Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 21 de março de 2013

A onda de Luê bate fria em show solo no Rio, mas esquenta aos poucos

Resenha de show
Título: A fim de onda
Artista: Luê (em foto de Rodrigo Amaral)
Local: Solar de Botafogo (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 20 de março de 2013
Cotação: * * * 

" muito frio! Vamos esquentar a partir de agora... Tão a fim?". O próprio comentário de Luê no palco do teatro do Solar de Botafogo denunciou a atmosfera do início de seu primeiro show solo no Rio de Janeiro (RJ), A fim de onda. Na sequência, a cantora paraense deu voz a sensual carimbó do repertório de Dona Onete, Lua namoradeira, e a temperatura subiu. Tal oscilação de temperatura não deve ser creditada somente a Luê e à afiada banda que subiu ao palco com a artista e que incluiu o guitarrista Felipe Cordeiro, expoente da atual cena musical do Pará. O fato de o público - formado em sua maioria por convidados - desconhecer as delícias pop regionalistas do repertório de seu primeiro disco, como a inédita música-título A fim de onda (Arnaldo Antunes, Betão Aguiar e Luê, 2013) e o hit nortista Onde andará você? (Alípio Martins e Jesus Couto, 1984), impediu que a plateia entrasse de imediato na onda do show e saboreasse tais delícias, alocadas no início do roteiro. À medida que cantora e público foram se conhecendo melhor, o show foi ficando mais quente e mais sedutor. Mesmo assim, a abordagem instrumental de La vie en rose (Louiguy, Marguerite Monnot e Edith Piaf, 1945) - o maior sucesso internacional da cantora francesa Edith Piaf (1915 - 1963), tocado por Luê com sua rabeca - soou desconectada do repertório de show pautado pelo suingue do Norte. Tema mais próximo da latitude do repertório, Cavalo marinho (Ronaldo Silva e Renato Torres, 2011) - gravado por Luê no CD com os músicos do duo paraense Strobo - emergiu em cena com certa psicodelia, reciclada na releitura da confessional Namoradinha de um amigo meu (Roberto Carlos, 1967), hit do Rei na Jovem Guarda. Boa sacação do roteiro é Nasci para bailar, parceria do acreano João Donato com o paraense Paulo André Barata que deu título a álbum lançado por Nara Leão (1942 - 1989) em 1982. Com aquele balanço caribenho típico do cancioneiro de Donato, a música ganhou sagaz citação de Baila comigo (Rita Lee e Roberto de Carvalho) em clima de latinidade dançante. Bela e esguia presença em cena, Luê também acertou ao dar voz ao carimbó Mistério no olhar (Saulo Duarte, 2013) - destaque do recém-lançado CD em que Saulo Duarte e a (banda) Unidade combinam o suingue do Norte com o brega dos anos 70 - e ao lapidar joia popular do repertório de Reginaldo Rossi, Em plena lua de mel (Clayton e Cleide, 1981). Naquela altura, o show já estava quente e o público já tinha entrado mais na onda de Luê, cantora que emerge neste ano de 2013 com sua abordagem pop regionalista dos ritmos do Pará, inclusive do brega. No bis, Bom (André Carvalho e Qinho, 1981) e medley com os carimbós Lua Luar (propagado pela Banda Calypso) e Pescador, pescador mostraram que a maré já estava para Luê e que seu público já estava a fim de onda.

Luê põe temas de Donato, Onete, Piaf, Roberto e Rossi na onda de show

Cantora e compositora paraense que busca visibilidade nacional no rastro do sucesso de Gaby Amarantos, Luê fez seu primeiro show solo no Rio de Janeiro (RJ) na noite de ontem, 20 de março de 2013. A artista mostrou no teatro do Solar de Botafogo,  para público formado majoritariamente por convidados, o show A fim de onda, baseado no repertório do seu homônimo álbum de estreia, gravado com patrocínio do projeto Natura Musical e lançado em fevereiro. No disco, que tem tudo para firmar Luê na maré de vozes do Pará, a cantora apresenta mistura pop de ritmos do Norte do Brasil com gêneros da América Latina.  Mistura temperada pelo toque de músicos como o baterista Curumim, o guitarrista Edgard Scandurra, o trompetista Guizado, o baterista Pupillo e o guitarrista Régis Damasceno (do grupo cearense Cidadão Instigado). No show, feito por Luê sem esses músicos, mas com banda afiada que incluía o guitarrista Felipe Cordeiro (ícone dos sons do Pará), a cantora põe hits de João Donato, Dona Onete, Edith Piaf (1915 - 1963), Reginaldo Rossi e Roberto Carlos na onda de seu show. Do repertório de Rossi, por exemplo, Luê recria Em plena lua de mel (Clayton e Cleide), música lançada pelo cantor em seu álbum Cheio de amor (1981). Eis o roteiro seguido por Luê - vista acima em foto de Rodrigo Amaral - na estreia carioca do show A fim de onda:

1. A fim de onda (Arnaldo Antunes, Betão Aguiar e Luê, 2013)
2. Onde andará você? (Alípio Martins e Jesus Couto, 1984)
3. Sei lá (Felipe Cordeiro, 2013)
4. Prática (André Carvalho, 2013)
5. Se colar (Felipe Cordeiro, Luê e Betão Aguiar, 2013)
6. Nós dois (Junior Soares e Ronaldo Silva, 2013)
7. Lua namoradeira (Dona Onete, 2012)
8. Cabeça (Leonardo Reis e Peu Meurray, 2013)
9. La vie en rose (Louiguy, Marguerite Monnot e Edith Piaf, 1945)
10. Cavalo marinho (Ronaldo Silva e Renato Torres, 2011)
11. Namoradinha de um amigo meu (Roberto Carlos, 1967)
12. Nasci para bailar (João Donato e Paulo André Barata, 1982)
      - com citação de Baila comigo (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1980)
13. Mistério no olhar (Saulo Duarte, 2013)
14. Em plena lua de mel (Clayton e Cleide, 1981)
15. Faróis (Junior Soares e Ronaldo Silva, 2013)
Bis:
16. Bom (André Carvalho e Qinho, 2010)
17. Lua luar /
      Pescador, pescador

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Regionalismo pop de 'A fim de onda' firma Luê na maré de vozes do Pará

Resenha de CD
Título: A fim de onda
Artista: Luê
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * * *

A maré está para artistas do Norte, sobretudo os do Pará, Estado cercado de aura hype na mídia desde o sucesso nacional de Gaby Amarantos em 2012.  Não por acaso, a maré está cheia de cantoras paraenses em busca de visibilidade nacional. Luê é uma delas e uma das que mais têm chances de se firmar na cena pop brasileira quando a onda nortista passar. Seu primeiro álbum, A fim de onda, deixa ótima impressão com um regionalismo pop urdido sem clichês. Produzido por Betão Aguiar, o disco soa leve com a voz suave dessa cantora de Belém (PA) que estudou violino clássico dos nove aos 21 anos e, depois, passou para a rabeca, instrumento que toca em seis das dez faixas deste seu promissor CD de estreia. A fim de onda acerta ao cruzar a ponte que liga Belém a São Paulo (SP) e a Recife (PE) em busca de músicos como o baterista Pupillo (músico da banda pernambucana Nação Zumbi), o também baterista Curumim, Guizado (presente ao longo do CD com seu trompete sonoro) e o guitarrista Régis Damasceno (do grupo cearense Cidadão Instigado) e o também guitarrista Edgard Scandurra. Aliada ao bom repertório selecionado por Luê, a sonoridade resultante da união desses músicos - ao qual se juntam eventualmente músicos do Pará, como o guitarrista Felipe Cordeiro e os integrantes da banda Strobo - impõe A fim de onda como um dos melhores discos brasileiros deste primeiro bimestre de 2013. Música composta por Luê com Betão Aguiar, letrada por Arnaldo Antunes, a faixa-título A fim de onda é abolerada delícia pop apimentada com toque de cha-cha-cha - amostra da bem-sucedida mistura pop de ritmos do Norte do Brasil com gêneros da América Latina que pauta o álbum. Cabeça (Leonardo Reis e e Peu Meurray), por exemplo, combina a levada do ijexá, o balanço da cumbia e uma pitada de dub em música cujos versos destilam um romantismo mais alegre do que o de Onde andará você? (Alípio Martins e Jesus Couto), bom tema da lavra popular do cantor e compositor paraense Alípio Martins (1944 - 1997). Nesta faixa, Luê dá suave tratamento pop ao brega, diluindo o chororô romântico da letra trivial. Já gravada por Jussara Silveira em seu CD Ame ou se mande (Joia Moderna, 2011), Bom (André Carvalho e Qinho) se ambienta bem no clima arejado de A fim de onda. Parceria de Ronaldo Silva com o pai de Luê, Junior Soares, Nós dois é xote que se insinua sensual no toque de múltiplas cordas (dos violões, das guitarras e da rabeca). Junior Soares e Ronaldo Silva também assinam o zouk Faróis nessa mesma linha romântica. Faixa que mais identifica o Pará na intercontinental rota rítmica do disco, Sei lá (Felipe Cordeiro) combina as guitarra(da)s do compositor do tema e de seu pai, Manoel Cordeiro, ícone da música paraense. Com Luê e Betão Aguiar, Felipe Cordeiro também assina Se colar, faixa de menor poder de sedução que transita na ponte Pará-América Central que liga o repertório de A fim de onda. Menos palatável no confronto com as outras músicas do disco, Prática repõe em evidência o talento de André Carvalho como compositor. A faixa tem o toque da(s) guitarra(s) de Edgard Scandurra. Por fim, Cavalo marinho (Ronaldo Silva e Renato Torres) emerge das águas psicodélicas da banda Strobo, revelação da efervescente cena de Belém (PA). No todo, A fim de onda é belo CD que mostra que a maré está para Luê.