Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Janaina Fellini abre sua casa, construída por Villares e adornada por Letieres

Com capa criada pela artista gráfica Adriana Alegria a partir de ilustração de Pupillas, o segundo álbum da cantora paranaense Janaina Fellini, Casa aberta, chega ao mercado fonográfico neste mês de outubro de 2015. Produzido por Beto Villares e arranjado pelo maestro baiano Letieres Leite, o disco foi gravado com recursos obtidos no programa Rumos Itaú Cultural. A gravação foi feita ao longo de seis dias - de 19 a 25 de fevereiro deste ano de 2015 - em residência artística na chácara Asa Branca, situada em Campina Grande do Sul (PR), município do interior do Paraná. Além de produzir o disco, Villares pôs voz e violão em Árida (Janaina Fellini, Beto Villares, Estrela Leminski, Téo Ruiz e Bernardo Bravo), música composta durante a residência que gerou o disco, gravado com os músicos Alonso Figueroa (teclados e acordeom), Denis Mariano (bateria), Du Gomide (guitarra e viola), Glauco Solter (baixo) e Sérgio Monteiro Freire (sorpos). Já Letieres tocou flauta transversal em Preta (José Paes de Lira, 2006), música do repertório do extinto grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado, regravada por Janaina em Casa aberta entre duas releituras do cancioneiro do compositor paulista Itamar Assumpção (1949 - 2003) - Sutil (Itamar Assumpção, 1988) e Quem (Itamar Assumpção e Alice Ruiz, 1996) - e inéditas como Infinito efêmero (César Lacerda) e Promessa (Bruno Capinan e Luisão Pereira). A cantora também dá voz a uma música de Gilberto Gil lançada pelo grupo Doces Bárbaros em 1976, O seu amor. Eis, na ordem do disco, as dez músicas abrigadas pela artista em Casa aberta, álbum que sucede Janaina Fellini (Independente, 2012) na discografia da cantora, que debutou no mercado fonográfico há três anos:

1. Varanda (Alessandra Leão, 2009)
2. Infinito efêmero (César Lacerda, 2015)
3. O seu amor (Gilberto Gil, 1976)
4. Promessa (Bruno Capinan e Luisão Pereira, 2015)
5. É sempre bom se lembrar (Lucas Santtana, 2012)
6. Sol das lavadeiras (Zé Manoel e Mavi Pugliesi, 2012)
7. Árida (Janaina Fellini, Beto Villares, Estrela Leminski, Téo Ruiz e Bernardo Bravo, 2015)
8. Sutil (Itamar Assumpção, 1988)
9. Preta (José Paes de Lira, 2006)
10. Quem (Itamar Assumpção e Alice Ruiz, 1996)

domingo, 12 de outubro de 2014

'Goma-laca' fixa sons contemporâneos na matriz afro da música do Brasil

Resenha de CD
Título: Goma-laca - Afrobrasilidades em 78 RPM
Artista: Vários
Gravadora: Edição independente
Cotação: * * * 1/2

 Fabricados no Brasil de 1902 a 1964, os discos de 78 rotações por minuto eram produzidos a partir de mistura de cera de carnaúba com goma-laca em pó. Por isso, Goma-laca é o nome do núcleo criado em 2009 por Biancamaria Binazzi e Ronaldo Evangelista para pesquisar e revitalizar gravações antigas. Goma-laca é também o título do disco produzido por Evangelista sob direção musical de Letieres Leite, autor dos arranjos das onze gravações alinhadas neste álbum que desencava e areja a raiz africana na qual estão baseados os registros originais dos onze temas ouvidos no bom CD. Compositor, arranjador e maestro da Orkestra Rumpilezz, big-band baiana que conecta a música afro-brasileira ao jazz, Letieres consegue imprimir refinada contemporaneidade nas gravações do disco subintitulado Afrobrasilidades em 78 RPM para delimitar o período - centrado na primeira metade do século XX - no qual estão enraizados os temas. Letieres Leite, que toca flauta no disco, se junta a músicas da atual cena paulistana. Majoritariamente egresso dessa cena, o naipe de intérpretes  do álbum - Juçara Marçal, Karina Buhr, Lucas Santtana e Russo Passapusso - dá voz a esses temas com maior ou menor vigor e propriedade. O maior destaque do time de intérpretes é Juçara, ótima cantora paulistana que emergiu com força no início do ano com seu disco solo Encarnado (Independente, 2014). Por seu já pré-existente elo com temas que saúdam orixás, Juçara faz Exu e Ogum baixarem com força no terreiro contemporâneo de Goma-laca. De domínio público, os dois temas fazem parte do disco de 78 rotações Candomblé, gravado pelo grupo Filhos de Nagô e lançado em janeiro de 1931, em iniciativa pioneira de registrar temas africanos de origem iorubá. No fim do disco, Juçara se junta a Russo Passopusso - vocalista da banda BaianaSystem que acaba de lançar seu primeiro disco solo - na recriação de Cala boca, menino, tema oriundo do universo da capoeira, do qual se apropriou o centenário Dorival Caymmi (1914 - 2008), de maneira assumida, na composição da música originalmente gravada em 1973 por João Donato. Nessa faixa, o canto de Passapusso parece incorporar um preto velho, fazendo ressoar com força um lamento negro que ecoa com menor propriedade quando Passapusso dá voz a Batuque (Domínio público) e a Babaô Miloquê (Josué de Barros), dois temas que ganharam registros fonográficos em 1929. Os outros dois intérpretes escalados para Goma-laca - Karina Buhr e Lucas Santtana - trazem pouca ou nenhuma carga de ancestralidade em seus cantos. Tanto que o percussivo arranjo afro-indígena criado por Letieres para Guriatã (Domínio público) - cantiga do Norte registrada em disco em 1930 pelo cantor Ratinho com o grupo Batutas do Norte - se impõe na faixa sobre o canto de Buhr, que também segue a toada nordestina ao dar voz a Minervina (Domínio público), tema gravado originalmente por Vanja Orico em disco de 1954. Já Lucas Santtana chega a soar pop ao entrar no ritmo dos versos da embolada Não tenho medo, não (Almirante e Chico Catolé, 1936), embora também seja o comandante vocal de Vou vender meu barco (Valentim do Santos e Marinho Costa Lima, 1946), faixa que embute dissonâncias que tornam bravio o mar em que navega a canção praieira lançada em disco pelo Quarteto Quitandinha. Vozes à parte, Goma-laca cumpre seu objetivo ao fixar sons contemporâneos na matriz afro-brasileira da música produzida no século XX sem ranços folclóricos, mas sem sons modernosos. A cola dessas afrobrasilidades de 78 RPM são os arranjos do genial Letieres Leite.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Alê e arranjos de Letiere valorizam irregular safra de Viscardi em 'Orum'

Resenha de CD
Título: Orum
Artista: Giana Viscardi
Gravadora: Sonora Produções Artísticas
Cotação: * * 1/2

Terceiro álbum da cantora e compositora paulista Giana Viscardi, Orum é daqueles discos que, na teoria, parecem arrebatadores, mas, na prática, resultam decepcionantes. A produção musical de Alê Siqueira e a direção musical do baiano Letieres Leite - mentor da revolucionária Orquestra Rumpilezz e criador dos arranjos de base, de cordas e de sopros do álbum - são primorosos e valorizam o mergulho de Viscardi no universo musical afro-brasileiro. Contudo, nem a produção de Alê e tampouco a maestria de Letieres atenuam o fato de que Viscardi é melhor cantora do que compositora. Alocado na abertura do disco, o samba Calma (Michi Ruzitchka e Giana Viscardi) ainda se destaca na irregular safra autoral. Só que, à medida que Orum avança, fica evidente que o repertório alheio é mais inspirado, a exemplo do afro-samba Linda (Caê Rolfsen e Celso Viáfora), introduzido e pontuado pelo toque dos berimbaus de Ícaro Silva. Contudo, citando verso de Silêncio (Michi Ruzitchka e Giana Viscardi), a sucessão elegante dos sons das faixas reitera o apuro do disco - refinamento perceptível, por exemplo, no suingue jazzy dos sopros de À espera (Giana Viscardi) que evidenciam a habilidade de Letieres com o afro-jazz. Instrumento atípico e fundamental na tessitura percussiva de Orum, a atabaqueria - bateria formada por atabaques, pilotada por Kainã do Gêge - sustenta temas como 19 luas (Michi Ruzitchka e Chico César) e Saber amar (Giana Viscardi). Fora do universo afro-brasileiro, a Canção do amor que chegou - composta por Carlos Lyra com Vinicius de Moraes (1913 - 1980) para a trilha sonora da peça Pobre menina rica (1964) - é revivida por Viscardi em registro inusitado, feito com a adição do violoncelo de Jaques Morelenbaum. Sucessor dos álbuns Tinge (2002) e 4 3 2 1 (2005), Orum apresenta parceria de Chico César - padrinho artístico de Viscardi - com Dani Black, Calor, sem alterar sua temperatura morna. Arranjada somente com vozes, todas feitas por Viscardi e e combinadas por Letieres de forma criativa, a faixa final É só o que falta (Caê Rolfsen e Fabio Barros) encerra o álbum em grande estilo. Mas o fato é que, mesmo com alguns bons momentos, Orum tem repertório aquém do alto nível dos arranjos de Letieres Leite e da produção de Alê Siqueira. Viscardi fica devendo...