Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Franco, álbum 'Vanusa Santos Flores' exala o cheiro forte das emoções reais

Resenha de CD
Título: Vanusa Santos Flores
Artista: Vanusa
Gravadora: Saravá Discos
Cotação: * * * *

Precedido pelo titubeante EP Vanusa Santos Flores, lançado em maio de 2014, o primeiro álbum de músicas inéditas da cantora e compositora paulista em 21 anos soa mais inteiro - em todos os sentidos - do que o disco do ano passado. Arquitetado e sonhado por seu produtor, Zeca Baleiro, o álbum Vanusa Santos Flores marca o feliz renascimento da artista. Por mais que essa sentença soe clichê, ela faz sentido. Assim como faz sentido este pulsante e sincero disco que traz a cantora de volta ao mercado fonográfico neste mês de outubro de 2015 depois de período de depressão, motivada por questões pessoais e amplificada pelo fato de a artista ter virado motivo de piadas impiedosas na web em 2009 por conta da propagação de vídeo no qual a cantora se atrapalhava com a letra caudalosa do Hino Nacional Brasileiro (Francisco Manoel da Silva e José Osório Duque Estrada, 1822 / 1909) em solenidade pública. "Como dói viver / Como demora pra ser / Verdade", conclui Vanusa ao fim dos versos de Traição (Vanusa, 1994), música que lançou em seu último álbum de repertório inédito, Hinos ao amor (Leblon Records, 1994) e que ora reapresenta em arranjo mais apurado, pautado pelas cordas orquestradas por Adriano Magoo. A propósito, Vanusa Santos Flores é disco de produção bem cuidada. Um disco gravado desde 2013 que demorou dois anos para se tornar verdade, entre retomadas e interrupções das gravações. A voz da cantora de 68 anos - é fato - já perdeu parte da potência, do alcance e o rigor estilístico detectados nas interpretações de seus LPs da áurea década de 1970, como sinalizam os registros de músicas como Tapete da sala (Luis Vagner, Antonio Luis e Vanusa, 2014), uma das quatro faixas do álbum adiantadas pelo EP do ano passado. Contudo, há força e há verdade no canto de Vanusa. Parafraseando verso de Compasso (Angela RoRo e Ricardo McCord, 2006), música que abre o disco na pegada roqueira da guitarra de Tuco Marcondes, o sangue da cantora pulsa no compasso quente de Vanusa Santos Flores. "Embora a vida seja um estandarte / Da maldade / Bem ou mal / Eu prefiro a verdade", ressalta Vanusa no delicado dueto com Baleiro na primeira parceria de ambos, Tudo aurora, canção enquadrada em apropriada moldura pop folk e composta por Baleiro a partir de poema lhe entregue por Vanusa. Há verdade - cabe repetir - nas dez gravações do álbum. E há sintonia com a fase mais popular da discografia da artista. A Vanusa que avisa em Mistérios (Zé Geraldo e Mário Marcos, 1981) que vai "cantar no meio do povo e sair para a vida de novo", salvando "esse pouco que ainda resta da minha juventude", evoca aquela cantora de Manhãs de setembro (Vanusa e Mário Campanha, 1973) que queria sair, falar, ensinar o vizinho a cantar após ter se fechado no muro em tardes de tristeza. Música que fecha o álbum, Mistérios foi uma das faixas adiantadas pelo EP de 2014 no qual Vanusa apresentou também Era disso que eu tava falando (Renata Fausti e Mário Marcos) e sua gravação de uma das mais belas baladas de Zé Ramalho, O silêncio dos inocentes, lançada pelo cantor e compositor paraibano no álbum O gosto da criação (BMG, 2002). Embora exista já há 13 anos, a canção soa como inédita na voz da cantora que em 1977 lançou Avohai, um dos clássicos do cancioneiro viajante de Ramalho. A voz de Vanusa em O silêncio dos inocentes parece mais límpida do que no registro do EP (consta que ela refez algumas vozes ao retomar as gravações do álbum neste álbum de 2015). Mas, no fim das contas, a qualidade da voz é o que menos conta neste disco em que Vanusa acerta com exatidão o tom melancólico de Esperando aviões (2003) - uma das canções mais pungentes da lavra do cantor e compositor mineiro Vander Lee - e grava a música mais famosa do repertório do grupo português Madredeus. Haja o que houver (Pedro Ayres Magalhães, 1997) soa como ato de resistência de Vanusa, recado que a cantora parece dar a si mesma. Haja o que houver, ela estará lá, à espera da mão amiga. A de Zeca Baleiro a fez sair para a vida de novo. "Alivia a minha história / O mundo anda em linha reta / Eu ando em linha torta", parece rogar nos versos de Abre aspas (Nô Stopa e Marcelo Bucoff, 2002). Em era de discos fakes, estrategicamente arquitetados para receber elogios da crítica robotizada, Vanusa Santos Flores é CD franco que exala o cheiro forte das emoções reais, mixando dores, solidões, superações e - acima de tudo! - a verdade dessa resistente cantora.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Vanusa sai para a vida (de novo) com EP que adianta álbum feito com Baleiro

Resenha de EP 
Título: Vanusa Santos Flores
Artista: Vanusa
Gravadora: Saravá Discos
Cotação: * * 1/2

♪ "Vou sair pra vida de novo / ... / Vou tentar salvar esse pouco que ainda resta / Da minha juventude", avisa Vanusa Santos Flores, aos 67 anos, através de versos de Mistérios (Zé Geraldo e Mário Marcos, 1981), bonita canção que abre o EP com quatro músicas batizado com o nome de batismo da cantora paulista. Lançado oficialmente hoje, 19 de maio de 2014, com evento para convidados em São Paulo (SP), o EP Vanusa Santos Flores antecipa o álbum produzido pelo cantor e compositor maranhense com a intenção de fazer a artista sair de novo para a vida profissional. Alvo de piadas nos últimos cinco anos, desde que errou a letra do Hino Nacional Brasileiro (Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada) em vídeo que virou viral na web, Vanusa tem voz que reside na memória afetiva de quem viveu os anos 1970, década do auge artístico desta boa cantora revelada na segunda metade dos anos 1960. Essa voz perdeu parte de seu viço e potência, como sinalizam as quatro gravações do EP já disponível no iTunes. Mas no registro de Mistérios - destaque do repertório ao lado de O silêncio dos inocentes, música que Zé Ramalho lançou em disco de 2002 - há lampejos daquela intérprete de canto incisivo que conquistou o Brasil nos anos 1970 com as gravações de músicas como Manhãs de setembro (Vanusa e Mário Campanha, 1973), Sonhos de um palhaço (Antônio Marcos e Sérgio Sá, 1974) e Paralelas (Belchior, 1975). Bonita balada filosófica e viajante, bem ao estilo do compositor paraibano, O silêncio dos inocentes reafirma na voz de Vanusa a inspiração singular de Zé Ramalho em gravação de tons ternos, pontuada pela gaita de Tuco Marcondes. Canção que esboça reflexão existencial sobre a solidão humana na selva de pedra, Tapete da sala (Luiz Vagner, Antonio Luiz e Vanusa) é a faixa mais problemática do EP no que diz respeito à performance vocal da cantora. Seria prudente que Zeca Baleiro refizesse a voz desse fonograma que realça o piano de Adriano Magoo, diretor musical do disco. Música menos inspirada do naipe revelado pelo EP Vanusa Santos Flores, já previamente divulgada pela cantora ao apagar das luzes de 2013, a balada Era disso que eu tava falando (Renata Fausti e Mário Marcos) completa esse EP, aperitivo do prometido álbum que deverá trazer regravações de Esperando aviões (Vander Lee, 2003) e da autoral Traição (Vanusa, 1994). Ainda que o EP dilua em parte as expectativas por grande álbum de Vanusa, ver a cantora saindo para a vida (de novo) é motivo de alegria para fãs ávidos por salvar o que ainda resta de suas juventudes.