Mauro Ferreira no G1

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sábado, 29 de março de 2014

'Asas do etéreo' mostra que Tetê ainda guarda uns pássaros na garganta

Resenha de CD
Título: Asas do etéreo
Artista: Tetê Espíndola
Gravadora: Selo Sesc
Cotação: * * * *
Álbum comercializado em edição dupla que inclui o álbum Pássaros da garganta (1982)

Tetê Espíndola ainda guarda pássaros na garganta privilegiada. Basta ouvir Passarinhão (Tetê Espíndola e Marta Catunda, 2006) - música que abre Asas do etéreo, o primeiro álbum de inéditas da artista de Mato Grosso desde E va por ar (Luz Azul, 2007) - para perceber a revoada que sai em disparada. Comercializado pelo Selo Sesc em luxuosa edição dupla que inclui o álbum Pássaros da garganta (Som da Gente, 1982), clássico da discografia de Tetê pela primeira vez reeditado em CD, Asas do etéreo voa com segurança pelo universo habitual do som da cantora e compositora. O diálogo com o disco de 1982 é feito através da craviola - instrumento de 12 cordas criado por Paulinho Nogueira que funde o cravo com a viola caipira e cujo som é recorrente nos dois álbuns - e da evocação de sons de um Brasil de dentro. Grande parte da obra de Tetê está enraizada no sertão do Centro-Oeste, na Chapada dos Guimarães (MT), em conexão com matas, bichos, rios e cachoeiras. É com os pés nesse solo de natureza tão rica que Asas do etéreo voa mais alto em canções Acácias (Tetê Espíndola e Marta Catunda, 2011) - música gravada com o piano límpido de Egberto Gismonti - e Trigo do amor (Tetê Espíndola, 1984), faixa na qual o cantor e compositor paulista Dani Black (filho de Tetê) toca guitarra acústica e faz contracanto que valoriza a gravação. A seleção de canções autorais - compostas por Tetê em diversas épocas - é boa, tirando do baú algumas joias, como a bela música-título Asas do etéreo (Tetê Espíndola, 2011), gravada no tempo de delicadeza que pontua o disco produzido por Tetê com Paulo LePetit, dono do contrabaixo ouvido em Canção (Tetê e Bené Fonteles, 2008). A adesão de instrumentistas diferentes em cada faixa torna o disco mais especial. O toque personalíssimo do trombone de Bocato dá o colorido de Amarelando (Tetê Espíndola, 1987), composição que pode ser caracterizada como canção romântica dentro do espírito indomado da música de Tetê. Ninguém menos do que Hermeto Pascoal toca escaleta em Crisálida-borboleta (Tetê Espíndola e Carlos Rennó, 1984) - o que evidencia o prestígio de Tetê no meio musical. Canções como Triste acauã (Tetê Espíndola e Breno Ruiz, 2006) - que conta melancólica saga de amor sertanejo entrecortada pela percussão corporal de Marcelo Pretto - e Aos elementais (Tetê Espíndola e Luhli, 1987) desnudam a beleza entranhada em um Brasil rural ignorado pelos centros urbanos que ditam a produção musical do país. Brasil sintetizado na garganta - ainda repleta de pássaros - de Tetê Espíndola.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Livro analisa o canto inusitado das vozes da vanguarda paulista dos 80

Resenha de livro
Título: A Voz na Canção Popular Brasileira - Um Estudo sobre a Vanguarda Paulista
Autoria: Regina Machado
Editora: Ateliê Editorial
Cotação: * * * *

A partir de 1980, intérpretes como Ná Ozzetti, Tetê Espíndola e Vânia Bastos deram voz a um novo tipo de canto na música popular do Brasil. Guiadas por compositores como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpação (1949 - 2003), pilares da vanguarda musical paulista surgida naquela década, tais cantoras criaram e desenvolveram padrões vocais até então inusitados no canto popular. É sobre esse período fértil da música paulista que a cantora, compositora e instrumentista Regina Machado se debruça nas 136 páginas de seu livro A Voz na Canção Popular Brasileira - Um Estudo Sobre a Vanguarda Paulista, recém-lançado pelo Ateliê Editorial. Feito com rigores técnicos e linguagem acadêmica (a autora é graduada em Música Popular pela Universidade Estadual de Campinas), o estudo é interessante por abordar em perspectiva um gênero musical pouco lembrado em livros. Os livros sobre a música brasileira dos anos 80 estão habitualmente centrados na explosão do pop rock nacional, mas a década também viu a revolução proposta por Arrigo, Itamar e Luiz Tatit, líder do Rumo, o grupo que projetou Ná Ozzetti. A propósito, uma das partes mais interessantes do livro é quando Regina Machado analisa detalhadamente a gravação da canção Sua Estupidez (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969) feita por Ná em 1988 com arranjo criado por Dante Ozzetti a partir da interpretação da cantora, então iniciando carreira solo. Contemporânea de Ná, Tetê Espíndola também tem sua gravação de Londrina (Arrigo Barnabé) - feita em 1981 - dissecada por Regina Machado. Da mesma forma, o canto inovador de Itamar Assumpção em Nego Dito (Itamar Assumpção, 1981) é estudado com ineditismo neste livro mais indicado para cantores e músicos capazes de entender a linguagem técnica adotada pela autora. A análise é consistente.