Título: Problema meu
Artista: Clarice Falcão
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * * *
♪ Produtor ainda envolto em aura hype na imprensa musical do eixo Rio-São Paulo, como se ainda fosse sinônimo de vanguarda, o carioca Alexandre Kassin tem sido o nome mais requisitado para dar a forma a discos brasileiros. Para alguns artistas, como Marcelo Jeneci e Zélia Duncan, prestou grandes serviços. Ao trabalhar com outros, como Erasmo Carlos, o produtor pareceu ter apenas batido ponto no estúdio sem fazer real diferença no som do Tremendão. Com Clarice Falcão, Kassin veio somar. Ao produzir o segundo álbum da multimídia artista pernambucana radicada na cidade do Rio de Janeiro (RJ), Problema meu - lançado hoje, 19 de fevereiro de 2016 - Kassin fez Clarice migrar do som intencionalmente mono do primeiro álbum, não por acaso intitulado Monomania (Casa Byington, 2013), para o som estéreo deste (sedutor) segundo álbum de matizes mais variados não traduzidos pela capa monocromática. Empreitada caseira, Monomania virou viral e projetou a cantora, compositora, atriz e roteirista - na época, integrante do coletivo Porta dos Fundos, do qual já se desligou. Problema meu tem status mais profissional. E tem méritos. Kassin sustenta a leveza pop da obra autoral de Clarice, mas lhe dá mais colorido sem diluir a graça e a mordacidade espirituosa que pautam músicas como Marta (envolta em atmosfera circense no disco) e Irônico. Grande trunfo da safra inédita e autoral de Problema meu, Irônico foi acertadamente a música escolhida por Clarice Falcão para repor o bloco musical na rua com o carnavalizante clipe da faixa, feito com imagens captadas por celulares de amigos e familiares da artista. Dentro do trilho autoral, Clarice se mostra bem mais autoconfiante, capaz de rir dos próprios dilemas afetivos em Escolhi você ("Você foi o que sobrou", ressalta com a habitual ironia em verso da canção pop) e das próprias limitações da obra musical (assunto da autodepreciativa Clarice). Problema meu é disco leve, mas aclimata Se esse bar - música da safra anterior de Monomania - em apropriado intimismo melancólico de fim de noite. Contudo, a obra autoral de Clarice jamais desaba sobre o peso da existência. O dilema amoroso de Deve ter sido eu se ajustaria a uma trama adolescente da novela juvenil Malhação por ruminar ódios direcionados por ex-namorada (papel da narradora da canção) à atual companheira de um rapaz. "Eu já não amo mais você / Mas eu ainda odeio essa menina", escancara Clarice nos versos iniciais de letra que roça humor negro ao fim. Aos 26 anos, a artista ainda canta problemas seus - e de todos que se enredam em tramas amorosas. "Eu checo as mensagens sete, oito, vinte vezes / Só passou cinco minutos / Eu senti passar três meses", admite em Vinheta, assumindo as ansiedades e cobranças comuns entre amantes na música que acelera ao fim com a velocidade da mente paranoica da personagem da canção. A habilidade de expor sentimentos universais de forma simples e direta certamente vai facilitar a identificação de Como é que vou dizer que acabou? e de outras músicas de temas afins, mesmo que a abordagem tenha tom juvenil. Música do tempo em que Clarice compunha sempre em inglês, Duet tangencia o universo da canção de cabaré em outro indício da diversidade rítmica proporcionada pela conexão da artista com Kassin. Fora do trilho autoral, Clarice soa artificial ao dar voz ao rock A volta do mecenas (Matheus Torreão), mas se ajusta bem ao tom kitsch de Banho de piscina, antiga canção assumidamente brega da lavra do dramaturgo e diretor pernambucano João Falcão, pai da artista. Já I'll fly with you (Luigino D'Agostino, Carlos Montagner, Paolo Sandrini e Diego Leoni) - balada lançada em álbum de 1999 pelo DJ italiano Gigi D'Agostino com o título em francês L'amour toujours - representa salutar esforço de maturidade de uma cantora em evolução, mas ainda inapta para voos emotivos muito altos. De todo modo, Clarice Falcão reafirma estilo e personalidade forte em Problema meu, álbum cheio de encantos amplificados pelo toque moderno de banda que inclui Danilo Andrade (teclados), Diogo Strausz (guitarra, baixo e violão), Fred Ferreira (bateria) e o próprio Kassin, piloto de alguns baixos do disco que tem cordas orquestradas por Sean O' Hagan e metais arranjados por Alberto Continentino. Como resistir a uma composição tão malandra como Vagabunda? Sim, mesmo sem metáforas e sem sequências complexas de acordes, como ironizam versos de Clarice no fecho do álbum, Clarice Falcão tem graça e tem aquele indefinível algo mais que inexiste em cantoras e compositoras mais gabaritadas. Não gosta do som dela? Problema seu!!




















