Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Reedição do segundo disco inicia revitalização digital da obra de Arnaldo

Segundo álbum solo de Arnaldo Baptista, lançado originalmente em 1982, em LP editado pela gravadora paulista Baratos Afins, Singin' alone ganha edição digital, disponibilizada a partir desta quarta-feira, 24 de julho de 2013, nas principais lojas virtuais de discos. Com nova capa, colorizada por Rubens Amatto a partir da foto de Grace Lagoa exposta na edição original do LP de 1982, Singin' alone volta ao catálogo, após 18 anos, em edição remasterizada que está sendo distribuída pela empresa cdbaby.com e que inclui a faixa-bônus Balada do louco (Arnaldo Baptista e Rita Lee, 1972), ouvida em gravação de 1995. A edição é independente e dá início ao processo de revitalização digital de toda a discografia solo do cantor, compositor e pianista paulista que ganhou projeção nos anos 60 como integrante do trio Os Mutantes. Eis o texto escrito por Arnaldo sobre Singin' alone por conta desta reedição do álbum em formato digital:

"Quando fiz este LP, o Singin Alone, pensei: o que está faltando na minha carreira? Algo que fosse capaz de abranger tudo que alcanço no universo. Então, optei por um tipo de linguagem, de espectros, de pensamentos, de entidades ... E todos os lugares onde eu ia, tentava colocar em poesia. Ou seja, a personalidade aparece nesta vida diária, em parte das letras, trechos da minha vida naquela época. 
Outro aspecto é que toco tudo neste disco: bateria, contrabaixo, teclado, guitarra... Às vezes coloco uma gaita, pandeiro, caixinha de música, one man band.... Em todos os conjuntos que tive até hoje, sempre existiram fatores que eu não concordava: a marca do contrabaixo, muito agudo; o amplificador mal regulado;  uma pessoa muito egocêntrica... 
Neste disco, portanto, tentei colocar um lado pessoal, não só no alcance da letra e da música, mas também no instrumental e musical, que é importantíssimo. Coloquei o que era de se esperar: o inesperado. Misturo Yes, que é um lado bem clássico, bem contrabaixo, com música caipira, que é um lado bem rural, bem peculiar do País. Algo que abrangesse a mente de todos.  E também tem muitas músicas em inglês, no sentido de alcançar este tipo de mentalidade e pensamento filosófico. 
Às vezes a gente se perde em criatividade e vê que o objetivo não é um só, nunca! Ambos funcionam. Queria expor e extravasar minha criatividade musical e poética. Por isso coloquei este lado do inglês também." 
Bomba H sobre São Paulo envolve o que fiz para alcançar esta profundidade de letra. Eu subia a pé até a Serra da Cantareira, um caminho longo, mas me interessava por flores, pessoas, automóveis que passavam e também minha mente esvoaçando por entidades, planetas e galáxias longínquas. Naquele dia pensei que estava andando na Cantareira e de lá a gente pode sentir a cidade como uma entidade separada, uma bomba H alguma coisa iria acontecer. Foi assim que extravasei.
Hoje de manhã eu acordei envolve outra parte da minha vida pessoal, o lugar onde eu dormia: o quarto, a parede, um pensamento que não é tão tipo estrada, automóveis, galáxias. É mais lençóis, quadros, companhia, pensamentos de comida, exercício etc.  A paixão que eu tinha naquele momento às vezes dava certo: “será que é bom demais?” 
Jesus come back to earth é uma outra faceta da minha vida. Estava no apartamento com minha mãe na Avenida Angélica e não me sentia aberto ali, então compus esta música. 
Corta jaca tem um lado rural.  A Suzana Braga, que é filha de portugueses, fez a voz caipira – para ela era difícil falar o português  brasileiro, fazer o caipira (rs). Tem um pouco a ver com o interior de São Paulo. Meu avô, o coronel Orácio, já foi prefeito de Avaré e tentei colocar isso em forma de música caipira com rock’n’rolll fiz este contraste aparecer.
Existe um lado entre você e o instrumento, que se traduz no piano, no órgão... Em The Cowboy tem esta minha parte pessoal com o contrabaixo. Então, pude fazer uma música na qual explico tudo que sinto no instrumento... Jack Bruce.
Sitting on the Road Side - Fui até Catanduva pedindo carona... 400kms de São Paulo... Senti vontade de peregrinação, de não ser levado por nada além de explorar e ver até onde eu aguentava na resistência. É meio hippie. 
I fell in love one day - Assim como Cowboy tem a ver com contrabaixo, esta tem a ver com teclado, piano. Aqui, consegui no piano uma profundidade maior na letra, porque no contrabaixo é mais música pesada,  lenha. Então, falo de estrada, motores. Esta eu já entro bem em filosofia, razões de viver... 
O lado piano me dava mais liberdade no sentido da emoção. Fala também de minhas procuras, inspirações, pesquisas... Pensei também na mamãe, que tocava piano há anos. Tem esta parte para ela: “me leve até o melhor”... Como se ela pudesse interferir na minha música, pela mediunidade... Minha mãe tinha um universo – horas e horas deitada, pensando no paraíso. Daí ter falado: “não vou esperar pela sua morte. O lado piano me dava mais liberdade no sentido de emoção. Na guitarra não consigo tanta inspiração de paixão, coração, como no piano. 
Tem esta presença feminina nas letras... O lado lírico, poético, romântico, esta importância das mulheres na vida das pessoas. Não importa o que você pensa ou o que você é – você tem um só sexo como pessoa. Então, para você dar continuidade a um fator que é importante para a evolução, DNA, precisamos do lado feminino que completa. Na minha poesia, a menina é importante como musa, como platônico... Dá um colorido, um romantismo. 
Ciborg - Esta também é uma área que me leva muito adiante na vida, que é a palavra pesquisa, aqui a humana, que é no ciborg. Por exemplo: há milhões de anos o corpo humano usa no ouvido números exponenciais, que não têm nada a ver com matemática. O Homem descobriu este número há 50 anos.  Portanto, o corpo humano é tão mais evoluído que nosso alcance científico! Coloquei Ciborg como se fosse a gente tentando fazer máquina da máquina que a gente é... Também tem a ver comigo andando de bicicleta e pensava: se fosse um ciborg teria muito mais força na perna. “Em vão, Ciborg!”. 
Coming through the waves of science - “Não sei por que fiquei tão envolvido, quando poderia apenas tocar”.. Isso é tão profundo! Às vezes mais profundo do que eu.  Quando falamos do feminino, pensamos em um estereótipo, que seria a deusa. Então, tem o lado mágico também, maior mediunidade, maior consciência de tudo... Aí eu entro no Let spend the night together
Young blood - Só tinha um piano em casa nesta época. E acabei fazendo um conjunto de garagem. As pessoas eram mais jovens do que eu, dez anos até, então compus esta música, inspirado nisso, neste sanguinho novo. O entusiasmo deles era muito grande... Beijo do batom em você, manequim”. Aí a inspiração veio dos desfiles da Rodhia. Via os manequins passarem e ficava sonhando – todas sanguinho novo... Como se você pudesse dizer não ao sistema : “seu coração no sanguinho novo...” 
Train -  Esta é interessante. Planejei ficar numa de blues, na Cantareira, e entrei nessa e fui para Londres e tomei um ônibus para a Alemanha. Mas na estação coloquei trem. Vira e mexe ouço Jack Bruce, Elton John... falando de trem. Foi minha escolha estar aqui no meio do blues
Balada do louco - Fui até a casa do cunhado da Rita (Lee), que tem um piano, e compus uma música inspirada nas diferenças que existiam entre as pessoas.  Por exemplo, tem sempre alguém superior à você. Pra falar a verdade, naquela semana tinha levado um chute de uma menina no katarê, que até sangrou meu pé... Então, pensei, foi falta de apoio, etc, mas não era isso: ela era melhor do que eu mesmo... Levei adiante neste sentido com entidades que eu achava maravilhosas, como Alan Delon... Depois mostrei para a Rita, que deu uma sutileza, o lado poético dela também... Esta nova gravação, de 1995, foi surpreendente, porque eu não esperava que ficasse tão bela.. Não contribui muito com o lado musical, mas ficou muito bonito. Adorei! Parece o Elton John com orquestra". (Arnaldo Baptista)

CD duplo que registra a turnê de 50 anos dos Beach Boys supera o DVD

Lançado no exterior em 21 de maio de 2013, em edição da Capitol já disponibilizada no Brasil via EMI Music, o disco duplo The Beach Boys Live - The 50th anniversary tour é caso raro em que o CD oferece mais músicas do que o DVD. Se o DVD duplo The Beach Boys 50 - Live in concert (2012) exibiu somente 21 números do show com que o grupo norte-americano correu parte do mundo ao longo de 2012 para festejar seus 50 anos de carreira, tendo sido o disco 2 dedicado a material de caráter documental, o álbum duplo ao vivo perpetua o show quase na íntegra, totalizando 41 musicas ao longo dos dois CDs (somente Wouldn't it be nice foi ignorada na seleção final). Brian Wilson, Mike Love, Al Jardine, Bruce Johnston (substituto de Brian Wilson quando este deixou o grupo por conta de notórios problemas mentais) e David Marks (recrutado para ocupar temporariamente o lugar de Al Jardine em 1962 e 1963) passam em revista todos os clássicos da discografia dos Beach Boys sem esquecer temas menos ouvidos. All this is that, Disney girls, Getcha back e Marcella figuram entre as joias mais raras que emergem no mar em que surfam os eternos garotos (já vovôs) californianos da praia.

Naldo entra no lugar de Thiaguinho na gravação ao vivo de Claudia Leitte

Anunciado como um dos convidados da gravação ao vivo do CD e DVD Axemusic, da cantora fluminense Claudia Leitte, o cantor paulista Thiaguinho teve que cancelar sua participação no show por ainda estar se recuperando de doença pulmonar que o levou a ser hospitalizado em São Paulo (SP) em 18 de julho de 2013. Em grande evidência na cena de funk melody, o cantor carioca Naldo Benny foi convocado às pressas para entrar no lugar de Thiaguinho e já teve sua participação confirmada por Leitte. Naldo vai se juntar a Luiz Caldas, Wanessa e Wesley Safadão na gravação programada para 3 de agosto de 2013 na Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata (Recife, PE). O CD e DVD Axemusic serão lançados este ano pela Som Livre.

Rappa anuncia 'Auto-reverse', música de álbum que ficou para setembro

Previsto de início para ser lançado em agosto de 2013, em edição da Warner Music, o nono álbum d'O Rappa - o sexto disco de inéditas do grupo carioca - teve seu lançamento adiado para setembro. Embora o quarteto não tenha falado em adiamento ao anunciar uma segunda música música do CD, Auto-reverse (parceria da banda com o compositor pernambucano Lula Queiroga), a mudança de data é fato. Ao lançar em maio a faixa Anjos (Pra quem tem fé), O Rappa - em foto extraída de seu site oficial - comunicara que o álbum sairia em agosto. A expectativa é grande, pois trata-se do primeiro CD de inéditas da banda deste 7 vezes (2008).

Il Volo recebe Eros e faz covers de Aerosmith e U2 no CD 'Más que amor'

Más que amor - o CD do trio italiano Il Volo ora lançado no Brasil em edição da Universal Music - é a versão em espanhol de We are love (2012), segundo álbum de estúdio do grupo formado pelo barítono Gianluca Ginoble com os tenores Ignazio Boschetto e Piero Barone. Espécie de versão juvenil d'Os Três Tenores, Il Volo pôs suas extensas vozes em temas gravados em espanhol como Constantemente mía (música da compositora norte-americana Diane Warren, ouvida no CD em duas versões, sendo uma gravada com a cantora espanhola Belinda) e Bienvenido nuestro amor (Mark Portmann e Edgar Cortázar). Neste disco produzido por Humberto Gatica com Tony Renis, os cantores de tom pop operístico fazem covers de hits do grupo norte-americano Aerosmith (I don't want to miss a thing, balada de Diane Warren, lançada em 1998 e intitulada Nuestro amor na versão em espanhol gravada pelo Il Volo em Más que amor) e da banda irlandesa U2 (Beautiful day, 2000). O trio recebe o cantor italiano Eros Ramazzotti (em Así, música de Ramazzotti com Lucas Chiaravalli) e o tenor espanhol Plácido Domingo, com quem interpreta, em italiano, Il canto (Romano Musumarra e Luca Barbarossa).

terça-feira, 23 de julho de 2013

Sai de cena Dominguinhos, herdeiro que expandiu o legado de Gonzaga

O título do primeiro álbum de José Domingos de Morais (Garanhuns - PE, 12 de fevereiro de 1941 - São Paulo - SP, 23 de julho de 2013), Fim de festa, foi enganador. A festa estava somente começando naquele ano de 1964 para o grande cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano, popularmente conhecido no Brasil como Dominguinhos. A rigor, o fim mesmo foi somente nesta terça-feira, 23 de julho, data em que o artista saiu de cena, aos 72 anos, após sete meses de internação em hospital de São Paulo (SP) para tratamento de problemas cardíacos e respiratórios, agravados por um câncer de pulmão diagnosticado já há seis anos. Enquanto durou, o forró foi animado. Por mais que a sanfona do mestre tenha chorado ao tocar temas melancólicos ao longo de carreira pavimentada desde a década de 50, o som de Dominguinhos vai estar para sempre associado à alegria e à vivacidade da música nordestina. Já virou clichê apontá-lo como o legítimo herdeiro musical de Luiz Gonzaga (1912 - 1989) - o pilar mais forte da Nação Nordestina - e, sim, Dominguinhos foi mesmo o mais capacitado sucessor na linhagem nobre do Rei do Baião. Contudo, Seu Domingos soube expandir esse legado, delineando sua identidade como compositor e se recusando, com a delicadeza que pautou a maioria de sua músicas, a ser mero clone de Gonzaga, a quem sempre reverenciou sem submissão. Aliás, o último trabalho autoral de Dominguinhos - Luar agreste no céu cariri (Passa Disco, 2013), assinado com o compositor cearense Xico Bizerra - reiterou a versatilidade de compositor que extrapolou o universo musical nordestino, compondo choros, boleros, valsas e até fado. Mas é fato que Dominguinhos vai ser sempre mais lembrado pelos xotes, baiões e toadas que ganharam as paradas nas vozes de cantores do Brasil. Gilberto Gil fez grande sucesso em 1973 com o compacto que trazia a gravação do xote Eu só quero um xodó, uma das mais conhecidas parcerias de Dominguinhos com sua então mulher Anastácia. Tanto que, na sequência, Gil letrou tema originalmente instrumental de Dominguinhos - Lamento sertanejo, música lançada pelo sanfoneiro no álbum Tudo azul (1973) - e virou parceiro do mestre em outro sucesso. Fafá de Belém registrou Carece de explicação (Dominguinhos e Clodô) em seu álbum Estrela radiante (Philips, 1979). No mesmo ano, Fagner fez sucesso com a toada Quem me levará sou eu (Dominguinhos e Manduka) - incluída na segunda edição do álbum Eu canto (CBS, 1978) - e Nana Caymmi fez a primeira e definitiva gravação de Contrato de separação em seu álbum Nana Caymmi (Odeon, 1979). Elba Ramalho - a cantora que mais propagou o cancioneiro de Dominguinhos, a ponto de gravar e assinar com o compositor um álbum em 2005 - imortalizou De volta por aconchego (Dominguinhos e Nando Cordel) em seu álbum Fogo na mistura (Barclay, 1985). Ao ser propagada na trilha sonora da novela Roque Santeiro (TV Globo, 1985), a toada nunca mais saiu da memória do Brasil e dos shows de Elba. Gostoso demais (Dominguinhos e Nando Cordel), outra canção composta no tempo da delicadeza, impulsionou as vendas de Dezembros (RCA, 1986), álbum que marcou a volta de Maria Bethânia à gravadora RCA. Entre um sucesso e outro na voz de cantoras do Brasil, o compositor se tornou parceiro do carioca Chico Buarque, com quem compôs Tantas palavras, lançada por Chico em álbum de 1984. Bissexta, a parceria seria reavivada em 1998 com o lançamento do Xote da navegação. Nesse mesmo ano de 1998, Djavan lançaria em seu álbum Bicho solto o XIII sua primeira e única parceria com Dominguinhos a belíssima Retrato da vida. Como sanfoneiro, o virtuosismo de Dominguinhos ia além das festas e forrós animados pelo músico - como pode ser comprovado com a audição do CD gravado com o violonista gaúcho Yamandu Costa, Yamandu + Dominguinhos (Biscoito Fino, 2007), título mais recente de discografia que inclui álbuns hoje raros, posto que nunca relançados em CD. São os casos de O forró de Dominguinhos (Philips, 1975), Domingo menino Dominguinhos (Philips, 1976), Oi, lá vou eu (Philips, 1977), Ó Xente! Dominguinhos (Philips, 1978) e Após tá certo (Philips, 1979) - para citar somente álbuns da segunda metade dos anos 70, década em que a carreira do artista engrenou em escala nacional. Até mesmo álbuns dos anos 80, como o popular Isso aqui tá bom demais (RCA, 1985), estão há anos fora de catálogo. Enfim, Dominguinhos fez sua festa na terra, alegrando o Brasil com sua música que, quando triste, embalava a tristeza com suavidade, sem peso. A partir de hoje, a festa é no céu. Puxe o fole, grande sanfoneiro!

Força do abraço coletivo de Pery em Simonal varia ao longo de CD duplo

Resenha de CD
Título: Pery Ribeiro abraça Simonal - Dueto com amigos
Artista: Pery Ribeiro 
Gravadora: Atração Fonográfica
Cotação: * * 

Tivesse sido gravado nos anos 60 ou 70, no auge da forma vocal de Pery Ribeiro (27 de outubro de 1937 - 24 de fevereiro de 2012), o CD Pery Ribeiro abraça Simonal - Dueto com amigos poderia ter resultado antológico, talvez até mesmo histórico. Afinal, trata-se de tributo de grande cantor de sua época a outro grande cantor da mesma geração, Wilson Simonal (23 de fevereiro de 1938 - 25 de junho de 2000). Dois senhores cantores cariocas que se fizeram ouvir ao longo dos anos 60 neste país de cantoras, ambos com sua bossa particular. Disco idealizado e produzido por João Santana, empresário do Rio Grande Norte associado à carreira de Simonal, Pery Ribeiro abraça Simonal - Dueto com amigos começou a tomar forma, no entanto, a partir de 2010, quando Pery já vivia fase crepuscular como intérprete e quando o brilho de Simonal já era vaga lembrança na mente de quem viveu os anos 60 - lembrança reavivada, é fato, pelo essencial documentário Simonal - Ninguém sabe o duro que dei (Micael Langer, Calvito Leral e Cláudio Manoel, 2009) e pelos esforços coletivos de seus filhos, Max de Castro e Wilson Simominha, para reabilitar a memória e a música de seu pai. Simoninha, a propósito, abre o tributo duplo, batendo bola com Pery em Aqui é o país do futebol (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1970). Simoninha é um dos amigos - como quer o título deste disco que se tornou póstumo na discografia de Pery porque o cantor saiu de cena antes de sua finalização - que se juntaram ao anfitrião em abraço coletivo em Simonal cuja força varia de acordo com a qualidade do arranjo e da interpretação de cada convidado. Se Zélia Duncan está leve e solta no Balanço Zona Sul (Tito Madi, 1963), sucesso do primeiro álbum de Simonal, Agnaldo Timóteo faz Sá Marina (Tibério Gaspar e Antonio Adolfo, 1968) descer a ladeira sem suingue - qualidade inexistente no canto asséptico de Marina Elali, convidada do samba País tropical (Jorge Ben Jor, 1969). E por falar em molho (o champignon no dicionário de Simonal), Fagner exercita suingue atípico em sua discografia ao reviver Noves fora (Fagner e Belchior, 1972) com Pery em registro que evoca o universo do samba-jazz. Contudo, brilhos individuais à parte, falta pressão aos arranjos - assim como falta um colorido à maioria das interpretações. A voz de Ângela Maria poderia ter sido mais bem colocada no samba-canção Aos pés da cruz (Marino Pinto e Zé da Zilda, 1942). Alcione baixa o tom para entrar no clima de Minha namorada (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1962). Wanderléa encara Lobo bobo (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, 1959) em faixa introduzida por história contada na voz do próprio Simonal no auge da Pilantragem. Também introduzida por fala de Simonal, Velho arvoredo (Hélio Delmiro e Paulo César Pinheiro, 1976) enverga no encontro de Pery com Altay Veloso, mas não chega a cair. Já Caetano Veloso está à vontade no seu Remelexo (Caetano Veloso, 1967). Toni Garrido também marca boa presença em música menos óbvia, De como um garoto apaixonado perdoou por causa de um dos mandamentos (Nonato Buzar, Chico Anísio e Wilson Simonal, 1968). Outra lembrança rara do cancioneiro de Simonal é Silêncio (Eduardo Souto e Sergio Bittencourt, 1969), defendida por Pery em dueto com Chico César. Na linha mais do mesmo, Elza Soares reitera a ginga da raça em Tributo a Martin Luther King (Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli, 1967), samba de espírito soul que exala orgulho negro e que foi gravado pela própria Elza em 1970, três anos após a gravação original de Simonal. Sambista identificada com causas sociais, Leci Brandão ecoa outro tema de tom politizado, Mais valia não chorar (Ronaldo Bôscoli e Normando Soares, 1970), em dueto com Pery. Já Geraldo Azevedo pousa sua voz macia no Samba do avião (Antonio Carlos Jobim, 1962). Sem a habitual vivacidade das avenidas, Neguinho da Beija-Flor esmaece Vesti azul (Nonato Buzar, 1967). Enfim, o abraço coletivo em Simonal - comandado por Pery - podia ser mais forte. De todo modo, o disco duplo - gravado entre Natal (RN), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Campina Grande (PB) e João Pessoa (PB) - tem seu valor por cruzar, mesmo postumamente, os caminhos de dois grandes cantores que mereciam abraços mais apertados.

Zulumbi vai lançar primeiro CD com fusão de rap e baticum afro-brasileiro

Entra em cena o Zulumbi, trio formado por Lúcio Maia (guitarrista da banda pernambucana Nação Zumbi) com PG (DJ do grupo de rap paulistano Elo da Corrente) e Rodrigo Brandão (vulgo Gorila Urbano, MC do coletivo paulista Mamelo Sound System). Com som percussivo e psicodélico, o Zulumbi - assim batizado para aludir ao fato de Brandão ser o MC oficial da Zulu Nation no Brasil e para remeter também à Nação Zumbi - tem o objetivo de "aprofundar as conexões" entre o rap e os batuques afro-brasileiros. Mal entrou em cena, o trio já vai lançar seu primeiro álbum, produzido por Daniel Bozio. O disco vai apresentar 10 músicas inéditas da lavra do Zulumbi. O time de convidados vai das cantoras Juçara Marçal e Anelis Assumpção aos jazzistas norte-americanos Rob Mazurek e Jason Adasiewicz, passando pela rapper Yarah Bravo.

'Symphonic Coldplay' enquadra músicas do grupo em moldura orquestral

Formada em 1946 e sediada em Londres, The Royal Philharmonic Orchestra enquadra 12 temas do repertório do grupo inglês Coldplay em sua clássica moldura sinfônica. Lançado neste mês de julho de 2013, em edição da EMI Music, o CD Symphonic Coldplay é produto resultante da gravação feita pela orquestra em 18 de fevereiro de 2013 no Angel Studios, em Londres. Nove das onze faixas do disco foram registradas nessa sessão de gravação, feita sob a regência do maestro Chris Egan, produtor do CD e autor dos arranjos (em parceria com Simon Hale). Entre essas nove faixas, há músicas como Clocks, Paradise e Violet hill. As exceções são Fix you (gravada em março de 2006 no mesmo Angels Studios, sob a regência de Matthew Freeman), Viva la vida (gravada em junho de 2012, também sob a regência de Matthew Freeman) e Yellow (captada em janeiro de 2004 no Phoenix Studios, também sob a regência de Freeman).

Coleção em tributo a Jobim põe nas bancas CD gravado ao vivo em 1977

À venda nas bancas de jornais desde o último fim de semana, o 16º volume da Coleção Folha Tributo a Tom Jobim traz encartado no livro - cujo texto é assinado pelo jornalista e crítico musical carioca Mauro Ferreira - o CD Tom, Vinicius, Toquinho, Miúcha - Gravado ao vivo no Canecão. Bissexto título ao vivo da discografia de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927 - 1994), o álbum de 1977 perpetua o show que ocupou por sete meses a extinta casa Canecão, o principal palco da MPB no Rio de Janeiro (RJ) dos anos 70. Como o título do disco já explicita, o show juntou Tom a Vinicius de Moraes (1913 - 1980) - o que valoriza o álbum, raro registro dos parceiros em cena - a Toquinho e a Miúcha, cantora com quem Tom havia feito disco de estúdio, editado naquele mesmo ano de 1977. Sob a direção musical do produtor Aloysio de Oliveira (1914-1995), o quarteto fantástico deu voz a músicas como a então inédita Estamos aí, parceria de Tom, Vinicius, Toquinho e Chico Buarque (presença assídua nos ensaios do espetáculo). A Coleção Folha Tributo a Tom Jobim é editada pelo jornalista Carlos Calado.

Eis a capa do terceiro álbum do duo MGMT, nas lojas em 17 de setembro

Esta é a capa casual de MGMT, o terceiro álbum de estúdio do duo norte-americano MGMT, formado por Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser. Nas lojas dos Estados Unidos a partir de 17 de setembro de 2013, em edição da Columbia Records, o sucessor de Congratulations (2010) foi gravado no Tarbox Road Studios, nos EUA, com a colaboração de Dave Fridmann na produção. O disco totaliza dez faixas. Nove são inéditas da lavra autoral da dupla. A exceção é Introspection, música da obra de Faine Jade, nome artístico de Chuck Laskowski, compositor e guitarrista norte-americano que seguiu a trilha psicodélica do garage rock na década de 60.

Kita lança em agosto o EP 'Twisted complicated world' em formato físico

Lançado em março de 2013 pela banda carioca Kita, em edição digital disponibilizada em lojas virtuais como o iTunes e a Amazon, o EP Twisted complicated world vai ser lançado em formato físico pelo grupo de rock eletrônico. A edição do CD está prevista para 6 de agosto. Twisted complicated world  traz sete músicas assinadas pela vocalista Sabrina Sanm com o guitarrista e tecladista Renato Pagliacci, produtor do disco masterizado no estúdio Sterling Sound, em Nova York (EUA), por Ue Nastasi. As sete faixas - Twisted complicated world, The only one, You, No regrets, Nature's own desire, Go ahead e Feel it - são cantadas em inglês. Jayme Neto (guitarra), Guilherme Dourado (baixo) e Kelder Paiva (bateria) integram o grupo - formado há pouco mais de um ano - com Sabrina Sanm e Renato Pagliacci.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Eis a capa do CD em que o Mundo Livre troca de repertório com a Nação

Esta é a capa de Mundo Livre S.A. vs Nação Zumbi, CD inédito no qual as duas bandas de Pernambuco - ícones do movimento rotulado como Mangue Beat - trocam de repertório. Uma banda apresenta sua leitura de sete músicas da outra em projeto similar ao que uniu em disco os grupos Raimundos e Ultraje a Rigor. Nas lojas em agosto de 2013, em edição da Deck, o CD  Mundo Livre S.A. vs Nação Zumbi vai entrar em pré-venda no iTunes a partir de 30 de julho. O repertório inclui sucessos como Meu maracatu pesa uma tonelada e A praieira (da Nação Zumbi) e Musa da Ilha Grande e Bolo de ameixa (do Mundo Livre S.A.). A parte da Nação Zumbi foi produzida pela própria banda e gravada no estúdio El Rocha, em São Paulo (SP), com as vozes colocadas no estúdio Fine Tunning, também em São Paulo (SP). Já as faixas do Mundo Livre S.A. foram produzidas, gravadas e mixadas pelo tecladista do grupo, Leo D, no estúdio Mr. Mouse, no Recife (PE). A edição do álbum torna menos incerto o futuro da Nação.

Sax de Leo Gandelman sopra 'Ventos do Norte' em álbum que traz Spok

A foto acima flagra o saxofonista carioca Leo Gandelman com Spok, o maestro pernambucano da Spok Frevo Orquestra. Spok é convidado do CD que Gandelman lança em agosto de 2013, Ventos do Norte. Neste disco, no qual Spok toca na faixa Cara lisa (de José Ursicino da Silva, o Maestro Duda), o músico carioca presta tributo a saxofonistas de origem nordestina como os pernambucanos Moacir Santos (1926 - 2006) e Severino Araújo (1917 - 2012) e o paraibano Severino Rangel Carvalho (1896-1972), o Ratinho, autor do choro Saxofone, por que choras?

Suricato reaviva hit de Lulu há 30 anos em 'single' gravado com o cantor

Canção composta por Lulu Santos com letra de Ronaldo Bastos e lançada há 30 anos pelo cantor carioca no álbum O ritmo do momento (1983), Um certo alguém ganha registro do grupo carioca Suricato em single gravado com o aval e a participação Lulu. O lançamento do single no iTunes está agendado para 13 de agosto de 2103 - data em que vai ser lançado o clipe da música em canais de vídeo como o YouTube. O clipe foi gravado no Rio de Janeiro (RJ) em 13 de maio. A foto acima - tirada na gravação - flagra Lulu com Rodrigo Nogueira, vocalista da banda e guitarrista da primeira temporada do programa The Voice Brasil (TV Globo, 2012), do qual Lulu foi um dos quatro jurados. Um certo alguém já fazia parte do roteiro dos shows do Suricato, que decidiu registrar a música por conta do aval de Lulu para a releitura do grupo.

Álbum polêmico de Dylan em 1970 inspira 10º volume da 'Bootleg series'

Em 1970, Bob Dylan - até então dono de discografia imaculada - lançou um de seus álbuns mais controvertidos, Self portrait, alvo de ataques da crítica. Pois este décimo álbum de estúdio do artista inspirou o décimo volume da série de fonogramas raros do cantor e compositor norte-americano. Another self portrait (1969 - 1971 ) - The bootleg series vol.10 tem lançamento agendado para 27 de agosto de 2013 em edição da Columbia Records que vai ser distribuída em escala nacional pela Sony Music. Em seu formato simples, Another self portrait inclui dois CDs que totalizam 35 fonogramas raros - alguns inéditos - do artista. Já a Deluxe Edition totaliza quatro CDs. Além dos dois discos com as tais raridades, há edição remasterizada de Self portrait e CD com a gravação ao vivo do show feito por Dylan com The Band na Ilha de Wight, na Inglaterra, em 31 de agosto de 1969. Eis os fonogramas de Another self portrait (1969 - 1971 ) - The bootleg series vol.10, compilação que apresenta sobras, demos e takes alternativos das sessões dos álbuns Self portrait (1970) e New morning (1970):

CD 1
1. Went to see the hypsy (demo)
2. In search of little Sadie (sem overdubs, Self portrait)
3. Pretty saro (registro inédito, Self portrait)
4. Alberta #3 (take alternativo, Self portrait)
5. Spanish is the loving tongue (registro inédito, Self portrait)
6. Annie’s going to sing her song (registro inédito, Self portrait)
7. Time passes slowly #1 (take alternativo, New morning)
8. Only a hobo (registro inédito, Greatest hits II)
9. Minstrel boy (registro inédito, The Basement tapes)
10. I threw It all away (take alternativo, Nashville skyline)
11. Railroad bill (registro inédito, Self portrait)
12. Thirsty boots (registro inédito, Self portrait)
13. This evening so soon (registro inédito, Self portrait)
14. These Hands (registro inédito, Self portrait)
15. Little Sadie (sem overdubs, Self portrait)
16. House carpenter (registro inédito, Self portrait)
17. All the tired horses (registro inédito, Self portrait)


CD 2
1. If Not For You (take alternativo, New morning)
2. Wallflower (take alternativo, 1971)
3. Wigwam (versão original sem overdubs, Self portrait)
4. Days of ’49 (versão original sem overdubs, Self portrait)
5. Working on a guru (registro inédito, New morning)
6. Country pie (take alternativo, Nashville skyline)
7. I’ll be your baby tonight (ao vivo com The Band, Isle Of Wight 1969)
8. Highway 61 revisited (ao vivo com The Band, Isle Of Wight 1969)
9. Copper kettle (sem overdubs, Self portrait)
10. Bring me a little water (registro inédito, New morning)
11. Sign on the window (sem overdubs e orquestra, New morning)
12. Tattle o’day (registro inédito, Self portrait)
13. If dogs run free (take alternativo, New morning)
14. New morning (sem cordas e overdubs, New Morning)
15. Went to see the Gypsy ((take alternativo, New morning)
16. Belle isle (sem overdubs, Self portrait)
17. Time passes slowly #2 (take alternativo, New morning)
18. When I paint my masterpiece (demo)


Bob Dylan & The Band
Isle of Wight – August 31, 1969
1. She belongs to me
2. I threw it all away
3. Maggie’s farm
4. Wild mountain thyme
5. It ain’t me, babe
6. To Ramona / Mr. tambourine man
7. I dreamed I saw St. Augustine
8. Lay lady lay
9. Highway 61 revisited
10. One too many mornings
11. I pity the poor immigrant
12. Like a rolling stone
13. I’ll be your baby tonight
14. Quinn the eskimo (The Mighty Quinn)
15. Minstrel boy
16. Rainy day women #12 & 35

domingo, 21 de julho de 2013

Aos 70, Edu grava DVD no Rio em show com Bethânia, Chico e Salmaso

Os 70 anos de Edu Lobo serão festejados com a gravação ao vivo de show inédito. No dia de seu 70º aniversário, 29 de agosto de 2013, o cantor e compositor carioca vai apresentar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no Rio de Janeiro (RJ), show de sucessos e tom retrospectivo, roteirizado e dirigido pelo jornalista carioca Hugo Sukman. O show vai ter participações de Chico Buarque (parceiro do compositor na criação de trilhas sonoras de balés e espetáculos teatrais), Maria Bethânia (com quem o artista gravou em  1967 o disco Edu & Bethânia) e Mônica Salmaso (uma das cantoras preferidas do aniversariante), além de Bena Lobo, filho de Edu. A gravação ao vivo originará CD e DVD - a serem lançados ainda este ano.

Com três inéditas, Roberta revisa 27 anos em '25 anos ao vivo no estúdio'

Cantora e compositora paraibana que reinou no mercado de música sertaneja entre a segunda metade dos anos 80 e a primeira metade da década de 90, Roberta Miranda vendeu milhões de cópias dos discos que editou pela extinta gravadora Continental, tendo debutado na carreira fonográfica em 1986 com o álbum que destacou a música São tantas coisas (Roberta Miranda). No ano seguinte, impulsionado pelo sucesso de Vá com Deus (Roberta Miranda), o álbum Roberta Miranda (1987) inseriu a cantora no seleto clube dos artistas que atingem vendas superiores a um milhão de cópias de um único disco. Por isso mesmo, São tantas coisas e Vá com Deus figuram entre as 18 músicas do DVD 25 anos ao vivo em estúdio, registro de show - editado também em CD pela gravadora Som Livre - captado no estúdio NaCena, em São Paulo (SP), em 7 de janeiro de 2013. Na revisão de seus 27 anos de carreira, a cantora arredonda a data, apresenta três músicas inéditas - Lua de Angola (Roberta Miranda e Antônio Burity), Onde mora o coração (Roberta Miranda) e Quem sentiu (Roberta Miranda), gravada com Alcione - e dá voz a um sucesso de Roberto Carlos, Café da manhã (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1978). 25 anos ao vivo em estúdio já é a quarta gravação de show da artista.

Mergulho de Valéria nas águas de Clara tem profundidade variada em CD

Resenha de CD
Título: Em águas claras - Homenagem a Clara Nunes
Artista: Valéria Oliveira
Gravadora: Edição independente do artista
Cotação: * * 1/2

Se as 18 faixas do CD Em águas claras - Homenagem a Clara Nunes forem ouvidas na ordem disposta no oitavo álbum de Valéria Oliveira, a impressão inicial é a de que o tributo da cantora potiguar à mineira guerreira resultou óbvio. Afinal, sambas como Minha missão (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1981) e Canto das três raças (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, 1976) ressurgem em registros distantes anos-luz das gravações luminosas de Clara. Mesmo favorecida pela produção e pelos arranjos certeiros de Rildo Hora, produtor que domina o idioma do samba desde os anos 70 (embora com trabalho associado às discografias de Beth Carvalho e Martinho da Vila, e não à obra de Clara), a cantora nada acrescenta a um samba-enredo como Portela na avenida (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, 1981) - inclusive por estar distante do samba e do universo carnavalesco do Rio de Janeiro (RJ) - ou a um samba como O mar serenou (Candeia, 1975). Contudo, Valéria selecionou repertório que, embora pontuado por sucessos óbvios, também reaviva músicas do repertório de Clara já esquecidas na poeira da estrada. As duas partes da Puxada de rede do xaréu (Maria Rosita Salgado Góes) - gravadas pela mineira em seu álbum de 1971, Clara Nunes - são exemplos de que o disco cresce quanto mais profundo for o mergulho de Valéria nas águas de Clara. Evocando o cancioneiro marítimo de Dorival Caymmi (1914 - 2008), Puxada de rede do xaréu I e II fazem emergir o universo afro-brasileiro que banhou a obra da Guerreira nos anos 70. Outra pérola pescada por Valéria é Jardim da solidão, samba de Monarco que tem sua melancolia realçada pelo bandolim de Alexandre Moreira no registro feito com as presenças ilustres do próprio compositor e de integrantes da Velha Guarda da Portela. O mesmo bandolim de Moreira se harmoniza com o trompete de Jubileu Filho na buarquiana À flor da pele (Maurício Tapajós, Clara Nunes e Paulo César Pinheiro, 1977), outra joia que Valéria pesca nas águas de Clara. Merecem também menção as gravações de Você passa eu acho graça (Ataulfo Alves e Carlos Imperial, 1968) - primeiro sucesso de Clara, revivido por Valéria em arranjo valorizado pelo toque da gaita do produtor Rildo Hora - e Apenas um adeus (Edil Pacheco, Roque Ferreira e Paulinho Diniz, 1979), belo samba que, a título de curiosidade, foi a primeira música de Roque Ferreira a ganhar registro em disco. Já o baião Alvoroço no sertão (Aldair Soares e Raymundo Evangelista, 1966) - gravado por Clara no álbum Canto das três raças (Odeon, 1976) - puxa a rede para o mar do Nordeste, região natal de Valéria Oliveira, cantora menos vocacionada para temas mais dramáticos como Basta um dia (Chico Buarque, 1976). Com delicadeza, a sanfona da Zé Hilton também dá tom nordestino ao lamento exposto em Casinha pequenina, tema de domínio público gravado por Clara em seu álbum A beleza que canta (Odeon, 1969) e revivido com precisa melancolia por Valéria. O tema é outro exemplo da viabilidade de saudar Clara Nunes sem recorrer aos mesmos sucessos de sempre. Valéria Oliveira emerge mais forte dos mergulhos mais fundos que dá no bem-vindo CD Em águas claras. Nos hits, fica no raso...

Quente em cena, Ellen Oléria reitera personalidade forte com voz e com suor

Resenha de show
Título: Ellen Oléria
Artista: Ellen Oléria (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Studio RJ (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 19 de julho de 2013
Cotação: * * * *

 "Sou quente", ressaltou Ellen Oléria no palco do Studio RJ através de verso de Cuba (Otto e Chorão, 2011), uma das 18 músicas incluídas pela cantora e compositora de Brasília (DF) no roteiro do show de lançamento do terceiro disco. Enquanto dava voz e suingue black aos versos "Sou quente, sou quente / Quente, quente, quente / Sorridente até os dentes", cantados pelo pernambucano Otto no álbum Condom black (Trama, 2001), Oléria enxugou o suor do rosto em gesto teatral. Um jogo de cena desta cantora no show que chegou ao Rio de Janeiro (RJ) na noite de sexta-feira, 19 de julho de 2013, com roteiro baseado no recém-lançado terceiro CD da artista, Ellen Oléria (Universal Music, 2013). Projetada em escala nacional a partir da vitoriosa participação na primeira temporada do programa The Voice (TV Globo, 2012), Ellen Oléria mostrou neste primeiro disco de repercussão - os anteriores Peça (2009) e Ao vivo no Garagem! (2011), este assinado com o grupo Pret.utu, tiveram visibilidade restrita à cena black frequentada pela artista - ser mais do que uma voz. Por trazer gravações de músicas conhecidas como Taj Mahal (Jorge Ben Jor, 1972), sucesso que encerra o show, o CD Ellen Oléria acena para a massa que virou fã da cantora na atração global, versão repaginada dos velhos programas de calouros. Contudo, ao mesmo tempo, o disco reitera a personalidade de Oléria - cantora que descende da nobre linhagem funk / soul nacional, flertando naturalmente com o rap na efervescente Testando (Ellen Oléria, 2009) - através dos temas autorais da artista, que investe na produção como compositora desde o primeiro disco. Em cena, a voz e o suor foram postos a serviço do suingue de músicas como a vibrante Mudernage (Ellen Oléria, Emicida e Adalvêncio Oléria, 2011), tema inspirado pelas críticas do pai da cantora a uma apresentação da filha. O show confirmou as qualidades de Oléria. Balada de espírito soul lançada pela cantora no disco Peça, regravada no CD/DVD Ao vivo no Garagem! e registrada pela terceira vez no álbum Ellen Oléria, Não lugar (Ellen Oléria, 2009) se destacou na produção autoral da compositora. E, claro, está no show. "Vamos falar de amor", avisou Oléria em cena, antes de entoar a canção. Córrego rico (Ellen Oléria, 2013) é outra boa balada presente no roteiro e, tal como no disco, evocou de imediato o estilo bucólico de algumas músicas cantadas por Maria Gadú. No entanto, é como intérprete que Oléria mais se agigantou em cena. Sob a direção do guitarrista Pedro Martins, um dos integrantes da banda Pret.utu, a cantora se revelou grande com voz que fez ressoar o canto dos ancestrais africanos. Além da intimidade com a Música Preta Brasileira, termo cunhado pela antecessora Sandra de Sá, Ellen Oléria é cantora que domina a cena. Quando refez o roteiro cinematográfico da tropicalista Domingo no parque (Gilberto Gil, 1967), no toque do pandeiro e na cadência das programações pilotadas pelo tecladista Felipe Viegas, a cantora foi senhora absoluta dessa cena. A abordagem de Domingo no parque - linkada no roteiro com outra música antenada de Gilberto Gil, Parabolicamará (1992) - é exemplo da personalidade forte de Ellen Oléria como intérprete. Ela não dá voz a músicas alheias como cantora de barzinho. Há alma e verdade no canto da artista, como ficou evidenciado no arranjo eletrônico que afiou Fé cega, faca amolada (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1974) na abertura do show. É por isso que Zumbi (Jorge Ben Jor, 1973) - música que já frequentava o repertório de Oléria antes do The Voice - soou tão pungente na abertura do bis. A luta é árdua, mas Oléria é dura na queda, como ressaltou através dos versos resistentes de Caxangá (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1977). "Quem não é sincero sai da brincadeira correndo / ... / Em tudo é o mesmo suor", ressaltou por meio dos versos de Brant. Sincero, o canto de Ellen Oléria se recusa a ser nuvem passageira. Talvez Oléria até volte para o gueto, mas de cabeça erguida, com uma certa magia, sem ter negado no disco e show a força da própria raça.