Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O livro sobre o disco 'As quatro estações' é mais informativo do que analítico

Resenha de livro
Título: O livro do disco - As quatro estações (Legião Urbana)
Autor: Mariano Marovatto
Editora: Cobogó
Cotação: * * 

De todos os quatro títulos nacionais produzidos pela editora Cobogó para a série O livro do disco, o assinado pelo escritor, pesquisador, cantor e compositor carioca Mariano Marovatto é o de tom mais superficial. O autor mais reproduz informações críveis sobre o disco em questão - As quatro estações (EMI-Odeon, 1989), uma das obras-primas da banda brasiliense Legião Urbana - do que disseca as músicas do álbum mais espiritualista do grupo de Renato Russo (1960 - 1996), Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Mesmo tendo acesso a valioso material de arquivo sobre a gravação (14 fitas dentre as 86 cedidas por Dado que reproduzem todos os takes das 11 músicas do álbum e inclusive diálogos travados entre os músicos no estúdio), Marovatto jamais elabora um raciocínio próprio e aprofundado sobre o disco. Ao longo das 88 páginas do livro, há mais reproduções de entrevistas - uma foi feita com Dado especialmente para o livro - e informações da vida pessoal do autor do que uma análise propriamente dita do álbum. Há, claro, detalhes interessantes sobre a construção das músicas, sobretudo no que diz respeito às letras por vezes enigmáticas de Russo. Mas são detalhes dispersos em narrativa que flui somente porque o texto de Marovatto é bom. Mas é uma narrativa que, se dissecada com rigor, pouco acrescenta ao que um admirador atento da obra da Legião Urbana provavelmente já sabe. Em vez de tomar as rédeas do discurso e refletir sobre o álbum frente ao que apurou e ouviu, como fizeram outros autores de livros da série, Marovatto dá geralmente a palavra para Russo, reproduzindo falas de entrevistas do trovador que criava solitariamente, mesmo quando imerso no cotidiano elétrico de um estúdio de gravação. Para quem desconhece a discografia da Legião Urbana, o livro contextualiza bem a gestação de As quatro estações na história da banda e dá pistas valiosas sobre o método usado por Russo para criar letras como as de Há tempos (Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá), Monte Castelo (Renato Russo) e Pais e filhos (Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá). Aliás, a rigor, descontadas as informações da vida pessoal do autor e as excessivas citações de obras alheias, Marovatto produziu alentada reportagem sobre o angustiado álbum, mas não um livro de caráter realmente analítico sobre a luz jogada por  As quatro estações  no universo pop brasileiro.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Livro do disco 'LadoB LadoA' mostra como Rappa retratou cisões do Rio

Resenha de livro
Título: O livro do disco LadoB Lado A O Rappa
Autor: Frederico Coelho
Editora: Cobogó
Cotação: * * * * 1/2

Dos três inéditos títulos nacionais da primeira fornada de O livro do disco, série da editora carioca Cobogó em que álbuns emblemáticos da música brasileira são dissecados sob prisma musical e / ou social, o volume dedicado ao terceiro álbum do grupo carioca O Rappa é o mais interessante porque o autor do livro, o historiador e professor (de Literatura e Letras) Frederico Coelho, entendeu que é impossível analisar a fundo o melhor disco d'O Rappa sem contextualizar a criação de LadoB LadoA (Warner Music, 1999) na cena sócio-política da cidade do Rio de Janeiro (RJ) no fim do século XX. Sem recorrer à linguagem acadêmica, o que poderia distanciar o livro do público que consumiu o disco, Coelho é certeiro ao caracterizar o melhor álbum d'O Rappa como um reflexo das cisões que partiam ainda mais a cidade do Rio de Janeiro naquele ano de 1999. Cisões que dividiam a cidade não somente entre morro e asfalto, mas também em classes nem sempre oficializadas e em facções dentro das favelas dominadas e amedrontadas pelo tráfico de drogas. Em seu último disco como baterista e principal compositor do grupo, Marcelo Yuka deu voz, em suas letras, à parcela da população marginalizada. Sem pisar em terreno panfletário, Yuka partia em defesa da população oprimida nas vilas, filas e favelas - e nas duras cotidianas da polícia, assunto de Tribunal de rua (letra de Marcelo Yuka com música d'O Rappa), música que abre LadoB LadoA com groove formatado com toques de dub, scratches e um violão diplomado na escola básica de Jorge Ben Jor. Antes de analisar a fundo cada uma das doze faixas do disco, apontando com propriedade o deslocamento de Favela (letra de Marcelo Falcão e Xandão com música d'O Rappa) no conceito geral de LadoB LadoA, o autor expõe o contexto social em que o disco foi criado e também a evolução da obra fonográfica do grupo em trajetória que culminou com a obra-prima de 1999. Antes de chegar a LadoB LadoA, a banda estreou com um álbum cru, O Rappa (Warner Music, 1994), e teve seu som lapidado pelo produtor Liminha no segundo disco, Rappa mundi (Warner Music, 1996), no qual a abertura de uma janela pop iluminou o cancioneiro do grupo com luz mais solar, de certa forma apagada pelas sombras de LadoB LadoA, disco dos hits Minha alma (A paz que eu não quero), Me deixa e O que sobrou do céu. Em qualquer tom, O Rappa fez som com linguagem carioca. Ouvia-se na sua música o groove e a língua das ruas. Coelho acerta ao enfatizar n'O livro do disco que, em essência, LadoB LadoA é o disco do oprimido que, ao levantar a voz sem a permissão de seu opressor, mudou a cara e o som do Rio.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Álbuns de Ben Jor, Tom Zé e Rappa são objetos da série 'O livro do disco'

Inspirada na coleção de livros 33 e 1/3, da editora norte-americana Bloomsbury, a editora Cobogó - criada em 2008 no Rio de Janeiro (RJ) para publicar livros sobre arte e cultura contemporânea - lança neste mês de dezembro de 2014 a série O livro do disco. A primeira fornada de livros da coleção inclui seis (ótimos) títulos. Três são estrangeiros e foram publicados originalmente na coleção norte-americana. Os outros três foram escritos especialmente para a série da Cobogó. São ensaios aprofundados sobre os álbuns A tábua de esmeralda (Philips, 1974), Estudando o samba (Continental, 1976) e Lado B Lado A (Warner Music, 1999). Sobre o disco de Jorge Ben Jor, um dos clássicos da discografia do cantor e compositor carioca, quem escreve é o pesquisador e crítico musical Paulo da Costa e Silva. Já o disco do cantor e compositor baiano Tom Zé é dissecado pelo professor de filosofia e músico Bernardo Oliveira. Por fim, o disco do grupo carioca O Rappa é analisado sob o prisma social e musical pelo historiador, ensaísta e professor de literatura Frederico Coelho. Cada livro custa R$ 32. Vale ler o livro do disco.