Mauro Ferreira no G1

Aviso aos navegantes: desde 6 de julho de 2016, o jornalista Mauro Ferreira atualiza diariamente uma coluna sobre o mercado fonográfico brasileiro no portal G1. Clique aqui para acessar a coluna. O endereço é http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Rod festeja o Natal em 'Merry Christmas, Baby' já sem ânimo e sem voz

Resenha de CD
Título: Merry Christmas, Baby
Artista: Rod Stewart
Gravadora: Verve / Universal Music
Cotação: * * 1/2

Usada sem cerimômia por Rod Stewart desde 2002, a fórmula de regravações de standards que injetou fôlego comercial na discografia do cantor escocês nos anos 2000 já chegou à exaustão ao longo dessa década em que o outrora roqueiro se escorou no songbook norte-americano. Contudo, o artista ainda insiste na receita. Prestes a completar 68 anos, em 10 de janeiro de 2013, Rod migrou para a Verve e, sob produção e arranjos tradicionais de David Foster, apelou para o cancioneiro natalino, base deste Merry Christmas, Baby, álbum lançado no Brasil via Universal Music neste mês de dezembro de 2012. A acomodação é sentida ao longo das 13 faixas deste CD convencional que alinha duetos do cantor com Michael Bublé - em Winter Wonderland (Felix Bernard e Richard B. Smith) - e com Cee Lo Green, convidado do r & b que dá nome ao disco, Merry Christmas, Baby (Lou Baster e Johnny Moore), rebobinado de forma igualmente clássica. Até Ella Fitzgerald (1917 - 1996) foi postumamente convocada para a festa desanimada de Stewart. Fabricado virtualmente, o dueto de Ella com Stewart em What Are You Doing New Year's Eve? (Frank Loesser) somente acentua a falta de viço da voz já cansada do cantor. Contudo, há alguns bons momentos em Merry Christmas, Baby. Alguma emoção real é detectada nas interpretações mais íntimas de White Christmas (Irving Berling) e When You Wish Upon a Star (Leigh Harline e Ned Washington), dois clássicos alocados entre a única (boa) música inédita do álbum, Red-Suited Super Man, r & b à moda antiga assinado por Stewart com David Foster e Amy Foster. Ainda assim, o Natal de Rod Stewart soa desanimado.

Reedição de CD de 1999 renova o tempo do Natal brasileiro de Ivan Lins

Lançado em 1999 pela extinta gravadora Abril Music, o primeiro e único álbum natalino de Ivan Lins, Um Novo Tempo, ganha reedição pela Som Livre neste mês de dezembro de 2012. Com samba (Noite Para Festejar, de Ivan Lins e Vitor Martins) e folia de reis (Ô de Casa, da lavra de Simone Guimarães) no repertório de sotaque brasileiro, o disco volta ao catálogo com a mesma capa e arte gráfica. Contudo, por questões editoriais, a faixa Então É Natal - versão de Happy XMas (War Is Over), o clássico natalino lançado em 1971 por John Lennon (1940 - 1980) - foi excluída da reedição de Um Novo Tempo, disco que tem a participação de Simone.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Com a voz nas alturas, Stevie Wonder se sente em casa em show no Rio

Resenha de show
Título: Stevie Wonder
Artista: Stevie Wonder (em foto de Marcos Hermes)
Local: Imperator - Centro Cultural João Nogueira (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 24 de dezembro de 2012
Cotação: * * * * 1/2
Em cartaz na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), em 25 de dezembro de 2012

Era somente a terceira apresentação de Stevie Wonder no Rio de Janeiro. Mas parecia que o palco do Imperator era a sala da casa do cantor e compositor norte-americano, um dos gigantes da música negra dos Estados Unidos. Falante, interativo, com a vigorosa voz intacta (atingindo tons altos inimagináveis para seus 62 anos), o artista mostrou - pela terceira vez aos cariocas - porque é um dos gênios da música do século XX. Discípulo que se tornou mestre do funk e do soul, Wonder entrou em cena com azeitada big-band e, de cara, deu voz a um tema do repertório do cantor norte-americano de soul Sam Cooke (1931 - 1964). Wonderful World (Sam Cooke, Herb Alpert e Lou Adler, 1959) deu logo o tom participativo do show. Já neste primeiro número, tal qual um entertainer, o artista regeu as vozes, orquestrou as palmas e comando as batidas dos pés da plateia, que entrou imediatamente na onda de Wonder, esquecendo a irritação pelo atraso de duas horas na entrada do cantor em cena (atraso motivado por problemas técnicos que saltaram aos ouvidos em um ou outro momento do show). Já era segunda-feira, 24 de dezembro de 2012, quando o cantor foi conduzido a um dos teclados alocados ao centro do palco do Imperator. Ao quebrar de imediato o clima de irritação, Wonder passou a desfiar seu abrangente rosário de pérolas negras, tirando coelhos da cartola. Bird of Beauty (Stevie Wonder, 1974), literalmente um obscuro lado B do álbum Fulfillingness' First Finale (1974), ganhou levada que evocou o samba carioca. Mas a bossa de Stevie - que levou Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) na gaita e incentivou o público a cantar a letra em português deste clássico mundial da música brasileira, tal como fizera em sua memorável apresentação no Rock in Rio 2011 - é mesmo o funk, o soul e o r & b. Vibrante, Master Blaster (Jammin') (Stevie Wonder, 1980) pulsou no balanço típico do mestre. Que surpreendeu ao iniciar  Knocks me Off My Feet (Stevie Wonder, 1976) somente com sua voz e seu piano, em clima mais íntimo. Ambientada nesse mesmo clima, a balada You and I (Stevie Wonder, 1972) se tornou um dos pontos altos da apresentação. Com outro tempero, Don't You Worry 'Bout a Thing (Stevie Wonder, 1973) ganhou molho de salsa ao fim. Na sequência, The Secret Life of Plants (Stevie Wonder, 1979) marcou a primeira entrada em cena do convidado Gilberto Gil. Em que pese o afeto reinante entre Gil e Wonder, o encontro não surtiu todo o efeito que poderia - até porque Gil precisou cantar lendo a letra. Na sequência, o hit Send One Your Love (Stevie Wonder, 1979) fez o link com o número anterior por também ser tema extraído do repertório do álbum Stevie Wonder's Journey Through The Secret Life of Plants (1979). Outro hit, Sir Duke (Stevie Wonder, 1976), ostentou todo o poder de sedução da música de Stevie Wonder, fazendo irresistível convite à dança, reiterado por Signed, Sealed, Delivered, I'm Yours (Stevie Wonder, Lee Garrett, Lula Mae Hardaway e Syreeta Wright, 1970) - outro ponto mais alto de um roteiro sem baixos - e por Living in The City (Stevie Wonder, 1973), improvisada a pedido de alguns espectadores. Na parte final, temas natalinos - What Christmas Means to Me (Anna Gaye, Allen Story, George Gordy, 1967) e Merry Christmas, Baby (Lou Baxter e Johnny Moore, 1947), este em ritmo de blues - se justificaram pela data do show e tiveram entre eles versão bilíngue da brasileira Boas Festas (Assis Valente, 1933), puxada em português e em inglês por Gil no momento em que foi chamado de volta ao palco por Wonder. É quando Gil e Wonder improvisaram diálogos musicais que tornaram o show ligeiramente menos sedutor. Ainda que o arremate - com Superstition (Stevie Wonder, 1972) e My Cherie Amour (Stevie Wonder, Henry Cosby e Sylvia Moy, 1969) - tenha corroborado a sensação de que o terceiro show de Stevie Wonder em palcos cariocas foi histórico como seus antecessores. O mestre se sentiu em casa...

Wonder canta Cooke e desfia rosário de pérolas negras em show no Rio

Soul gravado em 1959 por Sam Cooke (1931 - 1964) para o álbum The Wonderful World of Sam Cooke (1960), Wonderful World (Sam Cooke, Herb Alpert e Lou Adler) foi a música que abriu o terceiro show de Stevie Wonder no Rio de Janeiro (RJ). Atração do Free Jazz de 1995 e do Rock in Rio 2011, o cantor e compositor norte-americano voltou aos palcos cariocas na madrugada desta segunda-feira, 24 de dezembro de 2012, véspera de Natal. Já passava da meia-noite quando Wonder - visto em foto de Marcos Hermes - subiu ao palco do Imperator, no Centro Cultural João Nogueira, para desfiar seu rosário de pérolas negras em roteiro que abriu espaço para duas entradas de Gilberto Gil, a outra atração do evento organizado em benefício da Sociedade Viva Cazuza. Entre sucessos e lados B de seu repertório, o artista - um dos gênios da música negra-americana - cativou o público em show interativo, centrado no repertório lançado pelo cantor nos anos 70. Ao longo de duas memoráveis horas, Wonder pediu repetidas vezes a participação da plateia. Eis o roteiro seguido por Stevie Wonder no primeiro dos dois shows cariocas que o trouxeram novamente ao Brasil neste mês de dezembro de 2012:

1. Wonderful World (Sam Cooke, Herb Alpert e Lou Adler, 1959)
2. Bird of Beauty (Stevie Wonder, 1974)
3. Master Blaster (Jammin') (Stevie Wonder, 1980)
4. Higher Ground (Stevie Wonder, 1973)
5. Knocks me Off My Feet (Stevie Wonder, 1976)
6. You and I (Stevie Wonder, 1972)
7. Don't You Worry 'Bout a Thing (Stevie Wonder, 1973)
8. The Secret Life of Plants (Stevie Wonder, 1979) - com Gilberto Gil
9. Send One Your Love (Stevie Wonder, 1979)
10. Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962)
11. Sir Duke (Stevie Wonder, 1976)
12. Signed, Sealed, Delivered, I'm Yours (Stevie Wonder,Lee Garrett,Lula Mae Hardaway e Syreeta Wright, 1970)
13. I Just Call to Say I Love You (Stevie Wonder, 1984)
14. Living For The City (Stevie Wonder, 1973)
15. What Christmas Means To Me (Anna Gaye, Allen Story, George Gordy, 1967)
16. You Are The Sunshine of My Life (Stevie Wonder, 1972)
17. Happy Birthday (Stevie Wonder, 1980)
18. Boas Festas (Assis Valente, 1933) - com Gilberto Gil
19. Você Abusou (Antonio Carlos & Jocafi, 1971) - com Gilberto Gil
20. Merry Christmas, Baby (Lou Baxter e Johnny Moore, 1947)
21. Superstition (Stevie Wonder, 1972)
22. My Cherie Amour (Stevie Wonder, Henry Cosby e Sylvia Moy, 1969)

Gil reaviva tema de Assis Valente ao celebrar o Natal com Stevie Wonder

Uma das mais populares canções de Natal do Brasil, composta por Assis Valente (1911 - 1958) e lançada em 1933 na voz do cantor Carlos Galhardo (1913 - 1985), Boas Festas foi a maior surpresa do set feito por Stevie Wonder com Gilberto Gil no show apresentado pelo artista norte-americano no Imperator, no Rio de Janeiro (RJ), na madrugada desta segunda-feira, 24 de dezembro de 2012, véspera de Natal. Dezessete anos após ter dividido o palco com Wonder no Free Jazz de 1995, também no Rio de Janeiro (RJ), Gil - visto com Wonder na foto de Marcos Hermes - entrou em cena duas vezes, a convite do anfitrião. Na primeira, Gil cantou - lendo a letra em inglês - The Secret Life of Plants (Stevie Wonder, 1979), música que o artista baiano gravou em 1994 em show registrado dentro da série MTV Unplugged. Na segunda vez em que Wonder soltou um "Gilberto!..." para chamar Gil ao palco do Imperator, o cantor brasileiro arriscou versão bilíngue de Boas Festas - alternando versos em inglês e em português - e, na sequência, permaneceu em cena, interagindo com Wonder ao dialogar com o amigo na linguagem da música. Foi quando o anfitrião cantou Você Abusou (Antonio Carlos & Jocáfi, 1971) - samba conhecido em escala mundial que ocasionalmente faz parte do repertório de Wonder - e quando acentuou a pegada de blues do r  & b Merry Christmas, Baby (Lou Baxter e Johnny Moore, 1947), tema que Wonder gravou com Wyclef Jean no álbum beneficente A Very Special Christmas 5 (2001). Com Gil ainda no palco (mas já efetivamente sem ter o que fazer), Wonder arrematou o show com Superstition (Stevie Wonder, 1972) e My Cherie Amour (Stevie Wonder, Henry Cosby e Sylvia Moy, 1969) depois de duas (memoráveis) horas em cena.

Com realce na fase pop, Gil veio para a festa do reencontro com Wonder

Resenha de show
Título: Andar com Fé
Artista: Gilberto Gil (em foto de Marcos Hermes)
Local: Imperator - Centro Cultural João Nogueira (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 23 de dezembro de 2012
Cotação: * * * *
Em cartaz na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), em 25 de dezembro de 2012

Gilberto Gil veio para a festa. Ao subir ao palco do Imperator, abrindo com o show Andar com Fé o evento beneficente que marcou seu reencontro com Stevie Wonder, o cantor trouxe um cesto de alegres hits e uma big-band com metais, guitarras e percussão, de valor reconhecido por quem sabe onde é Luanda, Bahia e Rio de Janeiro. E palco e público foram todos de Gil em apresentação azeitada, feita na pressão, inclusive por conta das duas horas de atraso motivado por problemas de ordem técnica. Até porque o roteiro - pensado para animar a plateia que esperava por Wonder na noite de 23 de dezembro de 2012 - deu providencial realce na fase pop da obra gravada por Gil de 1979 até o fim dos anos 80. Não por acaso, Realce (Gilberto Gil, 1979) abriu o show com sua brilhante pegada funk-disco-pop-glam. Na sequência, o cantor se jogou com toda propriedade na praia do reggae, ritmo recorrente no roteiro ao lado do samba, o carioca - celebrado em Aquele Abraço (Gilberto Gil, 1969) - e o baiano, evocado por Andar com Fé (Gilberto Gil, 1982). Foi quando A Novidade (Gilberto Gil, Bi Ribeiro, Herbert Vianna e João Barone) - conexão do artista com o trio carioca Paralamas do Sucesso - veio dar nessa praia, sucedida por reverência ao rei do reggae Bob Marley (1945 - 1981) em Is This Love? (Bob Marley, 1978). À medida que a voz do cantor foi esquentando e ganhando o vigor que parecia escasso nos números iniciais, o show foi se tornando mais caloroso e ainda mais elétrico. Mesmo quando um acústico berimbau, tocado pelo percussionista Gustavo Di Dalva, introduziu Domingo no Parque (Gilberto Gil, 1967), apresentada com arranjo que dialoga com a linguagem experimentada por Gil em seu recente concerto de cordas.  Palco (Gilberto Gil, 1981) foi o ápice da explosão pop, motivando o público a levantar das cadeiras para dançar a dança tropicalista do artista. É, Gilberto Gil veio para a festa. E fez a festa, com fogo eterno.

Na pressão, Gil enfileira sucessos ao abrir para Wonder em show no Rio

Gilberto Gil acionou sua máquina de ritmos e hits ao fazer o show Andar com Fé na abertura do evento beneficente que marcou o reencontro em cena do artista brasileiro com o cantor e compositor norte-americano Stevie Wonder, "amigo querido", como caracterizou Gil ao se dirigir à plateia que lotou o Imperator, casa de shows da Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ), na noite de 23 de dezembro de 2012. Foi um show curto, feito na pressão, inclusive por conta do atraso de duas horas motivado por problemas técnicos. Em pouco mais de uma hora, Gil - visto em foto de Marcos Hermes - alinhou 10 infalíveis sucessos em roteiro que fez o público se levantar das cadeiras. Eis o roteiro seguido por Gilberto Gil no show apresentado no Imperator em 23 de dezembro de 2012 e agendado para ser repetido em 25 de dezembro - desta vez, com a adesão de Preta Gil - na praia de Copacabana, em nova dobradinha com Stevie Wonder:

1. Realce (Gilberto Gil, 1979)
2. A Novidade (Gilberto Gil, Bi Ribeiro, Herbert Vianna e João Barone, 1986)
3. Is This Love? (Bob Marley, 1978)
4. Domingo no Parque (Gilberto Gil, 1967)
5. Aquele Abraço (Gilberto Gil, 1969)
6. Andar com Fé (Gilberto Gil, 1982)
7. Palco (Gilberto Gil, 1981)
8. Vamos Fugir (Gilberto Gil e Liminha, 1984)
9. Nos Barracos da Cidade (Gilberto Gil e Liminha, 1985)
Bis:
10. Toda Menina Baiana (Gilberto Gil, 1979)

domingo, 23 de dezembro de 2012

'1978' anuncia na rede álbum de inéditas que Ed Motta vai lançar em 2013

Já disponibilizada para audição no YouTube, a música inédita 1978 anuncia na internet o álbum de inéditas que Ed Motta - em foto de Daryan Dornelles - vai lançar em 2013. Parceria de Ed com Edna Lopes, autora da letra, 1978 preserva o refinado estilo funk / soul do cantor e compositor carioca. Com destaque para a guitarra de Chico Pinheiro, a gravação foi produzida e arranjada pelo próprio Ed Motta, que assina a orquestração dos metais com Jessé Sadoc. Eis a letra de 1978, faixa do 11º álbum de estúdio do artista, o 14º CD da discografia oficial de Ed:

1978
(Ed Motta e Edna Lopes)

Na madrugada acordou
O fuso o enganou
Sem pensar
Foi pro elevador
Nem se abalou
Não virou
Pra moça do bar
Olhar

A Capital despertou
Pro_hotel então voltou
Eram dez
Quando telefonou
Pediu café
Leu em pé
O velho jornal
Local

Está sempre só
Não sente falta
Está sempre só
Da sombra não se separa
Está sempre só…

No taxi, o frio deixou
O calor do motor
Esquentar
O seu rosto sem cor
Seco demais
De um lugar
Distante pra se
Lembrar

Na areia gasta do mar
No cinza do olhar
Relembrou
Era setenta e oito
Livre afinal
Sentiu ser
Seu próprio prazer
Mudou

Já estava só
Não se importava
Já estava só
Sua estrada fôra traçada
Já estava só

Está sempre só
Não sente falta
Está sempre só
Da sombra não se separa
Está sempre só…

Na areia gasta do mar
No cinza do olhar
Relembrou
Era setenta e oito
Livre afinal
Sentiu ser
Seu próprio prazer

Sem ser formal
E nem sentimental
Livre afinal

Sem Crise põe rap de Gabriel O Pensador na pista electro do DJ Deeplick

Resenha de CD
Título: Sem Crise
Artista: Gabriel O Pensador
Gravadora: Hip Hop Brasil
Cotação: * * *

"Aqui tem muito cacique pra pouco índio guerreiro / Mas eu não desisto nunca, sou brasileiro", avisa Gabriel O Pensador em versos de Sem Crise (Gabriel O Pensador, Fernando Deeplick e Luciana Cardoso), o rap que dá título a seu oitavo álbum (o sétimo de estúdio). Sem lançar disco desde 2005, o rapper carioca - pioneiro nos anos 90 ao veicular seu hip hop em escala nacional com o conforto do contrato de uma multinacional do disco (a Sony Music) - quebra hiato involuntário de sete anos com CD que por vezes o joga na pista do DJ paulista Fernando Deeplick, diretor musical deste esperado álbum gravado de forma independente e fragmentada entre 2009 e 2012. Parceria do Pensador com Deeplick, Homem Não Presta é electro-rap. Sob a batida eletrônica do DJ e produtor, Gabriel discorre sobre a má fama masculina desde os tempos de Adão e Eva. Tese de certa forma corroborada na desbocada Boca com Boca, faixa de textura eletrônica composta e gravada com Nando Reis. Conquistas à parte, dá para sentir nas entrelinhas dos versos cantados pelo Pensador em Sem Crise que nem tudo foi fácil para o artista ao longo desses sete anos. "Alguns às vezes me tiram o sono / Mas não me tiram o sonho", ressalta o Pensador, valente, em Linhas Tortas (Gabriel O Pensador e André Gomes), boa faixa de letra autobiográfica, produzida pelo baixista André Gomes, piloto de seis das 15 faixas de Sem Crise, não por acaso algumas das melhores do disco. Com verdadeiro amor à palavra, reiterado nas memórias verborrágicas de Linhas Tortas, o Pensador dispara artilharia contra a banda podre da política em Nunca Serão (Gabriel O Pensador e Fernando Deeplick), discorre sobre a fofoca em Foi Não Foi (Gabriel O Pensador, Carlinhos Brown e Wladimir Gasper) - com a adesão do elétrico parceiro Carlinhos Brown - e se apropria sem propriedade de Fé Cega, Faca Amolada (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1974) em Brilho Cego (Gabriel O Pensador, Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), faixa que tem a voz de Rogério Flausino. A tentativa de dar sotaque brasileiro ao disco soa mais bem-sucedida na já ouvida dobradinha Solitário Surfista (Jorge Ben Jor) / Surfista Solitário (Gabriel O Pensador), que entrelaça samba-rock lançado por Ben Jor em 1980 com rap inédito do Pensador. Duas faixas depois, Pensador tira onda de conquistador e passa sua cantada em Deixa Quieto (Gabriel O Pensador e André Gomes) com direito a sample de gravação de Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro) feita por Marisa Monte. Ainda na sua praia, Gabriel O Pensador se junta ao ConeCrewDiretoria - grupo carioca de rap, egresso de um Rio menos abastado - para dar sua receita de bem-viver em No Ritmo, no Tempo (Gabriel O Pensador, Rany Money, Maomé, Cert, Papatinho, Ari e Batoré).  Também egresso de um Rio de Janeiro (RJ) menos enfocado nos cartões postais, o AfroReggae põe seu forte tempero percussivo em Pimenta e Sal (Gabriel O Pensador e André Gomes). Mais azeitada, mas sem chegar a soar arretada, Na Palma da Mão (Gabriel  O Pensador e Itaal Shur) cruza o universo do hip hop com os sons da Nação Nordestina, evocados no toque do acordeom de Marcos Farias, da zabumba de Lailton Lopes e do pandeiro de Sandrinho Dupan. Já a contagiante Tudo Certo (Gabriel O Pensador e André Gomes) repõe na pista o Gabriel O Pensador mais leve dos anos 90. "Sorriso dividido é sorriso dobrado", ressalta o Pensador, orgulhoso de sua garra, em Correr pro Abraço (Gabriel O Pensador e André Gomes), tema menos empolgante de disco que soa longo ao longo de seus 60 minutos. No fim, Mi Casa, Su Casa (Gabriel O Pensador e André Gomes) mostra que, apesar das eventuais turbulências (há excesso de eletrônica e as conexões com Deeplick não decolam), o voo feito por Pensador em Sem Crise mantém o rapper em seu porto seguro.

'A incomparável' dá voz em livro às memórias de Marlene, estrela dos palcos

Resenha de livro
Coleção: Aplauso música
Título: Marlene - A incomparável
Autoria: Diana Aragão
Edição: Imprensa Oficial Governo do Estado de São Paulo
Cotação: * * * 1/2

 Marco inicial do renascimento artístico de Marlene, o show Carnavália (1968) poderia ter passado em brancas nuvens se não fosse a determinação de Marlene ao convencer o elenco a se apresentar para os dois únicos espectadores que não se intimidaram com a chuva que caía sobre o Rio de Janeiro (RJ) numa noite de 1968 e que saíram de casa para assistir ao espetáculo idealizado por Paulo Afonso Grisolli (1934 - 2004) e Sidney Miller (1945 - 1980). Os dois bravos espectadores eram Carlinhos de Oliveira e Jaguar. Encantados com o show, ambos incensaram Carnavália na imprensa carioca e o show - que até então amargava plateias vazias - explodiu, repondo Marlene sob os holofotes em renascimento que seria consolidado no ano seguinte com a estreia de outro show da artista, É a maior! (1969). Saborosa, essa história é contada pela cantora e atriz no livro Marlene - A incomparável, lançado neste mês de dezembro de 2012 dentro da coleção Aplauso música. Assinado pela jornalista carioca Diana Aragão, o livro adquire especial importância na coleção pelo fato de Marlene ter completado 90 anos de vida em 22 de novembro de 2012 sem que a efeméride tivesse merecido atenção da mídia. Voz remanescente da era de ouro do rádio brasileiro, tendo reinado e disputado fãs (e poder) com a amiga-rival Emilinha Borba (1923 - 2005) ao longo da década de 1950, Marlene foi esquecida durante quase todos os anos 1960, mas soube se reinventar a partir dos anos 1970, aproveitando a brecha aberta com Carnavália. Com prodigiosa lucidez, a artista revolveu as memórias da vida e obra para Diana Aragão. Escrito na primeira pessoa, Marlene - A incomparável é documento valioso por reconstituir todos os passos de Victoria de Martino Bonaiutti na infância vivida sem pai (morto antes do nascimento de Marlene), na adolescência batalhadora (quando Marlene conciliou estudo e trabalho para ajudar no sustento da casa) e na luta para se impor artista dentro dessa mesma casa (batalha que lhe valeu uma surra da mãe quando esta descobriu que, em vez da faculdade, Marlene já trabalhava como cantora na Rádio Tupi). Fartamente ilustrado, o livro tem pequenos parênteses feitos por Diana Aragão no relato de Marlene para contextualizar dados e situações abordadas pela artista. Contudo, o fato de o livro ter sido escrito na primeira pessoa faz com que a história de Marlene seja contada em A incomparável tal como se revela na memória da artista. E, por mais lúcida que seja tal memória, ela às vezes é traída pela vaidade. Ao relembrar o show Te pego pela palavra (1974), por exemplo, outro marco de sua carreira pós-Rádio Nacional, Marlene se põe no papel pioneiro de lançadora de compositores como Milton Nascimento, Gonzaguinha (1945 - 1991), João Bosco e Ivan Lins - e o fato é que, naquele ano de 1974, todos esses compositores já estavam em evidência e já tinham sido gravados com repercussão nacional. E, com exceção de Gonzaguinha, todos deviam seu lançamento e/ou sucesso à outra cantora, Elis Regina (1945 - 1982), com quem Marlene deixa entrever certa mágoa e rivalidade ao longo das memórias. Descontadas tais desconexões (talvez até involuntárias) de fatos, o livro de Diana Aragão dá grande contribuição à memória da música brasileira ao historiar de forma oficial cada momento artístico de Marlene, atriz e cantora de múltiplos talentos que atuou em discos (gravou pouco, como ressalta a autora), teatro, televisão e cinema. Somente por relacionar cada trabalho de Marlene em cada uma dessas áreas - nas cronologias alocadas ao fim do livro - Marlene - A incomparável  se revela essencial, necessário.

Clipe de 'Já não somos dois', de Djavan, reutiliza a fórmula básica de estúdio

Resenha de clipe
Música: Já não somos dois (Djavan, 2012)
Artista: Djavan
Álbum: Rua dos amores (Luanda Records / Universal Music, 2012)
Direção: Samba Filmes
Cotação: * * *


♪ Não há qualquer traço de inventividade no clipe de Já não somos dois, lançado por Djavan na internet em 20 de dezembro de 2012 (clique aqui para ver o vídeo no site oficial do artista). Dirigido pela Samba Filmes à moda básica, o vídeo mostra Djavan no estúdio construído em sua casa, no Rio de Janeiro (RJ), cantando e gravando a música lançada em seu 21º álbum, Rua dos amores, de repertório autoral. Trata-se do segundo single do CD. Diferentemente do primeiro (Bangalô, tristonha balada de clima jazzy), Já não somos dois é música típica do cancioneiro de Djavan, ostentando aquele balanço pessoal e intransferível do compositor (alvo de tentativas vãs de clonagem). O único toque estilístico do clipe é o fato de as tomadas dos músicos e do engenheiro de som terem sido captadas em preto e branco, em contraste com as coloridas imagens do cantor ao microfone. No mais, todo o foco repousa na música em si. E, ao longo de 4 minutos e 14 segundos, o suingue de Djavan salta aos ouvidos. Até porque, no clipe de Já não somos dois, importa mais o que está sendo ouvido do que as imagens feitas para o vídeo, simples veículo para a divulgação da música. O vídeo é básico, de formato até antigo, mas cumpre sua função primordial.

'Produced by George Martin' perfila quinto 'beatle' em ritmo convencional

Resenha de DVD
Título: Produced by George Martin
Artista: George Martin
Gravadora: Eagle / ST2
Cotação: * * *

Talvez seja somente uma frase de efeito dita por quem chegou a ser considerado o o quinto beatle, mas, em determinado momento do documentário Produced by George Martin, o produtor britânico George Martin sentencia que se sentiu livre após o fim dos Beatles, sem a obrigação de fabricar mais um sucesso destinado ao topo das paradas. Mesmo que a declaração não seja absolutamente sincera, o fato é que a importância de Martin na história da música pop reside essencialmente na produção dos álbuns do fantástico quarteto de Liverpool. É por isso que seus (formais) reencontros com os dois beatles remanescentes, Paul McCartney e Ringo Starr, ocupam boa parte deste documentário produzido para a emissora de TV BBC e editado em DVD ora lançado no Brasil via ST2. Produced by George Martin perfila o produtor - cujo sonho era ser compositor de música erudita, como ele admite logo no início do filme - em ritmo lento e convencional. Um bate-papo de George com seu filho Giles Martin - também produtor de discos - é a espinha dorsal do roteiro. Giles ressalta a ambição e a competitividade de Martin - ressalva que parece incomodar o protagonista do filme. De todo modo, Produced by George Martin nunca toca na ferida e jamais atravessa a fronteira da intimidade consentida. Entre outras cenas, o espectador vê Martin preparando um Martini ao som de Live and Let Die - gravação de 1973 que marcou seu reencontro com McCartney - e o flagra ao piano tocando Judy's Theme, tema que compôs para Judy Martin, sua esposa, a quem conheceu no fim dos anos 50 quando foi batalhar emprego no Parlophone, o então inexpressivo selo da EMI Music. Galgando postos no selo, Martin deu seu pulo do gato ao dar ouvidos a fita lhe entregue em 1962 por Brian Epstein (1934 - 1967), empresário que busca um lugar ao sol para um grupo chamado Beatles. O resto foi história que mudou os rumos da música pop mundial. "A produção de George afetou tudo o que veio depois", corrobora Jimmy Webb, cantor e compositor que teve disco produzido por Martin na era pós-Beatles. Ao remoer mágoas de seu trabalho com os Fab Four, Martin lembra que produzir o álbum Let It Be (1970) foi o que caracteriza de "tortura" e que se sentiu traído ao saber que, por iniciativa de John Lennon (1940 - 1980), o produtor Phil Spector foi convocado para arrematar as gravações inicialmente pilotadas pelo quinto beatle. Encerrado o assunto Beatles, o filme nada tem a revelar de relevante. Vê-se imagens do Air Studios - construído por Martin em Montserrat, ilha de origem caribenha situada em território britânico - no qual, a partir dos anos 80, foram formatados discos de nomes como o grupo The Police e o cantor Stevie Wonder. De todo modo, mesmo que descortine os bastidores de George Martin até certo ponto, Produced by George Martin é filme que vai seduzir os que se interessam pela história da indústria do disco.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Gravação com Sinfônica da Petrobrás encerra 'Sambabook' de Martinho

A foto clicada por Marcos Hermes mostra Martinho da Vila na sala de ensaio da Orquestra Petrobrás Sinfônica, no Rio de Janeiro (RJ), aonde foi feita na tarde de 19 de dezembro de 2012 a última gravação do Sambabook Martinho da Vila. Sob regência do maestro Carlos Prazeres, a Orquestra Petrobrás Sinfônica fez registro camerístico de Tom Maior (Martinho da Vila, 1969), música do primeiro álbum do cantor e compositor fluminense. Com exceção da participação da orquestra, as gravações do Sambabook Martinho da Vila foram feitas de 5 a 8 de novembro de 2012, no Rio de Janeiro (RJ), para dar origem em abril de 2013 a CD e a DVD com abordagens de 24 músicas do artista, além de livro com 60 partituras e de biografia.

Com fé no folk, Mumford & Sons prega espiritualidade no emotivo 'Babel'

Resenha de CD
Título: Babel
Artista: Mumford & Sons
Gravadora: Island / Universal Music
Cotação: * * * * 1/2

As seis indicações do quarteto britânico Mumford & Sons ao 55º Grammy - incluindo a cobiçada indicação à categoria Álbum do Ano por conta de Babel - corroboram a ascensão deste grupo de indie folk no universo pop. Segundo álbum do quarteto, sucessor de Sigh no More (2009), Babel prega lições de vida ao salpicar diversos sentimentos e referências bíblicas nas (ótimas) letras das 12 músicas do disco, já lançado no Brasil via Universal Music. Feita de forma sutil, a pregação vem do fato de o líder da banda, Marcus Mumford (voz, bateria e mandolim) ser pastor em igreja protestante da Inglaterra. Credos à parte, Mumford & Sons reza pela cartilha do folk - com fortes elementos de country, o que talvez justifique a explosão do quarteto nos Estados Unidos - com energia roqueira. As três músicas do CD - a faixa-título Babel, Whispers In The Dark e I Will Wait - são agitadas, velozes como o toque do banjo de Winston Marshall, mote de boa parte dos arranjos e responsável pelo sotaque caipira do álbum. Em qualquer velocidade, a qualidade do repertório resulta alta. Lover of the Light e Lover's Eyes, por exemplo, são belas músicas capazes de converter até quem profana o estilo do grupo. Tais temas começam calmos e vão ganhando intensidade crescente. Músicas como Broken Grown e  Below My Feet corroboram o caráter espiritualizado e emotivo do cancioneiro de Mumford & Sons neste Babel, álbum em que os fiéis devotos do folk devem pôr fé pela força do repertório.

Ortodoxo, Mars reitera domínio do idioma pop em 'Unorthodox Jukebox'

Resenha de CD
Título: Unorthodox Jukebox
Artista: Bruno Mars
Gravadora: Atlantic Records / Warner Music
Cotação: * * * *

Basta ouvir a viciante Young Girls (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levine, Jeff Bhasker e Emile Hayne) - primeira das dez músicas apresentadas por Bruno Mars em seu segundo álbum, Unorthodox Jukebox, lançado em escala mundial pela Warner Music neste mês de dezembro de 2012 - para comprovar que o cantor e compositor havaiano domina o idioma pop dos Estados Unidos, país que escolheu para viver. Tal domínio já havia sido msotrado no primeiro álbum de Mars, Doo-Wops & Hooligans (2010), tão luminoso quanto seu sucessor. Salutares influências de Michael Jackson (1958 - 2009) e Prince saltam aos ouvidos em faixas como Locked Out of Heaven (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levine) e Treasure (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levine e Phredley Brown) sem anular a personalidade de Mars. Se Gorilla (Bruno Mars, Philip Lawrence e Ari Levine) sugere sexo animal, a balada pop Moonshine (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levine, Andrew Wyatt, Jeff Bhasker e Mark Ronson) vai na contramão e descarta qualquer selvageria para derreter corações femininos sob a luz da lua. Outra balada, When I Was Your Man (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levine e Andrew Wyatt), levada ao piano, acentua o romantismo que envolve parte do repertório. Entre a pressão percussiva de Natalie (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levine, Benjamin Levin e Paul Epworth) e as sintéticas batidas funkeadas de Money Make Her Smile (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levinee  Christopher Brown), Mars se joga na praia pop do reggae em Show Me (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levine, Dwayne Chin-Quee e Mitchum Chin). No fim, If I Knew (Bruno Mars, Philip Lawrence, Ari Levine) fecha Unorthodox Jukebox em clima vintage, remetendo ao r & b e ao doo-wop reinante nos anos 50. Redondo, o álbum - formatado pelo trio The Smeezingtons (que reúne Mars e seus parceiros Philip Lawrence e Ari Levine) com intervenções dos produtores Mark Ronson e Diplo - reitera a vocação pop do artista ao contrariar seu título e soar deliciosamente ortodoxo, garantindo a presença de Mars nas paradas norte-americanas.

Entre samba e baião, paixão nordestina de Bena prevalece em 'Valentia'

Resenha de CD
Título: Valentia
Artista: Bena Lobo
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * 

"Tem que ter valentia", receita Bena Lobo, num canto abafado pelas programações eletrônicas do produtor Daniel Gonzaga, na introdução de Baião Valente (Bena Lobo e Rômulo Pacheco), primeira das dez inéditas alinhadas pelo cantor e compositor carioca em seu quarto CD, Valentia, nas lojas neste mês de dezembro de 2012 com o selo da gravadora Biscoito Fino. Sim, tem que ter valentia para fazer seu próprio caminho numa estrada pavimentada por gênios como Edu Lobo, pai de Bena. Valente, Bena rejeita conexões com o pai neste álbum gravado entre novembro de 2011 e agosto de 2012 no Meio do Mato, o estúdio mantido por Daniel Gonzaga em sítio de Miguel Pereira (RJ). Mas o d.n.a. musical de certa forma está impresso nas dez inéditas autorais, compostas dentro das tradições da MPB, mas gravadas com um toque pop e contemporâneo (com a dose exata de eletrônica). Herança do compositor pernambucano Fernando Lobo (1915 - 1996), avô de Bena, a vivência nordestina do artista salta aos ouvidos ao longo do disco, exposta já no título de músicas como Sertão (Bena Lobo, Úrsula Corona e Rômulo Pacheco) e Paixão Nordestina (Bena Lobo e Paulo César Pinheiro). O gosto aguçado pela música da Nação Nordestina prevalece entre sambas e baiões. A ponto de a homenagem a Luiz Gonzaga (1912 - 1989) - prestada com Velho Lua (Bena Lobo e Edu Krieger), destaque do repertório, inclusive por conta dos versos poéticos de Krieger - soar mais natural em Valentia do que o tributo aos bambas do samba carioca, feito em O Samba Não Morre (Bena Lobo e Rômulo Pacheco). Quase no fim, Osso Duro (Bena Lobo, Úrsula Corona e Gabriel Moura) - tema amaciado pelos metais orquestrados por Daniel Gonzaga e pela Henrique Band - injeta certo suingue e pressão carioca no sangue nordestino de Valentia com citação de verso maroto de sucesso de Raul Seixas (1945 - 1989), Como Vovó Já Dizia (Raul Seixas e Paulo Coelho, 1975). Bem mais interessante em sua primeira metade, o álbum por vezes deixa a sensação de que os versos - como os escritos por Paulo César Pinheiro para LabaredaDefesa, duas das quatro parcerias do poeta com Bena registradas no disco - são mais fortes do que as músicas em si. De todo modo, Valentia mostra um artista já não tão jovem à procura de seu lugar ao sol numa estrada já desbravada por compositores do quilate de Luiz Gonzaga e Edu Lobo. E, somente por ter feito um disco à sua moda, do seu jeito indie, sem escorar a ficha técnica do álbum no (nobre) sobrenome familiar, Bena Lobo já merece crédito.

Livro dá corda às emoções do violão ao refazer travessia do instrumento

Resenha de livro
Título: Violão Ibérico
Autor: Carlos Galilea
Editora: Trem Mineiro Produções Artísticas (com patrocínio da Vale)
Cotação: * * * *

Como diz o pesquisador Sérgio Cabral no prefácio escrito para Violão Ibérico, livro que traça a rota do violão, da Europa ao Brasil, o autor Carlos Galilea recolheu informações suficientes para escrever um dicionário ou enciclopédia sobre o instrumento. Felizmente, Galilea optou por fugir da linha acadêmica / didática e, sem prejuízo da informação, apresenta livro fluente que refaz, com certa poesia, a travessia intercontinental do violão. Da Península Ibérica, aonde chegou através dos mouros no século VII, até aportar no Brasil, passando pela necessária escala em Portugal, o violão unifica emoções. Ao entrelaçar dados históricos com entrevistas com violonistas dos três países que formam o eixo central da narrativa (Brasil, Espanha e Portugal), Galilea humaniza sua saga. Dar corda aos sentimentos e às percepções dos músicos no toque de seus violões é um dos méritos do livro."...O violão é feito escova de dente. Você é envolvido por ele. A maneira como reverbera no seu corpo muda de instrumento para instrumento. Muda tudo", pontua Lenine, entre declarações similares de nomes como Gilberto Gil e João Bosco.Ao historiar o violão com ênfase na presença do instrumento no triângulo Brasil - Espanha - Portugal, o autor puxa corda cuja ponta vem lá do antigo Egito, terra das liras e harpas. Por conta da elegância da escrita de Galilea, Violão Ibérico segura a atenção do leitor até quando a narrativa se prende a explicações teóricas sobre a gênese do instrumento. Com estilo, o autor esclarece que as raízes da guitarra são tão europeias quanto árabes, reconta a saga do espanhol Andrés Segovia (1893 - 1987) - "O violonista clássico mais universal do século XX", na definição de Galilea - e conclui, páginas adiante, que, no Brasil, é tênue a fronteira que separa o violão clássico do violão popular. Talvez por isso mesmo, haja preconceito contra o instrumento dentro do universo da música erudita. "A gente era um pouco o primo pobre dentro do mundo da música clássica", ressalta o violonista Marco Pereira. Com dois belos cadernos de imagens, nos quais salta aos olhos a foto de Gilberto Gil abraçado afetuosamente a seu vioão, Violão Ibérico dedica generosas páginas ao flamenco - gênero iniciado como o espanhol Francisco Rodríguez (1795 - 1848), El Murciano. É quanto entram em cena os virtuoses identificados com essa escola de violão como o espanhol Paco de Lucía e o brasileiro Raphael Rabello (1962-1995). Na sequência, o autor dá corda à guitarra portuguesa, alma do fado. Na parte final do livro, ligeiramente menos sedutora, Galilea aplica questionário idêntico a alguns virtuoses do violão brasileiro. Mas ainda aí há a paixão que motivou esse espanhol - estudioso da música popular - a traçar a rota do violão neste ótimo livro que celebra João Gilberto e Paco de Lúcia e que vai enredar tanto músicos como amantes da musa música.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Show de Roberto Ribeiro no 'Bem Brasil', em 1992, ganha edição em DVD

Em 1992, o cantor fluminense Roberto Ribeiro (1940 - 1996) fez show em São Paulo (SP) para ser captado pelas câmeras da TV Cultura para exibição no programa Bem Brasil. Vinte anos depois, a apresentação do cantor ganha registro em DVD editado pela Warner Music na série Bamba do Samba. Trata-se do segundo DVD do sambista (o primeiro foi editado em 2007 pela gravadora Performance Music com o registro da entrevista do artista ao programa Ensaio, gravada em 1990 e exibida em 1991). Ao longo de 15 números, o cantor revive - já um tanto debilitado -  sucessos que marcaram sua carreira, cuja fase áurea foi nos anos 70. O roteiro inclui Estrela de Madureira (Acyr Pimentel e Cardoso, 1975), Acreditar (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1976), Tempo Ê (Nelson Rufino e Zé Luiz, 1976), Todo Menino É um Rei (Nelson Rufino e Zé Luiz, 1978), Meu Drama (Joaquim Ilarindo e Silas de Oliveira, 1978), Vazio (Está Faltando Uma Coisa em Mim) (Nelson Rufino, 1979) e Resto de Esperança (Jorge Aragão e Dedé da Portela, 1980), entre outros sambas associados ao canto potente de Roberto Ribeiro.

Gravado com Ed, single 'Tudo O Que Eu Quero' anuncia 'Trinta' de Marx

Recém-lançado no iTunes, o single Tudo O Que Eu Quero anuncia oficialmente a edição de Trinta, o projeto comemorativo dos 30 anos de carreira de Patricia Marx, a ser lançado pelo selo Lab 344 no primeiro semestre de 2013 nos formatos de CD (Trinta, gravado em estúdio) e DVD (Trinta ao Vivo, registro do show gravado em setembro de 2012 na cidade paulista de Valinhos). Música gravada com a participação de Ed Motta, Tudo O Que Eu Quero é parceria de Marx com Bruno E., Filiph Neo e Sorry Drummer. Com bom trânsito no vasto mercado indie estrangeiro, o selo carioca Lab 344 já acertou a distribuição de Trinta no Japão e na Europa.

Cinco álbuns de John Mayer são reunidos em box com sete faixas-bônus

Lançado no Brasil neste mês de dezembro de 2012, via Sony Music, o box John Mayer embala cinco álbuns do cantor e compositor norte-americano, sendo quatro de estúdio e um ao vivo, Try! (2005), registro de show de blues feito pelo John Mayer Trio. Distribuídas entre os quatro discos de estúdio, sete faixas-bônus - pouco ouvidas no Brasil - valorizam a edição do John Mayer, que reproduz os encartes dos cinco álbuns no libreto de 84 páginas inserido no box. Os covers de Lenny (Stevie Ray Vaughan) e The Wind Cries Mary (Jimi Hendrix), por exemplo, foram alocados ao fim de Room for Squares (2001). Já a abordagem de Kid A, música-título do quarto álbum de estúdio do grupo Radiohead, é ouvida ao fim de Heavier Things (2003). Álbum que sedimentou a proximidade de Mayer com o blues e o soul, Continnuum (2006) é reeditado no box com a faixa-bônus Good Love Is On The Way e com o dueto de Mayer com Ben Harper em Waiting On The World to Change (música que abre o disco em sua gravação original). Por fim, Battle Studies (2009) tem incorporado ao seu repertório o cover de I'm on Fire (Bruce Springsteen) e Say, tema gravado por John Mayer para a trilha sonora do filme The Bucket List (2007). O box exclui o quinto disco de estúdio do artista, Born and Raised (2012).