivo reproduzem todos os 13 números do show. Às nove composições do álbum, o artista adicionou quatro composições - A viagem (Odair José e Eliane Martins Barbosa), Agora eu sei (Odair José), Forma de sentir (José Messias e Donizette) e Que loucura (Odair José) - que julgou estarem dentro do espírito daquele que chamou em cena de 'disco incompreendido'.

sábado, 17 de maio de 2014

'Best of brega' irmana Evaldo, Graciela, Magal, Odair, Raul, Rita e Wando

Em 1980, uma cantora argentina de sucesso efêmero no Brasil, Julia Graciela, chegou ao topo das paradas nacionais com Anúncio de jornal (Graciela Correa e Paulo Ricardo), música de compacto simples editado pela Polydor. Grande hit popular daquele ano, Anúncio de jornal figura no repertório do primeiro dos dois volumes da coletânea The best of brega, editada pela gravadora Universal Music neste mês de maio de 2014. E não é o único fonograma de Graciela na compilação conceituada por Alice Soares. Responsável pela seleção de repertório, o pesquisador musical Rodrigo Faour também incluiu no CD The best of brega 1 uma faixa - Manuela Mulher do álbum lançado pela artista em 1982. Centrada na produção kitsch de período que vai de 1972 a 1983, o primeiro volume alinha standards batidos de cantores como Evaldo Braga (1948 - 1973) (Sorria, sorria, hit retumbante em 1972, e Eu não sou lixo), Odair José (Uma vida só - Pare de tomar a pílula, sucesso nacional de 1973) e Sidney Magal (Amante latino e Sandra Rosa Madalena, hits de 1976 e 1978, respectivamente) entre fonogramas menos óbvios como Bicicleta envenenada (música lançada por Ismael Carlos em 1983), Colher de chá (gravação pouco lembrada feita por Ronnie Von em 1973) e O puxa-saco (outra gravação de Ismael Carlos, lançada em 1981. The best of brega rebobina também incursões dos roqueiros Raul Seixas (1945 - 1989) e Rita Lee pelo universo da canção sentimental brasileira. O Maluco Beleza parodia o brega em Tu és o MDC da minha vida, parceria com Paulo Coelho do álbum Novo aeon (Philips, 1975). Já a Ovelha Negra brinca de ser cafona em Prisioneira do amor (Élcio Decário), música de seu primeiro álbum solo, Build up (Polydor, 1970). Com ênfase na produção dos anos 1980, The best of brega 2 traz para o formato digital gravações de nomes que foram nuvem passageira na produção fonográfica brasileira, geralmente emplacando um único hit. São os casos dos grupos Afrodite se quiser (O que que ela tem que eu não tenho?, de 1987), Ciclone (Tipo one way, de 1985), Rabo de Saia (Bacalhau à brasileira - Tira-gosto de pirarucu, música de 1979), Sabor de Mel (A festa das frutas, de 1981) e Superbacana (Tá com medo, tabaréu, sucesso de 1979 mais conhecido como Melô da pipa). Enquanto o primeiro volume da coletânea The best of brega  enfatiza a produção de cantores e compositores de personalidade, o segundo volume se limita a alinhar curiosidades como Sou assim, música gravada em 1988 pelo travesti Roberta Close. O que sinaliza que a gravadora Universal Music deve revitalizar seu vasto catálogo com mais critério.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Cintra faz conexões com Alice, Amarantos e Odair no primeiro disco solo

Previsto para ser lançado neste ano de 2014, o primeiro disco solo de Adriano Cintra - cantor e compositor dissidente do grupo Cansei de Ser Sexy - apresenta letras em português assinadas por nomes como Alice Caymmi, Gaby Amarantos, Guilherme Arantes, John Ulhoa e Odair José, entre outros artistas de distintos universos musicais. As letras são versões (não literais) das músicas compostas em inglês por Cintra para o CD. No site MJournal, o artista - em foto extraída de vídeo do YouTube - revela a razão de ter feito tais conexões e apresenta uma música do álbum, Invisível, (bom) tecnopop que remete ao som dominante na década de 1980.

sábado, 2 de novembro de 2013

Caixa 'Quatro tons' expõe a (real) dimensão da importância de Odair José

Resenha de CD
Título: Quatro tons de Odair José
Artista: Odair José
Gravadora: Universal Music
Cotação: Assim sou eu... (* * * *), Odair José (* * * * 1/2), Lembranças (* * *) e Odair (* * 1/2)

Ao revelar a luta dos cantores e compositores ditos cafonas contra a censura da década de 70, batalha até então normalmente associada somente a medalhões da MPB como Chico Buarque e Milton Nascimento, o livro Eu não sou cachorro, não (Record, 2002) - escrito pelo jornalista e historiador Paulo César de Araújo - deu início a um processo de reavaliação da obra de Odair José que rendeu o tributo Vou tirar você desse lugar (Trama, 2006) e culminou com a edição de Praça Tiradentes (Saravá Discos, 2012), excelente álbum de inéditas em que Odair se conectou a nomes como Arnaldo Antunes e Chico César sob generosa produção de Zeca Baleiro. Onze anos após a publicação do livro de Araújo, a edição de Quatro Tons de Odair José - caixa que embala reedições de Assim sou eu... (1972), Odair José (1973), Lembranças (1974) e Odair (1975), os quatro primeiros álbuns gravados pelo artista na Polydor (o braço popular da extinta gravadora Philips) - presta valioso serviço à memória fonográfica brasileira por trazer para a era digital discos (inacreditavelmente até então nunca editados em CD) que permitem que a reavaliação da obra do artista seja feita a partir da análise de sua matéria-prima original. Produzida por Alice Soares para a Universal Music com o habitual requinte da série Tons, valorizada pelos colecionadores de discos por reeditar títulos raros com arte gráfica original (com reproduções das letras) e excelente remasterização (de Luigi Hoffer e Carlos Savalla), a caixa Quatro tons de Odair José expõe os momentos mais felizes da obra desse cantor e compositor goiano que obteve grande sucesso popular na primeira metade dos anos 70. Contudo, ao mesmo tempo em que expõem o excelente acabamento instrumental das gravações e o traço peculiar de cancioneiro que tocou de forma direta e corajosa em temas tabus como sexo e religião, sempre falando a língua do povo, as reedições destes quatro álbuns também revelam as limitações e contradições de um artista que, embora seja dono de produção autoral situada bem acima da média da canção popular, por vezes soou repetitivo em seus assuntos e caminhos melódicos. Tanto que ao tentar se renovar com a criação de O filho de José e Maria (1977), espécie de ópera-rock gravada em álbum editado já na RCA por conta de discordância na Philips, Odair viu ruir vendas e o sucesso popular, este nunca mais obtido na proporção alcançada no período áureo da Philips. Como recorda o jornalista Marcus Preto nos elucidativos textos escritos para contextualizar cada álbum na discografia de Odair, o cantor migrou da CBS (gravadora na qual já fazia expressivo sucesso popular) para a Philips porque queria se ver livre da estética da Jovem Guarda que lhe era imposta pelo produtor Rossini Pinto na CBS. Pois aí reside um mérito e uma contradição na discografia de Odair, que passou a ter seus LPs produzidos por Jairo Pires. Por mais que seu primeiro álbum na Philips, Assim sou sou eu... (1972), tenha arranjos requintados criados pelo maestro paranaense Waltel Blanco com bases tocadas pelos ótimos músicos que formariam em 1973 o trio carioca Azymuth, o d.n.a. de canções como Você chegou para me fazer sorrir (Odair José e Jorge Paiva), Três pontinhos mais... (Odair José e Jorge Paiva) e Seria muito bom fazer voltar (Odair José e Jorge Paiva) remetem à gênese pueril da Jovem Guarda. Mas a propalada influência do pop rock também pontua o disco, se fazendo notar sobretudo no arranjo de Vida que não para (Odair José e Silva Santos). De todo modo, o grande sucesso de Assim sou eu... foi Esta noite você vai ter que ser minha (José Pereira Jr. e Pisca). Nesta reedição, o álbum ganha faixa-bônus, Cristo, quem é você?, lançada originalmente no álbum Orações profanas (1972) e incluída na segunda tiragem de Assim sou eu..., LP que atingiria a marca das 200 mil cópias vendidas - número até modesto se confrontado com as alegadas 700 mil cópias vendidas do segundo álbum do cantor na Polydor, Odair José, pico de vendas e de criatividade na discografia do artista. É o disco em que, renovando a temática da canção popular brasileira, o cantor abordou dilemas delicados como o de ser mãe solteira (Deixa essa vergonha de lado, parceria de Odair com Andreia Teixeira) - personificada na letra na figura de uma empregada doméstica, reforçando o elo do artista com as classes populares - e o uso de anticoncepcional, assunto do megahit Uma vida só (Pare de tomar a pílula), canção que - como informa o texto de Marcus Preto - é da lavra solitária de Odair, embora seja oficialmente creditada a Ana Maria, que vem a ser a mulher de Carlos Guarani, então diretor artístico da Rádio Globo, autor da ideia de fazer música sobre a pílula, tema então muito em voga na sociedade. Com o reforço de Hyldon nas guitarras, Odair José é também o álbum de Cadê você? (Odair José), outro sucesso de disco luminoso em que o cantor remói amores perdidos em canções como Revista proibida (Odair José) - faixa que, de quebra, toca na questão da pornografia - e Eu, você e a praça (Odair José), música tristonha como outras tantas de Odair. Aliás, no cancioneiro do compositor, até a felicidade vem revestida de certa melancolia, como explicita o título da sertaneja Alegria triste (Pinga e Evaldo José), faixa de Lembranças, álbum de repertório menos sedutor, pontuado pelo suingue dos arranjos de José Roberto Bertrami, perceptível em especial na arrojada orquestração de Barra pesada (Jean Pierre e Donizette). As letras continuavam simples e diretas na abordagem de amor e sexo, como exemplificam os versos algo machistas de Cotidiano nº 3 (Odair José), canção sobre o desgaste do casamento por conta do desleixo da esposa com seu visual. Por isso mesmo, tais letras eram alvo da censura, que implicou com o título original da canção A primeira noite de um homem (Odair José e Eliane Maria Machado Barbosa), trocado para Noite de desejos. De todo modo, o compositor se revelou menos inspirado em Lembranças. Tanto que o grande sucesso do disco foi A noite mais linda do mundo (A felicidade) (Donizette e Marcelo), música alheia que atravessou gerações. E, se de fato o que existe na vida são momentos felizes como prega essa bela canção, os de Odair José na Polydor estavam chegando ao fim. Álbum arranjado por José Roberto Bertrami com Luiz Cláudio Ramos, Odair (1975) - ao qual se seguiu o LP Histórias e pensamentos (1976), omitido na caixa - reforça a impressão de desgaste sinalizada por Lembranças. Mesmo assim, vale mencionar A viagem (Odair José) - alusão vaga aos efeitos da maconha - e Dê um chega na tristeza (Odair José e Maxine), ode à alegria, sentimento rarefeito em cancioneiro que tem seus méritos. As reedições destes quatro álbuns do artista na ótima caixa Quatro tons de Odair José são fundamentais porque dão a real dimensão da importância do cancioneiro do artista, dono de obra que não deve ser superestimada como se Odair José fosse o genial compositor que o tempo se encarregou de mostrar que ele - afinal - não conseguiu ser ao longo dos anos, mas tampouco subestimada por conta de algumas belas melodias e da habilidade do cantor em se comunicar com as massas de forma original e sincera.

domingo, 22 de setembro de 2013

Quatro álbuns clássicos de Odair são reeditados em caixa da série 'Tons'

Cantor e compositor goiano cuja obra autoral tem passado por processo de reavaliação nos últimos anos, Odair José vai ter reeditados pela Universal Music seus quatro álbuns mais bem-sucedidos dos anos 70, década de seu apogeu artístico. Lançados originalmente pela gravadora Philips, Assim sou eu... (1972), Odair José (1973), Lembranças (1974) e Odair (1975) ganham reedições remasterizadas embaladas em caixa da série Tons produzida por Marcus Preto. São os discos que consolidaram a trajetória fonográfica de Odair, iniciada em 1970 na gravadora CBS. Foi no álbum Odair José, por exemplo, que o cantor lançou sua controvertida canção Uma vida só (Pare de tomar a pílula), composta em parceria com Ana Maria. Já o LP Lembranças emplacou o sucesso A noite mais linda do mundo (Felicidade), de Donizette.

domingo, 19 de maio de 2013

Odair remonta na Virada ópera-rock de 'disco incompreendido' de 1977

Resenha de show
Evento: Virada cultural 2013
Título: O filho de José e Maria
Artista: Odair José (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Theatro Municipal de São Paulo (São Paulo, SP)
Data: 19 de maio de 2013
Cotação: * * *

Em 1977, Odair José virou a mesa. Ao migrar da gravadora Philips para a RCA, o cantor e compositor goiano - então no auge do sucesso popular por conta de hits como Uma vida só (Pare de tomar a pílula) (Odair José, 1973) e A noite mais linda do mundo (Donizetti, 1974) - exigiu como condição para a transferência que a RCA bancasse sua ideia de gravar disco conceitual de temática religiosa, idealizado no formato de ópera-rock tupiniquim. Lançado em 1977, o álbum O filho de José e Maria quebrou a sequência de LPs bem-sucedidos gravados pelo artista ao longo dos anos 70, encalhando nas lojas, em parte por causa do boicote dos meios de comunicação, assustados com as críticas da Igreja ao teor contestatório da faixa O casamento (Odair José), canção estruturada em forma de diálogo na qual o cantor sustentava que Jesus tinha sido concebido antes de José e Maria se unirem de acordo com as leis de Deus. Quarta faixa do álbum, O casamento provocou tanta polêmica que um padre até quis excomungar o cantor. Talvez por isso mesmo, Odair José tenha aberto com O casamento o show em que reviveu seu "disco incompreendido" em apresentação feita no Theatro Municipal de São Paulo, aos primeiros minutos de 19 de maio de 2013, dentro da série da Virada cultural 2013 em que artistas revisitam álbuns emblemáticos de suas discografias em seleção feita pelo jornalista Marcus Preto, um dos curadores do evento. Gravado pelo Canal Brasil para exibição na TV e edição em DVD, o show mostrou Odair José imerso no universo do rock, à frente da banda que priorizava as guitarras. Às nove músicas do álbum, o artista acrescentou mais quatro - A viagem, Agora eu sei, Forma de sentir e Que loucura - que julga estarem dentro do conceito de seu trabalho mais controvertido. Mesmo sem o viço vocal dos tempos áureos, Odair reafirmou no show o caráter questionador de sua obra autoral - corretamente redimensionada pelo escritor Paulo César de Araújo  no essencial livro Eu não sou cachorro, não - Música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002) - ao reviver músicas como Não me venda grilos (Por direito). A música-título da ópera-rock O filho de José e Maria, por exemplo, discutia a dissolução do casamento numa época em que a aprovação do divórcio mobilizava e dividia a sociedade. Ousado para os padrões repressores dos anos 70, Odair tocou na questão com o argumento de que o menino Jesus - o filho de José e Maria - sofria com as brigas dos pais. Entre rocks como Nunca mais O sonho terminou e canções como Só pra mim, pra mais ninguém, Odair mostrou uma ou outra música que poderia até ter sido um hit radiofônico caso o álbum não tivesse sido alvo de tanto preconceito. É o caso do pop rock De volta às verdadeiras origens, de refrão grudento. Feito no número, o confuso discurso do artista sobre religião e transcendência soou até dispensável, pois a música de Odair José já fala pelo compositor. No bis, feliz por reviver seu disco incompreendido, o cantor celebrou o momento com interpretação de A noite mais linda do mundo, apresentada na eficaz pegada roqueira da banda. Para Odair José e para o público que lhe aplaudiu com entusiasmo, o show O filho de José e Maria foi mesmo o mais lindo da longa noite de revival de álbuns clássicos.

sábado, 5 de maio de 2012

'Praça Tiradentes' situa Odair no mesmo lugar simples e sincero de antes

Resenha de CD
Título: Praça Tiradentes
Artista: Odair José
Gravadora: Saravá Discos / Microservice
Cotação: * * * *

Primeiro álbum de inéditas de Odair José em seis anos, Praça Tiradentes situa o cantor e compositor goiano no mesmo lugar simples, honesto e sincero de sempre. Sem procurar impressionar pelo fato de estar sendo produzido por Zeca Baleiro, piloto do disco ao lado de Leonardo Nakabayashi, Odair apresenta boa safra de inéditas autorais complementada por músicas fornecidas por Chico César, Arnaldo Antunes (com Carlinhos Brown) e pelo próprio Baleiro. Em total sintonia com a linguagem direta da música de Odair, Chico contribui com Você Tem me Ensinado, tema que, se viesse assinado por Odair, jamais destoaria da produção autoral do autor de Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, sucesso popular dos anos 70 que toca na questão da prostituição feminina, assunto recorrente na obra do artista e rebobinado em Praça Tiradentes na bela E Depois Volte pra Mim, parceria de Odair com Baleiro (autor também de Como Um Filme, outro tema focado no universo de Odair). Arnaldo e Brown fornecem o country Vou Sair do Interior. Contudo, são as (boas) canções da lavra solitária de Odair que valorizam o álbum. Sucessor de Só Pode Ser Amor (Deck, 2006), Praça Tiradentes é título especial na discografia de Odair José. Sem tentar soar (pseudo)moderno, o cantor e compositor apresenta CD fiel ao seu universo particular com arranjos adequados, assinados pelo próprio Odair com os músicos da banda Coffeebreakers. Está tudo no disco: a habilidade para falar de sexo com a língua do povo em Aconteceu (Odair José), o ligeiro approach com a linguagem do pop rock em Sob Controle (Odair José) - faixa que conta com a voz e a gaita do titã Paulo Miklos - e a melancolia na qual está impregnada a maior parte da obra de Odair e que é o mote de faixas como Em Qual Verdade (Odair José) e a resignada O Fim de Nós Dois (Odair José). Na autobiográfica Praça Tiradentes (Odair José), nome de praça popular do Centro do Rio de Janeiro (RJ), o compositor relembra o sonho de misturar o seu destino com o do povo brasileiro. O sonho foi realizado já nos anos 70, época em que Odair era rotulado como cafona. Decorridas quatro décadas, Odair José já é cult. Mas Praça Tiradentes ignora rótulos e preconceitos, se dirigindo ao povo com o qual o artista esteve conectado desde sempre com sua música simples, direta e sincera. Zeca Baleiro entendeu que Odair José não quer e nem precisa ser tirado do lugar que conquistou na música brasileira por mérito próprio.