Mauro Ferreira no G1

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domingo, 4 de outubro de 2015

Reverente, Faour ecoa os agudos e graves da 'Sapoti' em torrencial biografia

Resenha de livro
Título: Angela Maria A eterna cantora do Brasil
Autor: Rodrigo Fauor
Editora: Record
Cotação: * * * 

Na 216ª das 840 páginas da caudalosa biografia de Angela Maria escrita por Rodrigo Faour, o autor - jornalista e pesquisador musical carioca em atividade profissional desde os anos 1990 - conta que a cantora fluminense certa vez foi chamada pelo então presidente do Brasil Juscelino Kubitschek (1902 - 1976) à uma hora da madrugada somente para cantar Orgulho (Nelson Wederkind e Waldir Rocha, 1953) - o samba-canção que a artista lançara em 1953 em disco de 78 rotações por minuto editado pela gravadora Copacabana - numa festa frequentada por JK. "O motorista veio me pegar no hotel em que eu estava só que para eu cantasse Orgulho para ele numa festa em que ele estava. Mas não foi de graça, não. Ele me pagou", ressalta Angela, em depoimento para Faour. Acontecido na segunda metade da década de 1950, o caso contado em Angela Maria  A eterna cantora do Brasil - livro que a Editora Record põe no mercado neste mês de outubro de 2015 - exemplifica o poder dos agudos da voz de mezzo-soprano da Sapoti - assim apelidada por outro presidente do Brasil, Getúlio Vargas (1882 - 1954) - ao longo dos anos 1950. Quatorze anos após contar a saga de Cauby Peixoto (cantor fluminense contemporâneo de Angela, com quem teve cruzado seu caminho profissional há várias décadas) na biografia Cauby Peixoto - 50 anos da voz e do mito, livro editado pela mesma Record em 2001, Faour narra a vida e obra de Angela Maria em narrativa de fôlego, escrita em texto de tom por vezes tão kitsch quanto parte do repertório da cantora. Ao longo de uma introdução (a rigor, dispensável na função de enfatizar a importância de Angela) e de 23 capítulos que totalizam 770 páginas (as 70 restantes são ocupadas por discografia, filmografia, bibliografia, agradecimentos, índice onomástico e lista de sucessos da cantora), Faour mostra como Abelim Maria da Cunha - décima filha de um casal pobre residente no município fluminense de Conceição de Macabu - se transformou em Angela Maria e como a estrela Angela Maria, atualmente com 86 anos, atravessou períodos de altos e baixos ao longo de quase 70 anos de carreira iniciada nos dancings da cidade do Rio de Janeiro após seguir a via-crúcis dos programas de calouros. Faour repisa os passos mais importantes da vida de Angela em ordem cronológica, mesclando depoimentos colhidos em entrevistas - a de Angela conduz obviamente a narrativa, mas há falas de nomes como Milton Nascimento - com reproduções de reportagens e críticas de jornais e revistas publicadas a partir da década de 1950 (reproduzido em excesso, aliás, o material jornalístico parece ter guiado mais o pesquisador do que as entrevistas que fez). Revelação do rádio em 1952, a cantora atingiu seu pico de popularidade nos dourados anos 1950 e, já naquela época, teve seu repertório questionado por formadores de opinião, como Faour prova através de reproduções de críticas da época. Mesmo sendo uma das cantoras mais populares daquela década, em reinado dividido com colegas como Dalva de Oliveira (1917 - 1972) e Emilinha Borba (1923 - 2005), Angela ficou literalmente paralisada ao ficar frente a frente com Carmen Miranda (1909 - 1955) por iniciativa da Pequena Notável, como conta Faour - referendado por depoimento de Angela - em outro fato curioso relatado no livro. E por falar em Carmen, o show dividido pela Sapoti com o cantor e compositor baiano Dorival Caymmi (1914 - 2008), na boate Casablanca, também é assunto do livro. Assim como o sucesso avassalador de Escuta, música de Ivon Curi (1928 - 1995) lançada por Angela em disco de 1955. Faour também narra os casamentos cinematográficos da vida real da estrela, que, além de cantar, também atuava em filmes. A propósito, as curiosidades em torno da vida da artista tornam o livro mais saboroso, sem tom de diário oficial. Na página 302, por exemplo, Djavan relata para Faour que o fato de Angela ter lábios grossos atenuava o próprio incômodo do cantor e compositor alagoano com seus lábios igualmente espessos. "Um dia, recebi a notícia de que a Angela ia operar os lábios para diminuí-los. Fiquei em pânico", relembra Djavan, entre risos, no livro. Ao contrário do que tinha sido noticiado pelas colunas de fofoca da época, Angela não operou os lábios, mas, na época, foi parar no hospital por conta de apendicite e aproveitou para extirpar as amídalas que já lhe causam problemas. Quando a narrativa avança para os anos 1960, Faour enfatiza a queda de prestígio da cantora entre os críticos por conta da perda substancial de qualidade do repertório da Sapoti na década em que a Bossa Nova (surgida em 1958), a Jovem Guarda e a emergente MPB tornaram ultrapassados os ídolos surgidos na era do rádio. Antes mesmo do advento do pop da jovens tardes de domingo e da era dos festivais, Faour conta o desprezo dos críticos quando Angela voltou à gravadora RCA, em 1962, para gravar repertório melodramático dominado por músicas do compositor Adelino Moreira, caso do chá chá chá Garota solitária, um sucesso popular que somente aumentou o despeito dos críticos daquela época. Entre menções a discos e shows, como os feitos com Cauby Peixoto desde 1982, Faour também relata fatos da vida pessoal de Angela sem jamais deixar a biografia adquirir caráter sensacionalista. Mas tampouco se esquiva de registrar as uniões afetivas da cantora com homens que lhe provocaram aborrecimentos (um deles, José Kleber Lisboa, chegou a ter prisão decretada por estelionato em 24 de abril de 1967, como conta Faour na página 460 do livro) e até uma tentativa de suicídio confirmada por depoimento de Lana Bittencourt, amiga de Angela. Faour lembra também como a imprensa reagiu em tom marrom quando noticiou o envolvimento de Angela como o jovem (então com 18 anos) Daniel D'Angelo, união feliz nascida de um flerte em 1979 que driblou as descrenças das famílias de ambos e que perdura até hoje (além de marido, Daniel se tornou empresário da cantora). No fim do livro, Faour narra a fase outonal da carreira de Angela, pautada a partir dos anos 1990 por discos pontuais. É quando aparece, a partir da página 742, o fã Thiago Marques Luiz, que, embora na época inexperiente como produtor musical, viabilizou a volta da cantora ao mercado fonográfico com a edição, em 2003, de Disco de ouro (Lua Music), álbum equivocado até no título, típico de coletânea. Embora mal recebido pela crítica, o CD - no qual Angela dava voz a músicas de compositores estreantes em sua discografia, como Eduardo Gudin, Luiz Melodia e Lulu Santos -  propiciou o encontro de Angela com o produtor que a tem mantido em cena e nos estúdios de gravação, dando continuidade à história longeva, contada com justa reverência por Faour na torrencial biografia Angela Maria  A eterna cantora do Brasil.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Mundo de Dolores perde o fascínio em farta biografia de texto cansativo

Resenha de livro
Título: Dolores Duran - A Noite e as Canções de Uma Mulher Fascinante
Autor: Rodrigo Faour
Editora: Record
Cotação: * * 1/2

É fato que Dolores Duran (7 de junho de 1930 - 24 de outubro de 1959) foi mulher fascinante, à frente de seu tempo. Tanto na vida profissional -  área em que se impôs nos anos 50 como (excelente e poliglota) cantora e como compositora de escrita fina e coloquial que desafiava os padrões empostados da música romântica da época - quanto na pessoal. Adiléia Silva da Rocha quebrou tabus com sua vida libertária, tento enfileirado romances nos anos 40 e 50 - décadas moralistas e hipócritas que ainda reservavam às mulheres o papel coadjuvante de esposa dedicada às prendas do lar - e se envolvido com os ideais comunistas, além de ter trabalhado na fervilhante noite carioca dos anos dourados. Contudo, parte do fascínio dessa mulher pioneira na vida e na música - parceria de Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) em alguns clássicos da música brasileira e autora solitária de alguns outros tantos, como A Noite do Meu Bem (1959) - se perde ao longo das 560 páginas da farta biografia Dolores Duran - A Noite e as Canções de Uma Mulher Fascinante, escrita pelo pesquisador  musical Rodrigo Faour. A perda decorre do tom cansativo do texto do autor. Falta estilo e elegância à escrita de Faour para encarar a construção de texto de tal envergadura. Em contrapartida, seu trabalho irretocável como pesquisador valoriza o livro. Faour traça alentado perfil de Dolores, urdido através de entrevistas com a irmã da cantora - Irley da Silva Rocha, a Lela, fundamental na reconstituição dos principais fatos da infância e adolescência pobres de Dolores - e com cantores remanescentes daquela era musical. Aliadas às reproduções de reportagens e críticas publicadas em jornais e revistas da época, as entrevistas sustentam a narrativa. Somente a musicografia de Dolores publicada ao fim do livro (com a relação de todas as gravações de todas as músicas da compositora) já torna o livro recomendável para profissionais da indústria fonográfica - com a ressalva de que Faour omitiu a última gravação de Tome Continha de Você (Dolores Duran e Edson Borges), feita pela cantora Renata Gebara em seu segundo CD, Caixa de Música (Lab 344, 2011). Dados fonográficos à parte, Faour expõe no livro uma versão mais verossímil e menos romanceada da origem da letra de Por Causa de Você (Dolores Duran e Tom Jobim, 1957) e demole ao longo da narrativa a ideia recorrente de que Dolores Duran vivenciava no cotidiano a tristeza impressa em grande parte de suas letras. Os relatos alinhados do livro mostram que, a despeito de eventuais crises de melancolia, Dolores Duran foi pessoa alegre, espirituosa, não raro bem-humorada. Acima de humores, paira a perenidade do cancioneiro da compositora. Criada entre 1955 e 1959, a obra de Dolores totaliza somente 35 composições autorais, da qual apenas parte é efetivamente conhecida e tem sido regravada ao longo dos anos desde a precoce saída de cena da artista, aos 29 anos. Obra que por si só justifica a escrita de uma ou mais biografias de Dolores Duran (a jornalista Ângela Almeida prepara outra para 2013), grande compositora que também foi grande cantora, ainda não reconhecida nessa área na importância de seu talento, talvez justamente pela força de sua música sensível. Até por seu pioneirismo na pesquisa de vida pouco conhecida, Dolores Duran - A Noite e as Canções de Uma Mulher Fascinante é um trabalho de fôlego e de méritos. Ao competente trabalho de pesquisa, soma-se um caderno com fotos e reproduções de capas de revistas que ajudam a tornar críveis a narrativa e as personagens que povoaram a vida curta, porém intensa, de Adiléia da Silva Rocha, também conhecida pelo apelido de Bochecha. Tivesse o texto de Faour passado por revisão mais rigorosa, que depurasse seu estilo com a supressão de frases como "...Dolores foi se enrabichar por outro bofe, dessa vez um jovem mancebo..." (pág. 264), a biografia seria ótima. Tal como editado pela Record (com capa incrivelmente feia, aliás), o livro dilui boa parte do fascínio da vida, da noite e das canções de Dolores Duran.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Faour desvenda a noite e as canções de Dolores em biografia da artista

Cantora e compositora carioca de temperamento expansivo, de uma alegria inquietante e contrastante com a melancolia que pautou a maioria de suas músicas, Dolores Duran (7 de junho 1930 - 24 de outubro de 1959) tem sua vida e obra contadas pelo pesquisador musical carioca Rodrigo Faour em biografia. Dolores Duran - A Noite e as Canções de Uma Mulher Fascinante tem lançamento agendado para a primeira quinzena de novembro, pela editora Record. Faour detalha no livro o ecletismo da cantora, sua (obscura) militância comunista e os namoros com compositores como Billy Blanco (1924 - 2011) e João Donato - além de relatar as bissextas incursões da compositora de A Noite do Meu Bem e Solidão pelo cinema dos anos 50.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Faour faz para a Universal caixa com álbuns gravados por Fafá na Philips

O pesquisador musical Rodrigo Faour recebeu o sinal verde da gravadora Universal Music para produzir caixa com reedições dos álbuns gravados por Fafá de Belém na Philips entre 1976 e 1988. Os seis primeiros - Tamba Tajá (1976), Água (1977), Banho de Cheiro (1978), Estrela Radiante (1979), Crença (1980) e Essencial (1982) - formam o supra-sumo da discografia da cantora paraense. São discos de fase em que o repertório de Fafá mesclava romantismo e regionalismo em doses equilibradas. Já o sétimo título - Sozinha (1988) - é representativo da fase em que a intérprete já tinha aderido a um repertório populista de arquitetura bem trivial.

sábado, 26 de novembro de 2011

Exageros vocais e verbais tiram tesão da gravação do show 'Sexo MPB'

Resenha de DVD
Título: Sexo MPB - O Show
Artista: Rodrigo Faour e convidados
Gravadora: EMI Music
Cotação: * 1/2

Com o intuito de entregar a segunda edição do troféu Sexo MPB, o jornalista Rodrigo Faour idealizou festa-show no Centro Cultural Carioca, no Rio de Janeiro (RJ), em setembro de 2010. Captado ao vivo pela Carioca Filmes, o evento está sendo perpetuado no DVD Sexo MPB - O Show, editado pela EMI Music neste mês de novembro. Pelo caráter heterogêneo e curioso do time de convidados, o encontro poderia resultar sedutor se tivesse havido mais rigor na confecção dos arranjos - executados sob a direção musical do baixista Maurício Oliveira - e nas interpretações. Só que exageros vocais e verbais - do anfitrião e de quase todos os cantores chamados ao palco por Faour para receber seu troféu e cantar - pontuam a festa-show e tiram o tesão do espectador que não cultua o kitsch. Dos números musicais, o único que tem real valor documental é o de Alcione, que canta pela primeira vez ao vivo - lendo a letra - o samba Sabiá Marrom (Paul Mauriat, Pierre Delanoe, Totonho e Paulinho Rezende), sobra do álbum E Vamos à Luta (1980). Até a Faca de Fátima Guedes soa menos afiada na atmosfera informal do evento, mas a cantora e compositora enfrenta a missão com dignidade. Assim como Márcia Castro, intérprete de Vergonha (Luciano Salvador Bahia). Mas o exagero dá o tom. Cantores já fora da mídia e do mercado fonográfico aproveitam seus parcos minutos sob os holofotes para expor habilidades vocais. Eliana Pittman faz Chuva (Durval Ferreira e Pedro Camargo) cair pesada com tantos floreios jazzísticos inapropriados para a ocasião. Constrangedor em seus improvisos finais, o dueto de Cláudia e Perla em Os Amantes (Sidney da Conceição, Lourenço e Augusto César) - sucesso de Luiz Ayrão nos anos 70 - dilui todo o sentimento e eventual sensualidade da canção popular com tanto exagero. Lana Bittencourt - o exagero vocal em pessoa - faz de Bilhete (Ivan Lins e Vítor Martins) mera plataforma para a exposição de sua interpretação over. Estranha nesse ninho kitsch, Fernanda Abreu canta (mal) pot-pourri com sucessos da fase mais pop de Rita Lee - Mania de Você, Lança Perfume e Chega Mais - deixando a impressão de que era a cantora errada no lugar errado. Até porque falta a Fernanda a graça que ainda há em maior ou menor grau em Ângela RoRo (sem o habitual rigor estilístico ao cantar o samba Ai, que Saudades da Amélia) e em quatro das seis Frenéticas originais, convocadas por Faour para reviver É Que Nessa Encarnação Eu Nasci Manga (Luli e Lucina) e a deslocada Cantores de Rádio (de João de Barro e Alberto Ribeiro com Lamartine Babo). Com real espontaneidade, Edy Star desbunda ao cantar Claustrofobia (Roberto Carlos e Erasmo Carlos) e ainda tira sarro de Faour em cena ao revelar que os convidados são levados a cantar músicas escolhidas pelo anfitrião. Enfim, falta sensualidade a números feitos sem tesão.