♪ O compositor fluminense Milton de Oliveira Ismael Silva (14 de setembro de 1905 - 14 de março de 1978) fundou uma escola de samba em mais de um sentido. Nascido em Niterói (RJ), mas criado no bairro carioca do Estácio, Ismael criou a primeira escola de samba da cidade do Rio de Janeiro (RJ) a partir de agosto de 1928, ano em que agregou integrantes de blocos do Estácio com o intuito de formar uma única agremiação, intitulada Deixa falar. Ismael fundou também uma escola de samba quando começou a compor obra que teve a primeira gravação em 1925, ano em que o pianista Cebola registrou Me faz carinhos em disco da Casa Edison. O mesmo samba Me faz carinhos seria comprado pelo cantor Francisco Alves (1898 - 1952) - em prática comum na época - e regravado em 1927 com Chico Viola creditado como parceiro de Ismael. Intérprete fiel dos sambas de Ismael, Alves se tornaria parceiro do compositor no maior sucesso da obra autoral do bamba do Estácio, Se você jurar, samba lançado em janeiro de 1931 também com o nome do compositor e pianista Nilton Bastos (1899 - 1931) - que sairia precocemente de cena no fim daquele ano - nos créditos. Se você jurar é um dos 14 sambas cantados por Augusto Martins e Cláudio Jorge ao longo das 12 faixas do álbum Ismael Silva: uma escola de samba, recém-lançado pela Mills Records. Com arranjos de Cláudio Jorge, também violonista, o disco joga luz sobre obra até então guardada no baú do samba, já que, com exceção de Se você jurar e de Antonico (Ismael Silva, 1950), pouco se reviveu as lições de samba dadas pelo professor Ismael. Em registros que valorizam o violão de Carlinhos Sete Cordas, o cavaquinho de Márcio Wanderley e as percussões Belôba (surdo), Flavinho Miúdo (surdo e pandeiro) e Marcelinho Moreira (pandeiro, repique de mão e tamborim), Augusto César e Cláudio Jorge procuram dimensionar a obra deste compositor que foi mais do que um Silva na selva das cidades. Destaque do repertório, Me diga teu nome (Ismael Silva, 1931) parece precursor de um partido alto nascido nos fundos dos quintais cariocas na década de 1980. Mesmo sem expor todos os matizes emocionais de um samba como Antonico, já exemplarmente gravado por Gal Costa em álbum ao vivo de 1971, os cantores se mostram bons alunos da escola do samba de Ismael, inclusive quando gravam quatro das 18 parcerias do compositor com Noel Rosa (1910 - 1931), contemporâneo bamba do asfalto e dos bares do bairro de Vila Isabel. A razão dá-se a quem tem (Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves, 1932), Dona do lugar (Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves, 1932), Quem não quer sou eu (Ismael Silva e Noel Rosa, 1933), Pra me livrar do mal (Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves, 1932) exemplificam a fusão do samba do morro com o samba do asfalto - ainda que seja um erro (aprendido em alguns colégios...) acreditar que morro e asfalto sempre caminharam separados. Do morro ou do asfalto, predominam no disco sambas lançados em discos da década de 1930. Uma das exceções, além de Antonico, é Contrastes - samba que Ismael apresentou na década de 1970, cinco anos antes de sair de cena, entre as seis músicas inéditas do álbum Se você jurar (RCA-Victor, 1973). Contrastes logo ganharia a voz de Jards Macalé e batizaria o álbum lançado pelo artista carioca em 1977 e reeditado pela gravadora Som Livre neste ano de 2015. Ainda que tenha escrito obra composta fora dos padrões do samba e da MPB, Macalé foi um (aplicado) aluno da escola do samba de Ismael Silva.
Guia jornalístico do mercado fonográfico brasileiro com resenhas de discos, críticas de shows e notícias diárias sobre futuros lançamentos de CDs e DVDs. Do pop à MPB. Do rock ao funk. Do axé ao jazz. Passando por samba, choro, sertanejo, soul, rap, blues, baião, música eletrônica e música erudita. Atualizado diariamente. É proibida a reprodução de qualquer texto ou foto deste site em veículo impresso ou digital - inclusive em redes sociais - sem a prévia autorização do editor Mauro Ferreira.
Mostrando postagens com marcador Augusto Martins. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Augusto Martins. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Violão de Marcel e voz de Augusto se afinam ao subir o morro de Zé Kétti
Resenha de CD
Título: Violão, voz e Zé Kéti
Artistas: Augusto Martins e Marcel Powell
Gravadora: Kuarup
Cotação: * * * 1/2
Título: Violão, voz e Zé Kéti
Artistas: Augusto Martins e Marcel Powell
Gravadora: Kuarup
Cotação: * * * 1/2
José Flores de Jesus (16 de setembro de 1921 - 14 de novembro de 1999) - cantor e compositor carioca conhecido como Zé Kétti ou mais comumente Zé Kéti, como grafado no título do ora lançado disco que une o cantor carioca Augusto Martins ao violonista também carioca Marcel Powell - foi realmente uma voz (da população marginalizada) do morro, como sentenciou no título e em verso de um de seus sambas mais conhecidos, A voz do morro (Zé Kétti, 1955), fecho deste CD que se impõe como o mais coeso trabalho fonográfico de Martins. O cantor e o virtuoso violonista - filho e discípulo de Baden Powell (1937 - 2000), um dos mestres do violão brasileiro - se afinam ao subir o morro em que Kétti perfilou, na cadência bonita do samba, personagens como Nega Dina (Zé Kéti, 1965), a esquentada mulata que percorre favelas à procura de um. marginal brasileiro, e o valente (porém conceituado) malandro Malvadeza Durão (1959), assassinado em crime impune. Editado pela gravadora Kuarup, o CD Violão, voz e Zé Kéti tem arranjos criados pelo cantor com o violonista, único músico a passear com Martins por repertório que funciona como best of de Kétti. A despeito da irretocável qualidade do coeso repertório, aliás, o disco cresce quando a dupla revitaliza sambas menos conhecidos como Tamborim (Zé Kétti e Mourão Filho, 1979), destaque de disco pouco ouvido do compositor, Identificação (Continental, 1979), lançado em fase já crepuscular do artista. Ligado à escola de samba carioca Portela, Kétti - cuja obra já mereceu belo tributo fonográfico do cantor carioca Zé Renato, Natural do Rio de Janeiro - Sobre os sambas de Zé Kéti (MP,B Discos, 1996), disco de repertório quase idêntico ao de Martins e Marcel - começou a compor nos anos 30, ainda adolescente, e teve seus sambas gravados a partir de 1946. Contudo, seu auge artístico aconteceu somente nos anos 50 - década de sucessos como Leviana (Zé Kétti e Amado Régis, 1954) - e nos anos 60. Nesta década, a projeção de Kétti aumentou com sua escalação para o elenco do marcante espetáculo teatral Opinião (1964), de cujo repertório Martins e Marcel pescaram pérolas como o samba Diz que fui por aí (Zé Kétti e Hortêncio Rocha), a música-título Opinião (Zé Kétti) e Acender as velas (Zé Kétti), tema ouvido no disco em registro instrumental que mostra que Marcel Powell foi aplicado aluno da escola de Baden. Mesmo soando por vezes limitador, já que a ausência de percussão afasta eventualmente os sambas do morro, o formato voz & violão se revela interessante ao acentuar a melancolia embutida na carnavalesca marcha-rancho Máscara negra (Zé Kétti e Pereira Martins, 1967). Enfim, o CD Violão, voz e Zé Kéti resulta tão bom quanto previsível. Martins está cantando bem e - com Marcel - sobe o morro sem levar tombo.
domingo, 16 de setembro de 2012
Com Donato e Moska, Martins celebra mistura criôla em 'Felizes Trópicos'
Resenha de CD
Título: Felizes Trópicos
Artista: Augusto Martins
Gravadora: Fina Flor
Cotação: * * 1/2
Título: Felizes Trópicos
Artista: Augusto Martins
Gravadora: Fina Flor
Cotação: * * 1/2
Se dissolvido o verniz intelectual do título do quinto álbum de Augusto Martins, Felizes Trópicos, alusão a um livro do antropólogo francês Lévi-Strauss (1908 - 2009), o que sobressai no disco mais conceitual desse cantor e compositor carioca é o suingue da Orquestra Criôla. Martins filtra repertório essencialmente inédito pelo balanço da big-band carioca comandada pelo saxofonista Humberto Araújo, produtor do álbum. Em tom ensolarado, o artista celebra a própria Mistura Crioula - ou Criôla, se for para seguir a grafia da orquestra cujos sopros conduzem a maior parte das 12 músicas do CD - que batiza o samba em que o compositor Moacyr Luz enfatiza a miscigenação racial e musical nascida no útero da Mãe África, cujo colo percussivo acalenta também Bantu-Tupi (Francis Hime e Celso Viáfora). Com seu canto opaco, Martins segue o balanço latino de João Donato na inédita Enquanto a Gente Namora - parceria do compositor acraeano com Thalma de Freitas, valorizada pelo toque personalíssimo do piano de Donato - e na regravação da recente No Fundo do Mar, colaboração de Donato com Joyce, lançada pelos compositores no CD Aquarius (2010). Entre o suingue de O Amor É um Som (Paulinho Atahyde, Sérgio Coelho e Augusto Martins), samba levado pelo sopros da Orquestra Criôla, e o lirismo levemente denso de Big-Bang (Júlio Dain), Felizes Trópicos engloba o canto desenvolto de Moska na sincopada Vai por Mim (Humberto Araújo e Augusto Martins), propõe um híbrido de samba e cordel em Sambordel - parceria de Martins com Fred Martins, autor também (com Marcelo Diniz) de Refém - e tenta firmar a assinatura de Martins como compositor. O autor assina metade das 12 músicas do disco, abrindo mão de parceiros em Baobá. Embora pautada pelo requinte harmônico, a mistura criôla deste afro-latino Felizes Trópicos não seduz de fato o ouvinte porque o conceito do disco é melhor do que o cantor...
domingo, 29 de maio de 2011
Exceto por 'Passarela', Martins desfila o óbvio (com elegância) em 'SPB'
Resenha de CD
Título: Samba Popular Brasileiro - SPB
Artista: Augusto Martins
Gravadora: Mills Record
Cotação: * * 1/2
Título: Samba Popular Brasileiro - SPB
Artista: Augusto Martins
Gravadora: Mills Record
Cotação: * * 1/2
Posto em escaninho à parte do som que se convencionou chamar de MPB, o samba é o ritmo popular que identifica o Brasil no imaginário (inter)nacional - até porque, em essência, a globalizada bossa nova nada é mais do que uma estilização da batida do samba. Bom cantor carioca, nascido num dos berços do samba, Augusto Martins cria a sigla SPB, parte do título de seu álbum Samba Popular Brasileiro. O disco começa de forma esplêndida com belo e obscuro samba de Carlos Dafé, Passarela, lançado por Nana Caymmi em 1975 - no primeiro dos dois LPs que fez para a gravadora Cid - e registrado pelo compositor em 1979 no álbum Malandro Dengoso. Contudo, à medida que avança, o CD vai se tornando um desfile de obviedades. Em vez de pescar mais pérolas raras no baú do samba, em garimpo que poderia resultar em disco de fato importante, Martins solta sua voz afinada em temas já exaustivamente cantados. Por mais que a produção musical e os arranjos do violonista Josimar Monteiro procurem dar um toque de originalidade aos registros, como a batida do ijexá inserida com propriedade em Dois de Fevereiro (Dorival Caymmi, 1957), Samba Popular Brasileiro acaba soando como mais um dos tantos discos dedicados ao gênero. Mas, justiça seja feita, as abordagens são elegantes. Até porque Martins nunca cantou tão bem como neste CD em que põe sua voz em clássicos como o Samba do Avião (Tom Jobim, 1962) - que voa no sopro do trompete de Roberto Marques - e Feitio de Oração (Noel Rosa e Vadico, 1933). O registro dessa obra-prima de Noel e Vadico expõe a afinação exemplar do cantor neste disco que peca somente pelo repertório déjà vu. Até porque o time de músicos colaboradores é formado por craques como o violonista Zé Paulo Becker, convidado de Samba e Amor (Chico Buarque, 1969) e Você Não Entende Nada (Caetano Veloso, 1972). Outro destaque, dentro do repertório óbvio, é Consolação (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966), que, na gravação de Martins, soa menos solene, menos afro e mais samba. Enfim, o cantor é bom, os sambas são de linhagem nobre e os arranjos são elegantes. Só que a opção por repertório tão batido impede que Samba Popular Brasileiro seja o grande disco que Augusto Martins ainda não fez.
Assinar:
Postagens (Atom)



