quarta-feira, 25 de maio de 2016

'MM3' expele as seivas de anti-canções no sangue tom carmim do Metá Metá

Resenha de álbum
Título: MM3
Artista: Metá Metá
Gravadora: Edição independente do artista
Cotação: * * * 1/2
 Disco disponível para download gratuito e legalizado no site oficial do Metá Metá

"A imagem do amor / Não é para qualquer um", sentencia, reiteradas vezes, Juçara Marçal no refrão de A imagem do amor (Kiko Dinucci e Rodrigo Campos), terceira das nove músicas que compõem o repertório essencialmente inédito e autoral do terceiro álbum do Metá Metá, MM3, lançado hoje, 25 de maio de 2016. Entre dissonâncias, ruídos e ritmos alternados que culminam na polifonia que ocupa o último dos seis minutos da faixa, A imagem do amor discorre com crueza sobre o parto de criatura de beleza disforme. Em analogia, essa tal criatura bem poderia ser o sucessor dos EPs Metá Metá (Independente, 2015), Alakorô (Independente, 2013) e dos álbuns MetaL MetaL (Independente, 2013) e Metá Metá (Independente, 2012). O álbum parido hoje, de surpresa, pelo Metá Metá tem beleza disforme, pois segue o passo torto do trio formado por Juçara Marçal (voz), Kiko Dinucci (guitarra e voz) e Thiago França (saxofone). Mesmo sem ostentar a coesão conceitual e a força do repertório do antológico álbum solo de Juçara Marçal, Encarnado (Independente, 2014), MM3 é disco que se encontra ao se perder por caminho caótico que oscila entre o hardcore de Angoulême (Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci) e o afrobeat serelepe de Toque certeiro. Parceria de Kiko Dinucci com Siba, Toque certeiro cai lépido no suingue com leveza que contrasta com a atmosfera tensa e angustiada que pauta a maior parte de MM3. Essa tensão já é perceptível na passagem instrumental de quase um minuto e meio que introduz Três amigos (Rodrigo Campos, Thiago França e Sérgio Machado), primeira das nove músicas do álbum. Gravado de 21 a 23 de março deste ano de 2016 no Red Bull Studio, na cidade de São Paulo (SP), MM3 ostenta um som intenso, pesado, que se anuncia logo em Três amigos. Os toques da bateria de Sérgio Machado e do baixo de Marcelo Cabral se integram ao toque do trio, gerando som encorpado. Corpo vão (Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci) é faixa que sintetiza bem a organicidade sonora construída no aparente caos. Nada parece ser em vão. Com voz inicialmente límpida, Juçara canta para o orixá subir em Mano Légua, tema afro-brasileiro composto pela artista com Kiko Dinucci. MM3 também canta para subir em Ossanyn (Kiko Dinucci) - saudação às folhas e ao senhor das folhas feita por Juçara em língua africana - e Obá Kosso, tema de domínio público também cantado (no caso, por Kiko Dinucci) em dialeto africano sobre jam que se estende por mais de nove minutos. É ode a um rei nagô, ao qual o Metá suplica que não mande o fogo sobre nós. O pedido faz sentido. Até porque o mundo retratado nas letras de MM3 já arde em chamas. Os versos das músicas do terceiro álbum do Metá abrem feridas, sangram. Parafraseando versos de Angolana (Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci), uma das poucas músicas que roçam em MM3 o formato da canção (assim como Toque certeiro), é como se o som do disco fosse o pus expelido junto com as seivas dessas anti-canções esculpidas no sangue tom carmim do trio. "Pele tatuada, carne mutilada, o seu dente sangra / Chora enquanto ri sozinha, faz careta, grita um verso a quem passar", canta Juçara em Angoulême. "Escuridão / Oco voraz / Vai engolir o mundo / E regurgitar", avisam versos de Corpo vão. É sobre esse oco que MM3 avança vorazmente, vomitando sobre mundo em decomposição em que o vão faz o torto voltar a ser regra. O passo é torto. Tal como a imagem do amor, MM3 não é para qualquer um. Mas tem alma, carne e sangue.

7 comentários:

  1. ♪ "A imagem do amor / Não é para qualquer um", sentencia, reiteradas vezes, Juçara Marçal no refrão de A imagem do amor (Kiko Dinucci e Rodrigo Campos), terceira das nove músicas que compõem o repertório essencialmente inédito e autoral do terceiro álbum do Metá Metá, MM3, lançado hoje, 25 de maio de 2016. Entre dissonâncias, ruídos e ritmos alternados que culminam na polifonia que ocupa o último dos seis minutos da faixa, A imagem do amor discorre com crueza sobre o parto de criatura de beleza disforme. Em analogia, essa tal criatura bem poderia ser o sucessor dos EPs Metá Metá (Independente, 2015), Alakorô (Independente, 2013) e dos álbuns Metal Metal (Independente, 2013) e Metá Metá (Independente, 2012). O álbum parido hoje, de surpresa, pelo Metá Metá tem beleza disforme, pois segue o passo torto do trio formado por Juçara Marçal (voz), Kiko Dinucci (guitarra e voz) e Thiago França (saxofone). Mesmo sem ostentar a coesão conceitual e a força do repertório do antológico álbum solo de Juçara Marçal, Encarnado (Independente, 2014), MM3 é disco que se encontra ao se perder por caminho caótico que oscila entre o hardcore de Angoulême (Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci) e o afrobeat serelepe de Toque certeiro. Parceria de Kiko Dinucci com Siba, Toque certeiro cai lépido no suingue com leveza que contrasta com a atmosfera tensa e angustiada que pauta a maior parte de MM3. Essa tensão já é perceptível na passagem instrumental de quase um minuto e meio que introduz Três amigos (Rodrigo Campos, Thiago França e Sérgio Machado), primeira das nove músicas do álbum. Gravado de 21 a 23 de março deste ano de 2016 no Red Bull Studio, na cidade de São Paulo (SP), MM3 ostenta um som intenso, pesado, que se anuncia logo em Três amigos. Os toques da bateria de Sérgio Machado e do baixo de Marcelo Cabral se integram ao toque do trio, gerando som encorpado. Corpo vão (Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci) é faixa que sintetiza bem a organicidade sonora construída no aparente caos. Nada parece ser em vão. Com voz inicialmente límpida, Juçara canta para o orixá subir em Mano Légua, tema afro-brasileiro composto pela artista com Kiko Dinucci. MM3 também canta para subir em Ossanyn (Kiko Dinucci) - saudação às folhas e ao senhor das folhas feita por Juçara em língua africana - e Obá Kosso, tema de domínio público também cantado (no caso, por Kiko Dinucci) em dialeto africano sobre jam que se estende por mais de nove minutos. É ode a um rei nagô, ao qual o Metá suplica que não mande o fogo sobre nós. O pedido faz sentido. Até porque o mundo retratado nas letras de MM3 já arde em chamas. Os versos das músicas do terceiro álbum do Metá abrem feridas, sangram. Parafraseando versos de Angolana (Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci), uma das poucas músicas que roçam em MM3 o formato da canção (assim como Toque certeiro), é como se o som do disco fosse o pus expelido junto com as seivas dessas anti-canções esculpidas no sangue tom carmim do trio. "Pele tatuada, carne mutilada, o seu dente sangra / Chora enquanto ri sozinha, faz careta, grita um verso a quem passar", canta Juçara em Angoulême. "Escuridão / Oco voraz / Vai engolir o mundo / E regurgitar", avisam versos de Corpo vão. É sobre esse oco que MM3 avança vorazmente, vomitando sobre mundo em decomposição em que o vão faz o torto voltar a ser regra. O passo é torto. Tal como a imagem do amor, MM3 não é para qualquer um. Mas tem alma, carne e sangue.

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  2. Tentei mas deu erro pra baixar o disco novo, todos os outros funcionando corretamente, estou desesperado prá ouvir isso....
    Metá Metá é FODA!!!

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  3. Só pra esclarecer caso alguem tenha o mesmo problema que eu
    No blog do Thiago França tem link prá baixar direto, já estou ouvindo... demais

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  4. Purgatório, Ademar! Não ouça!!!

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  5. Raffa,eu não disse purgatório querendo soar pejorativo,e sim... Tenso mesmo.Abs.

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