Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


Mostrando postagens com marcador Clécia Queiroz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clécia Queiroz. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de maio de 2016

Com desenvoltura, Clécia Queiroz samba nos quintais do Recôncavo Baiano

Resenha de álbum
Título: Quintais
Artista: Clécia Queiroz
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * * *

Nascida em Ilhéus (BA), mas radicada em Salvador (BA) desde os 13 anos de idade, a cantora baiana Clécia Queiroz permanece com desenvoltura na roda dos sambas do Recôncavo. Sete anos após lançar disco com o cancioneiro autoral do compositor baiano Roque Ferreira, Samba de Roque (Independente, 2009), Clécia amplia mais a roda no terceiro álbum, Quintais, lançado de forma independente neste mês maio de 2016. Com sambas brejeiros como Anjo fugido (Roberto Mendes e J. Velloso) e Flor d'água (Samir Trindade), o ótimo repertório gira em torno do samba de roda do Recôncavo Baiano - oferecendo iguarias como Caruru (Samir Trindade) - mas abarca outros ritmos afro-brasileiros, como o ijexá que conduz a levada do medley Homenagem a Oxum, acoplado no disco a Salve Xangô, faixa-vinheta gravada com a voz do compositor do tema, Sú de Oiá. A roda rítmica do álbum é larga a ponto de abranger a delicadeza de Me salve de mim (Alexandre Leão, Manuca Almeida e J. Velloso) e a ternura lúdica de Pedra, papel e tesoura (Samir Trindade), faixa encorpada com coro infantil e com trecho da Cantiga do caminho, tema de domínio público. Em Águas de Oxum (J. Velloso e Roque Ferreira), Quintais também mergulha no balanço da chula em gravação feita com o toque do acordeom de Targino Gondim. Compositor de postura ferrenha na preservação dos ritmos do Recôncavo, Roque Ferreira é nome recorrente neste tradicional terceiro disco de Clécia Queiroz, cantora de voz suave que debutou no mercado fonográfico brasileiro há 19 anos com a edição do álbum Chegar à Bahia (Independente, 1997). Em Quintais, Roque é parceiro de J. Velloso no samba Areia branca, parceiro de Walmir Lima no manemolente Samba direitinho, parceiro da própria Clécia Queiroz na música-título Quintais - tema lírico que evoca a placidez rítmica do samba-canção criado no Rio de Janeiro dos anos 1920  - e, sozinho, assina Nobreza (incursão mais nítida da cantora pelo samba-canção) e o serelepe afro-samba Amurê, aditivado na gravação de Clécia com trecho do poema Essa nega fulô, de Jorge de Lima (1893 - 1953). Apesar do giro por outros ritmos, como o africano ilú, Quintais está fincado na roda do samba do Recôncavo, mas sem rigidez fronteiriças, como explicita a participação de Dona Nadir, voz do samba de Sergipe que canta Sodade, tema de domínio público, na introdução de Samba bom (Alexandre Leão e J. Velloso). A permanência na roda justifica inclusive o título do disco, pois é nos quintais das casas que os baianos da região se reúnem para cantar samba. Fechado com medley de sambas de roda de domínio público, o repertório de Quintais foi selecionado por Clécia com a colaboração do historiador e músico Vítor Queiroz, sobrinho da artista. Já os arranjos foram feitos por instrumentistas baianos como Bira Monteiro, Dudu Reis, Marcos Bezerra e Sebastian Notini com fidelidade aos cânones do samba à moda baiana. O resultado é um disco vivaz, sedutor e devoto do melhor samba da Bahia. Entre na roda de Clécia Queiroz. O samba é bom.  Aliás, o samba é ótimo.

sábado, 13 de novembro de 2010

Verdadeira baiana, Clécia Queiroz abre - com graça - a roda de Roque no Rio

Resenha de Show
Título: Samba de Roque
Artista: Clécia Queiroz (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro Rival (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 11 de novembro de 2010
Cotação: * * * *

 Verdadeira baiana, Clécia Queiroz mexe, remexe, dá nó nas cadeiras e revira os olhinhos - como diz o samba de Geraldo Pereira (1918 - 1955) - ao mostrar no palco o repertório do álbum Samba de Roque (Independente, 2009), dedicado ao repertório do atualmente celebrado compositor baiano Roque Ferreira. Por ser também atriz e dançarina, a cantora domina a cena com teatralidade e vivacidade, contagiando o (pequeno) público que teve o privilégio de assistir ao primeiro show de Clécia Queiroz em terras cariocas. E o fato é que, ainda parafraseando a letra do samba de Geraldo Pereira, todo mundo bateu palma e, ao fim do show, abriu literalmente a roda no meio da plateia do Teatro Rival para dançar chulas e sambas no ritmo do Recôncavo Baiano. Com voz suave, de leveza perceptível já no primeiro número, Lua de beiradeiro (Roque Ferreira), Clécia foi aos poucos conquistando o público com vivaz presença cênica. Com a autoridade de ser também pesquisadora da cultura afro-baiana, com mestrado em universidade dos Estados Unidos, a cantora foi explicando ao público - ao longo do show - os significados e origens da palavra samba nos dialetos africanos. O tom didático dessas breves explanações não diluiu a alegria que regeu o show Samba de Roque, cujo roteiro destacou temas como Xirê (Roque Ferreira) - ambientado em leve clima de gafeira que não anulou a batida do samba-de-roda - e Licuri (Roque Ferreira). Aliás, em Licuri e em outros números da metade final do show, as dançarinas Edeise Gomes e Laís Rocha contribuíram para aumentar o brilho da cena com coreografias afro-baianas desenvolvidas em sintonia com os passos de Clécia no palco. Elaborada, a dança traduziu visualmente e ampliou a força do universo musical afro-baiano. E a artista mergulhou fundo nas raízes desse universo, apresentando até um semba (ritmo africano que deu origem ao samba), Omim-ô (Roque Ferreira), número em que uma das dançarinas espalhou rosas pelo palco, em belo efeito visual. Em sintonia com a celebração da cultura afro-baiana, Clécia ainda pôs na roda de Roque sambas que fizeram sucesso nos anos 1970 nas vozes de Alcione (Ilha de Maré, de Walmir Lima e Lupo, 1977), Clara Nunes (Conto de Areia, de Romildo e Toninho, 1974) e Fafá de Belém (Filho da Bahia, de Walter Queiroz, 1975). Detalhe: em Ilha de Maré, Clécia recorreu aos dotes de atriz e fingiu estar bêbada ao cantar o samba, homenageando uma habitual espectadora pinguça das apresentações que faz no Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador (BA). Entre estes sucessos dos anos 1970, a intérprete inseriu a chula Pimenteira (Roque Ferreira), Olori (Roque Ferreira) -  tema mais romântico de tom resignado que roçou o clima de um samba-choro com sonoridade que evocou os conjuntos regionais em voga na música brasileira da primeira metade do século 20 - e Samba pras Moças (Roque Ferreira e Grazielle), popularizado na voz de Zeca Pagodinho em 1995. Enfim, pela intimidade da artista com a cultura afro-baiana e pela vivacidade teatral com que a intérprete mexeu e remexeu em cena, dando nó nas cadeiras, o samba de Roque Ferreira se ajustou com perfeição ao canto gracioso da - verdadeira - baiana Clécia Queiroz.