Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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sábado, 24 de janeiro de 2015

Erasmo põe músicas de Belchior e Gil no roteiro de show gravado em SP

A IMAGEM DO SOM - A foto acima, tirada pelo jornalista Sergio Martins, mostra Erasmo Carlos ontem à noite no palco da casa Tom Jazz, em São Paulo (SP), no primeiro dos dias de gravação ao vivo do show Meus lados B. Diante de plateia que incluía o guitarrista Luiz Carlini e Lucia Turnbull, ícones do rock dos anos 1970, o cantor e compositor carioca deu voz a músicas menos badaladas de sua discografia. No roteiro essencialmente autoral, Erasmo abriu brecha para música do compositor cearense Belchior, Paralelas, lançada em 1975 na voz da cantora Vanusa e regravada pelo Tremendão no ano seguinte, no álbum Banda dos Contentes (Philips, 1976), de cujo repertório do cantor também extraiu canção de Gilberto Gil, Queremos saber. Músicas da fase do período 1970-1972 dominaram o repertório. A gravação do show vai dar origem a DVD a ser lançado pela gravadora do Tremendão, a Coqueiro Verde Records, neste ano de 2015. Eis o roteiro seguido por Erasmo Carlos em 23 de janeiro de 2015 na gravação do show Meus lados B:

1. Gente aberta (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1971)
2. Amar pra viver ou viver de amor (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1982)
3. A carta (Benil Santos e Raul Sampaio, 1966)
4. O homem da motocicleta (Motorcycle man) (Floyd Robinson em versão de Erasmo Carlos, 1966)
5. Estou dez anos atrasado (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1970)
6. Vou ficar nu para chamar sua atenção (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1969)
7. Dois animais na selva suja da rua (Taiguara, 1971)
8. É preciso dar um jeito, meu amigo (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1971)
9. Maria Joana (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1971)
10. De noite na cama (Caetano Veloso, 1971)
11. Cachaça mecânica (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1973)
12. O comilão (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1973)
13. Mané João (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1972)
14. Paralelas (Belchior, 1975)
15. Abra seus olhos (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1986)
16. Grilos (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1972)
17. Meu mar (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1972)
18. Queremos saber (Gilberto Gil, 1976)
19. Análise descontraída (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1976)
20. Sementes do amanhã (Gonzaguinha, 1984)
21. Geração do meio (Narinha e Erasmo Carlos, 1982)
22. 1990 - Projeto Salva Terra (Erasmo Carlos e Roberto Carlos, 1974)

domingo, 26 de outubro de 2014

Ana grava show '#AC' em São Paulo com a música de Belchior no roteiro

A foto da Ag. News flagra Ana Carolina no palco do Citibank Hall de São Paulo (SP) na noite de ontem, 25 de outubro de 2014, na gravação ao vivo do show #AC. Dirigido por Monique Gardenberg, o show foi registrado para edição de CD ao vivo, DVD e blu-ray. Entre músicas de autoria da cantora e compositora mineira, o roteiro inclui as abordagens de Coração selvagem (Belchior, 1977) - o grande (merecido) sucesso do show - e de Fire (Bruce Springsteen, 1978).

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Fagner dá voz a Belchior e Jaime Alem em seu álbum 'Pássaros urbanos'

Lançado nesta última semana de maio de 2014, pela gravadora Sony Music, o 37º álbum do cantor e compositor cearense Raimundo Fagner, Pássaros urbanos, expõe na capa ilustração do compositor e poeta cearense Fausto Nilo, parceiro de seu conterrâneo nas inéditas canções Balada fingida e Versos ardentes. Embora predominantemente inédito, o repertório do disco - produzido por Michael Sullivan - inclui regravações de Doce viola (Jaime Alem, 2009), No Ceará é assim (Carlos Barroso, 1942) e Paralelas (Belchior, 1976). A convite de Fagner, o editor de Notas Musicais assina o texto de apresentação do álbum. Eis o release de Pássaros Urbanos:

O voo de Fagner por amores e cidades que nunca terminam

Cantor lança seu 37º álbum, Pássaros urbanos, produzido por Michael Sullivan

“Você sabe de onde eu vim”. É expressivo que esse seja o primeiro verso ouvido por quem começar a audição do 37º álbum de Fagner, Pássaros urbanos, pela primeira de suas onze músicas. Sim, o vasto e fiel público do artista sabe de onde veio o cantor, compositor e músico cearense Raimundo Fagner Cândido Lopes. E vai reconhecê-lo de imediato neste primeiro disco de Fagner em cinco anos. Produzido por Michael Sullivan e lançado pela Sony Music, gravadora que guarda em seu acervo a maior parte da discografia do artista, o CD Pássaros urbanos sintetiza quatro décadas de uma das carreiras mais bem-sucedidas da história da música brasileira.

O disco versa sobre amores urbanos com sons contemporâneos em série de canções candidatas a se tornar mais um hit deste artista projetado nacionalmente em 1972 quando ninguém menos do que Elis Regina (1945 – 1982) avalizou o então iniciante compositor ao gravar Mucuripe, parceria de Fagner com seu conterrâneo Belchior, que reaparece em Pássaros urbanos com a regravação de sua canção Paralelas (1975). Pegando o fio da meada, Paralelas costura o linho urbano de um disco que também dirige olhar afetivo para o sertão e para toda a Nação Nordestina sem sair de seu tom cosmopolita. Link coerente com a trajetória musical de um artista que, desde o início, se destacou por reprocessar os sons do Nordeste com uma linguagem pop universal que nunca escondeu influências dos Beatles e da Jovem Guarda.

Disco de tom predominantemente romântico, Pássaros urbanos alinha oito músicas inéditas e três regravações em repertório que vem sendo alinhavado por Fagner desde 2011. Uma das inéditas, Arranha-céu, já é do conhecimento do público, pois deu o pontapé inicial na promoção do álbum em abril. Arranha-céu é parceria do produtor do disco, Michael Sullivan, com o poeta cearense Fausto Nilo. Para quem não liga o nome à música, Sullivan é o autor da melodia de Deslizes (1988), um dos maiores hits da carreira de Fagner. O refrão pegajoso de Arranha-céu reitera que Sullivan conhece os caminhos que levam uma canção ao gosto popular.

Já Fausto Nilo é o amigo e conterrâneo que vem construindo com Fagner uma das parcerias mais sólidas da MPB. Nome recorrente nos créditos das músicas dos álbuns de Fagner desde o segundo álbum do cantor, Ave noturna (1975), Nilo alça voos poéticos em Pássaros urbanos. São dele os versos de quatro das oito inéditas do disco. Além de assinar Arranha-céu com Sullivan, Nilo é o autor dos versos da balada que dá título ao álbum - Pássaros urbanos, canção cuja melodia é de Cristiano Pinho, violonista e guitarrista que vem integrando a banda de Fagner nos últimos anos – e é o parceiro de Fagner em duas canções, Versos ardentes e Balada fingida, ambas com cacife para se tornar clássicos instantâneos da dupla.

Com melodia cativante construída por Fagner em total sintonia com os versos de Nilo, Balada fingida derrama poesia ao falar do fim de um amor. “A cidade não termina”, conclui o poeta no verso que encerra a canção. E que também fecha esse disco que entra na ciranda das paixões urbanas, embora Versos ardentes tenha um clima rural, quase sertanejo, pontuado pela gaita de Stanley Netto, instrumento que sobressai no arranjo urdido pelos músicos do grupo carioca Yahoo (o produtor Michael Sullivan assina os arranjos de oito das onze músicas, dividindo a função com Junior Amaral e Maurício Barbosa).

Pássaros urbanos abre bela janela para o Brasil rural em Doce viola, obra-prima do cancioneiro autoral do violonista e maestro Jaime Alem. Embora a música já seja conhecida pelo séquito de fãs da cantora Maria Bethânia, que a cantou em disco e show de 2009, Doce viola vai soar inédita para o imenso público de Fagner. A viola tocada por Jaime Alem na faixa ajudar a criar o clima ideal desse tema que arrasta o coração nordestino de Fagner para o sertão.

Em terra urbana, a canção que abre o disco – Se o amor vier, a do verso inicial “Você sabe de onde eu vim” – reconecta Fagner a um dos compositores mais relevantes de sua obra fonográfica, Clodo Ferreira, nome bastante presente na discografia do artista nos anos 1970 (ele é coautor de Revelação, grande sucesso de Fagner em 1978). Parceria de Fagner com Clodo, Se o amor vier explicita – no toque do violão de nylon tocado pelo próprio Fagner - o tom contemporâneo do CD, reiterado por Tanto faz, balada forrada com teclados e assinada por Michael Sullivan com Anayle Lima.

A propósito: a já citada Paralelas é uma regravação que faz todo o sentido no disco por ser uma das mais perfeitas traduções das urgências urbanas. A música molda retrato poético do homem cosmopolita, imprensado entre o amor e as conquistas materiais, a 100 por hora – o que dá sentido também ao fato de Fagner ter dado voz à bela canção em um andamento ligeiramente mais acelerado do que as gravações anteriores do standard de Belchior.

De volta à safra de inéditas, duas músicas de Pássaros urbanos são parcerias de Fagner com o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro – artista com o qual Fagner uniu vozes e músicas em álbum lançado em dupla, em 2003, que se tornou um dos mais cultuados das discografias de ambos os artistas. Uma das duas novas músicas da dupla, Toda luz tem arranjo pulsante que dialoga de forma inteligente com o universo da canção sentimental de tonalidade mais popular. A música poderia ser gravada pelo cantor pernambucano Reginaldo Rossi (1941 – 2013). E isso é um elogio.

Com Baleiro, Fagner assina e canta o Samba nordestino. A letra é uma espécie de Festa de arromba da Nação Nordestina, enfileirando nos versos ícones musicais dessa nação musical – Dominguinhos, Fausto Nilo, Gordurinha, Jackson do Pandeiro, Lauro Maia, Luiz Gonzaga, Oswaldinho do Acordeom e Severino Araújo – para propagar o suingue nordestino do samba feito com pandeiro e zabumba. E o sentido de samba aqui é mais abrangente, pois, no Nordeste, samba também sempre foi sinônimo de festa popular.

E, como a música desconhece fronteiras, tudo parece fazer novamente todo o sentido quando Fagner regrava No Ceará é assim (Carlos Barroso) – sucesso lançado em 1942 pelo grupo carioca Quatro Azes e um Coringa – em clima de gafieira, com um arranjo de samba pop orquestrado pelo maestro Lincoln Olivetti que faz sobressair os metais. Raimundo Fagner Cândido Lopes pode se dar a esse luxo porque, mesmo dando voz a canções de tom universal como muitas ouvidas em Pássaros urbanos, ele tem orgulho de sua origem. E você sabe muito bem de onde ele veio. E, se por ventura não sabe, vai saber ao ouvir este disco sobre amores e cidades que nunca terminam.

Mauro Ferreira, maio de 2014

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Baggios 'suja' Belchior e sobressai no EP-bônus 'Entre o sonho & o som'

Resenha de EP
Título: Entre o sonho & o som
Artista: Vários
Gravadora: Edição independente
Cotação: * *
Disco disponível para download gratuito e legalizado no site Scream & Yell

Complemento do álbum Ainda somos os mesmos, tributo a Belchior prestado através da releitura das 10 músicas de seu antológico álbum Alucinação (Philips, 1976), o EP-bônus Entre o sonho & o som - cuja capa tem arte de Bruna Predes - alinha regravações de cinco sucessos de outros discos do cantor e compositor cearense. O título Entre o sonho & o som foi extraído de verso de Todo sujo de batom (Continental, 1974), música lançada pelo autor em seu primeiro álbum e regravada pelo autor, em tom mais pop, em seu terceiro álbum, Coração selvagem (Warner Music, 1977). Todo sujo de batom é a melhor faixa do EP. O grupo sergipano The Baggios - atualmente reduzido a um duo formado por Júlio Andrade (guitarra e voz) e Gabriel Carvalho (bateria) - suja a canção-hit de Belchior com propriedade sem anular a paixão contida no tema. Aliás, tal como no álbum, falta paixão aos registros do EP. Comentário a respeito de John (José Luiz Penna e Belchior, 1979), por exemplo, é feito sem essa paixão pelo compositor, cantor e músico Jomar Schrank em gravação de aura folk levemente psicodélica que - justiça seja feita - valoriza os versos de Belchior. Já a embalagem moderna que envolve Medo de avião (Belchior, 1979) - com ruídos e turbulências que disputam atenção com o canto de Ricardo Gameiro - nada faz pela canção, último grande sucesso popular do compositor. O cantor e (ótimo) guitarrista paulista João Erbetta se sai melhor com interpretação reverente - interessante ao seu modo convencional - de Paralelas (1975). O arranjo realça a beleza da melodia da canção. Por fim, a cantora baiana Nana faz Coração selvagem (1977) bater climático, devagar, sem a paixão exigida pela música interpretada com a devida pulsação pela cantora mineira Ana Carolina em número arrebatador do show #AC (2014). Belchior pede vozes apaixonadas que captem a urgência de sua música vivenciada entre o sonho e um som que ainda seduz artistas como o carioca Pedro Bonifrate, que enviou à produção do projeto idealizado pelo jornalista Jorge Wagner - após a edição do álbum Ainda somos os mesmos e do EP Entre o sonho & som - leitura psicodélica de Na hora do almoço (1974) que se afina com o tom indie deste tributo que evidencia a dificuldade de reler a obra do (ora) arisco cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, artista arretado.

'Indies' diluem angústias de Belchior no tributo 'Ainda somos os mesmos'

Resenha de CD
Título: Ainda somos os mesmos
Artistas: Vários
Gravadora: Edição independente
Cotação: * * 
Disco disponível para download gratuito e legalizado no site Scream & Yell

Álbum antológico que alavancou a carreira fonográfica de Belchior, Alucinação (Philips, 1976) radiografa as angústias e urgências de geração que, na época, já estava desiludida com a falência das utopias sonhadas pela turma que ergueu a contracultura dos anos 1960. O sonho já tinha acabado - como John Lennon (1940 - 1980) havia sintetizado em frase histórica de 1970 - e o cantor e compositor cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes era apenas um rapaz latino-americano com dois compactos, um álbum fracassado e um sucesso em voz alheia (Mucuripe, parceria com Fagner lançada por Elis Regina em 1972) quando gravou Alucinação como um sobrevivente quase sem esperanças. "Ainda somos os mesmos", reconheceu no verso conclusivo de Como nossos pais, música gravada no mesmo ano de 1976 por Elis Regina (1945 - 1982). Toda a ideologia consciente e a poética existencialista da música de Belchior é diluída, em maior ou menor grau, pelo elenco indie recrutado pelo jornalista Jorge Wagner, produtor do CD Ainda somos os mesmos, tributo a esse disco clássico de Belchior que alinha regravações das dez músicas do álbum, todas compostas solitariamente pelo cearense. Hino da desilusão hippieComo nossos pais, por exemplo, é enquadrada pelo artista paulista Philip Long em refinada moldura folk, mas a interpretação do cantor soa sem alma. Egresso do grupo paranaense Terminal Guadalupe, Dary Jr. molda Apenas um rapaz latino-americano como Dario Julio & Os Franciscanos na pressão do rock, mas também sem valorizar toda a força dos versos. Oriundo da banda carioca Harmada, Manoel Magalhães reveste Velha roupa colorida com o figurino roqueiro mais sujo do que o da gravação original sem expressar a contento o descontentamento quase desesperado do artista, que via o futuro repetir o passado com sensação de impotência. Dentro dessa atmosfera roqueira, o trio paranaense Nevilton consegue melhor resultado na equação arranjo-canto ao abordar Sujeito de sorte, tema de otimismo bissexto no álbum. Egresso do duo carioca Letuce, Lucas Vasconcellos beira o constrangimento com leitura cool, pontuada por ruídos, que praticamente anula a contundência da letra de Como o diabo gosta, música em que Belchior desafiava a repressão de sua época. Belchior nunca foi cool. Intérprete a quem foi confiada a música-título Alucinação, libelo antipreconceito, o cantor pernambucano Bruno Souto pelo menos entendeu o ponto de fervura em que se situa o cancioneiro de Belchior. Pena que seu canto esteja pouco dissociado do registro original do cearense. Souto beira o cover de Belchior. Projeto solo de Rodrigo Lemos (dissidente d'A Banda Mais Bonita da Cidade), Lemoskine manda bem o recado de Não leve flores com belo arranjo. Já o grupo carioca Fabrica dissolve todas as angústias contidas em A palo seco em abordagem que, embora ousada em sua desconstrução do arranjo original, desconsidera todo o desespero da letra cortante. O grupo mineiro Transmissor alcança resultado mais eficaz ao retratar Fotografia 3 x 4 com ênfase nos versos que expõem as desilusões de um nordestino que migra para o Sul maravilha. Afinal, a compreensão das letras é fator essencial para obter êxito na exposição da obra de Belchior. Egresso do extinto grupo Hidrocor, Marcelo Perdido ao menos tenta essa compreensão quando passa a mensagem de Antes do fim, música que fecha Alucinação e Ainda somos os mesmos como síntese desse disco hábil ao radiografar o estado de espírito da juventude consciente que vivia o desespero naqueles já conformados anos 1970 por perceber que, apesar de tudo que havia sido feito, ainda agia na sociedade como seus pais. Enfim, no todo, falta sangue e alma às interpretações do elenco indie convidado a celebrar Belchior em Ainda somos os mesmos. Mas não é mesmo fácil encarar cancioneiro de sentimentos tão universais, mas, ao mesmo tempo, tão pessoais.

domingo, 16 de março de 2014

'Alucinação', álbum que projetou Belchior, é regravado por elenco 'indie'

Belchior continua sumido, mas seu cancioneiro vai reaparecer na abordagem de elenco indie. Dois anos após produzir tributo ao grupo paulista Raça Negra, Jeito felindie (2012), o jornalista Jorge Wagner idealizou um projeto centrado no álbum Alucinação, o disco de 1976 que abriu as portas das rádios e do sucesso popular para o cantor e compositor cearense projetado em 1972 com a gravação de Mucuripe (Fagner e Belchior) pela cantora gaúcha Elis Regina (1945 - 1982). Previsto para ser lançado em 26 de março de 2014, em edição digital, o álbum Ainda somos os mesmos alinha regravações das 10 músicas de Alucinação em registros feitos por nomes da cena indie como o cantor, compositor e guitarrista carioca Lucas Vasconcellos, o cantor fluminense Phillip Long, o trio paranaense Nevilton e grupo mineiro Transmissor. De quebra, Jorge Wagner produziu EP-bônus, Entre o sonho e o som, com regravações de sucessos de Belchior que não integram o repertório do álbum Alucinação. Eis as 16 músicas e os intérpretes do álbum Ainda somos os mesmos e do EP Entre o sonho e o som:

Ainda somos os mesmos:
1. Apenas um rapaz latino americano - Dario Julio & Os Franciscanos
2. Velha roupa colorida Manoel Magalhães
3. Como nossos pais - Phillip Long
4. Sujeito de sorte - Nevilton
5. Como o diabo gosta - Lucas Vasconcellos
6. Alucinação - Bruno Souto
7. Não leve flores - Lemoskine
8. A palo seco - Fábrica
9. Fotografia 3 X 4 - Transmissor
10. Antes do fim - Marcelo Perdido

Entre o sonho e o som:
1. Coração selvagem - Nana
2. Comentário a respeito de John - Jomar Schrank
3. Medo de avião - Ricardo Gameiro
4. Paralelas - João Erbetta
5. Todo sujo de batom - The Baggios

sábado, 8 de fevereiro de 2014

'Coração selvagem', de Belchior, bate forte com Ana no roteiro de "#AC"

Belchior anda sumido, mas seu Coração selvagem está voltando a bater forte. Desta vez, na voz de Ana Carolina. Sucesso radiofônico que deu título ao álbum lançado pelo cantor e compositor cearense em 1977, Coração selvagem representa pico de intensidade emocional no roteiro de #AC, show que Ana Carolina estreou no Rio de Janeiro (RJ) com apresentação que encheu o Citibank Hall  na noite de 7 de fevereiro de 2014. O show chegou ao Rio com roteiro idêntico ao da estreia nacional de #AC, em 31 de janeiro, em São Paulo (SP). Música que se ajusta ao tom passional do canto grave da artista mineira, Coração selvagem ganha a voz de Ana com verso alterado (em vez de "Coma um cachorro quente", a intérprete canta "Depois do meu beijo quente") em abordagem que magnetiza a plateia e tem merecido aplausos de pé. Além de Coração selvagem, o roteiro de #AC surpreende ao sair do trilho habitual com Fire, música da lavra do norte-americano Bruce Springsteen, composta em 1977 - com inspiração em Elvis Presley (1935 - 1977) - e lançada em disco em 1978, em gravação do grupo norte-americano The Pointer Sisters. Fire é instante de delicadeza pop em show marcado por mix de sexo e eletrônica que abre espaço para a pegada popular do reggaeton Piriguete, sucesso viral de MC Papo - nome artístico do cantor belga (de criação mineira) Alexandre Materna - em 2012. Sob a direção de Monique Gardenberg, Ana apresenta em #AC mash-up de Piriguete com Você não vale nada (Dorgival Dantas, 2005), tema de tom forrozeiro projetado em escala nacional quando a gravação do grupo sergipano Calcinha Preta foi incluída na trilha sonora da novela Caminhos das índias (TV Globo, 2009). Eis o roteiro seguido por Ana Carolina - vista em foto de Rodrigo Amaral no palco do Citibank Hall - na estreia carioca de seu show #AC:

1. Pole dance (Ana Carolina e Edu Krieger, 2013)
2. Bang bang 2 (Ana Carolina e Rodrigo Pitta, 2013)
3. Esperta (Ana Carolina, Chiara Civello e Edu Krieger, 2013) /
    Você não sabe (Totonho Villeroy, 2011) /
    Cantinho (Ana Carolina e Gastão Villeroy, 2006)
4. Fire (Bruce Springsteen, 1977 / 1978)
5. Libido (Ana Carolina e Edu Krieger, 2013) /
    Eu comi a madona (Ana Carolina, Mano Melo, Totonho Villeroy e Alvin L., 2006)
6. Nua (Ana Carolina e Vitor Ramil, 2003) /
    Pra rua me levar (Ana Carolina e Totonho Villeroy, 2001) /
    Uma louca tempestade (Bebeto Alves e Totonho Villeroy, 2003)
7. Combustível (Ana Carolina e Edu Krieger, 2013)
8. Un sueño bajo el agua (Ana Carolina e Chiara Civello, 2013)
9. Dez minutos (Ana Carolina e Chiara Civello, 2009)
10. Mais forte (Ana Carolina, Chiara Civello e Bungaro, 2013)
11. Coração selvagem (Belchior, 1977)
12. Problemas (Ana Carolina, Dudu Falcão e Chiara Civello, 2011) /
      Quem de nós dois (La mia storia tra le dita)
      (Gianluca Grignani e Massimo Luca, 1994, em versão em português de Ana Carolina e Dudu Falcão, 2001)

13. Número instrumental com pandeiros

14. A Rita (Chico Buarque, 1966) - na voz em off de Chico Buarque /
      Resposta da Rita (Ana Carolina e Edu Krieger, 2013)
15. Piriguete (Alexandre Materna, 2012) /
      Você não vale nada (Dorgival Dantas, 2005)
16. Pelo iPhone (Ana Carolina e Totonho Villeroy, 2013)
17. Cabide (Ana Carolina, 2005)
18. Ela é bamba (Totonho Villeroy, 2001)
19. Garganta (Totonho Villeroy, 1999)
20. Elevador (Livro do esquecimento) (Ana Carolina, 2003)
Bis:
21. Eu sei que vou te amar (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959)
22. É isso aí (The blower's daughter)
      (Damien Rice, 2002, em versão em português de Ana Carolina e Seu Jorge, 2005)

sábado, 1 de dezembro de 2012

Imersão da obra de Belchior no blues preserva sua (datada) contundência

Resenha de CD
Título: Belchior Blues
Artistas: Vários
Gravadora: Edição digital independente
Cotação: * * *
O disco pode ser baixado de forma gratuita e legalizada no site Belchior Blues

No momento em que o nome de Belchior volta à mídia, por conta de atribulações de natureza pessoal, a obra do cantor e compositor cearense - de grande projeção na segunda metade da década de 70 - tem reiterada sua contundência e originalidade em Belchior Blues, projeto fonográfico arquitetado em 2011 pelos jornalistas Luiz Carlos Carvalho e Roberto Maciel para celebrar os 65 anos que o artista completou em 26 de outubro do ano passado e os 40 anos da estreia fonográfica do artista em compacto de 1971 que apresentou Na Hora do Almoço (Belchior), música regravada sem tempero especial no tributo pela cearense Artur Menezes Blues Band. Concretizado efetivamente neste ano de 2012, o disco acaba de ser disponibilizado para download em site criado para divulgar o projeto. No CD Belchior Blues, 14 músicas do compositor - sucessos, em sua grande maioria - são inseridas no universo do blues por artistas brasileiros (de várias regiões do país) que cultuam o gênero norte-americano. São registros que harmonizam guitarras e gaitas de blues com o canto torto dos solistas convidados. Reouvidas em perspectiva, tais músicas mostram o quão datada - mas o quão forte também - é a obra de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Com gosto amargo, o cancioneiro do artista  está embebido no clima de ressaca da primeira metade dos anos 70. O sonho acabara, como sentenciou John Lennon (1940 - 1980), e coube a artistas como Belchior inventariar as perdas, os ganhos e os danos da era hippie. Até a chegada do amor é envolta em angústia na obra do artista, como explicitado em Divina Comédia Humana (Belchior, 1978), música revivida pela banda paranaense Mister Jack com toques de blues e rock, mas não exatamente como um blues. Já o grupo cearense Blues Label cruza Paralelas (Belchior, 1975) com a pegada mais típica do blues. Que também tinge Velha Roupa Colorida (Belchior, 1976) com a tonalidade tradicional da carioca Big Joe Manfra Blues Band. Já A Palo Seco (Belchior, 1974) é tema pontuado pela harmônica do carioca Jefferson Garcia. Pena que o canto jovial de Luana Dias não corte fundo feito faca, diluindo o desespero contido na letra que inclui ironicamente versos como "Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues". Há mais densidade no toque da guitarra posta por Otávio Rocha no registro de Mucuripe (Belchior e Fagner, 1972) dividido pela veterana banda carioca Blues Etílicos com o cantor Sambê. Já a banda mineira Ted & Blue Drop encara Medo de Avião (Belchior, 1979) sem reverência, com passagens instrumentais que evidenciam o toque da guitarra de Ted McNeely. Por sua vez,  a dupla cearense Marcelo Justa & Diogo Farias faz Galos, Noites e Quintais (Belchior, 1976) cantar em tom acústico e rural. Justa pilota violão, slide e voz enquanto Farias toca gaita. Já o guitarrista e cantor paulista Vasco Faé redesenha Pequeno Mapa do Tempo (Belchior, 1977), retrato menos conhecido das inquietações que pautam o cancioneiro de Belchior e uma das poucas músicas de Belchior Blues que não foram sucesso nos anos 70. Outra, Comentário a Respeito de John (Belchior e José Luiz Penna, 1979),  ganha registro da banda do pianista e baixista paulista Adriano Grineberg. Música ambientada em clima de blues, Como Nossos Pais (Belchior, 1976) - música já gravada de forma definitiva por Elis Regina (1945 - 1982) - ganha registro denso (de mais de sete minutos) e surpreende ao apresentar a melhor voz do (irregular) time de vocalistas de Belchior Blues, a da carioca Taryn Szpilman. Outro destaque do disco, Fotografia 3 x 4 (Belchior, 1976) é retratada como um blues rural pela capixaba Big Bat Blues Band. Música que consolidou a carreira fonográfica do compositor que migrara de Sobral (CE) para o Rio de Janeiro (RJ), vindo do interior sem dinheiro no banco e sem parentes importantes, Apenas Um Rapaz Latino Americano (Belchior, 1976) vira mesmo (encorpado) blues na (boa) gravação da banda capitaneada pelo cantor cearense Felipe Cazaux. Por fim, Coração Selvagem (Belchior, 1977) - outro grande hit radiofônico de Belchior em sua década áurea - bate no enérgico compasso blues do registro que junta o cantor mineiro Rodrigo Nézio com o Duocondé Blues. No todo, Belchior Blues experimenta outros tons em cancioneiro que, a despeito de estar atrelado ao seu tempo (e lugar), ainda é sedutor.