Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Sem o frescor de antes, Roberta Sá recai no samba na lira plácida de 'Delírio'

Resenha de CD
Título: Delírio
Artista: Roberta Sá
Gravadora: MP,B Discos / Som Livre
Cotação: * * *

A lira plácida de Delírio contradiz o título extasiante do sexto álbum oficial de Roberta Sá, lançado neste mês de outubro de 2015. Em que pese o clima carnavalizante da música-título Delírio, bom samba inédito do compositor carioca Rafael Rocha (baterista do grupo Tono) com o qual a cantora põe o bloco e o disco na rua com clipe que evoca o filme do cineasta fluminense Walter Lima Jr. A lira do delírio (Brasil, 1978), o disco transcorre majoritariamente em tons pastéis, sem o êxtase insinuado no título. Já não há, em grande parte das faixas, o frescor e a vivacidade que pautaram o canto desta artista potiguar radicada na cidade do Rio de Janeiro (RJ) desde a adolescência. Para quem acompanha a discografia da cantora desde Braseiro (MP,B Discos / Universal Music, 2005), irretocável álbum lançado há uma década, Delírio é o segundo ponto mais baixo da obra fonográfica de Roberta Sá, perdendo somente para o seminal e titubeante Sambas & bossas (Independente, 2004), o primeiro real álbum da cantora, gravado para ser distribuído como brinde de empresa e nunca editado de forma comercial. Nem por isso Delírio deixa de ser um bom disco porque há um padrão mínimo de qualidade em cada uma de suas 11 faixas. A abertura com Meu novo Ilê - graciosa parceria de Moreno Veloso e Quito Ribeiro que alude ao universo afro-baiano em arranjo que remete às mornas de Cabo Verde - sinaliza de cara a boa qualidade do disco, que versa sobre diferentes estágios do amor. A questão é que Delírio jamais fica à altura dos grandes álbuns lançados pela cantora de Braseiro para cá. O problema jamais reside na produção sempre elegante de Rodrigo Campello - ainda que talvez já esteja na hora de Roberta Sá arriscar outro produtor e outra sonoridade. Compostas em maior parte com inspiração, as 11 músicas do repertório tampouco respondem pelo fato de Delírio jamais extasiar como obra, embora esteja repleto de bons momentos. A questão está na liga frágil entre cantora e repertório. Há momentos em que o disco soa morno - algo que nunca havia acontecido nos álbuns oficiais de Roberta Sá. Exemplo é o samba buarquiano Se for para mentir (Cezar Mendes e Arnaldo Antunes, 2011), lançado na voz da cantora paulistana Luciana Mello há quatro anos e ora revivido por Roberta em dueto com Chico Buarque. A presença de Chico valoriza a gravação sem alterar o tom plácido da maior parte deste disco pautado pelo samba. Sim, Roberta recai no samba com elegância serena em Delírio após se descolar do gênero em seu álbum anterior, Segunda pele (MP,B / Universal Music, 2012). Mas nem sempre se mostra a intérprete mais adequada para os sambas que escolheu. Presente de Adriana Calcanhotto, compositora contaminada pelo micróbio do samba nestes anos 2010, Me erra parece o típico samba produzido em série linear pela artista gaúcha para o disco que dedicou ao gênero em 2011. Mas o refrão é forte, pop e manda um recado que Roberta não transmite com a força pedida pelo samba. Nada que se compare, contudo, à apatia da interpretação de Última forma (1972), samba que Baden Powell (1937 - 2000) e Paulo César Pinheiro fizeram para Elis Regina (1945 - 1982) deitar e rolar, mas que a Pimentinha não gravou, tendo sido lançado em 1972 por Elizeth Cardoso (1920 - 1990) e pelo grupo MPB-4 (no mesmo disco, aliás, em que Roberta pescou a faixa-título Cicatrizes para o repertório de Braseiro). Recado desaforado para o ser amado, Última forma é tema para cantoras de vozes ardidas. Introduzida em tom lírico pelo violoncelo de Jaques Morelenbaum, a regravação sem vida de Roberta não dá esse recado. O que não deixa de ser surpreendente na discografia de uma cantora que sempre primou pela vivacidade e pela leveza de seu canto. A placidez do samba Feito um Carnaval (Rodrigo Maranhão) também parece contradizer letra que versa sobre um amor de Carnaval que, contra todos os prognósticos pessimistas, dribla a ilusão da folia e se mostra mais duradouro do que uma chuva de verão. Contudo, há faixas mais ajustadas ao tom calmo do disco. Primeiro dos três sambas de Cezar Mendes alocados na ordem do álbum, Um só lugar - inédita parceria do compositor baiano com o jovem carioca Tom Veloso - prima pela beleza, com algo de Bossa Nova e algo de samba-canção. Na sequência, outro samba inspirado de Mendes - Não posso esquecer o que amor me faz, feito com versos do poeta baiano José Carlos Capinam - emula o clima e a cadência bonita dos sambas da Velha Guarda. A sensualidade dengosa de Amanhã é sábado - samba inédito de Martinho da Vila, gravado por Roberta em dueto com o cantor e compositor fluminense - também está em sintonia com o espírito sossegado do disco. É um samba que fala de coisas de casal sob ótica feminina. De acordo com Martinho, Amanhã é sábado dá voz a mulher do nego que chegava de porre em Disritmia, só que o samba de 2015 jamais empolga com o engenhoso samba de 1974. Por ironia, um dos destaques deste disco de sambas é um samba de 1938, Covardia (Ataulfo Alves e Mário Lago), que Roberta transforma em fado com naturalidade em gravação feita em Lisboa - em dueto com o cantor português António Zambujo - com a guitarra portuguesa de Bernardo Couto. Há na melancolia de Covardia e na animação pagodeira de Boca em boca - samba assinado por Roberta Sá (compositora bissexta) com Xande de Pilares e gravado com o banjo de seu parceiro - a vida e a energia vital que parecem escassear em vários momentos do disco. Embora conduzida por serenidade que jamais perde a elegância, a amorosa lira do Delírio de Roberta Sá se desvia do êxtase, surpreendendo quem conhece as possibilidades e a estupenda discografia pregressa desta inteligente cantora que sempre girou com graça na renda.

domingo, 4 de outubro de 2015

'Delírio', o sexto álbum de Roberta Sá, sai simultaneamente em CD e em vinil

Sexto álbum oficial da discografia da cantora Roberta Sá, Delírio tem lançamento programado nas plataformas digitais para 9 de outubro de 2015. Na sequência imediata, o álbum - lançado em edição do selo MP,B Discos distribuída em escala nacional pela gravadora Som Livre - chega ao mercado fonográfico simultaneamente nos formatos de CD e de vinil, fabricado pela Polysom com as mesmas onze faixas do disco produzido por Rodrigo Campello. Clique aqui e conheça as músicas.