Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


Mostrando postagens com marcador Valéria Lobão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Valéria Lobão. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de janeiro de 2015

Valéria mistura cores da obra do poeta da Vila em 'Noel Rosa, preto e branco'

Resenha de CD
Título: Noel Rosa, preto e branco
Artista: Valéria Lobão
Gravadora: Tenda da Raposa
Cotação: * * * 1/2


O título do segundo álbum solo da cantora carioca Valéria Lobão, Noel Rosa, preto e branco (2014), sugere ao menos três significados. O mais aparente é o que relaciona o "preto e branco" do nome do disco duplo às cores das teclas do piano, único instrumento usado na abordagem de 22 músicas do cancioneiro do compositor carioca Noel de Medeiros Rosa (11 de dezembro de 1910 - 4 de maio de 1937). Outro sentido para o título poderia ser o fato de que, a grosso modo, Noel Rosa foi um branco de classe média que se aventurou a compor sua obra no então nascente ritmo surgido da musicalidade dos pretos cariocas - o samba e seus derivados. Por fim, o título Noel Rosa, preto e branco também pode sinalizar o fato de que Valéria Lobão e os 22 pianistas convidados do álbum, a rigor, tocam uma música de preto num ambiente musical de branco, já que o tom camerístico do disco sugere um salão de música de ambiente mais formal, importado da Europa pelo Brasil dos tempos imperiais. Seja como for, Valéria Lobão faz com seu canto límpido - de emissão precisa como o toque dos 22 pianistas arregimentados para o disco - abordagem interessante da obra de Noel, com o mérito de tirar verdadeiras joias do baú do compositor. São pérolas como o fox-canção Julieta (Noel Rosa e Erastótenes Frazão, 1931) - repaginado com ênfase na melancolia dos versos em registro melodioso que junta a voz da cantora ao piano de Rafael Martini - e o samba-canção Suspiro, feito por Noel em parceria com o compositor carioca Orestes Barbosa (1893 - 1966) na década de 1930 em ano ignorado. Valéria reaviva Suspiro - anos após as gravações pouco ouvidas das cantoras Aracy de Almeida (1914 - 1988) e Isaura Garcia (1923 - 1993) - com arranjo e piano de Gabriel Geszil. É fato que, no registro pianístico do disco produzido por Carlos Fuchs, o cancioneiro de Noel adquire tom por vezes solene que se ajusta com maior ou menor precisão ao espírito da obra. No primeiro caso, está a gravação do samba Pra que mentir? (Noel Rosa e Vadico, 1937), feita com o piano de Vitor Gonçalves. No segundo, há o registro da marcha-rancho As pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934) que abre o CD 1 com notas salpicadas com leveza pelo piano divino de André Mehmari. Há faixas cujo arranjo pedia mais do que um piano, mais precisamente pedia uma percussão. É o caso de Positivismo (Noel Rosa e Orestes Barbosa, 1933), samba cantado por Valéria com o piano de Cliff Korman. Em contrapartida, há pianistas que tiram sons percussivos do instrumento. Fernando Leitzke, por exemplo, parece batucar nas teclas de seu piano quando toca o samba Eu agora fiquei mal (Noel Rosa e Antenor Gargalhada, 1931), título pouco conhecido do cancioneiro de Noel. Sons percussivos também ecoam no registro da ruralista Minha viola (Noel Rosa, 1929), faixa arranjada e tocada por Leandro Braga. A propósito, o poeta  eventualmente saía das fronteiras musicais de sua Vila e fazia incursões pelo universo caipira. Arranjada por André Mehmari com o piano de Roberto Fuchs, a sertaneja Sinhá Ritinha (Noel Rosa e Moacyr Pinto, 1931) - outra pérola tirada do baú por Valéria para selecionar repertório que mistura clássicos e raridades da obra do compositor - é exemplo da veia caipira de Noel. Cantora de afinação exemplar, treinada e exercitada no grupo vocal Equale, Valéria Lobão convidou alguns cantores para dividir com ela as interpretações das músicas de Noel. Joyce Moreno canta com a anfitriã o desconhecido samba Só pode ser você (Noel Rosa e Vadico, 1935). João Cavalcanti e Moyseis Marques se juntam a Valéria no samba Eu vou pra Vila (Noel Rosa, 1930), faixa de bissexta descontração no disco. Cantora em ascensão, Nina Wirti exercita a leveza na interpretação do pouco ouvido samba Eu sei sofrer (Noel Rosa, 1937). Já Mariana Baltar figura em outro samba, Pela décima vez (Noel Rosa, 1935). Enfim, por mais que soe eventualmente linear, no mesmo tom camerístico que dilui por vezes  a espirituosidade da obra do Poeta da Vila, o álbum duplo Noel Rosa, preto e branco reitera a precisão do canto de Valéria Lobão enquanto mistura as cores originais da obra de compositor que marcou a época dele com cancioneiro moderno, de valor perene.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

João Donato faz a 'Felicidade' de Noel ao tocar no disco de Valéria Lobão

João Donato gravou no estúdio Tenda da Raposa, no Rio de Janeiro (RJ), participação no disco duplo em que a cantora Valéria Lobão dá voz a raridades do cancioneiro do compositor carioca Noel Rosa (1910 - 1937) no toque de 22 pianistas. Donato pôs seu  piano e suingue em Felicidade, samba de 1932, assinado por Noel em parceria com o compositor carioca René Bittencourt (1910 - 1979). Gravado sob a direção musical do pianista Carlos Fuchs, o álbum Noel Rosa - Preto e branco já tem lançamento programado para o segundo semestre de 2014.

domingo, 1 de junho de 2014

Valéria Lobão canta pérolas de Noel com pianistas e vozes como a de Joyce

 A foto acima flagra a cantora Valéria Lobão com Joyce Moreno e com o pianista Rafael Vernet no estúdio Tenda da Raposa, no Rio de Janeiro (RJ), durante a gravação de faixa do álbum duplo Noel Rosa - Preto e branco. No disco, em fase de produção e com lançamento previsto para o segundo semestre de 2014, Lobão canta músicas do compositor carioca Noel Rosa (1910 - 1937) na companhia de 22 pianistas e de cantores convidados como João Cavalcanti, Joyce Moreno, Marcelo Pretto (do grupo paulista Barbatuques), Moyseis Marques e Nina Wirtti. Além de Rafael Vernet, o time estelar de pianistas é formado por Adriano Souza, André Mehmari, Carlos Fuchs, Claudio Andrade, Cliff Korman, Cristóvão Bastos, Duo Gisbranco (Bianca Gismonti e Claudia Castello Branco), Eduardo Farias, Fernando Leitzke, Fernando Merlino, Gabriel Geszti, Gilson Peranzzetta, Itamar Assiere, João Donato, Leandro Braga, Marcelo Caldi, Marcos Nimrichter, Rafael Martini, Robert Fuchs e Vitor Gonçalves. Sob a direção musical de Carlos Fuchs, Lobão dá voz ao cancioneiro de Noel com arranjos inéditos. O repertório inclui títulos pouco ouvidos da obra do Poeta da Vila. Entre eles, Eu agora fiquei mal (samba de 1931, composto por Noel em parceria com Antenor Gargalhada), Julieta (fox-trot, também de 1931, feito com Eratósthenes Frazão), Malandro medroso (samba de 1930), Sinhá Ritinha (tema sertanejo composto por Noel com Moacyr Pinto em 1931) e Suspiro (samba dos anos 1930, feito com Orestes Barbosa). Para finalizar Noel Rosa - Preto e branco, Valéria Lobão inscreveu o disco na plataforma de financiamento coletivo Catarse. Clique aqui caso se interesse em contribuir para viabilizar a edição do disco duplo de Valéria Lobão.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Ótima cantora, Valéria Lobão chama atenção em bom primeiro disco solo

Resenha de CD
Título: Chamada
Artista: Valéria Lobão
Gravadora: Olho do Tempo / Tenda da Raposa
Cotação: * * * 1/2

Integrante desde 1992 do grupo vocal Equale, a cantora carioca Valéria Lobão alça voo solo em Chamada com classe, estilo e um canto tão polido quanto seguro. A classe vem tanto da voz apurada da intérprete quanto da produção de Carlos Fuchs, marco inaugural do selo Tenda da Raposa, batizado com o nome do estúdio onde o CD foi formatado. A impressão é positiva já no samba que abre o disco. Metais arranjados por Jayme Vignoli com certa tensão adensam Fubá (Raphael Gemal e Isaac Chueke). Compositor carioca ainda não valorizado na medida de sua inspiração, Gemal é também autor - em parceria com Ricardo Szpilman - da faixa-título do álbum, Chamada, cuja letra expõe signos e símbolos da cultura afro-brasileira. Na sequência, Vivência - tema de Gilson Peranzzetta e Dori Caymmi, gravado por Sarah Vaughan (1924 - 1990) em seu álbum Brazilian Romance (1987) com o título de Obsession e sem a letra de Paulo César Pinheiro ora apresentada por Lobão -  tem sua bela melodia ambientada em clima jazzy em algumas passagens pelo piano de Peranzzetta. De caráter lírico que roça o onírico, Roma (Lili Araújo e Alegre Corrêa) se ajusta bem à voz límpida da cantora com a leveza que escasseia em alguns momentos. Noite (Paulo Baiano e Marcos Sacramento) é uma das faixas que conferem e densidade e peso a Chamada, tornando o disco cansativo em alguns momentos. Contudo, verdade seja dita, a delicadeza sofisticada da produção valoriza cada uma das 13 músicas interpretadas por Lobão. Tarde (Milton Nascimento e Marcio Borges) ganha um de seus melhores registros em Chamada. Em contrapartida, falta molho em Roda Baiana (Zé Paulo Becker e Tiago Torres da Silva) ao passo que o piano de Carlos Fuchs se revela suficiente em Uma Canção pra Ela, inédita do sempre inspirado Rodrigo Maranhão (outro compositor carioca ainda não incensado na medida da beleza de sua produção autoral sempre sedutora). Com seis longos minutos, Oração Perdida (Luiz Flávio Alcofra, Jayme Vignoli e Aldir Blanc) percorre em tom sacro a via-crúcis do amor. "O amor é meu pastor / Tudo me faltará", sintetizam os versos lapidares de Blanc, divididos por Lobão com Marcos Sacramento. Na sequência, Jongo de Vovó (Zé Paulo Becker e Paulo César Pinheiro) situa Chamada em algum lugar do passado rítmico da Nação brasileira onde também parece residir Ritual Profano, tema de Antonio Saraiva, encorpado pela percussão e voz de Pedro Luís e a Parede. Saraiva é o parceiro de Paulo Baiano no fecho do disco, La Dolce Vita - A Saideira!, tema adornado pelo acordeom de Bebê Kramer que acentua a sensação de que Chamada enredaria mais o ouvinte se durasse um pouco menos. Ainda assim, o disco chama atenção para o canto classudo de Valéria Lobão - dona de voz domada pela perfeição técnica.