Mauro Ferreira no G1

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Maestrini vira personagem na transposição de 'Drama'n Jazz' para o palco

Resenha de show
Título: Drama'n Jazz
Artista: Alessandra Maestrini (em foto de Rodrigo Amaral)
Local: Teatro dos Quatro (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 27 de agosto de 2012
Cotação: * * * 1/2
Show em cartaz no Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro (RJ), até 28 de agosto de 2012

"É a primeira vez que eu encarno eu mesma". A frase dita por Alessandra Maestrini no início da estreia carioca do show Drama'n Jazz é a senha para o entendimento do espetáculo dirigido por Gringo Cardia com base no primeiro disco da atriz e cantora, também intitulado Drama'n Jazz e editado pela Som Livre (clique aqui para ler a resenha do CD, que chega às lojas a partir de 3 de setembro de 2012). É que, no palco do Teatro dos Quatro, Maestrini vira personagem e convence ao interpretar a si mesma: uma cantora segura de voz extensa e de exuberante teatralidade, qualidades evidentes já no primeiro número, Help The Poor (Charles Singleton). Maestrini é a protagonista absoluta que divide a cena com o quarteto formado por João Carlos Coutinho (piano e direção musical), João Castilho (violão e guitarra), Jorge Helder (baixo) e Xande Figueiredo (bateria). Transitando com desenvoltura pelos móveis brancos do cenário arquitetado pelo diretor Gringo Cardia, Maestrini é a senhora dessa cena pautada pela sofisticação de seu canto. A afinação e emissão exemplares saltam aos ouvidos em números como I Love You, a versão em inglês escrita pela própria Maestrini para Eu Te Amo (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque) com o aval do próprio Chico, compositor também presente no roteiro com a canção Sem Fantasia, um dos números mais sedutores do show pelo fato de a música já ser naturalmente um canal para a veiculação da dramaticidade do canto da artista, sem a necessidade de enfatizar o virtuosismo vocal já inerente às interpretações da atriz. Sem Fantasia é um dos momentos em que o roteiro do show extrapola o repertório do CD Drama'n Jazz. Outro é Step By Step, tema em inglês de autoria de Alexandre Elias, compositor que tem alcançado alguma visibilidade na internet com sua banda French Kiss Bossa Nova. No teatro da canção, a atriz-cantora solta a voz em sintonia com o suingue posto pelo baixo de Jorge Helder em 'Round Midnight (Bernard Hanighen, Cootie Williams e Thelonious Monk) e recita poema de sua autoria, Pretérito Imperfeito ou Semibreve, após mostrar delicada canção de sua lavra, Onde (Alessandra Maestrini). A bela iluminação cria climas adequados para que Maestrini vá do jazz propriamente dito de I Feel Good (I Got You) - retumbante releitura do tema composto e interpretado por James Brown (1933 - 2006), apresentada com a intérprete inicialmente deitada num dos móveis do cenário - ao pop assumido da funkeada Se Vacilar (Alessandra Maestrini, Ana Carolina e Torcuato Mariano), música salutarmente infectada com o balanço do soul/r & b norte-americanos. Enfim, Alessandra Maestrini faz sua mise-en-scène ao transpor Drama'n Jazz do disco para o palco, interpretando ela mesma com a confiança de quem sabe que pode encarnar bem a personagem da cantora de grandes dotes vocais, pois a técnica de seu canto é real, jamais uma ilusão proporcionada pelo teatro, celeiro de dramas e algum jazz.

Maestrini faz Drama'n Jazz no palco com Chico, Cole, Morrison e Womack

Nothing Ever Hurt Like You (James Morrison, Mark Taylor e Paul Barry) - quarto dos cinco singles do segundo álbum de estúdio do cantor e compositor britânico James Morrison, Songs For You, Thuths For Me (2008) - ganha abordagem de Alessandra Maestrini no show Drama'n Jazz, inspirado no primeiro homônimo álbum da atriz e cantora paulista. A estreia carioca do show aconteceu na noite de 27 de agosto de 2012, no Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro (RJ), onde Drama'n Jazz fica em cartaz até esta terça-feira, 28 de agosto. Assim como Sem Fantasia (Chico Buarque, 1975) e Step By Step (Alexandre Elias), Nothing Ever Hurt Like You é música ausente da seleção final do repertório do CD Drama'n Jazz, nas lojas a partir de 3 de setembro via Som Livre. Com músicas de Bobby Womack (Trust in Me) e Cole Porter (You're the Top, em inglês e na versão em português de Augusto de Campos), eis o roteiro seguido por Alessandra Maestrini - em foto de Rodrigo Amaral - na estreia carioca de Drama'n Jazz:

1. Help The Poor (Charles Singleton)
2. You're the Top (Cole Porter)
3. Que Sorte Eu Tenho (How Lucky Can You Get) (Fred Ebb e John Kander)
4. Step By Step (Alexandre Elias)
5. 'Round Midnight (Bernard Hanighen, Cootie Williams e Thelonious Monk)
6. I Love You (Eu te Amo) (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque em versão de Alessandra 
   Maestrini)
7. Onde (Alessandra Maestrini)
8. Pretérito Imperfeito ou Semibreve (Alessandra Maestrini) - poema
9. Sem Fantasia (Chico Buarque)
10. True Colors (Tom Kelly e Billy Steinberg)
11. Deixa Estar (Cross My Heart) (Tim Maia em versão de Alessandra Maestrini)
12. Nothing Ever Hurt Like You (James Morrison, Mark Taylor e Paul Barry)
13. I Feel Good (I Got You) (James Brown)
14. Mon Coeur S'Ouvre À Ta Voix (Camille Saint-Saëns em adaptação de Nelson Motta, 
     Alessandra Maestrini e João Carlos Coutinho)
Bis:
15. Se Vacilar (Ana Carolina, Alessandra Maestrini e Torcuato Mariano)
16. Você É o Mel (You're the Top) (Cole Porter em versão de Augusto de Campos)
17. Trust in Me (Bobby Womack)
18. The Man I Love (George Gershwin e Ira Gershwin)

Maestrini une técnica e teatralidade em 'Drama'n Jazz' sem descartar pop

Resenha de CD
Título: Drama'n Jazz
Artista: Alessandra Maestrini
Gravadora: Som Livre
Cotação: * * * 1/2

Alessandra Maestrini sempre exerceu a arte de cantar no palco. Aplaudida por suas interpretações em musicais como Ópera do Malandro (na encenação de 2003 assinada pela dupla Charles Möeller & Claudio Botelho) e 7 - O Musical (2007 / 2008), a cantora paulista transpõe a teatralidade natural de suas interpretações para seu primeiro CD, Drama'n Jazz, nas lojas a partir de 3 de setembro de 2012 em edição da gravadora Som Livre. Tal dramaticidade se descortina já na faixa de abertura, Help The Poor (Charles Singleton), tema associado ao repertório do bluesman B.B. King. Contudo, ao contrário do que insinua seu título, Drama'n Jazz extrapola o universo jazzístico e teatral - opção estética exposta no eclético time de produtores que, entre nomes como Rodolpho Rebuzzi (piloto de seis das 14 faixas) e Mu Carvalho, inclui até Ana Carolina, parceira de Maestrini em Se Vacilar, a faixa mais descaradamente pop de um disco pontuado pela técnica exuberante da cantora. A extensão e os agudos da voz de Maestrini saltam aos ouvidos em I Feel Good (I Got You), música de James Brown (1933 - 2006) que a cantora traduz para a linguagem do jazz com a personalidade que falta em True Colors (Tom Kelly e Billy Steinberg), o cover reverente do sucesso de Cyndi Lauper já ouvido na trilha sonora da novela Ti Ti Ti (TV Globo, 2010 / 2011). Com segurança de veterana, a intérprete arrisca uma composição autoral (Onde, de sedutora delicadeza) e até uma ária - Mon Coeur S'Ouvre À Ta Voix (Camille Saint-Saëns em adaptação de Nelson Motta, Alessandra Maestrini e João Carlos Coutinho), da ópera Sansão & Dalila - sem sair do tom. Maestrini é do tipo de cantora que tem voz suficiente para encarar um standard como The Man I Love (George Gershwin e Ira Gerswhin) sem despertar no ouvinte a saudade das gravações mais emblemáticas do tema. Aliado à técnica e à dramaticidade da cantora, seu apurado senso rítmico - evidente na abordagem de You're the Top (Cole Porter), clássico ouvido também na versão em português escrita por Augusto de Campos e intitulada Você É o Mel - reitera a sofisticação vocal que norteia Drama'n Jazz. Fora do universo dos standards, a cantora envereda pelo soul em dueto sensual com Tiago Abravanel, convidado de Deixa Estar, versão de Maestrini para Cross My Heart, tema obscuro de Tim Maia (1942 - 1998), gravado pelo Síndico em álbum (Só Você - Para Ouvir e Dançar, 1997) praticamente desconhecido. O dueto funciona - até porque Abravanel resiste à tentação de reproduzir o vozeirão de Tim Maia como fez de maneira fenomenal em musical de 2011. Mas é nos temas impregnados de teatralidade - como Que Sorte Tenho Eu, versão de Maestrini para How Lucky Can You Get (Fred Ebb e John Kander), música do filme Funny Girl (1975) - que a cantora soa mais à vontade. No palco, Alessandra Maestrini fica em casa para fazer seu drama e seu jazz.