Mauro Ferreira no G1

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domingo, 29 de setembro de 2013

Filme toca ao focar luta de Sosa contra opressão e o 'pássaro' da solidão

Resenha de documentário
Título: Mercedes Sosa - La voz de latinoamerica
Direção: Rodrigo H. Vila
Roteiro: Rodrigo H. Vila e Fabián Matus
Cotação: * * * * 1/2
Filme em cartaz no Festival do Rio 2013, no Rio de Janeiro (RJ)
Sessões em 2 de outubro (Estação Ipanema 1, às 13h10m e 19h30m) e 4 de outubro de 2013 (Estação Vivo Gávea, às 17h50m)

"A solidão é um pássaro grande e multicolorido que já não tem asas para voar", poetizou o compositor cubano Pablo Milanés na letra de música, La soledad, dedicada a Mercedes Sosa (9 de julho de 1935 - 4 de outubro de 2009). Numa das cenas mais comoventes do documentário Mercedes Sosa - La voz de latinoamerica, em cartaz no Festival do Rio três meses após ter estreado na Argentina, a cantora que deu voz à luta contra a opressão na América Latina se confessa solitária, às voltas com esse grande e indomável pássaro. "Minha voz conforta todo mundo, mas não a mim", sintetiza a mais emblemática intérprete argentina em fala lapidar reproduzida no filme dirigido por Rodrigo H Vila sob a produção de Fabián Matus, filho de Sosa e coautor do roteiro. É Matus quem conduz as entrevistas inseridas na fluente narrativa entre imagens raras de arquivo que flagram Sosa em todas as fases de sua vida. Contudo, qualquer eventual egolatria do filho da cantora é diluída na tela pela força da voz e da mensagem da música de Mercedes Sosa, falecida aos 74 anos. Mercedes Sosa - La voz de latinoamerica comove ao focar a luta contínua da cantora contra a  tirania dos governos ditatoriais que amordaçaram vários países da América Latina ao longo dos anos 60 e 70 - batalha que levou a cantora argentina a ser expulsa de sua pátria e a ser barrada em aeroporto do Brasil, em 1978 - e também contra os pássaros e demônios internos. O filme é informativo sem cair no didatismo. Bem encadeado, o roteiro mantém presa a atenção do espectador ao longo dos 93 minutos do filme. Talvez porque a história de vida de Mercedes dê mesmo um filme trabalhado na sensibilidade e na emoção. É tocante a cena em que, voltando à vida pública após ter enfrentado doença e depressão, Sosa assiste a um show de Pablo Milanés quando é intimada pelo amigo cubano a cantar da plateia. Ao soltar a voz em trecho de Años (Pablo Milanés e Luís Peña, 1980), diante do público prestes a cair no choro, Sosa recuperou o sentido de sua vida e renasceu artisticamente, levando adiante carreira que a juntou em palcos e estúdios com nomes tão díspares quanto o tenor Luciano Pavarotti (1935 - 2007), a cantora colombiana Shakira, o cantor e compositor inglês Sting e o rapper porto-riquenho René Pérez, com quem a artista fez sua última gravação, em 2009, para o álbum duplo Cantora. Trajetória luminosa e improvável para a menina pobre nascida e criada em Tucumán (província argentina) que precisava esperar os sábados para poder comer macarrão com manteiga - a refeição mais farta proporcionada pelos pais, incansáveis lutadores na labuta cotidiana. Mercedes Sosa - La voz de latinoamerica enfatiza o elo de Sosa com seus genitores, sobretudo com a mãe, esteio da família mesmo depois que a filha - projetada nos anos 60 com o movimento El nuevo cancioneiro - já estava consagrada em âmbito mundial, reconhecida como a voz que se levantou contra a opressão social e política. Grande voz de contralto, aliás, capaz de atingir regiões profundas da emoção de seu público."Mercedes era um símbolo da liberdade de todos nós", resume Chico Buarque, visto em cena com a cantora em número do programa Chico & Caetano, então comandado pelo cantor e compositor carioca na TV Globo com seu colega baiano Caetano Veloso. No take visto no filme, os anfitriões cantam trecho de Volver a los 17 (1966) - um dos clássicos do repertório combativo de Violeta Parra (1917 - 1967), compositora chilena que não chegou a conhecer pessoalmente Mercedes, mas que sempre esteve ideologicamente afinada com sua colega de país vizinho - em palco dividido com Milton Nascimento (um dos entrevistados), Gal Costa e a própria Mercedes. "Ouvir 'Gracias a la vida' foi a introdução de um novo mundo", revela o compositor norte-americano David Byrne em depoimento que cita outro clássico de Violeta Parra associado ao canto de Sosa e que reitera o alcance planetário da voz da intérprete argentina, que regressou à sua pátria em 1982 em show retratado no documentário com a ênfase necessária por toda sua forte simbologia de coragem e resistência. Enfim, Mercedes Sosa - La voz de latinoamerica é filme sensível, tocante, à altura do canto humanitário e valente de La Negra.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

'Deja la Vida Volar' é fiel registro póstumo do canto humanitário de Sosa

Resenha de CD
Título: Deja la Vida Volar - En Gira
Artista: Mercedes Sosa
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * * 1/2

A voz engajada de Mercedes Sosa (1935 - 2009) já não tinha todo o alcance de tempos idos quando a cantora argentina - símbolo perene da resistência dos povos da América Latina na luta contra ditaduras e outras formas de opressão - cruzou oceanos em sua última turnê mundial. Já debilitada, a intérprete se apresentava quase sempre sentada. Mas sua alma estava inteira em cena. E, por isso, há real beleza no CD Deja la Vida Volar - En Gira, registro ao vivo dessa derradeira turnê de Sosa. É a turnê que passou pelo Brasil em novembro de 2008, ano em que foram captados, em shows na Argentina e na Europa, os 17 números reunidos neste álbum póstumo que saiu em setembro de 2010 na terra natal da cantora e que chega ao Brasil neste início de 2011 em edição da Sony Music. É fato que o disco não capta toda a força da intérprete no palco (clique aqui para ler a resenha do show). Ainda assim, é testemunho fiel do canto resistente e humanitário da intérprete que propagou temas como Gracias a la Vida (Violeta Parra). "Amo cantar, amo tudo que canto", reitera Mercedes em cena ao fim de Piedra y Camino (Atahualpa Yupanqui), momentos antes de reviver o tema que batiza o disco, Deja la Vida Volar, da lavra politizada do chileno Víctor Jara, poeta e compositor assassinado pelo governo ditatorial de Augusto Pinochet (1915 - 2006) - como Sosa faz questão de lembrar em cena. O disco deixa transparecer o entusiasmo e a gana com que La Negra desfia repertório que inclui duas músicas inéditas em sua voz, Me Hace Bien (do uruguaio Jorge Drexler) e La Celedonia Batista (Teresa Parodi). Ao introduzir Como la Cigarra (María Elena Walsh), tema vertido por Silvia Machete para seu álbum Extravaganza (2010), Sosa incentiva o coro do público. "Essa é uma canção diretamente para o coração, como todas que canto", enfatiza a intérprete. O discurso soa coerente quando se percebe que é sobretudo com coração que Mercedes entoa Guitarra Dimelo Tú (Atahualpa Yupanqui) - faixa em que a voz da cantora soa especialmente pungente - e a brasileira Gente Humilde (Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque), entoada em espanhol e ambientada em clima bossa-novista. No fim, Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant) fecha o show e este disco que expõe a aguçada consciência social de Mercedes Sosa, cantora dotada de carga de espiritualidade tão grande que miniminza o fato de sua voz já não soar tão potente neste belo registro póstumo.