Mauro Ferreira no G1

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sábado, 22 de agosto de 2015

Obras de Roberto e Erasmo legitimam a Jovem Guarda semeada há 50 anos

EDITORIAL - Antes de Elvis Presley (1935 - 1977) acender a chama do rock'n'roll nos anos 1950 podia até haver nada, como entendeu e sentenciou John Lennon (1940 - 1980) em frase de efeito, mas o fato é que - pioneirismo da geração de Elvis à parte - o universo pop começou realmente a ser construído e solidificado na primeira metade dos anos 1960 com a explosão mundial do grupo inglês The Beatles. Foi no rastro da Beatlemania que a Jovem Guarda - o primeiro movimento de música pop do Brasil - foi semeada há exatos 50 anos, na tarde dominical de 22 de agosto de 1965, quando a TV Record estreou o programa Jovem Guarda sob o comando de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. A adesão da juventude ao programa e a consequente consagração de Roberto Carlos - que já vinha numa escala ascendente de sucesso desde 1964 - com o lançamento do rock Quero que vá tudo pro inferno (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1965), carro-chefe de seu álbum estrategicamente intitulado Jovem Guarda (CBS, 1965), detonou a explosão do movimento. A Jovem Guarda criou ídolos, ditou modas, sentenciou costumes e introduziu a guitarra elétrica na música brasileira para desespero da purista ala nacionalista que defendia uma música brasileira imune às influências do pop que dominava o mundo no embalo do iê-iê-iê. Mas a Jovem Guarda passou, embora ainda ecoe na canção popular brasileira, legitimada pelos cancioneiros de Roberto Carlos e Erasmo Carlos e pela força perene de eventuais canções românticas de lavra alheia como Devolva-me (Renato Barros e Lilian Knapp, 1966) - balada que toda a geração anos 2000 conheceu na voz de Adriana Calcanhotto - e Nossa canção (Luiz Ayrão, 1966). Decorridos 50 anos da sua explosão, analisada sob a perspectiva do tempo, a Jovem Guarda legou para a posteridade dois artistas geniais. Tanto que Roberto Carlos e Erasmo Carlos foram os únicos a manter real relevância artística após o fim desse movimento pautado por um rebeldia ingênua e apolítica que provocou revoluções mais na área comportamental do que social. Entronizado no posto de Rei da juventude, Roberto soube fazer a transição de forma exemplar parta o mundo adulto, a partir de 1968, e se tornou na década de 1970 o Rei da canção popular brasileira, com vendagens astronômicas de seus álbuns anuais. Mesmo sem o mesmo sucesso comercial do parceiro, Erasmo manteve acesa a chama do rock, mas experimentou outros ritmos, também sendo entronizado como um dos reis do universo pop brasileiro (e o tempo fez mais bem à música de Erasmo do que à de Roberto). Os demais artistas - de repertórios bastante irregulares, calcados em hits eventuais, não raro produzidos a partir de versões de baladas e rocks estrangeiros - migraram para o brega ou para o sertanejo. Nem mesmo Wanderléa, que chegou a lançar alguns álbuns antenados ao longo dos anos 1970, conseguiu manter o pique criativo e se desvincular do cancioneiro geralmente pop e pueril da Jovem Guarda. Roberto e Erasmo foram os gênios, os grandes protagonistas do movimento que se torna cinquentenário a partir deste mês de agosto de 2015. Houve importantes coadjuvantes entre cantores (Eduardo Araújo, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso), cantoras (Wanderléa, sobretudo e sobretodas, e Martinha), duplas (Leno & Lilian, Os Vips) e compositores (Carlos Imperial, creditado com parceiro de Eduardo Araújo em Vem quem que estou fervendo, sucesso de Erasmo em 1967). Mas quem deu consistência ao som da Jovem Guarda foram os discos,  as músicas e as personalidades carismáticas e cúmplices de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

sábado, 11 de julho de 2015

Lafayette & Tremendões evocam Jovem Guarda com safra de 'Nova Guarda'

Resenha de CD
Título: A Nova Guarda de Lafayette & Os Tremendões
Artista: Lafayette & Os Tremendões
Gravadora: Discobertas
Cotação: * * *

O grande mérito do segundo álbum de Lafayette & Os Tremendões - grupo criado no Rio de Janeiro (RJ) em 2004 em torno da lendária figura do tecladista e organista carioca Lafayette Coelho Vargas Limp - é apresentar um repertório inédito e autoral que consegue evocar o universo da Jovem Guarda, musa inspiradora da existência do grupo. O pomposo título do disco, A Nova Guarda de Lafayette & Os Tremendões, insinua a proposta de um movimento seguidor das jovens tardes de domingo comandadas por Roberto Carlos há 50 anos. Mas tudo fica na intenção. Até porque nenhuma das dez inéditas do disco - produzido por Berna Ceppas e Renato Martins para o selo Discobertas, do pesquisador musical Marcelo Fróes, entusiasta da Jovem Guarda - tem cacife para se tornar um sucesso popular como as canções simples (às vezes até simplórias) e eficazes que formavam o repertório da Jovem Guarda (cancioneiro sustentado pela parceria magistral de Roberto Carlos e Erasmo Carlos). Lafayette & Os Tremendões são, na atual formação, Lafayette (teclados), Renato Martins (guitarra e voz), Melvin Ribeiro (baixo e voz), Nervoso (guitarra e voz), Gabriel Thomaz (guitarra e voz), Érika Martins (voz) e Raphael Miranda (bateria). Renato Martins é o principal compositor do grupo, seguido de Nervoso, seu parceiro em Só verão, uma das músicas que mais parecem reanimar o espírito da Jovem Guarda. Sozinho, Martins assina cinco das dez inéditas do CD. Vai bem em Eu tenho mil garotas (música cantada pelo próprio compositor) e em Tem quem quer (canção solada por Érika Martins, única mulher de um grupo essencialmente masculino, como se fosse a Wanderléa de Lafayette & Os Tremendões). Essas duas músicas foram feitas dentro do clima e do universo temático da Jovem Guarda. Em contrapartida, ainda que o disco tenha sido feito com a missão de (também) atualizar esse universo, Martins sai do tom com o carimbó Deixa que eu deixo, faixa que nada tem a ver com o iê-iê-iê essencialmente pueril e romântico da turma da Jovem Guarda. De todo modo, o toque dos teclados de Lafayette - marca registrada da maioria dos discos da Jovem Guarda - contribui para remeter o ouvinte ao som daquelas tardes dominicais. O som de Lafayette sobressai em músicas como Não vale mais nada (Gabriel Thomaz) e no tema instrumental que abre e batiza o CD, A Nova Guarda de Lafayette & Os Tremendões (Nervoso). Encerrado com música de Marcelo Callado, Decisão, o disco exala melancolia em Te vejo nos meus sonhos (Renato Martins) e em As canções da minha idade, tema em que seu compositor e intérprete Nervoso alude às músicas da Jovem Guarda com nostalgia reflexiva e a certeza tristonha de que aqueles tempos de juventude e ingenuidade não voltam mais.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Jovem Guarda completa 50 anos entranhada em toda a música brasileira

Editorial - A Jovem Guarda completa 50 anos em 2015. A rigor, o primeiro movimento de música pop do Brasil durou apenas três anos, começando em agosto de 1965 - mês em que a TV Record estreou o programa dominical comandado por Roberto Carlos com Erasmo Carlos e Wanderléa - e terminando em janeiro de 1968, não por acaso o ano em que o então Rei da Juventude saiu do comando do programa, tirado do ar logo depois. Mas o som das jovens tardes de domingo ainda ecoa pelo Brasil cinco décadas após seu apogeu. Como 1968, a Jovem Guarda foi o movimento pop que, de certa forma, não terminou com a extinção do programa. Trilha sonora de uma rebeldia juvenil artificial, pois monitorada pela sociedade conservadora da época, o som da Jovem Guarda está entranhado em toda a música popular brasileira. Há ecos da Jovem Guarda no som do cantor e compositor paulista Marcelo Jeneci, no pop rock do grupo carioca Autoramas, na música do carioca Luiz Melodia, na obra solo da amapaense-mineira Fernanda Takai, no brega do Nordeste, no tecnobrega do Norte e no universo pop sertanejo oriundo sobretudo do Centro-Oeste do Brasil, de Minas Gerais e do interior de São Paulo. Não é por acaso. Embora sustentada pelo magistral (e perene) cancioneiro composto por Roberto Carlos com seu amigo de fé Erasmo Carlos, a música da Jovem Guarda - veiculada da cidade de São Paulo (SP) para o Brasil nas ondas da TV Record - é essencialmente simples, pueril, pop, de arquitetura harmônica pobre. Só que, por isso mesmo, sedutora,  como o rock feito com meros três acordes. Às vezes, contagiante por conta justamente da simplicidade desse iê iê iê romântico que fez a Jovem Guarda logo conquistar a massa que ignorou a sofisticada e de início esnobe Bossa Nova que emergira nas águas da abastada Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro a partir de 1958. A música da Jovem Guarda foi - e ainda é - o som do Brasil. Roberto e Erasmo à parte, muitas canções da Jovem Guarda eram versões que diluíam o pop inglês - Beatles à frente - e o pop italiano propagado naqueles efervescentes anos 1960. Era o som ideal para uma massa teleguiada que ignorava tendências e modismos do universo pop - exceto os gerados pela própria Jovem Guarda - e que preferia a música mais simples, mais acessível. A música que fala a língua do povo. Mais ou menos o que acontece atualmente com o Brasil do pop sertanejo. Não, como 1968, a Jovem Guarda não terminou. É uma brasa, mora???!!!