Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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sábado, 1 de março de 2014

Alzira E gravita em torno da poesia e dos sons de Itamar em nono álbum

Resenha de CD
Título: O que vim fazer aqui
Artista: Alzira E
Gravadora: Traquitana Discos
Cotação: * * * 1/2

Os traços circulares da capa do nono álbum de Alzira Espíndola, O que vim fazer aqui, se alinham com o espírito deste disco em que a cantora e compositora gravita em torno da poesia e dos sons da influente obra do compositor paulista Itamar Assumpção (1949 - 2003). Alzira é do Mato Grosso do Sul, mas, tal como sua irmã Tetê Espíndola, logo se conectou com ícones da Vanguarda Paulista, o movimento que renovou a música brasileira na década de 1980 sem sair de São Paulo (SP), cidade que abriga Alzira E já há alguns anos. Tanto que, no início da década de 1990, os caminhos musicais da artista e Itamar se cruzaram em trajetória intensa que rendeu a Alzira um álbum, AMME (Baratos Afins, 1992), produzido pelo Nego Dito. Duas músicas deste disco, Já sei (Itamar Assumpção, Alzira E e Alice Ruiz) e a poética Sei dos caminhos (Itamar Assumpção e Alzira Ruiz), são rebobinadas entre as onze composições de O que vim fazer aqui. Neste álbum gravado sem percussão e bateria, com músicos jovens como os guitarristas Cris Scabello e Gustavo Cabelo, a poesia de músicas como Mesmo que mal eu diga (Alzira E e Itamar Assumpção) e O que vim fazer aqui (Alzira E e Itamar Assumpção) salta aos ouvidos com mais força do que a voz da cantautora. Mas fica clara também - como ressalta o atento Dante Ozzetti no texto que apresenta o disco -  a forma bem peculiar como Alzira E cria as melodias e a rítmica de sua música a partir do violão ou do baixo. A propósito, o baixo de Marcelo Dworecki se insinua sinuoso em O que é que eu fiz de mal? (Alzira E e Itamar Assumpção) e também está na base da inédita Conversa mole, parceria de Alzira com Iara Rennó. Da safra de inéditas do CD O que vim fazer aqui, que inclui Chuva no deserto (Alzira E e Itamar Assumpção), o maior destaque é Norte (Alzira E e Itamar Assumpção), tema em que os violões e a viola evocam universo interiorano de tonalidade ruralista. Ecos do tempo em que Alzira E era Alzira Espíndola, artista que tocava com o cantor e compositor Almir Sater, seu conterrâneo de Mato Grosso do Sul. Cantora que em seu primeiro disco solo, Alzira Espíndola (3M, 1986), harmonizou músicas de Arrigo Barnabé e Renato Teixeira. Mas é o espírito inquieto de Itamar que anima O que vim fazer aqui. A disposição das vozes de Alzira e Peri Pane em Tristeza não (Itamar Assumpção e Alice Ruiz) ecoa as influências dos sons vanguardistas da geração 80 de Sampa, da qual o Nego Dito - perfilado em Itamar é (Alzira E e Itamar Assumpção) - foi um dos líderes com obra cujo fôlego parece infinito. A ponto de ter gerado mais um disco arejado como este álbum de Alzira E. Beleléu veio fazer coisa boa aqui.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Poética afiada de Arruda valoriza música de Alzira em 'Pedindo a Palavra'

Resenha de CD
Título: Pedindo a Palavra
Artista: Alzira E
Gravadora: Sem indicação
Cotação: * * * 1/2

Em seu oitavo álbum, Pedindo a Palavra, Alzira E repete a parceria com o poeta Arruda, cujos versos já deram o tom do último disco da cantora e compositora sul mato-grossense, Alzira E (2007). E o resultado, assim como no CD anterior, é bem interessante. Somada à sonoridade elegante urdida pelo produtor Du Moreira  a partir do diálogo de seu baixo com instrumentos de cordas, a poética afiada de Arruda valoriza a música de Alzira. São versos tão incisivos que nem sempre a música está à altura da poesia, sobretudo na segunda metade do disco, que reúne dez faixas gravadas entre agosto de 2009 e junho de 2010. "O tempo do mundo não cabe na gente / Sente / O tempo do mundo anda tão diferente / Mente", discorre Alzira E nos versos de Beijos Longos. Das canções, a quase aérea Se Eu Soubesse Como e a bela Se Parece com Você são os destaques do repertório inédito ao lado de Olhos de Chico Buarque ("Ela tem os olhos de Chico Buarque de Holanda / Ela nem / Saba ainda dessa samba").  Entre a faixa-título (Pedindo a Palavra, exemplo de faixa em que a música não alcança a força da poesia) e tema que evoca a arquitetura rítmica do regge (Aprovei-te), o álbum apresenta a canção Quasares e insere a voz de Arruda no poema À Parte, agregado à única composição assinada somente por Alzira E, Caos. No todo, Pedindo a Palavra reitera a elegância poética de Arruda no jogo das palavras e a coerência da obra fonográfica de Alzira E.