Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Com música viva, Pau Brasil leva 'Daqui' para (ricos) rincões de sons do país

Resenha de CD
Título: Daqui
Artista: Pau Brasil
Gravadora: Pau Brasil Music
Cotação: * * * * 1/2

Sólido grupo de música instrumental nacional cujas origens remontam ao fim da década de 1970, o paulistano Pau Brasil continua fazendo música viva. Décimo primeiro álbum de discografia iniciada em 1983, Daqui parte, ao longo de dez músicas, para ricos rincões da música brasileira com a linguagem que consagrou o Pau Brasil e que consiste numa abordagem livre dos temas - com a liberdade do improviso, mas com a consciência de que é preciso evitar o desperdício de notas para dar sentido a essa liberdade. As músicas em Daqui estão postas a serviço da sonoridade e da recriação da criação, própria ou alheia. Tanto que pouco importa o baixo teor novidade do repertório do álbum produzido por Rodolfo Stroeter. Das dez músicas, entre composições próprias e alheias, somente três são inéditas. Lá vem a tribo (Rodolfo Stroeter e Paulo Bellinati, 1989), por exemplo, é a música que intitulou e abriu álbum lançado pelo grupo em 1989. Lá vem a tribo fecha Daqui em revival justificado pelo toque do clarone do músico inglês John Surman, único convidado do disco. O registro expõe músicos daqui e de lá em pleno exercício da liberdade musical. Daqui festeja a primeira década da atual formação do Pau Brasil, já que foi em 2005 que o baterista Ricardo Mosca se juntou aos veteranos virtuoses Nelson Ayres (piano), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Paulo Bellinatti (violões) e Teco Cardoso (saxofones e flautas). Trata-se de disco fiel à ideologia musical do grupo. A influência e o exercício do jazz apuram música enraizada nos tais rincões da música brasileira. Nesse sentido, a abertura do disco com Pai (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1970) soa como carta de princípios de um grupo sintomaticamente intitulado Pau Brasil. Em Pai, há o samba que revolve a todo momento a raiz africana da música do Brasil e do mundo. Contudo, não há peso e xenofobia nessa remexida de raízes. Com a mesma naturalidade e leveza com que abre os contornos de Caixote (2015), composição de Nelson Ayres, o Pau Brasil expressa (quase) toda a beleza lírica e melancólica de Saudade do Brasil (Antonio Carlos Jobim, 1976) - e não Saudades do Brasil, como grafado na contracapa externa do disco. Neste tema que levantou voo no álbum Urubu (Warner Music, 1976), o soberano Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) derrubou o frágil muro erguido para separar a música popular da música clássica e reverenciou o igualmente supremo Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959), compositor e maestro carioca que celebrou o Brasil dentro do universo da música erudita. Não por acaso, o Pau Brasil toca a Bachianas brasileiras nº 1 (Heitor Villa-Lobos, 1930) em Daqui, explorando melodia entranhada em tempos seresteiros em que as modinhas ainda tinham sua vez. E tudo parece fazer sentido na rota brasileira-planetária de Daqui, já que a obra de Villa-Lobos também se embrenhou pelas veredas do grande sertão nacional evocado em Daqui por Agreste (2015) - composição inédita de Nelson Ayres - e pela abordagem serena de No rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine Babo, 1931), o samba-canção que acabou rumando pela estrada do sertão ao longo dos tempos, sem pegar o caminho de volta. E tudo faz sentido também porque o som do Pau Brasil rejeita o nacionalismo exacerbado, sendo livre para extrapolar fronteiras. Tanto que o trio de inéditas de Daqui inclui valsa, Sarapuindo (Teco Cardoso), que se revela faixa das mais jazzísticas do álbum. Tema composto por Paulo Bellinati e lançado há oito anos, como música-título de álbum editado no Brasil em 2007 pelo violonista com a também violonista Cristina Azuma, Pingue-pongue é maxixe criado com a técnica barroca do contraponto gerando cânone (quando duas ou mais vozes-instrumentos seguem a mesma melodia em tempos diferentes). Ao jogar Pingue-pongue em Daqui, o Pau Brasil confirma a capacidade de dar unidade - e som característico do grupo - a repertório de origens, formas e latitudes distintas. O toque de Agora eu sei (2005) - torta marcha-rancho do compositor e maestro pernambucano Moacir Santos (1926 - 2006) - reforça a pluralidade da rota seguida pelo Pau Brasil em Daqui. Rota que aparece andar em círculos por todos os ricos rincões da música brasileira, mas que extrapola esse círculo a toda hora pela liberdade que pauta o som madeira de lei do Pau Brasil.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

'Caixote Pau Brasil' embala obra essencial de grupo que é 'madeira de lei'

Originado de um coletivo de instrumentistas aglutinados pelo pianista Nelson Ayres na virada dos anos 70 para os 80, o grupo paulista Pau Brasil - assim batizado em 1981 pelo baixista Rodolfo Stroeter, com alusão ao termo usado pelos modernistas na São Paulo (SP) de 1922 - pavimentou caminho coerente que o tornou referência sólida entre os admiradores da música instrumental brasileira ao longo de três décadas. Tal trajetória está condensada no Caixote Pau Brasil 1982/2012. Viabilizada graças aos patrocínios da Petrobrás e da Caixa Econômica Federal, a edição do Caixote Pau Brasil 1982/2012 embala a obra (quase) completa do grupo, formado também pelo violonista Paulo Bellinati, o saxofonista Roberto Sion e o baterista Azael Rodrigues. Além de oito dos nove álbuns oficiais da discografia do quinteto (o caixote não embala o recente Villa-Lobos superstar, disco de 2012), a coleção inclui o DVD Babel (1996), encartado no livro em que o jornalista Carlos Callado conta a história deste grupo que sempre driblou os clichês do jazz à brasileira com repertório madeira de lei e que conseguiu preservar sua solidez mesmo com as sucessivas mudanças na formação. À venda na Livraria Cultura por cerca de R$ 200, o Caixote Pau Brasil 1982/2012 reúne reedições remasterizadas - quase todas turbinadas com faixas-bônus - dos álbuns Pau Brasil (1983), Pindorama (1986), Cenas brasileiras (1987), Lá vem a tribo (1989), Metrópolis tropical (1991), Música viva (1993), Babel (1995) e '2005 (2005). Gravado para o selo Lira Paulistana a convite do produtor Wilson Souto Jr., o GordoPau Brasil (1983) destacou o arranjo de Nelson Ayres para Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso), exemplo da criação coletiva que pautou a obra do Pau Brasil. Com repertório essencialmente brasileiro que incluiu Alakãi, tema então inédito de Hermeto Pascoal (convidado de outra faixa do disco, Fogo no baile, baião de Nelson Ayres), Pindorama (1986) foi encaixotado com as faixas-bônus Caminho de casa (Nelson Ayres) e Estilingue (Paulo Bellinatti). Desdobramento do álbum anterior, Cenas brasileiras (1987) marcou a entrada no grupo do baterista e percussionista Nenê. O álbum volta ao catálogo com três faixas-bônus. Entre elas, Veranico de maio (Nelson Ayres), tema que tem feito parte dos atuais shows de Mônica Salmaso, cantora paulista ligada aos músicos do Pau Brasil. Gravado para o selo belga GHA, a convite do produtor e violonista Odair Assad, Lá vem a tribo (1989) foi disco marcado pela saída do pianista Nelson Ayres - membro seminal do Pau Brasil - e pela decisão do grupo de entrar no universo da música indígena. As faixas-bônus da reedição deste álbum de transição são Abertura (Nenê), Moda de viola (Rodolfo Stroeter e Paulo Bellinati) e Flor do sul, tema da lavra de Lelo Nazario, substituto de Ayres. Acrescido de seis faixas-bônus na presente reedição, Música viva (1993) foi o primeiro álbum ao vivo do Pau Brasil. Na sequência, o grupo lançou Babel (1995), CD gravado em Oslo, na Noruega. Foi o disco em que - como ressalta o jornalista Carlos Callado no texto escrito para o livro Caixote Pau Brasil 1982/2012 - a cantora e instrumentista Marluí Miranda (recrutada para ingressar no Pau Brasil) começou de fato a se ambientar mais no grupo. Por fim, '2005 - álbum gravado pela Biscoito Fino no ano que lhe dá título - promoveu revival da formação clássica do Pau Brasil, com Nelson Ayres reintegrado ao grupo. Enfim, o Caixote Pau Brasil 1982/2012 reúne CDs que são madeira de lei no mundo do som instrumental brasileiro.