Mauro Ferreira no G1

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Livro revela como a banda tocava na (então) milionária indústria do disco

Resenha de livro
Título: Banda de Milhões
Autor: Tom Gomes
Editora: Nova Leitura
Cotação: * * *

Em 1989, em conversa com Sérgio Lopes, então diretor artístico da gravadora CBS, Djavan questionou o executivo sobre a razão de as vendas de seus discos não estarem mais tão altas. Lopes argumentou que o processo de composição de Djavan - concluído no estúdio, na presença dos músicos da banda do artista - tornava sua obra demasiadamente sofisticada e sugeriu que ele finalizasse sem tanta firula uma das dez músicas que aprontava para o álbum que Djavan iria lançar naquele ano de 1989. Ousado, o executivo ainda pediu para o compositor colocar um 'eu te amo' na letra. Semanas depois, Djavan mostrou as músicas prontas para Lopes e uma delas - justamente aquela que tinha sido alvo da atenção do executivo - tinha o verso "Vem me fazer feliz porque eu te amo". Era a balada Oceano, que se tornou um dos maiores sucessos da carreira do compositor alagoano e elevou o patamar de vendas do artista. Contada no livro Banda de Milhões, a história mostra a importância e a influência de executivos como Lopes nos bastidores da indústria do disco. Escrito por Tom Gomes, com base em pesquisa de Guilherme Bryant, Banda de Milhões parte da trajetória do grupo Lee Jackson - formado nos anos 70 por Cláudio Condé, Luiz Carlos Maluly, Marco Bissi, Marcos Maynard e Sérgio Lopes - para chegar aos bastidores das principais gravadoras atuantes no Brasil. Com carreira impulsionada pelo sucesso Hey Girl, gravado em 1973, Lee Jackson se tornou indiretamente a banda de milhões do título porque todos seus cinco integrantes ocuparam postos de comando na era de outro da indústria fonográfica e souberam se reinventar com o fim dos tempos de fartura. Os milhões são tanto os números de discos vendidos a partir do marketing e das ideias desses executivos quanto as cifras astronômicas movimentadas por tais lançamentos. Maynard, em especial, se tornou conhecido pela apurada visão comercial que transforma músicas e artistas em produtos rentáveis (ele atualmente é o cérebro por trás do fenômeno de popularidade do grupo Restart). Tom Gomes conta a história oficial desses cinco homens do disco. Em texto que põe a objetividade a frente do estilo, Gomes apresenta um livro que vai despertar o interesse de todos que, de uma forma ou de outra, lidam com a indústria fonográfica. Vastos, os causos são saborosos e pecam somente por glorificar os personagens centrais. O autor mostra, por exemplo, como Maynard - então no comando da PolyGram - convenceu com tato e habilidade Maria Bethânia a gravar em 1993 o álbum com músicas de Roberto Carlos que devolveria à cantora o status de grande vendedora de disco após o lançamento de CD (Olho d'Água, 1992) que estacionou nas 19 mil cópias (cifra que, para os padrões da época e da artista, era sinônimo de retumbante fracasso). Mas Gomes não mostra como, na sequência, faltou ao mesmo Maynard tato e habilidade para impedir que Bethânia se desligasse da gravadora por não concordar com a visão artística do executivo na condução de sua carreira dali em diante. Ainda assim, são tantas deliciosas histórias de bastidores que a narrativa massuda de Banda de Milhões prende atenção, montando bom painel da evolução da indústria do disco. História que, como ressalta Gomes ao fim do livro, ainda continua. Maluly, por exemplo, é o produtor do CD, DVD e blu-ray Paula Fernandes ao Vivo, campeão de vendas de 2011 com seu retumbante 1,25 milhão de cópias vendidas desde janeiro. Como a história dos cinco músicos transformados em executivos se cruzou de maneira decisiva com a trajetória de alguns dos mais importantes cantores e grupos do Brasil (Caetano Veloso, Capital Inicial, Martinho da Vila, Quarteto em Cy, Roberto Carlos, Simone e Skank, entre muitos outros nomes citados ao longo das 306 páginas do livro), Banda de Milhões seduz apesar do tom oficial e da opção por expor somente os lances mais bonitos desse jogo de poder e música que (ainda) movimenta cifras milionárias, por mais que a pirataria física e virtual tenha acabado com os excessos (não apenas de dinheiro, mas também de criatividade e ousadia) dos anos dourados da indústria do disco. É um livro para entender como a banda toca.