Título: Vanusa Santos Flores
Artista: Vanusa
Gravadora: Saravá Discos
Cotação: * * * *
♪ Precedido pelo titubeante EP Vanusa Santos Flores, lançado em maio de 2014, o primeiro álbum de músicas inéditas da cantora e compositora paulista em 21 anos soa mais inteiro - em todos os sentidos - do que o disco do ano passado. Arquitetado e sonhado por seu produtor, Zeca Baleiro, o álbum Vanusa Santos Flores marca o feliz renascimento da artista. Por mais que essa sentença soe clichê, ela faz sentido. Assim como faz sentido este pulsante e sincero disco que traz a cantora de volta ao mercado fonográfico neste mês de outubro de 2015 depois de período de depressão, motivada por questões pessoais e amplificada pelo fato de a artista ter virado motivo de piadas impiedosas na web em 2009 por conta da propagação de vídeo no qual a cantora se atrapalhava com a letra caudalosa do Hino Nacional Brasileiro (Francisco Manoel da Silva e José Osório Duque Estrada, 1822 / 1909) em solenidade pública. "Como dói viver / Como demora pra ser / Verdade", conclui Vanusa ao fim dos versos de Traição (Vanusa, 1994), música que lançou em seu último álbum de repertório inédito, Hinos ao amor (Leblon Records, 1994) e que ora reapresenta em arranjo mais apurado, pautado pelas cordas orquestradas por Adriano Magoo. A propósito, Vanusa Santos Flores é disco de produção bem cuidada. Um disco gravado desde 2013 que demorou dois anos para se tornar verdade, entre retomadas e interrupções das gravações. A voz da cantora de 68 anos - é fato - já perdeu parte da potência, do alcance e o rigor estilístico detectados nas interpretações de seus LPs da áurea década de 1970, como sinalizam os registros de músicas como Tapete da sala (Luis Vagner, Antonio Luis e Vanusa, 2014), uma das quatro faixas do álbum adiantadas pelo EP do ano passado. Contudo, há força e há verdade no canto de Vanusa. Parafraseando verso de Compasso (Angela RoRo e Ricardo McCord, 2006), música que abre o disco na pegada roqueira da guitarra de Tuco Marcondes, o sangue da cantora pulsa no compasso quente de Vanusa Santos Flores. "Embora a vida seja um estandarte / Da maldade / Bem ou mal / Eu prefiro a verdade", ressalta Vanusa no delicado dueto com Baleiro na primeira parceria de ambos, Tudo aurora, canção enquadrada em apropriada moldura pop folk e composta por Baleiro a partir de poema lhe entregue por Vanusa. Há verdade - cabe repetir - nas dez gravações do álbum. E há sintonia com a fase mais popular da discografia da artista. A Vanusa que avisa em Mistérios (Zé Geraldo e Mário Marcos, 1981) que vai "cantar no meio do povo e sair para a vida de novo", salvando "esse pouco que ainda resta da minha juventude", evoca aquela cantora de Manhãs de setembro (Vanusa e Mário Campanha, 1973) que queria sair, falar, ensinar o vizinho a cantar após ter se fechado no muro em tardes de tristeza. Música que fecha o álbum, Mistérios foi uma das faixas adiantadas pelo EP de 2014 no qual Vanusa apresentou também Era disso que eu tava falando (Renata Fausti e Mário Marcos) e sua gravação de uma das mais belas baladas de Zé Ramalho, O silêncio dos inocentes, lançada pelo cantor e compositor paraibano no álbum O gosto da criação (BMG, 2002). Embora exista já há 13 anos, a canção soa como inédita na voz da cantora que em 1977 lançou Avohai, um dos clássicos do cancioneiro viajante de Ramalho. A voz de Vanusa em O silêncio dos inocentes parece mais límpida do que no registro do EP (consta que ela refez algumas vozes ao retomar as gravações do álbum neste álbum de 2015). Mas, no fim das contas, a qualidade da voz é o que menos conta neste disco em que Vanusa acerta com exatidão o tom melancólico de Esperando aviões (2003) - uma das canções mais pungentes da lavra do cantor e compositor mineiro Vander Lee - e grava a música mais famosa do repertório do grupo português Madredeus. Haja o que houver (Pedro Ayres Magalhães, 1997) soa como ato de resistência de Vanusa, recado que a cantora parece dar a si mesma. Haja o que houver, ela estará lá, à espera da mão amiga. A de Zeca Baleiro a fez sair para a vida de novo. "Alivia a minha história / O mundo anda em linha reta / Eu ando em linha torta", parece rogar nos versos de Abre aspas (Nô Stopa e Marcelo Bucoff, 2002). Em era de discos fakes, estrategicamente arquitetados para receber elogios da crítica robotizada, Vanusa Santos Flores é CD franco que exala o cheiro forte das emoções reais, mixando dores, solidões, superações e - acima de tudo! - a verdade dessa resistente cantora.

