Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Biografia alentada inventaria glórias e misérias do bamba Wilson Baptista

Resenha de livro
Título: Wilson Baptista - O samba foi sua glória!
Artista: Rodrigo Alzuguir
Editora: Leya / Casa da Palavra
Cotação: * * * * *

Por conta do faro apurado do cantor e compositor carioca Paulinho da Viola para detectar grandes sambas do passado, muitos ouvintes de discos descobriram que a obra do compositor fluminense Wilson Baptista (1913 - 1968) não se restringe aos sambas pouco inspirados da malandra disputa musical (e não uma briga movida a ódio, como tem se propagado erroneamente) travada em 1933 com o compositor carioca Noel Rosa (1910 - 1937) - luta na qual Baptista foi nocauteado pelo genial Noel. Ao dar voz na primeira metade da década de 1970 a obras-primas como Meu mundo é hoje (Eu sou assim) (Wilson Baptista e José Baptista, 1965) e Nega Luzia (Wilson Baptista e Jorge de Castro, 1956), regravadas nos seus álbuns A dança da solidão (1972) e Nervos de aço (1973) respectivamente, Paulinho da Viola jogou luz sobre a inspiração de um grande compositor que saíra de cena em 1968, pobre e esquecido, sem receber as flores em vida. Um compositor trabalhador, que deixou cerca de 600 músicas feitas entre as décadas de 1930 e 1960. Várias foram vendidas no comércio informal instituído entre compositores com músicas (mas sem dinheiro às vezes para as necessidades mais básicas) e aproveitadores sem inspiração (mas com dinheiro suficiente para comprar a alheia). A vida de Wilson Baptista rendeu livro à altura da importância e da grandiosidade de sua obra. Wilson Baptista - O samba foi sua glória! é biografia alentada. Em empreitada de fôlego, que consumiu uma década de pesquisa sobre a vida e obra do compositor nascido em família musical de Campos de Goytacazes (RJ), o escritor, músico, ator e compositor carioca Rodrigo Alzuguir apresenta a biografia definitiva de Wilson Baptista. Além de ser dono de texto estiloso e fluente, o autor teve o zelo de não apresentar verdades absolutas - pecado de vários biógrafos. Quando há mais de uma versão sobre um fato, e não é possível apurar qual a verdadeira (sobretudo nas até então desconhecidas passagens da infância de Baptista em Campos e da sua vinda para o Rio na década de 1920, aos 13 anos, como viajante clandestino em trem que transportava vacas), Alzuguir tem o cuidado de expor todas elas. E de admitir eventualmente a incapacidade de elucidar uma questão, como a possível rusga entre Baptista e a cantora carioca Aracy de Almeida (1914 - 1988), intérprete original do samba Louco (Ela é seu mundo) (Wilson Baptista e Henrique de Almeida, 1947). O livro é extremamente bem escrito. Abstêmio e sem conexão com a vida do morro, o que contraria dois estereótipos associados aos sambistas surgidos no Rio de Janeiro (RJ) nos anos 1930, Baptista teve que se virar no ambiente malandro do Centro da cidade em que amargou misérias, mas também conheceu a glória a partir do sucesso de seu samba Oh, seu Oscar!, composto em parceria com o compositor mineiro Ataulfo Alves (1909 - 1969) e lançado em 1939 na voz do cantor carioca Cyro Monteiro (1913 - 1973). O foco do livro é sempre Wilson Baptista, mas, ao reconstituir os passos de seu biografado, Alzuguir acaba montando sedutor painel do boêmio Rio de Janeiro do teatro de revista, da mítica Lapa e da era dourada do rádio e da implantação da indústria do disco. O inventário completo da ainda pouco conhecida obra do compositor de Chico Brito (Wilson Baptista e Afonso Teixeira, 1950) e Emília (Wilson Baptista e Haroldo Lobo, 1941) - entre outros sambas que fizeram crônicas  de personagens e costumes do Rio de Janeiro do bamba Wilson Baptista - valoriza (ainda mais) uma das melhores biografias publicadas no Brasil.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Disco duplo dá dimensão nacional ao samba carioca de Wilson Baptista

Resenha de CD
Título: O Samba Carioca de Wilson Baptista
Artista: Claudia Ventura, Rodrigo Alzuguir e convidados
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *

Originado de um espetáculo de teatro protagonizado por Claudia Ventura e Rodrigo Alzuguir, o disco duplo O Samba Carioca de Wilson Baptista dá dimensão nacional à obra de um compositor que caiu em injusto esquecimento. Produzido por Alzuguir sob a direção musical de Nando Duarte, o oportuno  projeto fonográfico registra 89 músicas de Wilson Baptista (1913 - 1968) - selecionadas dentro de obra autoral estimada em mais de 600 títulos - e mostra que o compositor merece ser lembrado sobretudo por seus (bons) sambas e não apenas pela (infeliz) polêmica travada com Noel Rosa (1910 - 1937) nos anos 30. O CD 1, Reserva Especial, apresenta gravações de sambas raros - alguns até inéditos - nas vozes de cantores convidados. Com seu suingue que extrapola fronteiras, Elza Soares realça todas as nuances de Artigo Nacional (Wilson Baptista e Germano Augusto), composição de 1940 que transita entre o samba e o fox. O tema nunca tinha sido regravado após seu registro original - assim como Apaguei o Nome Dela (Haroldo Lobo, Wilson Baptista e Jorge de Castro), samba de 1945, ora revivido por Marcos Sacramento, cantor recorrente no CD 1. Também recorrente na ficha técnica, Cristina Buarque está inteiramente à vontade no partido alto O Teu Riso Tem (Roberto Martins e Wilson Baptista, 1938), no samba Venha Manso (O Tambor do Edgard) (José Baptista e Wilson Baptista, 1948) e no interiorizado tema Timidez (1954), faixa que destaca o piano do arranjador Marcelo Caldi. Destoando do afiado time de intérpretes, Céu empalidece Nega Luzia (Wilson Baptista e Jorge de Castro), samba lançado em 1956 por Cyro Monteiro (1913 - 1973) e adensado por Paulinho da Viola em magistral gravação de 1973. Com sua bossa particularíssima, Rosa Passos repõe o disco nos trilhos ao regravar Oh, Dona Ignez! (Wilson Baptista e Marino Pinto), samba de 1949, até então esquecido. Na sequência, Zélia Duncan apresenta o melhor título da (ótima) safra de sambas inéditos revelados por Rodrigo Alzuguir, Que Malandro Você É!, tema de 1956 que ganha seu primeiro registro fonográfico em 55 anos. Entrosados, Nina Becker e Wilson das Neves retratam as mazelas conjugais a partir da ótica da mulher - representada por Nina, intérprete do inédito samba Interessante (Wilson Baptista e Erasmo Silva, 1946), unido em medley com Essa Mulher Tem Qualquer Coisa na Cabeça (Cristóvão de Alencar e Wilson Baptista, 1942). Também inédito, o samba Não me Pise o Calo (Wilson Baptista e Carlos de Souza) ganha tom rural no registro de Mart'nália. Outro samba que tem seu primeiro registro fonográfico - no caso, na voz de Tantinho da Mangueira - é Rei Chicão, composto somente por Wilson há mais de 40 anos, com letra que já expõe a criação de poder paralelo nos morros e favelas. Fora da roda de samba, mas dentro da fronteira carioca, Reserva Especial destaca ainda a inédita e linda marcha-rancho Nelson Cavaquinho (Wilson Baptista e Manoel Pereira de Andrade), feita em tributo ao homônimo compositor. Com menor valor documental, embora também registre sambas inéditos como Transplante de CoraçãoBalzaquiana (La Balzacienne), o CD 2, O Espetáculo, amplia o valioso painel da obra do compositor ao reconstituir o roteiro do musical protagonizado por Claudia Ventura e Rodrigo Alzuguir. Em 24 faixas, algumas com falas, os atores apresentam 55 títulos da obra de Wilson Baptista de Oliveira, compositor que fez samba à moda carioca, com direito a um reconhecimento nacional que começa a vir com este projeto de Rodrigo Alzuguir.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Zélia, Céu, Elza e Rosa cantam o samba carioca de Wilson Baptista em disco

♪ Samba inédito de Wilson Baptista (1913 - 1968), encontrado pelo pesquisador Rodrigo Alzuguir ao fazer o levantamento da obra do compositor, Que malandro você é! ganha seu primeiro registro fonográfico na voz de Zélia Duncan, no tributo duplo O samba carioca de Wilson Baptista, nas lojas pela gravadora Biscoito Fino neste mês de maio de 2011. O disco celebra a obra do autor de sucessos dos anos 40 e 50 como Emília, Louco (Ela é o seu mundo) e O bonde de São Januário. No disco 1, Reserva especial, títulos bem raros da obra de Wilson Baptista são ouvidos em gravações inéditas de nomes como Céu (Nega Luzia), Elza Soares (Artigo Nacional), Rosa Passos (Oh, Dona Ignez!), Nina Becker (Interessante - samba do repertório de Dircinha Batista (1922 - 1999) que a cantora carioca não chegou a gravar - e Essa mulher tem qualquer coisa na cabeçalinkados em faixa que reúne Nina e Wilson das Neves),  Mart'nália (Não me pise o calo), Tantinho da Mangueira (Rei Chicão, samba encontrado por Alzuguir em fita caseira), Teresa Cristina (Nelson Cavaquinho, marcha-rancho em tributo ao homônimo compositor), Cristina Buarque (O teu riso tem, Timidez e Vinte e cinco anos), Marcos Sacramento (Apaguei o nome dela, Fantoche, O princípio do fim e Não sei dar adeus) e Roberto Silva (medley com Vedete, Felicíssimo e Vagabundo - sambas lançados pelo próprio Roberto Silva nos anos 50). Já o disco 2, O espetáculo, registra a trilha sonora do musical O samba carioca de Wilson Baptista, encenado e protagonizado por Claudia Ventura e Rodrigo Alzuguir no Rio de Janeiro (RJ). CD refaz o roteiro da peça nas vozes dos atores.