Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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domingo, 3 de abril de 2016

Canto preciso de Cida é sol do sentido que faz tudo vibrar no show Soledade

Resenha de show
Título: Soledade
Artista: Cida Moreira (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro do Sesc Santana (São Paulo, SP)
Data: 2 de abril de 2016
Cotação: * * * * *

Cida Moreira é dama dos palcos. É no calor da cena que tudo vibra na voz e na alma desta intérprete que sempre transitou no limiar entre a música e o teatro. Um dos grandes discos do ano passado, Soledade (Joia Moderna, 2015) tem fortalecido o pulso político no show que estreou em 30 de outubro de 2015 na mesma cidade de São Paulo (SP) para onde retornou neste primeiro fim de semana de abril de 2016 em duas apresentações no teatro do Sesc Santana. Nem todos os músicos do disco - como o acordeonista Mestrinho - estão na banda que acompanha Cida em cena, sob a direção musical do violonista Omar Campos. Mas tudo ganha mais sentido no palco iluminado pelo diretor Humberto Vieira, pelas projeções - que destacam a exibição do desconcertante clipe de O pulso (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Bellotto, 1989) enquanto Cida reanima esta música do repertório do grupo paulistano Titãs - e, sobretudo, pelo canto da intérprete. Tal como o homônimo disco que o inspirou, o show Soledade fala do Brasil sem amarras estéticas. A voz de Cida ecoa tanto a tristeza dos jecas que habitam os interiores do Brasil rural - que pulsa na modinha ancestral do modernista Mário de Andrade (1893 - 1945), Viola quebrada (1928), e no tema popular Moreninha (domínio público) - quanto as ironias de quem levantou a voz contra a opressão em solo urbano para se livrar das trevas de uma ditadura, destruída com o ácido corrosivo que pauta o rock A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero Albanese, 1985), joia do repertório do grupo Joelho de Porco reverberada por Cida em tons operísticos, apoteóticos. Na apresentação de 2 de abril de 2016, o pulso político de Soledade também foi tomado pela participação do convidado Thiago Pethit, cantor paulistano que vem fazendo conexões com Cida e que teve a balada Forasteiro (Thiago Pethit e Hélio Flanders, 2010) incluída no disco. Pethit estava ali sobretudo para destilar a melancolia de Forasteiro, número feito com Cida ao piano, mas foi carnavalizando a opressão - ao dividir com a anfitriã a interpretação da desbocada marcha Beija-me, amor (Arnaldo Baptista e Élcio Decário, 1972), lançada por Rita Lee em álbum solo que, a rigor, foi um disco d'Os Mutantes não creditado oficialmente ao grupo - que Pethit mais contribuiu para a cena de Cida, dando ao show caráter subversivo, marcando posição política e tomando partido das liberdades democráticas. A sós com o piano e/ou com a banda que incluía músicos como o baixista Izaías Amorim e o pianista Yuri Salvanini, Cida deu mais brilho no show a músicas que, no disco, pareceram mais pálidas, sobretudo Oitava cor (Luis Filipe Gama e Tiago Torres da Silva, 2015) e o Poema da Rosa (Jards Macalé e Augusto Boal, 1969, a partir de poema de Bertolt Brecht), que floresceu em todos os sentidos na apresentação de 2 de abril. Cantora de múltiplos tons, Cida sabe tanto soar solar e expansiva - como em Bom dia (Nana Caymmi e Gilberto Gil, 1967), número em que o palco se ilumina de forma real e metafórica - quanto soturna, como em Construção (Chico Buarque, 1971), reerguida em clima de tango em arranjo criado por Arthur de Faria. Ou ainda árida, como em Outra cena (Taiguara, 1976). A voz vai do grave aos agudos experimentados no tom operístico que banha A terceira margem do rio (Milton Nascimento e Caetano Veloso, 1990), momento em que a intérprete extrapola o repertório do disco Soledade, rebobinado em cena em ordem similar a do álbum. Afinal, Cida Moreira é a mais digna voz  e dama dos cabarés nativos, qualidade que lhe permite arriscar abordagem histriônica - livre para alterar tons e divisões - de Cajuína (Caetano Veloso, 1979), outra música ausente do disco. Nesses momentos, o piano é o que basta a esta saloon singer brasileira. Com canção de Fátima Guedes, Minha Nossa Senhora (1995), inserida de bônus no bis em feitio de oração,  o show Soledade atinge o ápice da cena com O pulso. Mas o número que poderia ser o fim excepcional do show acaba sendo o contraponto para o anticlímax esboçado com o arremate feito com a marcha carnavalesca As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934). Já é na coxia que Cida termina de cantar os versos cheios de esperança. Se o pulso ainda pulsa, fraquejado pelas contradições do Brasil que desconhece o Brasil, o coração não se cansa de amar um país que parece se encontrar em estado terminal, mas que sobrevive reanimado no canto politizado e poético da dama dos palcos. Como diz com emoção através dos versos de Preciso cantar (Arthur Nogueira e Dand M, 2013), bela canção de Arthur Nogueira interpretada na íntegra no show (como deveria ter sido cantada no disco...),  Cida Moreira se fere ao cantar. Mas ela precisa cantar. E o canto é preciso, é o sol do sentido que faz tudo vibrar no show Soledade, inclusive o pulso que ainda pulsa.

Cida inclui canção de Fátima Guedes no show 'Soledade' em feitio de oração

SÃO PAULO (SP) - Cida Moreira adicionou canção de Fátima Guedes ao roteiro de Soledade na volta do show à cena da cidade de São Paulo (SP) na noite de ontem, 2 de abril de 2016. Ao retornar ao palco do teatro do Sesc Santana para o bis, antes de repetir A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero Albanese, 1985), rock do repertório do grupo Joelho de Porco, a cantora paulistana entoou - em feitio de oração, à sós com o piano que a acompanha em cena desde o início da década de 1980 - Minha Nossa Senhora, música lançada pela cantora e compositora carioca Fátima Guedes no álbum Grande tempo (Velas, 1995). Ao pedir através da canção que a santa estenda a mão sobre o país, Cida ampliou o sentido político do roteiro baseado no repertório do álbum Soledade (Joia Moderna, 2015). Além das 14 músicas do disco, produzido sob a direção musical do violonista Omar Campos, a cantora deu voz a duas músicas de Caetano Veloso, Cajuína (Caetano Veloso, 1979) e A terceira margem do Rio (Milton Nascimento e Caetano Veloso, 1990). Eis o roteiro seguido em 2 de abril de 2016 por Cida Moreira - em foto de Mauro Ferreira - na bela apresentação do show Soledade no teatro do Sesc Santana:

1. Viola quebrada (Mário de Andrade, 1928)
2. Bom dia (Nana Caymmi e Gilberto Gil, 1967)
3. Moreninha (tema de domínio público)
4. Um gosto de sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972)
    - com citação de Trastevere (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1975)
5. Forasteiro (Thiago Pethit e Hélio Flanders, 2010) - com Thiago Pethit
6. Beija-me, amor (Arnaldo Baptista e Élcio Decário, 1972) - com Thiago Pethit
7. Poema (Alice Ruiz, 2015) 
8. Poema da Rosa (Jards Macalé e Augusto Boal, 1969, a partir de poema de Bertolt Brecht)
9. A terceira margem do rio (Milton Nascimento e Caetano Veloso, 1990)
10. Oitava cor (Luis Filipe Gama e Tiago Torres da Silva, 2015)
11. Cajuína (Caetano Veloso, 1979)
12. Preciso cantar (Arthur Nogueira e Dand M, 2013)
13. Feito no picolé no sol (Nico Nicolaiewski, 1985)
14. Outra cena (Taiguara, 1976)
15. Construção (Chico Buarque, 1971)
16. A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero
      Albanese, 1985)
17. O pulso (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Bellotto, 1989) - com exibição do clipe
18. As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934) 
Bis:
19. Minha Nossa Senhora (Fátima Guedes, 1995)
20. A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero
      Albanese, 1985)

Ao cantar Rita Lee em 'Soledade', Pethit infla o tom político do show de Cida

SÃO PAULO (SP) - Desbocada marcha composta por Arnaldo Baptista com Élcio Decário para festival de 1971, mas censurada e gravada com versos (um pouco) menos corrosivos no segundo álbum solo de Rita Lee, Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida (Polydor, 1972), Beija-me, amor ampliou o tom e o sentido político de Soledade, show de Cida Moreira, na apresentação que embeveceu o público que compareceu ao teatro do Sesc Santana, na cidade de São Paulo (SP), na noite de ontem, 2 de abril de 2016. Beija-me, amor foi o segundo dos dois números feitos por Cida com a adesão do cantor e compositor paulistano Thiago Pethit, convidado da apresentação de 2 de abril. Após os decididos versos "Não leremos jornais / Que noticiem crimes", Pethit cantou "Não participaremos desse golpe, viu?" em vez do verso original "Não participaremos dessas mortes vis", em analogia do atual momento político do Brasil com o estado ditatorial vivido pelo país no início da década de 1970. O caco político posto por Pethit - que entrara em cena para cantar a balada Forasteiro (Thiago Pethit e Hélio Flanders, 2010) - motivou a plateia a esboçar breve reação de euforia. Anunciado por Cida como "pop rock star", Pethit - visto com a cantora na foto de Mauro Ferreira - retribuiu o elogio em cena. "É uma grande honra, uma emoção ninahagen participar do show", brincou, dando outro sentido ao nome da cantora alemã Nina Hagen. Baseado no décimo álbum da cantora paulistana, Soledade (Joia Moderna, 2015), o show de Cida Moreira é feito com músicos da banda que toca no CD gravado sob a direção musical do violonista Omar Campos. Hélio Flanders é o convidado da apresentação de  Soledade  programada para as 18h de hoje, 3 de abril.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Joia Moderna arquiteta a edição de gravações de voz e piano de Cida Moreira

A gravadora Joia Moderna arquiteta edição de gravações ao vivo de voz e piano de Cida Moreira. O projeto foi intitulado Soledade solo, nome que alude ao segundo dos dois álbuns lançados pela cantora paulistana pelo selo do DJ Zé Pedro, Soledade (Joia Moderna, 2015). A (boa) ideia é lançar em disco números de shows de voz e piano - tocado pela própria Cida - feitos na Casa de Francisca, na cidade de São Paulo (SP). Se concretizada, a edição do disco será feita ainda neste ano de 2016.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

RETROSPECTIVA 2015 – 'Soledade' mostra que o pulso de Cida ainda pulsa...

RETROSPECTIVA 2015 – O ano marcou a volta aos estúdios de Cida Moreira, digníssima dama da canção brasileira. Em janeiro, a cantora anunciou a entrada no Art Brasil Studio de São Paulo (SP) para começar a gravar o primeiro álbum de estúdio após o consagrador A dama indigna (Joia Moderna, 2011). Finalizado ao longo do primeiro semestre do ano, o disco Soledade foi lançado em 31 de agosto pela gravadora Joia Moderna, precedido pelo single Forasteiro, precisa abordagem da angustiada balada de Thiago Pethit e Hélio Flanders, lançada em 2010 por Pethit. Entre músicas inteiras e composições alocadas no disco como vinhetas, Cida - em foto de Diego Ciarlariello - se mostrou dona de 16 canções lançadas entre 1928 e este ano de 2015. Soledade alçou altos voos artísticos quando a cantora ergueu no patamar sólidas paredes sonoras de Construção (Chico Buarque, 1971) com o demolidor arranjo de Arthur de Faria e quando Cida tomou O pulso (Arnaldo Antunes, Marcelo Frommer e Tony Bellotto, 1989) dos Titãs para realçar os versos do tema em arranjo nervoso e ruidoso, formatado com a eletrônica dos teclados de Ricardo Severo. Forasteiro e O pulso ganharam clipes que mantiveram elevado o status do ótimo disco, digno da grande dama.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Da modinha ao rock, (quase) tudo vibra no sentido dado por Cida a 'Soledade'

Resenha de CD
Título: Soledade
Artista: Cida Moreira
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * * * 1/2

Décimo álbum da digna discografia de Cida Moreira, Soledade é disco aguardado com grande expectativa pelo seleto público da cantora paulistana, dama dos cabarés mais marginais. Afinal, trata-se do primeiro álbum da intérprete desde A dama indigna (Joia Moderna, 2011), trabalho que revitalizou a carreira (e a agenda) da artista. Batizado com o nome de cidade encravada no sertão da Paraíba, Soledade transita por trilhas de um Brasil ilógico em rota que vai da modinha ao rock. "Havia manhãs e havia quintais naquele tempo", lembra Cida na abertura do disco, antes de começar a destilar a melancolia poética embutida em Viola quebrada (Maroca), tema de 1928 da lavra musical do poeta paulistano Mário de Andrade (1893 - 1945). Cida canta a modinha sertaneja com o toque virtuoso da viola de Paulo Freire. Sem a preocupação de ser moderna, a cantora se eterniza ao dar voz grave - já com menor extensão na escala musical, mas com alcance cada vez maior do sentido dos versos que interpreta - a canções que parece recolher no ar. Como Moreninha, tema de domínio público ambientado em clima de seresta ruralista no arranjo do violonista Omar Campos, diretor musical - em função dividida com a própria Cida - deste álbum concebido pela cantora com o jornalista Eduardo Magossi. Soledade tem tom predominantemente caipira nesse trilho inicial em que Cida também pega no ar de um Brasil de tempos idos uma esquecida canção assinada por Nana Caymmi com Gilberto Gil, Bom dia, de 1967. Com os toques da viola de Omar Campos e do acordeom de Mestrinho, Cida louva em tom interiorano o alvorecer e o trabalho. Mas sombras também podem encobrir o raiar do sol e a existência humana, como lembra Um gosto de sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972), música na qual a cantora embute trecho de outra parceria de Milton com Bastos, Trastevere (1975). A interpretação maturada de Um gosto de sol - com a exposição de todas as intenções dos versos de Bastos - exemplifica a grandeza do canto atual de Cida. "Que importa o sentido, se tudo vibra?", questiona a intérprete no poema-vinheta de Alice Ruiz inserido no disco após Forasteiro (Thiago Pethit e Hélio Flanders, 2010), a angustiada balada folk contemporânea do repertório do cantautor Thiago Pethit que ganha maior dimensão no tom preciso do canto de Cida, em arranjo no qual sobressai a guitarra de Faiska Borges. Detalhe: na gravação ao vivo de Forasteiro, lançada em clipe, ouve-se somente a voz e o piano de Cida, o que realça a precisão da interpretação da artista. Pois, quase sempre, basta um piano para essa saloon singer nativa mostrar todo o poder de sedução de seu canto lapidado nos palcos e salões. É somente com um piano - o de Lincoln Antonio - que Cida desfolha o Poema da rosa (Jards Macalé e Augusto Boal, 1970, a partir de poema de Bertolt Brecht), instante menos vibrante de Soledade porque os versos acalentadores do poema soam mais fortes do que a música que lhe foi posta. Em clima de cabaré, Oitava cor (Luis Felipe Gama e Tiago Torres da Silva) também brilha com menor intensidade no arco-íris de Soledade pelo mesmo motivo. Introduzida pela voz grave do cantor paraense Arthur Nogueira, a vinheta Preciso cantar (2013) reproduz trecho de tema composto por Nogueira com o poeta Dand M (não creditado no encarte, na primeira tiragem do disco), abrindo caminho para a trilha mais contemporânea e roqueira seguida por Soledade em sua rota final. Música levada pelo piano autossuficiente de Cida, Feito um picolé ao sol (Nico Nicolaiewski, 1985) reconduz a dama do cabaré e o disco à sua melhor forma, reconectando Cida ao viés marginal que pauta seu canto desde os anos 1970. No mesmo clima de cabaré, a dama afia os agudos da voz para retratar a cortante Outra cena (1976) exposta por Taiguara (1945 - 1996) há quase 40 anos para denunciar o lado podre do sertão e do Brasil. Na sequência, Soledade atinge ponto alto de vibração com o arranjo demolidor de Construção (Chico Buarque, 1971) criado por Arthur de Faria com cordas que evocam o passo passional do tango. Com pausas estratégicas, o canto de Cida evidencia a tensão que pauta os últimos momentos da personagem épica da canção de Chico. No mesmo patamar alto, A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero Albanese, 1985) - música do grupo paulista Joelho de Porco - ecoa o barulho do rock para destilar finas ironias sobre o país da barriga vazia e dos Carnavais dos hospitais. Com coro e guitarras (de Faiska Borges e Omar Campos), A última voz do Brasil repõe em cena a atriz, a dama indigna, com direito à breve citação do Hino Nacional Brasileiro (Francisco Manoel da Silva e Osório Duque Estrada, 1822) ao fim do arranjo. O Brasil está na U.T.I., mas o pulso ainda pulsa, como lembra Cida na arrasadora releitura de O pulso (Arnaldo Antunes, Marcelo Frommer e Tony Bellotto, 1989). Com sagaz citação de A queda (André Frateschi, 2014), o rock do grupo Titãs tem seus versos recitados por Cida em arranjo nervoso e ruidoso, formatado com a eletrônica dos teclados de Ricardo Severo. Mas a marcha As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934) - alocada como vinheta no fecho de Soledade - sinaliza que, mesmo com as misérias humanas e sociais, o Brasil ainda é capaz de fazer o seu Carnaval. Enfim, (quase) tudo vibra no sentido dado por Cida Moreira a Soledade, grande disco dessa dama capaz de pegar canções pelo ar para dar nova dimensão a elas com seu canto maturado, orgulhosamente marginal.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Com Cida, Arthur canta Antony em show que teve Karina e Lirinha no roteiro

SÃO PAULO (SP) - "São Paulo, para mim, é a Cida", conceituou sucintamente Arthur Nogueira - cantor e compositor de origem paraense, mas radicado na cidade de São Paulo (SP) - ao saudar a presença da cantora paulistana no palco do teatro do Sesc Belenzinho, em São Paulo (SP), na estreia nacional do show baseado no segundo álbum de Nogueira, Sem medo nem esperança (Joia Moderna, 2015). Uma das convidadas do belo show em que o artista traduziu em música suas vivências paulistanas, com sonoridade roqueira que embute elementos eletrônicos, Cida foi a responsável pelo momento mais sublime da apresentação realizada no início da noite de ontem, 23 de agosto de 2015. Sem ser anunciada, Cida entrou no palco, sentou ao piano e solou, com vocalises, Fawn (2002), tema instrumental da lavra do cantor e compositor norte-americano Tom Waits, criado em parceria com Kathleen Brennan. Na sequência, a cantora fez afinados duetos com Nogueira em For today I am a boy (2005) - música do repertório de Antony and the Johnsons, banda indie norte-americana liderada pelo cantor e compositor Antony Hegarty, autor da canção - e em Preciso cantar (Arthur Nogueira e Dand M, 2013), música que gravou com Arthur como vinheta de seu ainda inédito décimo álbum, Soledade (Joia Moderna, 2015). Além de Cida, Nogueira recebeu o cantor e compositor Lira, com quem cantou Pra fora da terra - parceria de Lirinha com Pupillo, lançada por Lira em seu segundo álbum solo, O labirinto e o desmantelo (Independente, 2015) - e Simbiose (Arthur Nogueira e Antonio Cícero, 2015). Neste número, Lira recitou o poema que, no disco, é ouvido na voz de Cícero. Fora de sua seara autoral, Nogueira ainda cantou Esperança cansa (2010), música do primeiro álbum da cantora e compositora baiana (de criação pernambucana) Karina Buhr, presente na plateia. Eis o roteiro seguido em 23 de agosto de 2015 por Arthur Nogueira - visto com Cida Moreira em foto de Diego Ciarlariello - no Sesc Belenzinho, em São Paulo (SP), na estreia nacional de ótimo show Sem medo nem esperança:

1. Fim do céu (Arthur Nogueira, Michel Seilman e Adonis, 2015)
2. Por um fio (Slackline) (Arthur Nogueira, 2015)
3. Sem medo nem esperança (Arthur Nogueira e Antonio Cícero, 2015)
4. Esperança cansa (Karina Buhr, 2010)
5. O que você quiser (Marcelo Segreto e Arthur Nogueira, 2015)
6. Fawn (Tom Waits e Kathleen Brennan, 2002) - Cida Moreira
7. For today I'm a boy (Antony Hegart, 2005) - Arthur Nogueira e Cida Moreira
8. Preciso cantar (Arthur Nogueira e Dand M) - Arthur Nogueira e Cida Moreira
9. Vaga (Marina Wisnik e Arthur Nogueira, 2015)
10. Antigo verão (Arthur Nogueira e Antonio Cícero, 2013)
11. Pra fora da terra (Lira e Pupillo, 2015) - Arthur Nogueira e Lira
12. Simbiose (Arthur Nogueira e Antonio Cícero, 2015) - Arthur Nogueira e Lira
13. Eye Shark (Arthur Nogueira e Letícia Novaes, 2015)
14. Truques (Arthur Nogueira e Antonio Cícero, 2015)
15. Gratuito (Arthur Nogueira e Renato Torres, 2009)
16. Volta (Arthur Nogueira e Omar Salomão, 2015)
Bis:
17. Sem medo nem esperança (Arthur Nogueira e Antonio Cícero, 2015)

O blog Notas Musicais está na cidade de São Paulo (SP) a convite da gravadora Joia Moderna

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Em casa, Cida acentua com precisão o clima melancólico da balada de Pethit

Resenha de single
Título: Forasteiro
Artista: Cida Moreira
Gravadora: Joia Moderna
Cotação: * * * * 1/2
♪ Single disponível a partir de hoje, 17 de agosto de 2015, no iTunes
♪ Clipe disponível a partir de hoje, 17 de agosto de 2015, no YouTube

Cida Moreira é a primeira dama do cabaré brasileiro. Jamais se sentirá uma estranha no ninho dos seres marginais, perdidos em sua rota existencial, como a personagem que conduz Forasteiro, angustiada balada da parceria de Thiago Pethit com Hélio Flanders. Por isso mesmo, a cantora paulistana acentua com precisão o tom melancólico da balada lançada por Pethit em seu primeiro álbum, Berlim, Texas (Independente, 2010), indo além da gravação de tom indie folk feita por Pethit com seu parceiro Flanders. Disponível no iTunes a partir de hoje, 17 de agosto de 2015, Forasteiro é o primeiro single do décimo álbum de Cida, Soledade, programado para chegar ao mercado fonográfico a partir de 1º de setembro de 2015. Na gravação do disco, Cida canta Forasteiro com banda. No clipe filmado com sensibilidade pelo diretor Murilo Alvesso na Casa de Francisca, point dos shows da cantora na cidade natal de São Paulo (SP), Forasteiro é ouvido somente em perfeito registro de voz e piano (o da própria Cida) - instrumento que normalmente basta para essa saloon singer nacional - entre takes da intérprete no camarim. Por mais que a voz de Cida somente atinja atualmente as regiões da maturidade, o alcance da interpretação é mais alto. Excelente primeira amostra do álbum SoledadeForasteiro alcança maior dimensão no canto já maturado de Cida Moreira. A intérprete está (literalmente) em casa ao cantar Pethit e Flanders.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Eis a capa e músicas de 'Soledade', álbum em que Cida canta Macalé e Titãs

Com capa criada por Humberto Vieira a partir de foto de Diego Ciarlariello, o décimo álbum da cantora paulistana Cida Moreira, Soledade, chega ao mercado fonográfico em agosto de 2015 em edição da gravadora Joia Moderna. Cida - cabe ressaltar - foi a cantora que inspirou o DJ Zé Pedro a abrir a Joia Moderna em 2011. No disco, que vai ser promovido com o clipe da música Forasteiro (Thiago Pethit e Hélio Flanders, 2010), Cida sintetiza sua trajetória musical em 15 faixas que aglutinam 16 músicas lançadas em disco em período que vai de 1928 a este ano de 2015. Eis, na ordem do CD que segue esta semana para a fábrica, as músicas reunidas pela artista em Soledade:

1. Viola quebrada (Mário de Andrade, 1928)
2. Bom dia (Nana Caymmi e Gilberto Gil, 1967)
3. Um gosto de sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972)
4. Moreninha (tema de domínio público)
5. Forasteiro (Thiago Pethit e Hélio Flanders, 2010)
6. Poema (Alice Ruiz, 2015) - vinheta
7. Poema da Rosa (Jards Macalé e Augusto Boal a partir de poema de Bertolt Brecht, 1969)
8. Oitava cor (Luis Filipe Gama e Tiago Torres da Silva, 2015)
9. Preciso cantar (Arthur Nogueira e Dand M, 2013) - vinheta
10. Feito um picolé no sol (Nico Nicolaiewski, 1985)
11. Outra cena (Taiguara, 1976)
12. Construção (Chico Buarque, 1971)
13. A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero Albanese, 1985)
14. O pulso (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Bellotto, 1989)
      - com citação de A queda (André Frateschi, 2014)

15. As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934) - vinheta

terça-feira, 5 de maio de 2015

Cida dá voz no álbum 'Soledade' a um hit sulista do gaúcho Nico Nicolaiewski

Música de autoria do cantor e compositor gaúcho Nico Nicolaiewsky (1957 - 2014), Feito um picolé no sol ganha gravação de Cida Moreira 30 anos após o registro fonográfico original feito pelo autor no LP coletivo Música popular gaúcha (RBS Discos, 1985). A cantora paulistana incluiu Feito um picolé no sol - hit na cena alternativa sulista que Cida já cantava com o cantor gaúcho Filipe Catto no show Eviscerados, ainda em turnê - no repertório de seu já finalizado CD Soledade, que tem lançamento previsto pela gravadora Joia Moderna para o segundo semestre deste ano de 2015.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cida finaliza álbum em que dá voz à primeira parceria de Pethit com Flanders

Cida Moreira está finalizando, em estúdio da cidade de São Paulo (SP), o álbum Soledade. No disco, que já entrou esta semana em fase de mixagem, a cantora paulistana dá voz a Forasteiro, primeira parceria de Thiago Pethit com Hélio Flanders, lançada por Pethit no seu álbum Berlim, Texas (Independente, 2010). Embora já gravado, o afro-samba Sinhá (Chico Buarque e João Bosco, 2011) saiu da seleção final do repertório do CD que sucede o cultuado A dama indigna (Joia Moderna, 2011).

sábado, 7 de março de 2015

Obra-prima recente de Chico e Bosco ganha voz de Cida no álbum 'Soledade'

Obra-prima recente do cancioneiro de Chico Buarque, Sinhá (2011) - a segunda parceria do compositor carioca com o mineiro João Bosco - ganha seu segundo registro fonográfico fora do círculo de seus autores. Três anos após a cantora paraense Leila Pinheiro ter cantado Sinhá no show da turnê inspirada pela 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira, em número perpetuado em CD e DVD editados em 2012, a cantora paulistana Cida Moreira aborda Sinhá em gravação feita para seu próximo álbum, Soledade, já em fase de finalização em São Paulo (SP). No disco de Cida, Sinhá se junta a um repertório que inclui Outra cena (Taiguara, 1976), A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero Albanese, 1985) e Oitava cor (Luis Felipe Gama e Tiago Torres da Silva,  2015). O álbum Soledade vai ser editado neste ano de 2015 - em princípio por via independente.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Cida irmana Joelho de Porco, Taiguara e Torres da Silva no álbum 'Soledade'

Música pouco ouvida do compositor uruguaio-brasileiro Taiguara (1945 - 1996), alocada ao fim do censurado álbum Imira, Tayra, Ipy, Taiguara (EMI-Odeon, 1976), Outra cena ganha a voz de Cida Moreira em seu primeiro CD de estúdio após o consagrador A dama indigna (Joia Moderna, 2011). Intitulado Soledade, o disco gravado de forma independente pela cantora paulista no Art Brasil Studio, em São Paulo (SP), traz também A última voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero Albanese, 1985), música do repertório do Joelho de Porco, defendida pelo grupo paulistano no Festival dos festivais (1985), exibido pela TV Globo há 30 anos. Outra música incluída no disco por Cida - vista ao piano na foto tirada em uma das sessões de gravação realizadas desde janeiro de 2015 - é Oitava cor, parceria inédita do compositor e pianista Luis Felipe Gama com o poeta português Tiago Torres da Silva.  O CD Soledade sai ao longo deste ano de 2015, em princípio por vias independentes.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cida Moreira começa a gravar primeiro álbum de estúdio pós-'Dama indigna'

A IMAGEM DO SOM - Postada hoje por Cida Moreira no Facebook, a foto acima flagra a cantora paulista com violonista Omar Campos no Art Brasil Studio, em São Paulo (SP). Cida começa a gravar seu primeiro disco de estúdio após o consagrador álbum A dama indigna (Joia Moderna, 2011). O repertório do CD inclui Bom dia (1967), a única parceria de Gilberto Gil com a ex-mulher Nana Caymmi.

domingo, 27 de julho de 2014

'Summertime', disco ora reeditado por Cida, irradia calor de voz ainda quente

Resenha de reedição de CD
Título: Summertime
Artista: Cida Moreira
Gravadora da edição original de 1981: Áudio Patrulha / Lira Paulistana
Gravadora da reedição de 2014: Edição independente da artista / Tratore
Cotação do álbum original de 1981: * * * * *
Cotação da reedição em CD de 2014: * * 1/2

 Em 2011, a carreira da cantora paulista Cida Moreira ganhou impulso com a edição do álbum A dama indigna (Joia Moderna, 2011). Uma nova geração descobriu, embevecido, o canto dessa intérprete digna de representar no Brasil o gênero de cantoras conhecidas nos Estados Unidos e na Europa como saloon singers. Cida - até por ser também atriz - personifica com perfeição a cantora de cabaré. Um piano é o que normalmente lhe basta para pôr em ação sua voz de tons operísticos e sua emoção. O sucesso do show e disco A dama indigna revigorou a agenda de shows da artista, atualmente dividida em vários espetáculos. Um deles está calcado em seu primeiro álbum, Summertime, lançado originalmente em 1981 em edição viabilizada por parceria da Áudio Patrulha com a Lira Paulistana. Em Summertime, o disco ora reeditado por Cida, estão a origem e a base d'A dama indigna. O repertório pode ser diverso, mas a atmosfera e as intenções são as mesmas. O que torna mais do que oportuna em 2014 a primeira reedição em CD deste disco gravado ao vivo em apresentação do show Summertime captada em 30 de agosto de 1980 no Teatro Lira Paulistana. Infelizmente, o som da reedição não está à altura da qualidade do álbum. Além de dar a impressão de ter sido extraído de vinil, o som do disco chega ao formato digital sem ter passado por processo de remasterização. O fato de ser um álbum de voz e piano ameniza a desatenção na questão técnica, evidenciado pelo fato de a música Geni e o zepelim (Chico Buarque, 1978) ser repetida nas faixas oito e nove, levando o CD a ter 15 faixas em vez das 14 do LP original. Para colecionadores de disco, o apuro da esperada reedição em CD de Summertime - por ora vendida por Cida somente em shows - reside mais no encarte, que traz breve texto da artista (..."Summertime, o verão que se tornou eterno... Um desejo, um desabafo, uma alma exposta... Assim foi", diz um trecho do texto) e que reproduz as letras das 13 músicas do show dirigido e roteirizado por José Possi Neto. Algumas - Gota de sangue (Ângela RoRo, 1979), Summertime (George Gerswin e DuBose Heyward, 1935) e a já mencionada Geni e o zepelim - permaneceram recorrentes no repertório da cantora. Outras se dissociaram da voz da intérprete ao longo dos decorridos 33 anos - casos de She's leaving home (John Lennon e Paul McCartney, 1967) - cuja abordagem exemplifica o alcance da voz de Cida na época - e de Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971). Mas o fato é que o tempo correu a favor de Cida, que na época de Summertime assinava o sobrenome Moreira com y. Se a voz perdeu naturalmente alguma potência, as interpretações se depuraram com o decorrer dos anos. Por ter sido desde sempre intérprete hábil na exposição dos textos (e subtextos) das canções, Cida oferece em Summertime abordagens sedutoras de standards da música norte-americana como Good morning heartache (Dan Fischer, Ervin Drake e Irene Higginbothan, 1946), Mercedez Benz (Janis Joplin, Michael McClure e Bob Neuwirth, 1970) - a música que mais parece ambientada em clima de cabaré - e My man (Maurice Yvain e Channing Pollock, 1928). Mas atualmente a voz da dama é mais precisa, expondo o que chamam de maturidade. Summertime, o álbum, foi realmente o início de verão de noites quentes que ainda irradiam o calor da voz da (talentosa) artista, digníssima dama da canção e dos cabarés.

sábado, 19 de julho de 2014

Cida anuncia álbum em que canta o Brasil através de Chico, Gil, Titãs e Villa

Cida Moreira capta recursos - através do Reverbe, plataforma de financiamento coletivo - para a gravação de CD idealizado pela artista paulista com o jornalista Eduardo Magossi. A ideia é produzir um disco com canções brasileiras de cunho sócio-político. O repertório prevê músicas de nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil, Heitor Villa-Lobos (1887-1959), Itamar Assumpção (1949-2003), Jards Macalé, Taiguara (1945-1996) e Titãs. É preciso captar R$ 50 mil até 15 de setembro de 2014. Em 2012, a cantora e pianista chegou a arquitetar disco com músicas de compositores identificados com a cena pop indie - nomes como Marcelo Camelo e Romulo Fróes chegaram a ser cogitados para ter músicas de autoria deles no repertório - mas o projeto ficou no plano das ideias.

domingo, 13 de julho de 2014

Nus com a música, Catto e Cida irradiam intensa luz na cena de 'Eviscerados'

Resenha de show
Título: Eviscerados
Artistas: Cida Moreira e Filipe Catto (em foto de Lauro Lisboa Garcia)
Local: Teatro do Sesc Pompéia (São Paulo, SP)
Data: 11 de junho de 2014
Cotação: * * * * 1/2

 "Uma intensa luz / Que não se vê / Passa pela voz / Ao se calar", poetizam Cida Moreira e Filipe Catto através dos versos em português escritos por Caetano Veloso para Come tu mi vuoi (Nino Rota e T. Amurri), tema do filme La dolce vita (Itália, 1960) que - na versão lançada por Caetano em disco de 1999 - virou Que não se vê. Música que abriu em 11 de junho de 2014 Eviscerados, show que junta Catto e Cida no mesmo palco e no mesmo pulso firme, Que não se vê traduz a atmosfera do espetáculo dirigido por Humberto Vieira e Ricky Scaff. Há uma luz intensa, invisível, que passa pelas vozes do intérprete gaúcho e da cantora paulista neste espetáculo que flagra os artistas nus com sua música, irradiando emoção, musicalidade e poesia. Sem amarras, sem concessões, sem exageros. Apresentado eventualmente pelo Brasil desde janeiro de 2013, Eviscerados é ponto de luz nas trajetórias dos intérpretes, sobretudo na carreira de Catto, cantor que às vezes peca por excessos e - mais raramente - pela falta de rigor na seleção do repertório abordado por sua privilegiada voz em CDs e DVDs. Em Eviscerados, tudo está na medida certa, na mais perfeita harmonia. Não se percebe a tentativa de sublinhar uma intensidade e uma dramaticidade já entranhadas na gênese da maior parte do cancioneiro ouvido no show. Lançado entre 1935 e este ano de 2014, tal repertório é repartido irmãmente por Catto e Cida em cena. Catto se divide entre o canto e o toque meramente eficaz de seu violão. Digníssima dama da canção de cabaré, Cida evidencia o toque preciso de seu piano ao dar voz operística a canções fatais como Rasguei o teu retrato (Cândido das Neves), lançada no registro de tenor do cantor carioca Vicente Celestino (1894 - 1968) em gravação de 1935 - e não de 1915, como Cida credita inadvertidamente em cena. A maioria dos 20 números do show é feita em dueto. Ambos os cantores permanecem no palco o tempo inteiro, realçando a irmandade que rege o recital. Por serem intérpretes de veia teatral, Catto e Cida entendem o (sub)texto contido em cada canção e se afinam - o que dá ao show unidade surpreendente diante da heterogeneidade de roteiro que vai de balada do repertório dos Rolling Stones, Angie (Mick Jagger e Keith Richards, 1973), a temas do folclore brasileiro como Cantiga (Caicó) (em adaptação de Heitor Villa-Lobos, Milton Nascimento e Teca Calazans, 1980) e Cuitelinho (em adaptação de Antônio Xandó e Paulo Vanzolini), amalgamados em medley que culmina com o pioneiro samba-canção Linda flor (Ai, Ioiô) (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto, 1929). Momento sublime é This is the girl (Patti Smith, Tony Shanaban e Stewart Lernan, 2012), música composta e gravada pela poeta e cantora norte-americana Patti Smith em tributo à eviscerada Amy Winehouse (1983 - 2011), cantora inglesa que tem seu hit Back to black (Amy Winehouse e Mark Ronson, 2006) revivido no bis. Cantados em uníssono, números como This is the girl e Chelsea Hotel #2 (Leonard Cohen, 1974) exemplificam o casamento harmonioso das vozes de Catto e Cida. A afinidade de timbres ressalta a irmandade musical das almas. Diante de tal harmonia, o público se derrete feito picolé no sol. Canção que em 1995 se tornou hit underground do cantor e compositor gaúcho Nico Nicolaiewsky (1957 - 2014), morto recentemente, Feito picolé no sol é uma das joias lapidadas por Catto e Cida com o brilho das luzes intensas, invisíveis, que passam por suas vozes. Sucesso da cantora costa-riquenha (de vivência mexicana) Chavela Vargas (1919 - 2012), Soledad (Enrique Fabregat Jodar, 1973) expõe as vísceras de amor desfeito na voz e no violão de Catto. Tudo se transforma, mas não muda o amor, reitera Cida ao solar Todo cambia (Enrique Fabregat Jodar, 1973), canção hermana propagada na voz consciente da cantora argentina Mercedes Sosa (1935 - 2009). Todo cambia é ponto especialmente luminoso do roteiro, assim como Gota de sangue (1979), tema que lateja dores de amores de sua sensível compositora, Ângela Ro Ro, artista do time dos eviscerados brasileiros. Já Cicatriz (Jorge Du Peixe, Dengue, Lúcio Maia e Pupillo, 2014) - novidade do roteiro desse show que já circula há um ano e meio - é música do disco mais recente e mais pop da Nação Zumbi que tem ressaltada sua sólida arquitetura melódica no registro de Catto. Solo de Cida, O silêncio de Frida (João Leopoldo, 2014) é o único ponto de luz fraca em Eviscerados. A música versa de forma óbvia e simplista, sem poesia, sobre dores da pintora mexicana Frida Khalo (1907 - 1954). Contudo, o tema é mero detalhe em show que termina de forma magistral com Sinal fechado (Paulinho da Viola, 1969), música que soa mais atual do que quando foi lançada há 45 anos. Nus com suas músicas, Cida Moreira e Filipe Catto estão vestidos em Eviscerados com a luz que não se vê,  mas que brilha (forte) na cena que não se cala, irradiando poesia e emoções reais.

Catto e Cida cutucam cicatrizes de Amy, Nação e Ro Ro em 'Eviscerados'

São Paulo (SP) - Música escolhida para promover o álbum de inéditas lançado pela Nação Zumbi em maio de 2014, Cicatriz (Jorge Du Peixe, Dengue, Lúcio Maia e Pupillo) ganhou a voz de Filipe Catto. Canção solada pelo artista gaúcho, Cicatriz foi novidade do roteiro poliglota de Eviscerados na volta deste sensível show feito por Catto com a cantora e pianista paulista Cida Moreira sob a direção de Humberto Vieira e Ricky Scaff. No roteiro de Eviscerados, show que estreou em São Paulo (SP) em janeiro de 2013 e que voltou à cena em 10 e 11 de junho de 2014 em apresentações feitas no teatro do paulistano Sesc Pompéia, Catto e Cida juntam vozes, forças e almas para cutucar cicatrizes e feridas expostas em músicas de compositores como Amy Winehouse (1983 - 2011) (Back to black, 2006), Ângela Ro Ro (Gota de sangue, 1979), Herivelto Martins (1912 - 1992) (Atiraste uma pedra, 1958) e Patti Smith (This is the girl, 2012) em intenso e poético repertório que cobre período vai de 1935 a este ano de 2014. Eis o roteiro seguido por Cida Moreira e Filipe Catto - vistos em foto cedida por Lauro Lisboa Garcia - na apresentação que lotou o teatro do Sesc Pompéia na noite de 11 de junho de 2014:

1. Que não se vê (Come tu mi vuoi) 
    (Nino Rota e T. Amurri, 1960, em versão em português de Caetano Veloso, 1999)
2. Angie (Mick Jagger e Keith Richards, 1973)
3. Atiraste uma pedra (Herivelto Martins e David Nasser, 1958)
4. Rasguei o teu retrato (Cândido das Neves, 1935)
5. This is the girl (Patti Smith, Tony Shanaban e Stewart Lernan, 2012)
6. Feito um picolé no sol (Nico Nicolaiewsky, 1995)
7. Soledad (Enrique Fabregat Jodar, 1973)
8. Todo cambia (Julio Numhauser, 1982)
9. Querido diário (Chico Buarque, 2011)
10. Cantiga (Caicó) 
     (Heitor Villa-Lobos, Milton Nascimento e Teca Calazans sobre tema do folclore brasileiro, 1980) /
11. Cuitelinho (tema do folclore brasileiro adaptado por Antônio Xandó e Paulo Vanzolini) /
12. Linda flor (Ai, Ioiô) (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto, 1929)
13. Saga (Filipe Catto, 2009)
14. Gota de sangue (Ângela Ro Ro, 1979)
15. Cicatriz (Jorge Du Peixe, Dengue, Lúcio Maia e Pupillo, 2014)
16. O silêncio de Frida (João Leopoldo, 2014)
17. Chelsea Hotel # 2 (Leonard Cohen, 1974) /
18. Take this waltz (Leonard Cohen sobre poema de Federico García Lorca, 1986)
19. Sinal fechado (Paulinho da Viola, 1969)
Bis:
20. Back to black (Amy Winehouse e Mark Ronson, 2006)
21. Summertime (George Gershing e DuBose Heyward, 1935)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Cida reedita 'Summertime' e tem disco sobre Chico relançado via Kuarup

Dois discos do tempo em que Cida Moreira assinava seu sobrenome com y voltam ao catálogo quase simultaneamente e dão início ao relançamento da obra completa da cantora paulista, que vive momento de grande expressão artística, com vários shows se alternando em cena. Raríssimo primeiro álbum de Cida, Summertime (Áudio Patrulha / Lira Paulistana, 1981) ganha enfim sua primeira edição em CD, projeto anunciado (e cancelado por razão de ordem pessoal) pela gravadora Joia Moderna em 2012. Produzida pela artista de forma independente, a edição em CD de Summertime vai para a fábrica ainda neste mês de novembro de 2013, devendo chegar efetivamente às lojas no início de 2014. Já o CD Cida Moreyra canta Chico Buarque - lançado originalmente em 1993  pela Kuarup, gravadora recentemente reativada - está sendo reposto em catálogo neste mesmo mês de novembro em edição produzida e distribuída pela própria Kuarup 20 anos após a edição original do disco que resultou primoroso e que encantou o próprio Chico Buarque. "(...) Mais uma vez, Cida me surpreendeu pela inteligência e pela sensibilidade de suas interpretações. É um disco que escuto ainda hoje com muito gosto", avalizou o compositor carioca, em depoimento ao escritor paulistano Thiago Sogayar Bechara, autor da biográfia da intérprete, Cida Moreira - A dona das canções (2012). A partir dos relançamentos destes dois discos, a ideia da cantora é a reaver progressivamente as masters de seus outros discos para bancar as reedições destes álbuns de maneira sempre independente.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Cida dá show no Rio ao desvendar 'universo estranho' de Brecht e Weill

Resenha de show
Título: Aos que estão por vir - Cida Moreira canta Bertolt Brecht e Kurt Weill
Artista: Cida Moreira (em foto de Rodrigo Amaral)
Local: Teatro Sesc-Ginástico (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 12 de setembro de 2013
Cotação: * * * *

Dois dias após ter feito a travessia Paris - Rio de Janeiro no show Da fenêtre vê-se o Redentor, atração do Instituto Moreira Salles na noite de 10 de setembro de 2013, Cida Moreira se ambientou num imaginário cabaré alemão para dar voz à obra criada pelos compositores alemães Kurt Weill (1900 - 1950) e Bertolt Brecht (1896 - 1956) para os palcos. Atriz e cantora, a intérprete paulista esteve em casa ao apresentar na tarde desta quinta-feira, 12 de setembro, o show Aos que estão por vir, fechando sua temporada no Rio de Janeiro (RJ) com a apresentação única deste espetáculo centrado nas canções teatralizadas de Brecht e Weill. A sós e à vontade com seu piano no palco do teatro Sesc-Ginástico, Cida reiterou sua intimidade com o "universo estranho" - o termo foi usado pela própria artista em cena ao falar das músicas - do cancioneiro dos compositores de temas como Die moritat von mackie messer (Bertolt Brecht e Kurt Weill, 1928). São baladas épicas em que, à parte as estranhezas poéticas das letras, salta aos ouvidos a beleza de melodias como a de Canção de Salomão (Salomon Song) (Bertolt Brecht e Kurt Weill, 1928 - em versão em português de Luiz Galizia). Além de cantar essas baladas com sua voz de timbre operístico, Cida contextualizou a origem das músicas do roteiro com conhecimento de causa - adquirido já em 1977 quando integrou o grupo paulista de teatro Ornitorrinco, se aprofundando no mundo de Brecht e Cia. - sem jamais exagerar no didatismo. Apresentado eventualmente pela artista desde 2006, o show Aos que estão por vir tem seu título extraído de texto de Brecht, lido em cena por Cida na tradução do poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886 - 1968). Parceiro de Brecht em músicas feitas para teatro, Kurt Weill aparece no roteiro também através de conexões com outros compositores. No meio do show, Cida canta Speak low (Kurt Weill e Ogden Nash, 1943) - em interpretação sedutora, repetida no bis - e My ship (Kurt Weill e Ira Gershwin, 1941), mas logo retorna às belas estranhezas do cancioneiro de Brecht e Weill, imprimindo registro histriônico a Alabama song (Bertolt Brecht e Kurt Weill, 1927) e dando tom raivoso à Balada sobre a inutilidade do esforço humano (Bertolt Brecht e Kurt Weill, anos 1920), tema que funcionou como recado espirituoso para a parcela desatenta do público que, frustrado na expectativa de ver show digestivo na hora do almoço, conversou e deixou que celulares tocassem ao longo da refinada apresentação. Contudo, a voz de Cida soou mais forte nos tons altos da Benares song (Bertolt Brecht e Kurt Weill, 1930), abafando tensões e desatenções. No fim, após contextualizada lembrança de Geni e o zepelim (Chico Buarque, 1977/78), Youkali-tango (Kurt Weil e Roger Fernay, 1934) reiterou toda a beleza e estranheza que há no mundo musical de um cabaré - gênero do qual Cida Moreira é a mais representativa cantora brasileira.